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(Re)lendo missões à luz da Bíblia

Lições e motivações missionárias a partir de uma comparação entre as novas controvérsias relativas às obras de N. T. Wright relacionadas à Nova Perspectiva sobre Paulo nos Estados Unidos e no Brasil

Timothy Halls

Por que (re)ler Missões?

Michael Goheen escreveu A Missão da Igreja Hoje: A Bíblia, a História e as Questões Contemporâneas[1] como resultado de seus esforços para encontrar “um novo caminho para os estudos de missão e uma nova maneira de estruturar um curso introdutório”.[2] Goheen buscou esse “novo caminho” ao notar que a missiologia por ele utilizada para preparar novos missionários perpetuava as abordagens a missões desenvolvidas durante o período colonial.[3] O colonialismo, que moldou tão profundamente o mundo, acabou também moldando a compreensão missionária. O fim do colonialismo não alterou a “compreensão expansionista geográfica de missões que enfatiza o envio de um lugar (Ocidente cristão) para outro (não-Ocidente pagão)”.[4]

Surpreendentemente, essa condição também revelou imprecisões na forma como as visões missionárias interagiam com o texto bíblico. Nas palavras de Goheen: “Não levávamos nossa prática missionária à Bíblia para ser examinada”[5], mas usávamos a Bíblia como prova da “autoridade divina” para legitimar iniciativas já conhecidas. A Bíblia não deveria ser utilizada dessa forma.

Todos sabemos que a Bíblia não visa proteger nosso modo de pensar ou viver. Ao contrário, ela revela o quanto estamos longe dos propósitos de Deus, e nos convida a dar meia-volta, a entrar em uma nova vida com Cristo e com Ele participar em Sua missão. Mesmo os discípulos, treinados por Jesus para a missão, ficavam admirados com a evolução da história. Eles se surpreendiam frequentemente (At 10.44-47), e eram compelidos a reexaminar o Antigo Testamento para entender o significado dos eventos que se desdobravam ao seu redor (At 15.13-16). Jesus, primeiramente, ensinou-lhes a (re)ler a Bíblia à luz da vida, da cruz e da ressurreição do Messias (Lc 24.44-48). Mais tarde, os discípulos (re)leriam-na à luz das iniciativas inovadoras do Espírito (At 15.12-21). A Bíblia, então, confrontou-os com sua compreensão e implementação inadequadas da missão, e lhes forneceu novos significados para que compreendessem as novas experiências e elaborassem futuras práticas com base no significado que Deus daria.

Pelo fato de a Bíblia agir dessa forma, missiólogos como Michael Goheen, David Bosch,[6] Chris Wright[7] e outros têm estimulado a Igreja em missão a (re)ler nossa visão e prática missionárias à luz da Bíblia. Não podemos continuar usando a Bíblia como prova para defender o que já fazemos e pensamos sobre missões.

 

N. T. Wright
N. T. Wright também convida-nos a submeter nossa compreensão missionária ao escrutínio bíblico, embora ele mesmo não seja um teólogo de Missões. Para ser mais exato, N. T. Wright é um historiador e teólogo do Novo Testamento, e foi sua profunda (re)leitura do Novo Testamento que o levou a identificar a teologia da missão no centro da narrativa bíblica.

N. T. Wright provocou polêmica no Norte[8] e no Brasil. Seus muitos livros e artigos permitem-nos observar diálogos com o texto bíblico, os quais orientam o (re)exame das compreensões e práticas missionárias até hoje por nós utilizadas. Livros que interagem criticamente com a obra de Wright, organizados por outros estudiosos da Bíblia, revelam o rumo que essas controvérsias tomaram no Atlântico Norte[9]. Vários de seus (muitos) livros estão disponíveis em português (veja o Apêndice ao final deste artigo com lista e descrição).

Nesta matéria, compararei como as controvérsias desenvolveram-se no Norte com a forma como elas transcorreram ao serem importadas para o Brasil.[10] Um aspecto da minha abordagem é que não me concentrarei muito em Wright como uma “autoridade” sobre como pensar biblicamente a respeito de missão – embora eu assim o considere. Em vez disso, meu foco recai sobre o que acontece quando essa controvérsia é trazida do Norte para o Brasil. Essa perspectiva dá-nos a oportunidade de observar se os fundamentos remanescentes do período colonial – os que afetaram a capacidade de Goheen de ensinar missões na América do Norte – também afetam os brasileiros em missão. Será que a imaginação de uma estrutura Norte-Sul ainda inibe a possibilidade de um reexame bíblico da Teologia/Missiologia no Brasil?

Meu primeiro “encontro” com N. T. Wright deu-se quando li Jesus and the Victory of God (Jesus e a Vitória de Deus)[11]. Eu não conseguia parar de ler. Por cerca de uma semana, todas as outras áreas de minha vida foram suspensas enquanto eu “devorava” as 741 páginas dessa obra! Estando na metade de minha carreira missionária, senti que havia encontrado um estudioso do Novo Testamento que, embora não abordasse a Bíblia como um missionário, revelou magistralmente a mensagem e o caráter missionários da Bíblia.

Desde então, interessei-me em ler N.T. Wright. Sua ênfase de que a narrativa principal das Escrituras é a proclamação do Reino como cumprimento da promessa de Deus levou-me a ler a Bíblia com mais atenção, nutriu minha esperança em Cristo, inspirou-me a permanecer envolvido com missões durante a segunda metade da minha carreira e reconfigurou minha compreensão sobre o conteúdo do objetivo da missão cristã.

N. T. Wright é um bispo evangélico anglicano do Reino Unido que escreve e prega para que seus leitores prestem mais atenção ao texto da Bíblia e interajam com as implicações da narrativa bíblica para a vida no mundo de hoje.[12] Surge, então, um foco no papel do povo de Deus no drama da salvação, conforme descrito nas Escrituras. Atualmente, esse drama tem seu papel na proclamação do “Evangelho do Reino como a restauração abrangente da criação e da vida humana”.[13] Em outras palavras, Wright demonstra que todo o registro bíblico é a história da missão escrita de forma bem legível.

