In Budismo

A comunicação adequada para a comunicação do Evangelho entre budistas theravada

Por Rev. Dr. Bantoon e Sra. Mali Boon-Itt, cedido pela Mission Frontier Magazine

Nosso sonho é ver em breve um movimento histórico de budistas theravadas conhecendo a Cristo como Salvador. Esse também é o sonho e o desejo de seu coração?

O que tem impedido tal movimento e limitado a salvação dos budistas, apesar de décadas de empenho missionário? Alguns dizem que trabalhar entre budistas é como semear em terra rochosa. Alguns estão convencidos de que não há número suficiente de cristãos trabalhando e orando. Outros pensam que nossos métodos estão errados. Por exemplo, usando meios literários, quando a maioria dos budistas prefere meios orais e visuais de comunicação.[1]

O problema: falha na comunicação pela disparidade entre as cosmovisões de budistas e cristãos

Fiz duas perguntas para mim mesmo: 1) Por que é tão difícil os budistas aceitarem Cristo como Senhor e Salvador? 2) Por que, apesar de eu ser tailandês, pregar e ensinar na língua local, os que procedem de contextos cristãos apreciam minha mensagem, mas amigos tailandêses não cristãos não? Como pastor tailandês, precisei chegar à raiz dessa assunto. Com essa convicção e essas perguntas em mente procurei, por dez anos, identificar o problema, estudando o desenvolvimento do budismo e do cristianismo na Tailândia e a interação entre as duas religiões. Percebi que, sendo cristão, era difícil trabalhar com muitos tipos diferentes de budismo que são praticados na Tailândia. Descobri algumas situações que precisam ser consideradas.[2]

O problema principal é que a mensagem que os cristãos apresentam com tanto entusiasmo aos budistas é incompreensível, pouco atraente e irrelevante. Ocorreu-me que, assim como considero dificílimo tirar as lentes cristãs e colocar as budistas, também deve ser complicado para eles enxergarem a perspectiva cristã. A raíz do problema é que não temos comunicado de maneira eficaz porque não percebemos que as falhas de comunicação ocorrerão naturalmente devido a disparidade entre as cosmovisões de budistas e cristãos. Nós, cristãos tailandêses, não percebemos a necessidade de aprender a compreender o budismo theravada. Doutrinas expressadas num vocabulário cristão são em geral comunicadas pelos cristãos em termos incompreensíveis aos budistas. Um entendimento profundo do budismo nos ajudará a entender por que isso ocorre.[3]

Respostas encontradas na Bíblia

Exemplos da Bíblia mostram que precisamos deixar que o contexto do ouvinte nos guie no uso de vocabulário, métodos e ilustrações para explicar Deus, o que Jesus fez na cruz e sua ressurreição. Paulo mudava seu jeito de apresentar o evangelho de acordo com a audiência.[4] Os autores do Novo Testamento empregavam palavras e até termos religiosos provenientes do contexto local para explicar o que Deus fez por meio de Cristo. Infelizmente, em vez de aprender com exemplos bíblicos e apresentar o evangelho no contexto budista local, os cristãos esperam que os budistas compreendam nossa mensagem do mesmo jeito que nós, sem perceber que a interpretação de um budista é moldada pela cosmovisão budista. Assim, nossas boas novas não são boas novas para os budistas. Os cristãos locais precisam fazer com que o mistério da cruz seja relevante para os tailandêses budistas, levando em consideração que na cosmovisão budista palavras e ideias cristãs como expiação, sacrifício, redenção ou filhos adotivos não comunica nenhum significado relevante.

Vemos na Bíblia que a contextualização da mensagem é uma questão crucial no caminho para um grande avanço entre os budistas theravada. Isso significa explicar aos budistas o significado daquilo que Cristo fez na cruz em termos cuidadosamente selecionados que ajudem na compreensão e sejam significativos para a vida deles. Não significa simplesmente pegar palavras budistas para substituir as cristãs. Os budistas o considerariam negativo. A língua tailandêsa reflete a cosmovisão tailandêsa que, por sua vez, é sustentada pelo budismo. Não se pode simplesmente traduzir palavras de uma língua, esperando que transmitam o mesmo significado e nuances em outra língua com outra cosmovisão. Por exemplo, alguns termos cristãos nem existem na língua tailandêsa fora da igreja. Para a palavra comunhão, os cristãos usam a expressão as mak kee tham (literalmente, ensino acerca da unidade). Um tailandês não cristão não compreenderia que essa palavra significa “reunião para conhecer e apoiar um ao outro, partilhar comida, cantar, orar e estudar a Bíblia”. Dificuldade semelhante ocorre com outros termos cristãos, entre eles: Deus, amor, fé, pecado, arrependimento, redenção, santificação, justificação, justiça, glorificação, e assim por diante. Muitos desses termos não existem na cosmovisão budista. Mesmo para os termos que têm um equivalente budista, os cristãos precisam gastar um tempo para explicar as semelhanças e diferenças entre os significados nas duas cosmovisões diferentes. Deixe-me explicar um pouco:

O que um cristão entende pela palavra “Deus” é bem diferente do que entende um budista. Para o budista, “deus” pode significar muitas coisas, mas o entendimento mais comum é que “deus” significa uma das muitas divindades que ocupam um espaço nas diferentes dimensões celestiais.

O alvo da vida para um budista é alcançar o nibbana, mas para o cristão, é ser salvo, se relacionar com Cristo e tornar realidade o Reino de Deus em sua vida. O budista pode entender isso como a pessoa fazendo algo em benefício próprio, a fim de alcançar o céu e ficar com Deus.

Para o budista, o céu e o inferno são dimensões celestiais e infernais hierárquicas em que os seres recebem as consequências de seus atos (kamma), mas para os cristãos, “o céu é a plenitude do Reino de Deus”, enquanto “o inferno é a separação eterna de Deus”.

Pecado: no budismo não existe esse conceito, só atos maus, bap – ou seja, ações negras (kamma), que no budismo são ações inábeis, akusala, que impedem a pessoa de atingir o nibbana. Para o cristão, pecado é desobediência a Deus, ficar aquém dos padrões divinos. Uma vez que no budismo não existe esse conceito de um Deus criador como no cristianismo, o entendimento do pecado como uma ofensa contra um Deus criador não faz sentido na cosmovisão budista.

Com essas diferenças, não é de se admirar que os budistas não entendam o cristianismo e o considerem incompreensível e irrelevante para a vida deles. Há várias áreas em que as palavras que os cristãos usam não comunicam aos budistas aquilo que os cristãos acreditam estar comunicando. É só quando os cristãos conhecem a cosmovisão budista e aprendem acerca da percepção que os budistas têm do cristianismo que podemos compreender o que realmente estamos dizendo. Conhecer pouco sobre a percepção budista a cerca do cristianismo tem resultado uma apresentação pouco sábia da mensagem cristã para os budistas theravada tailandêses.

Evidentemente, isso significa que a cosmovisão e a terminologia budista precisam ser compreendidas pelo comunicador cristão. Se isso não acontecer, o cristão desejoso de comunicar o evangelho não consegue avaliar ou entender as raízes das dificuldades de compreensão dos budistas em relação ao cristianismo. Ao tentar compreender a perspectiva budista, chegamos à conclusão de que são os cristãos que tem falhado na comunicação. Uma resposta cristã ao budismo pode ser desenvolvida de maneira mais efetiva depois de estudarmos a cosmovisão deles e percebemos como os budistas entendem nossa mensagem. É só quando tentam compreendê-los que os cristãos conseguem comunicar Cristo de maneira que realmente faz sentido para eles.

Talvez os cristãos nãos percebam, mas doutrinas budistas importantes estão bem incrustadas e são expressas no cotidiano dos budistas: linguajar, lei, moralidade, crença, cultura, tradição, arte e arquitetura. Assim, precisamos compreender o âmago das doutrinas budistas porque elas determinam a cosmovisão e o estilo de vida das pessoas. Ainda que a maioria do povo budista talvez não conheça a terminologia budista nem seja capaz de explicar doutrinas budistas, a maneira de pensarem, de praticarem o budismo e de verem o mundo está fundamentada no budismo. Precisamos compreender a base do budismo clássico para nos ajudar a avaliar e compreender as várias expressões do budismo que encontramos no mundo hoje. Como ilustração, considere a necessidade de aprender os princípios e teorias da matemática para aplicá-los a problemas matemáticos. Se o entendimento básico é precário, fica difícil, ou até impossível, resolver problemas matemáticos.