A obra em quatro volumes de Wright, Christian Origins and the Question of God  (Origens Cristãs e a Questão de Deus)[14], foca no relato bíblico a respeito da fidelidade de Deus e de Jesus, seu Messias, e em Paulo. A reivindicação do Messias sobre as nações (gentios) não é simplesmente a de salvar pessoas para torná-las cristãs, mas confirma a soberania de Deus sobre toda a criação, e mobiliza o povo de Deus para proclamar a restauração de tudo o que o pecado destruiu.

Wright encontra uma Soteriologia[15] nos relatos bíblicos que energiza a missão da igreja.[16] Como historiador e estudioso do Novo Testamento, ele é capaz de extrair o drama histórico real que se desenrola – a proclamação dramática do reinado do Messias de Israel por Jesus, por Paulo e por nós. Jesus chama e forma o povo de Deus, mobilizando-o como colaborador em Sua missão de abençoar a humanidade em favor de toda a criação (At 3.21, Rm 8.19-23). Nós vemos a fé de Jesus, e essa fé torna-se nossa (Hb 12.1-3). A fé que o levou à cruz por nós nos conclama a exercer uma fé pela qual damos nossas vidas pela salvação de todos (Gl 2.20). Ele nos redime da iniquidade e purifica para si mesmo um povo exclusivamente seu, que é zeloso de boas obras (Tt 2.14).

 

Debate com N.T. Wright no Norte
O que se segue é uma análise de como as controvérsias sobre a obra de Wright desdobraram-se e atravessaram fronteiras. Controvérsia é uma forma de interação. Para observar a interação em si, incluirei alguns termos usados pelos críticos que interagem com Wright. Identificarei algumas das pessoas que participam dessa interação, mas não apresentarei totalmente suas opiniões teológicas. Eu me esforcei para fornecer notas de rodapé completas para os interessados em estudar o conteúdo das controvérsias de forma mais completa e direta. Há muitos recursos disponíveis em vários idiomas em http://ntwrightpage.com. Para isso, também forneço, ao final deste artigo, um Apêndice listando os livros de N. T. Wright publicados em português com seus equivalentes em inglês e uma descrição temática das questões por eles levantadas.

 

Controvérsia com John Piper sobre a justificação e sobre a Nova Perspectiva sobre Paulo
Tomei conhecimento sobre a controvérsia em torno do N. T. Wright quando vi a extensa crítica de John Piper (melhor dizendo, “reprovação”) a N.T. Wright[17]. John Piper é um herói para mim. Seus esforços para romper a resistência tradicional da Teologia Reformada ao envio intencional de missionários mantiveram uma resposta permanente ao pastor John Ryland Sr. (1723-1792), que se opôs ao chamado às missões de William Carey (1761-1834): “Jovem, sente-se! Você é um entusiasta. Quando Deus quiser converter os pagãos, ele o fará sem pedir a sua ou a minha opinião”.[18] Comprei, então, o livro de Piper e tentei lê-lo. Pensei que não deveria continuar desfrutando de N. T. Wright sem considerar a crítica de Piper. Porém, ao ler O Futuro da Justificação, encontrei dificuldades. O tom de desprezo utilizado por Piper aborreceu-me.

Piper diz que N. T. Wright” redefiniu a justificação”[19] ,e que seu ” retrato do evangelho, particularmente da doutrina da justificação, é tão desfigurado que é difícil reconhecê-lo como biblicamente fiel”[20] . Ele sugere que a obra de Wright é “uma interpretação inovadora da história bíblica da redenção que rompe com a leitura tradicional e conhecida de muitos textos”[21].

Piper diz que N.T. Wright “redefiniu a justificação”. O esforço de Wright para ler autores bíblicos segundo o uso comum dos termos em seu momento histórico “pode ser usado (inadvertidamente) para distorcer e silenciar o que os escritores do Novo Testamento pretendiam dizer”[22] (sugerindo que Piper sabe o que os escritores do Novo Testamento pretendiam dizer!).

Piper associa Wright a um grupo de teólogos da Nova Perspectiva sobre Paulo (NPP). A NPP é um círculo de estudiosos que discute a leitura do texto do Novo Testamento à luz de documentos antigos recém-descobertos.[23] Wright faz parte desse círculo. Algumas vezes, ele concorda com outros participantes, mas, muitas vezes, discorda. Piper não se envolve com a NPP e a desqualifica. Diz que a NPP desconsidera conclusões teológicas que prevaleceram pelos últimos 500 anos. Piper insiste que a NPP não dá a Deus a glória pela expiação substitutiva de Cristo, segundo a qual podemos saber que Deus está “completamente do nosso lado”[24]. Piper baseia-se nos reformadores do século 16, cuja exegese produziu as Confissões Protestantes (Augsburg, Suíça, 39 Artigos da Igreja Anglicana, Westminster, Guanabara), exercendo assim os seus cuidados pastorais para com o povo do norte da Europa quando saíram do catolicismo romano.[25]

Isso foi além da conta! As confissões têm um forte apelo para mim e não há motivos para duvidar que façam o mesmo com N. T. Wright, talvez ainda mais. Eu me esforcei para entender se havia realmente algum desacordo ali. Seria necessário um esforço hercúleo para descobrir quem está certo. Seria necessário ler lado a lado os argumentos de cada um, juntamente com o Antigo e o Novo Testamentos nas línguas originais, e examinar as confissões do século 16. Eu preferiria lê-las de maneira devocional, mas a devoção seria comprometida por concentrar minha leitura em descobrir quem está certo e quem está errado! Estudantes de Teologia muitas vezes enfrentam esse dilema vivencial como parte de sua preparação para o ministério. Daniel Waldschmidt, um estudante da Trinity Evangelical Divinity School, fez, no ano de 2016, um excelente trabalho ao identificar algumas questões a respeito da hermenêutica reinante na NPP, mas conseguiu apenas “arranhar a superfície”.[26] Enquanto isso, o desafio de viver e comunicar adequadamente o evangelho de Jesus Cristo às pessoas moldadas pelas culturas do século 21 continua em espera!

No entanto, eu não podia simplesmente ignorar a crítica de Piper só porque exigia trabalho. Amigos meus do movimento Neo-Calvinista nos EUA encontraram tempo para se juntar ao debate e tirar suas conclusões.[27] Teólogos respeitados como D. A. Carson (Trinity Seminary),[28] Thomas Schreiner (Southern Baptist Theological Seminary)[29], Trevin Wax (The Gospel Coalition)[30] e outros compartilham das preocupações de Piper de que a NPP e Wright semeiam confusão sobre a doutrina Reformada. N. T. Wright levou-os a sério o suficiente para escrever um extenso (re)exame do ensino bíblico sobre a justificação à luz das críticas que lhe foram feitas por eles. O livro no qual Wright responde a Piper foi disponibilizado recentemente em português.[31]

 

Mais controvérsias no Norte
As questões sobre justificação e “obras da lei” em Paulo não são as únicas controvérsias que N. T. Wright provocou entre os teólogos no Norte. Não há espaço aqui para discutir cada uma das controvérsias, mas relacionei as interações que foram publicadas para observar como elas produziram (ou não) interação com o texto bíblico entre acadêmicos e leigos, envolvendo-os na missão de Cristo.

 

Primeiro intercâmbio: sobre o Jesus histórico
O segundo volume da série Christian Origins (Origens Cristãs) de Wright foi publicado em 1995. Em uma época em que muitos estudos sobre o Novo Testamento questionavam a exatidão histórica dos relatos evangélicos, o livro Jesus and the Victory of God (Jesus e a Vitória de Deus) de Wright apresentou uma revisão multidisciplinar da pesquisa sobre Jesus, concluindo que o Novo Testamento retrata com fidelidade a vida e a mensagem de Jesus. Os evangelhos retratam as interações de Jesus com os judeus do primeiro século a respeito de questões que lhes eram relevantes. Neles, Jesus personifica o Reino de Deus e inaugura o cumprimento da bênção prometida por Deus a todas as famílias da Terra.

Em resposta, Jesus and the Restoration of Israel (Jesus e a Restauração de Israel) foi publicado em 1999. Nele, 11 renomados eruditos do Novo Testamento, em sua maioria conservadores, originários do Atlântico Norte (principalmente EUA)[32], identificaram algumas fraquezas na abordagem de Wright e o convidaram a explicar-se. Ele respondeu, contribuindo com In Grateful Dialogue: a response (Um Grato Diálogo: uma resposta) na forma de um capítulo no próprio livro. O livro apresenta interações entre eles mesmos e com o texto bíblico. Alistair McGrath comentou:

 

O projeto de Wright… é um estímulo que exige que reexaminemos nossos modos de pensar e interpretar as Escrituras… a igreja reformada deve ser ecclesia semper reformanda… A Reforma não é um evento único cujas ideias devem ser escritas em pedra, mas um processo contínuo de reexame e reinterpretação a que somos forçados pela prioridade do texto bíblico sobre nossas interpretações provisórias daquele texto. Wright obriga-nos a reler o Novo Testamento e correr o grande risco de permitir que nossas ideias mais arraigadas sejam desafiadas à luz do testemunho bíblico.[33]

 

Segundo intercâmbio: uma nova leitura do evangelho, não com fins apologéticos, mas missionários.
Em 2010 – visando leigos e pastores que viessem a se perguntar o motivo da importância da obra de N. T. Wright – Nicholas Perrin convidou Wright para interagir com nove outros proeminentes eruditos bíblicos do Atlântico Norte no Wheaton College para discutir a leitura de Jesus e de Paulo feita por Wright. Eles produziram Jesus, Paul and the People of God[34](Jesus, Paulo e o Povo de Deus). Wright chamou o encontro de reunião com “amigos pessoais” e escreveu respostas individuais para cada um deles. Eles validaram a obra de Wright, mas não evitaram controvérsias. Wright teve boas razões, ao final do encontro, para se lembrar que Paulo defrontava-se com protestos onde quer que fosse. Wright deixou o encontro ciente do trabalho exegético a ser feito em prol da missão:

 

Que tal novas leituras dos evangelhos a serviço da Igreja?… Isso, creio eu, não é basicamente sobre apologética… mas sobre missão. De alguma forma, todo o complexo de reino, cruz e ressurreição deve se transformar em uma missão abrangente, enraizada no evangelho, que será significativamente diferente da missão do evangelho social que se esqueceu da cruz, ou a missão ‘Jesus morreu por você’ que se esqueceu do reino.[35]

 

Terceiro intercâmbio, a metodologia de Wright é adequada?
O livro gigantesco de N. T. Wright sobre teologia paulina Paul and the Faithfulness of God (Paulo e a Fidelidade de Deus) foi lançado em 2013.[36] Possivelmente, esse seja o livro mais longo já escrito, por um único autor, sobre Paulo e sua teologia – 1700 páginas em dois volumes. Representa toda uma vida de pesquisa exegética, histórica e pastoral de N. T. Wright, e é um marco que será discutido e debatido por muitos anos. Proeminentes eruditos paulinos do Atlântico Norte, Austrália e Coréia do Sul foram ágeis, respondendo criticamente em um livro escrito por eles mesmos em 2017. God and the Faithfulness of Paul (Deus e a Fidelidade de Paulo) traz críticas específicas a determinadas metodologias usadas por Wright e como elas afetam suas conclusões.[37] N. T. Wright contribuiu com o último capítulo e, ali, interage com seus críticos.

 

Quarto intercâmbio, Wright representa, ou não, a Nova Perspectiva sobre Paulo?
Exile: a Conversation with N.T. Wright (Exílio: uma Conversa com N.T. Wright) também foi publicado em 2017. James M. Scott organizou um grupo diversificado de estudiosos bíblicos de ambos os lados do Atlântico Norte cuja crítica sobre Wright enfocou questões particularmente importantes nas discussões ocorridas no contexto da Nova Perspectiva sobre Paulo: os judeus do primeiro século ainda se viam como exilados? Essa perspectiva foi importante no ministério de Jesus e de Paulo?

Esse livro deve ser especialmente interessante para o debate brasileiro uma vez que o ensaio introdutório de Scott sugere que a razão pela qual se reuniram em torno dessas questões deveu-se, em parte, a uma crítica de James D.G. Dunn, o principal pensador por trás de a Nova Perspectiva sobre Paulo. Ele denunciou veementemente que Wright havia “desvirtuado” a parceria que tinham na NPP. Alguns críticos brasileiros podem se surpreender que Dunn não considere necessariamente que Wright seja um porta-voz da Nova Perspectiva sobre Paulo.[38]

 

Uma caracterização de como a controvérsia se desenvolveu no Norte
Cada uma dessas extensas controvérsias envolve N. T. Wright pessoalmente com seus críticos. Elas não estão limitadas ao enfoque de um único assunto como o de Piper, Carson, Shreiner e The Gospel Coalition. Suas interações com vários acadêmicos sobre diversas questões abordam metodologia e conclusões. É difícil ignorar o constante convite de Wright para prestar atenção ao que a Bíblia diz sobre a redenção de toda a criação como medida da amplitude e extensão da fiel obediência a Cristo, ou o que ele diz sobre ações fiéis e eficazes por todos os que se dedicam à obra de Cristo e participam com Ele em Sua missão.

Concluo esta seção reiterando o título do capítulo “The Challenge of Dialogue” (O Desafio do Diálogo) de Wright, direcionado a seus críticos.[39] O título confirma a polêmica como uma forma de interação produtiva com o texto da Bíblia e entre as pessoas. A resistência dá lugar ao chamado que têm em comum para testemunhar a história do Messias, para anunciar a vitória sobre o pecado e a morte, os principados e poderes, e para estender o convite para se tornarem discípulos. A Palavra de Deus permanece livre para examinar os participantes (Hb 4.12,13), atrair-nos para Cristo, assumir o nosso destino (Jr 15.16-18) e produzir perseverança e dar frutos (Sl 1).

 

O Debate sobre N. T. Wright chega ao Brasil
N. T. Wright e outros eruditos bíblicos do Atlântico Norte mantêm entre si um entusiasmado diálogo sobre Jesus e Paulo no qual (re)leem o Novo Testamento para o século 21 à luz de novas descobertas sobre o contexto judaico do primeiro século. Quando esse diálogo chegou ao Brasil, colocou alguns pastores em alerta. Eles receavam que a obra de Wright houvesse reinterpretado a doutrina da justificação e minado a autoridade bíblica.

Eu me interesso pessoalmente por saber como essa controvérsia chegou ao Brasil, pois sua influência tem se estendido em direção aos evangélicos brasileiros. Porém, ela tem fluído na direção oposta à influência que os evangélicos brasileiros tiveram em minha própria vida. Fui formado mais por interagir com os pioneiros brasileiros de um novo movimento missionário do Brasil no final dos anos 70 do que por Wright ou qualquer outro dos teólogos acima mencionados. Aprendi trabalhando ombro a ombro com os primeiros pioneiros do Movimento Missionário Brasileiro: Jonathan Ferreira dos Santos, Lídia de Almeida, Décio de Azevedo, Barbara Burns, Eude Martins da Silva, Orivaldo Lopes Jr., Carlos Siepierski, Neuza Itioka, Valdir Steuernagel, Tonica Van der Meer, Paulo Moreira Filho, Timóteo Carriker, Guilherme Kerr Neto, Edison Queiroz, Key Yuasa, Waldemar Carvalho, Marcos Amado e outros. Eles anteviram um mover do Espírito de Deus. Fomos todos levados a nos ajoelhar e a (re)ler nossas Bíblias para entender essa nova obra de Deus para sua missão. Deus estava redirecionando os evangélicos brasileiros dos séculos 20 e 21 para assumirem um novo papel no desdobramento da história do evangelho para todos os povos, agora a partir do Brasil. Tivemos de mudar nossa imaginação missionária a ponto de pedir a Deus para que obreiros brasileiros entrassem na colheita.

Missões a partir do Brasil têm suas raízes na forma como esses pioneiros leram suas Bíblias. Quando o fizeram, suas ideias mudaram para que pudessem entender o que Deus queria que fizessem em cooperação com Ele! A Bíblia, interpretando as iniciativas missionárias do Espírito, era o livro-texto para mobilizar, ensinar e treinar muitos milhares de pessoas para testemunharem de Cristo, e de todos os seus ensinamentos, localmente e até os confins da Terra. Ao reavaliarem seu conceito de evangelismo à luz da Bíblia, eles puseram fim às imaginações coloniais que mantinham o Brasil como um campo missionário para o Norte e controlavam como a Bíblia era lida no Brasil durante os 500 anos anteriores. Agindo a partir de uma fé bíblica, eles superaram o modelo geográfico de “missões” que preconizava um movimento do Norte para o Brasil. Eles superaram uma abordagem imprecisa da Bíblia 35 anos antes que Goheen também tivesse de superá-la para que pudesse ensinar Missiologia biblicamente em um seminário na América do Norte.[40]

 

A controvérsia enfoca o relacionamento de Wright com a Nova Perspectiva sobre Paulo
A obra de Wright chegou ao Brasil envolta em preocupações pastorais de líderes brasileiros sobre a Nova Perspectiva sobre Paulo (NPP).

Nos EUA, os intercâmbios iniciais entre Piper e Wright foram sobre o significado e os meios de justificação. No processo, Piper sugeriu que Wright estava liderando um ataque à doutrina reformada, em associação com outros estudiosos da NPP. O reverendo Augustus Nicodemus ecoou as preocupações de Piper em 2006, quando publicou um artigo para alertar os leitores sobre a NPP e, em 2011, afirmou que Wright era o promotor da “‘Nova Perspectiva sobre Paulo’, um movimento que tem cerca de 20 anos de existência e que apenas recentemente chegou ao Brasil, especialmente através dos escritos de N. T. Wright,”[41] uma “tentativa de redefinir a doutrina da justificação pela fé”[42].

Restrições linguísticas e geográficas forçaram-no a descrever as preocupações sobre a NPP em suas próprias palavras para orientar o seu público brasileiro. Sua crítica só poderia fazer sentido depois de descrever uma ameaça doutrinária, que caracterizou a NPP como uma posição teológica e não como o espaço de controvérsia que realmente é – um espaço onde os estudiosos do Novo Testamento interagem, e os estudantes observam o efeito de novas descobertas nos significados dos textos do Novo Testamento.

Seu artigo de 2006 direcionou seus leitores ao texto bíblico, e argumentou que os leitores deveriam seguir as Escrituras. No entanto, ele somente o fez depois de desqualificar a Nova Perspectiva sobre Paulo porque “acaba atacando a autoridade das Escrituras.”[43] Embora a controvérsia no Norte tenha evoluído de modo diferente, ele tinha liberdade para conduzir a narrativa dessa forma porque não estava interagindo diretamente com Wright ou com os proponentes da NPP . Os teólogos que ele descreveu não estão em posição de ouvir, responder à sua acusação ou demonstrar seu compromisso com a autoridade bíblica.

Como ele está tentando informar e atualizar seus leitores, a interação de Augustus Nicodemus não é estruturalmente semelhante às interações entre os estudiosos que responderam a Wright em livros que criticam sua obra. Seu espaço de interação é limitado a seus leitores, que dependem de sua própria representação de Wright e da NPP.

 

As estruturas da controvérsia
Este é um problema estrutural. O ponto é: os brasileiros têm sido consumidores da maioria dos debates teológicos no Norte, mas não contribuintes. Os livros e ensaios críticos sobre N. T. Wright anteriormente relacionados não incluem críticas de qualquer teólogo brasileiro. A estrutura da discussão teológica global inclina-se para o Norte, e essa estruturação distorcida não se limita a esse conjunto de controvérsias. A estrutura presume que as discussões teológicas no Norte são pertinentes ao Brasil, e que os engajamentos brasileiros nessas controvérsias não são pertinentes ao Norte.

Franklin Ferreira também escreveu sobre a Nova Perspectiva sobre Paulo. A fim de oferecer seu argumento bíblico e convidar os leitores a interagir, ele primeiro teve que descrever a NPP para seus leitores. Ele descreveu Sanders, Dunn e Wright como “biblistas” que modificaram “radicalmente a interpretação de vários textos bíblicos, particularmente os de Paulo”. Como resultado, ele também controla a narrativa sobre a NPP e seus proponentes para que ele possa defender a “interpretação tradicional”.[44]

Repito: Nicodemus e Ferreira não estão agindo de forma irresponsável. Considera-se que fizeram um bom trabalho exegético antes de exercer seu chamado pastoral e alertar seus leitores sobre ideias que eles consideram antibíblicas. O problema é que um efeito estrutural, remanescente de o período colonial, moldou a trajetória dessas controvérsias quando as importaram. Não por culpa dos autores, os leitores têm a oportunidade de somente interagir com as ideias dos pastores.

A estrutura dessa relação é uma das razões pelas quais as teologias elaboradas no Norte continuam a validar (ou não) a ortodoxia teológica no Brasil – muito mais do que o papel que as teologias formadas no Brasil desempenham na validação das ortodoxias norte-americanas ou europeias. A comunidade teológica brasileira ainda considera importante alinhar-se (ou não) com as concepções teológicas que vêm do Norte. É assim que o “efeito estrutural” transmitido pelo relacionamento colonial continua a reproduzir imperfeições na relação com o texto bíblico e não traz “nossa prática missionária à Bíblia para ser examinada”.[45] E a missão é prejudicada.

Timóteo Carriker discordou de Augustus Nicodemus quando esse último afirmou que Wright está promovendo uma nova heresia. Em seu blog no Ultimato on-line[46], meu xará interage com Nicodemus, apresentando uma clara defesa de Wright, e aponta seus sentimentos de que Nicodemus não conseguiu apresentar adequadamente Wright ou a NPP. Ele encoraja os leitores a examinarem o texto bíblico e decidirem por si mesmos quem está certo. Carriker é bem conhecido por seu compromisso consistente de submeter ideias missionárias ao escrutínio das Escrituras. Ele escreveu extensivamente sobre a teologia bíblica da missão. Como editor-geral da Bíblia Missionária de Estudo[47], ele reconheceu que a Bíblia é a ferramenta de Deus para examinar nossa prática missiológica, evitar que sejamos apenas consumidores, e nos levar a produzir boa Missiologia. Não obstante, sua crítica a Augustus Nicodemus não escapa ao efeito estrutural que, mesmo após o fim do colonialismo, continua a reproduzir a geografia Norte-Sul de missões, o que leva ao controle da narrativa. Quando ele posta em seu blog: “Os críticos da NPP não distinguem suficientemente as diversas vertentes da NPP”, fica claro que a controvérsia mudou quando entrou no território brasileiro. Tornou-se mais a respeito de quem poderia descrever Wright e a NPP corretamente. O comentário de um leitor confirma que Carriker, inconscientemente, controlou a narrativa: ”Muito obrigado e peço que insista em comentar a NPP para melhor ajuda daqueles que (ainda) não têm condições de analisar em âmbito mundial (por estar em outra(s) lingua(s) e pela escassez literária no Brasil).”[48] Esse leitor prefere confiar em Carriker para lhe dar uma imagem completa e correta sobre a NPP. Outros podem escolher confiar em Nicodemus ou em Ferreira. Mas nada disso é um diálogo com N. T. Wright e seus interlocutores, nem é uma (re)leitura da Bíblia com (ou sem) Wright sobre seguir a Cristo em Sua missão.

 

O debate sofre um descompasso entre Wright e seus críticos quando passa ao contexto brasileiro
Uma vez que os críticos brasileiros precisam descrever a NPP ou N. T. Wright para seus leitores, eles acabam importando sua própria descrição da controvérsia. Porém, a controvérsia que eles descrevem é um debate em andamento, portanto as descrições, ao serem publicadas, já estão desatualizadas. Além disso, os livros não são necessariamente publicados em português enquanto a discussão está em andamento, nem na mesma ordem em que são publicados em inglês (mais uma vez, veja o Apêndice).

Os leitores brasileiros, então, interagem com fotogramas de controvérsias que ocorreram fora do seu espaço de interação. Eles têm acesso a representações estáticas de posições exegéticas e teológicas particulares. A fotografia é visível, mas não a atividade que ocorreu fora dela, nem a interação que ali reuniu as pessoas.

À primeira vista, a controvérsia no Brasil sobre o N. T. Wright pode não parecer muito diferente da que ocorre no Norte. O desafio de responder ao evangelho, compreendê-lo e adotá-lo como nossa linguagem que testifica sobre a vitória de Cristo que traz salvação é o mesmo. A diferença é que quase nenhum teólogo brasileiro interage com o próprio N. T. Wright. Os teólogos brasileiros, como Augustus Nicodemus, além de, provavelmente, não receberem uma resposta de Wright sobre seus artigos, também encorajam outros a evitarem a discussão.[49]

Quando a discussão ocorre, na melhor das hipóteses, acaba sendo um diálogo a respeito de um diálogo. Líderes como Nicodemus, Ferreira e Carriker ficam controlando a narrativa, querendo ou não. A memória doutrinária dos reformadores é trazida ao centro, enquanto a história do evangelho no Brasil, e a partir do Brasil, é marginalizada. O convite de Wright para uma discussão sobre o texto bíblico perde-se, assim como a história bíblica de Deus em missão. A narrativa é controlada pelos seus intérpretes. Esses efeitos estruturais residuais, remanescentes do período colonial, continuam a exercer o poder do Norte sobre a interpretação bíblica no Brasil.

 

Rompendo com as estruturas que limitam a nossa eficácia na missão
Aqueles que querem seguir os passos dos pioneiros brasileiros que encontraram um novo caminho para contornar a estrutura Norte-Sul de missões também podem examinar as Escrituras, interpretar novas iniciativas missionárias do Espírito, e submeter os antigos padrões ao escrutínio bíblico. É uma tarefa desafiadora, mas também recompensadora. Os estudantes de Teologia também podem examinar a narrativa controlada e identificar o que precisam fazer para ir além dela. Tiago Rossi Marques fez isso quando era aluno do Seminário Martin Bucer em São Paulo. Ele leu o suficiente da NPP para reconhecer sua necessidade de se aprofundar no texto bíblico.[50]

Os editores da tradução para o português da resposta de N.T. Wright a John Piper – Justificação: O Plano de Deus e a Visão de Paulo – acreditam que a relação dos crentes com a Bíblia está em risco.

 

N. T. Wright é um profeta no nosso tempo. Embora alguns leitores o acusem de ser teologicamente liberal, nada poderia estar mais distante disso. Seus pensamentos sempre surgem da exegese bíblica e da compreensão do texto dentro de seu contexto à luz daquilo que o autor bíblico entendia sobre o Plano de Deus para a humanidade e sua forma de agir com ela.
Então, se você é alguém, cristão ou não, que não está disposto a comparar seu entendimento atual – ou credo – com todo o corpo das Escrituras – não apenas textos-prova – e ver se realmente faz mais sentido do que os textos indicados por seus autores – se você não está disposto a fazer isso, este livro não é para você. Mas, nesse sentido, talvez nem a Bíblia seja.[51]

 

No início do século 21 no Brasil, os evangélicos são, possivelmente, mais influenciados por músicos do que por teólogos. Os músicos Leonardo Carvalho e Gabriel Coutinho recomendam a leitura de A Ressurreição do Filho de Deus de N. T. Wright como um de:

 

Os 12 livros de 2013 que os cristãos devem ler… poderá discordar das ideias, sentir-se ofendido, impactado, fora da sua zona de conforto, estimulado, empolgado, horrorizado, mas não ficará indiferente a eles. São livros que nos fazem pensar, refletir sobre nossas convicções, para alterá-las ou confirmá-las.[52]

 

Talvez a abertura artística seja difícil para os teólogos cujo papel é, tradicionalmente, garantir que as pessoas acreditem no que é verdadeiro.

Guilherme Piton seguiu um caminho diferente e entrou em contato diretamente com N. T. Wright, apresentando a ele a versão brasileira da controvérsia:

Guilherme – Aqui no Brasil, algumas discussões envolvendo o que se chama de “Nova Perspectiva sobre Paulo” (ou novas perspectivas) vêm ganhando um certo fôlego devido à curiosidade de vários irmãos e pouco material tem sido traduzido e produzido em solo brasileiro… A sua obra vem sendo mencionada e criticada por setores reformados e mais “conservadores”… Acusam-no de negar a doutrina da justificação pela fé como aspecto soteriológico, como se não houvesse imputação da justiça de Deus no pecador. Acusam-no de defender uma justificação no âmbito eclesiológico e que isso se assemelha à teologia católico romana. Como você entende a doutrina da justificação e recebe essas acusações?[53]

Wright – A tarefa diante de nós não é dar respostas do século 19 a questões do século 16… imaginando que temos que escapar do mundo e ir para o céu — algo que a Bíblia não diz. Precisamos crer mais firmemente na ressurreição de Jesus como o começo da nova criação que um dia renovará o mundo todo, e nós com ele.

O restante da entrevista pode ser encontrado em português na internet. Nela, podemos observar como Wright esclarece sua agenda teológica:

Guilherme – Qual é o legado que você pretende deixar para as futuras gerações de cristãos?

Wright – O legado que gostaria de deixar é de que as pessoas leiam a Bíblia toda, entendendo o Evangelho todo, comprometidas com a totalidade de Jesus  –  O Messias de Israel e Senhor do Mundo – no poder do Espírito.

 

Conclusões: o final desta história ainda espera para ser escrita
N. T. Wright escreveu no início de sua carreira: “Uma história, com seu modelo de problema e conflito, de tentativas interrompidas de solução, e seus resultados finais, seja ela triste ou feliz, é… universalmente reconhecida como a melhor maneira de falar sobre como o mundo realmente é”.[54]

A história que contei aqui é sobre escritos de N. T. Wright e sobre as controvérsias teológicas que chegaram ao Brasil e, no percurso, tornaram-se uma controvérsia diferente. Evitei discutir sobre concepções doutrinárias, abordagens metodológicas e conclusões. Em vez disso, concentrei-me na natureza das interações (ou na falta delas) entre todos os eruditos e pastores com N. T. Wright, com seus leitores e com o texto bíblico.

Encontrei um efeito estrutural remanescente, resíduos deixados após o fim do colonialismo, que limita o papel que se espera que os brasileiros tenham na história do evangelho. Os efeitos são invisíveis porque estão entranhados na mesma história que nos escreve e define nosso lugar no mundo. Isso impede nossa participação na história do evangelho, fazendo parecer normal a doutrina ser produzida no Norte e consumida no Brasil. No entanto, Deus está escrevendo outra história que expande nosso mundo e nossa contribuição a ele como seguidores de Cristo. O Espírito e a Palavra nos (re)leem e possibilitam superar as estruturas que nos limitam. Um estudante de Teologia do Seminário Martin Bucer, alguns artistas e um blogueiro na Bahia contornaram essa estrutura, iniciaram conversas teológicas a partir do Brasil, e reinterpretaram nosso lugar na história bíblica.

Os pioneiros da missão no Brasil também reinterpretaram nossos lugares na história e superaram os efeitos estruturais residuais que o colonialismo Norte-Sul havia deixado e que impunham limites à nossa participação com Deus em Sua missão. Após 35 anos, desta vez nos Estados Unidos, Goheen seguiu a mesma trilha que esses brasileiros haviam aberto. Ambas as histórias são testemunho de que a Bíblia não é tanto sobre apologética, mas sim os capítulos iniciais de uma narrativa sobre como Deus envolve o Seu povo em Sua missão.

Em meio a isso tudo, eu li N. T. Wright, John Piper e outros atendendo ao chamado para (re)ler a Bíblia. Estou descobrindo que a Soteriologia bíblica não é uma declaração doutrinária estática, mas uma história em desenvolvimento na qual Deus cumpre suas promessas, salva e mobiliza seu povo para fazer o bem e energiza a missão da igreja, mostrando-nos o lugar que ocupamos nessa história.

Pessoalmente, procuro maneiras de renovar e aprofundar meu conhecimento desta história que é a mensagem completa do texto. Oro para que possamos discernir juntos o que este momento exige de todos nós.

 

Apêndice

Os livros de N. T. Wright em português e seus respectivos títulos em inglês na ordem em que foram lançados no Brasil

Sobre o autor
Em 1977, Timothy Halls e a sua esposa, Lois, vieram recém casados ao Brasil e, morando em Curitiba, atuaram como missionários da Sepal. Timothy participou da primeira diretoria da AMTB, organizada em 1983. Depois de nove anos no Brasil, o casal, agora com três filhas pequenas, mudou-se para a Guatemala, onde atuou na COMIBAM construindo conexões entre movimentos missionários de diversos países para formar uma rede continental de ação e reflexão missionária. Mestre em Missiologia (Fuller Theological Seminary), atua hoje no Martureo.

 

[1] Goheen, Michael W. (2019). A Missão da Igreja Hoje: A Bíblia, a História e as Questões Contemporâneas. Viçosa: Editora Ultimato.

[2] Ibid. p. 9.

[3] Ibid. p. 340. Goheen usa o termo “colonialismo” para se referir ao período de expansão da Europa –

que envolveu a conquista de territórios fora desse continente nos quais os europeus subjugavam a população local, bem como migrações de outros povos forçados pelos europeus que tiveram início no século 16 (p. 110-111) – e que agora está extinto (p. 120).

[4] Ibid. p. 31.

[5] Ibid. p. 32.

[6] Bosch, D. (2002). Missão Transformadora: Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão. São Leopoldo: Editora Sinodal.

[7] Wright, C. J. H. (2013). Missão de Deus, A: Desvendando a grande narrativa da Bíblia. São Paulo: Editora Nova Vida. Segundo Cleydson Freitas, a obra é: “Uma teologia da missão bem ampla e profunda, do Antigo ao Novo Testamento, o autor desenvolve a Missão de Deus, o principal assunto da Bíblia”.

[8] O termo “Norte” diz respeito aos países que expandiram seu território dominando, inclusive no âmbito das “ideias” (Europa, Estados Unidos e Canadá), o assim chamado “Sul colonizado”, que se tornou um consumidor passivo, e não o que seria o ideal, alguém que se posiciona, discute e contribui.

[9] “Atlântico Norte” é uma forma de se referir à mesma região do mundo que criou o projeto de colonização, o qual definiu outras regiões como lugares “em desenvolvimento”, como se esses países do Norte fossem o padrão de futuro para o resto do mundo.

[10] A partir daqui, EUA, Canadá, e Europa serão chamados de “o Norte” em contraste com o Brasil nos contextos dos pensamentos teológico e missiológico.

[11] Wright, N. T. Jesus and the Victory of God. Minneapolis: Fortress Press, 1996. (título traduzido: “Jesus e a vitória de Deus”).

[12] https://www.christianitytoday.com/ct/2014/april/surprised-by-n-t-wright.html e https://www.ultimato.com.br/conteudo/superlativos-de-n-t-wright

[13] Goheen, M. W. (2014). Introducing Christian Mission Today: Scripture, History, and Issues. IVP Academic. p. 305.

[14] A terceira obra da série de 4 grandes volumes (há rumores de um quinto em preparação) foi publicada em português. Wright, N. T. (2013). Série “Origens Cristãs e a Questão de Deus”, A Ressurreição do Filho de Deus. São Paulo: Paulus Editora.

[15] Soteriologia aqui refere-se aos termos utilizados para explicar o significado da salvação de Deus e o processo através do qual Ele produz e libera essa salvação.

[16] https://vimeo.com/74166436 iniciando no minuto 22.

[17] Piper, J. (2011). Futuro Da Justificação, O – Uma Resposta a N. T. Wright. Editora Tempo de Colheita, RJ, veja também http://monergismo.com/john-piper/o-futuro-da-justificacao/

[18] veja http://perspectivasbrasil.com/william-carey-1761-1834/

[19] Piper, Futuro…. (as citacões são tomadas da versão do livro de Piper em inglês, publicado nos Estados Unidos, e traduzidas por nós.  A numeração das páginas corresponde à edição americana)  Piper, John (2007), The Future of Justification: A Response to N. T. Wright,  p. 23.

[20] Ibid. p. 15 ou “seu retrato do evangelho – e especialmente da doutrina da justificação – está tão desfigurado que fica difícil reconhecê-lo como biblicamente fiel” em p. 17 de Piper, John. Futuro Da Justificação, O – Uma Resposta a N. T. Wright. Rio de Janeiro: Editora Tempo de Colheita, 2011.

[21] Ibid. p.25. On p. 37 (na versão em inglês), e também afirma que, “N. T. Wright se entusiasma ao encontrar “novas” e “inéditas” interpretações de Paulo. Porém, não se encontra em Wright reconhecimento e apreciação dos “insights” das antigas interpretações que brilhem com a mesma exuberância”.

[22] Ibid. p. 35 (versão em inglês).

[23] Dunn, James D.G. (2011), A Nova Perspectiva sobre Paulo, (São Paulo: Paulus Editora).

[24] Veja https://www.desiringgod.org/interviews/interview-with-john-piper-about-the-future-of-justification-a-response-to-n-t-wright

[25] Piper, Futuro, pp. 111-115 (versão em inglês).

[26] https://www.academia.edu/30882027/The_Hermeneutics_of_the_New_Perspective_on_Paul

[27] O Novo-Calvinismo, conhecido também como Movimento Jovem, Irrequieto e Reformado, é um movimento conservador dentro do evangelicalismo que se fundamenta sobre o Calvinismo do século 16 ao mesmo tempo que busca engajar essas doutrinas históricas com a cultura atual. Mesmo tendo lançado raízes nos Estados Unidos há mais de 20 anos, é visto como um reavivamento do meio evangélico e sua abrangência vai muito além das denominações que são historicamente conhecidas pela tradição calvinista. O principal efeito do Novo-Calvinismo é a aproximação de igrejas batistaspentecostais, não-denominacionais e independentes da teologia calvinista. No Brasil, a Coalizão pelo Evangelho (TGC) é uma das expressões desse movimento.

[28] https://www.thegospelcoalition.org/course/justification-faith-biblical-theological-perspective/#course-introduction

[29] Relatório sobre um painel de teólogos batistas do sul http://news.sbts.edu/2009/09/04/wrights-view-of-justification-is-defective-and-unbiblical-sbts-panelists-say/ ou uma gravação em áudio do mesmo painel: https://youtu.be/tA-2PjalU6E

[30] https://www.thegospelcoalition.org/blogs/trevin-wax/trevin-wax-interview-with-nt-wright-full-transcript/ veja a apresentação em português http://sunghojd.blogspot.com/2010/09/justificacao-nt-wright-e-nova.html

[31] Wright, N. T. (2018). Justificação: O Plano de Deus e a Visão de Paulo (M. Elias, Trans.). Maceió: Editora Sal Cultural. Wright, N. T. Justification: God’s Plan and Paul’s Vision. InterVarsity Press, 2009

[32] Newman, Carey C. (1999), Jesus & the Restoration of Israel, (InterVarsity Press).

[33] Ibid. capítulo 9, McGrath, Alistair “Reality, Symbol and History: theological reflections on N.T. Wright’s portrayal of Jesus.” (Realidade, Símbolo e História: reflexões teológicas sobre a representação de Jesus por N.T. Wright). Pp.178, 179

[34] Perrin, Nicholas and Richard B. Hays (2011), Jesus, Paul and the People of God, (InterVarsity Press).

[35] Ibid. p.151

[36] Wright, N.T. Paul and the Faithfulness of God. Minneapolis: Fortress Press, 2013.

[37] Heilig, Christoph, J. Thomas Hewitt, and Michael F. Bird. God and the Faithfulness of Paul. Minneapolis: Fortress Press, 2017.

[38] Scott, James M. (2017), Exile: A Conversation with N. T. Wright, (InterVarsity Press).

[39] Heilig, et.al. God and… p. 711-767

[40] Ver p. 1 deste artigo: A imaginação colonial a respeito das missões tinha uma visão geográfica imperfeita sobre a fonte da missão, e um relacionamento distorcido com a Bíblia, no qual as Escrituras eram utilizadas como prova para defender a missão, e também deixavam de submeter a visão e práticas missionárias ao exame das Escrituras.

[41] Nicodemus Lopes, Augustus (2006), ‘A Nova Perspectiva sobre Paulo: Um estudo sobre as “Obras da lei” em Gálatas’, Fides Reformata, 11 1. Disponível em https://cpaj.mackenzie.br/wp-content/uploads/2018/11/4-A-nova-perspectiva-sobre-Paulo-um-estudo-sobre-as-obras-da-lei-em-Gálatas-por-Augustus-Nicodemus-Lopes.pdf

[42] http://tempora-mores.blogspot.com/2011/02/nova-perspectiva-sobre-paulo.html (ênfase do autor)

[43] Nicodemus Lopes, Augustus. “A Nova …” p. 93

[44] Veja https://teologiabrasileira.com.br/a-nova-perspectiva-de-paulo/ e https://teologiabrasileira.com.br/a-nova-perspectiva-de-paulo-2/

[45] Goheen 2019, A missão… p.32

[46] http://ultimato.com.br/sites/timcarriker/2011/09/26/uma-nova-heresia/ veja também Carriker, Timóteo. “Heresia: Uma Palavra Que Não Combina Com N. T. Wright.” Ultimato Novembro-Dezembro (2011):

[47] Sociedade Bíblica do Brasil (2014), Bíblia Missionária de Estudo, ed. Carriker, Timóteo, (Barueri/SP: Sociedade Bíblica do Brasil) 1472.

[48] Michael Douglas de Sousa Lopes 27 de dezembro de 2014.

[49] http://www.icp.com.br/df91materia9.asp – Esse artigo foi escrito porque a NPP e Wright “defendem que desde a Reforma protestante temos lido as cartas de Paulo de maneira errada”. Essa forma de caracterizar a Nova Perspectiva sobre Paulo como uma posição teológica herética é sustentada por outros além de Augustus Nicodemus quando escrevem sobre o debate em tom de alerta para informar o público brasileiro evangélico. Gaspar de Souza afirma que “a NPP parte de uma base ex scripturae para examinar a teologia paulina”, ao invés de tratá-la como outra abordagem diferente das Escrituras que tem o intuito de melhor compreendê-la. https://teologiabrasileira.com.br/introducao-a-nova-perspectiva-paulina-um-ensaio/

[50]https://www.academia.edu/33355232/A_NOVA_INSTIGANTE_E_CONTROVERSA_PERSPECTIVA_PAULINA_Um_ensaio_sobre_a_Nova_Perspectiva_de_Paulo_e_seus_desdobramentos_na_Teologia_Contemporânea

[51] http://www.salcultural.com.br/lojasal/index.php?route=product/product&product_id=75

[52] https://reformandoconceitos.blogspot.com/2013/12/os-12-livros-de-2013-que-os-cristaos.html

[53] https://medium.com/@guipiton99/precisamos-ler-a-b%C3%ADblia-com-a-ótica-do-primeiro-século-551ff43b7bbd

[54] Wright, N. T (1992). New Testament People God (O Deus do povo do Novo Testamento). Minneapolis: Fortress Press. Kindle Edition. p. 40.

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