É necessário um conhecimento sadio do cristianismo e do budismo para uma comunicação eficaz. As palavras que escolhemos precisam transmitir toda a teologia cristã. Tome, por exemplo, o desafio de comunicar sobre o pecado aos budistas. Cristãos tailandêses usam a palavra bap (conforme já explicado). Precisamos compreender o que a palavra bap significa na cosmovisão budista e saber se ela comunica tudo o que “pecado” significa na cosmovisão cristã. Atualmente, a palavra bap, que os cristãos escolheram para falar do pecado, carrega significados bem distintos nas duas cosmovisões. Assim, vemos que o desafio desce ao nível de escolher as palavras corretas — criar conceitos e métodos para explicar a teologia cristã de maneira que um budista consiga compreender. Talvez, usando um conjunto de palavras ou cunhando novos termos a partir de palavras existentes em tailandês (ou na língua de determinado país budista), seremos capazes de comunicar, sem sermos mal compreendidos. Toda linguagem humana tem suas limitações. Não é possível explicar plenamente o mistério de Deus ou o mistério da cruz. O que se pode fazer é testemunhar e proclamar Cristo, para que possam ter um relacionamento íntimo com ele e se tornarem mais parecidos com o Senhor.

Essa tarefa requer a cooperação de pessoas de muitas disciplinas, como linguística e teologia. No contexto tailandês, isso conclama os que compreendem a cosmovisão local (a língua e a cultura tailandêsa), os que compreendem o budismo e os que compreendem o cristianismo.

A repercussão da contextualização da mensagem será extensa. As sociedades bíblicas, os cristãos e os evangelistas na Tailândia precisarão trocar alguns termos empregados na Bíblia em tailandês. A igreja local estabelecida precisará trocar termos com que está familiarizada, mas confundem os budistas. Não será fácil para a igreja já estabelecida substituir termos que são usados há quase duzentos anos por outros que possam comunicar melhor a mensagem da cruz aos budistas.

E se não encontrarmos termos melhores para comunicar a vida e o significado de Jesus de um modo que seja significativo e relevante para os budistas? Vamos continuar experimentando pouquíssima resposta de budistas ainda por muitas décadas. Amigos budistas que ouvirem nossa mensagem não compreenderão, ainda que usemos meios orais (não escritos) de comunicação, pois o conteúdo não fará a transmissão das necessidades reais de nossos ouvintes budistas. Mas se comunicarmos a mensagem da cruz com sensibilidade cultural, em termos com que os ouvintes budistas consigam interagir e serem transformados por eles, as palavras terão significado profundo para a evangelização e o discipulado. Cristãos tailandêses precisam estar prontos para transmitir o evangelho com clareza para os outros. Eles precisam crescer no entendimento das duas cosmovisões para espalhar o evangelho falando mais do que “Essa é a minha experiência, logo, creia”.

Consciência: o primeiro passo em direção ao coração dos budistas

A consciência do problema de comunicação entre cosmovisões diferentes é o ponto chave para comunicar Cristo de tal modo que possa alcançar corações budistas. Isso é crucial para a mensagem do evangelho para os budistas na Tailândia e se aplica a outros contextos. Embora o judaísmo, o cristianismo e o islamismo tenham muitos pontos óbvios de contato em suas cosmovisões, isso não é tão óbvio no hinduísmo, no confucionismo e nas várias correntes do budismo (theravada, mahayana, xintoísmo, etc.). Que fique claro: se eu não tiver consciência de que, quando falo tailandês com amigos budistas tailandêses, eles podem não compreender o que desejo comunicar, eu posso ter a impressão de que eles têm coração duro ou que a mensagem caiu em terreno rochoso. Em vez de analisar como apresentei a mensagem, posso ser induzido a pensar que tudo o que preciso é orar mais e pedir ao Espírito Santo que derreta o coração deles. Precisamos sim de oração e de crer que somente o Espírito Santo é quem convence a todos do pecado, mas não podemos ignorar que somos chamados a comunicar e testemunhar o evangelho de forma compreensível. A cosmovisão do outro e o entendimento que eu tenho do outro determina o entendimento que eles têm de minha mensagem. Quando tenho consciência de que preciso transpor cosmovisões quando estou comunicando Cristo, fico mais atento a como estou anunciando o nosso Salvador. Terei mais cuidado para escolher palavras e métodos de comunicação e vou me certificar se a pessoa realmente entendeu o que eu queria comunicar.

Necessitamos urgentemente encontrar um meio efetivo de comunicar Cristo aos budistas, de modo que aquilo que comunicamos possa realmente tocar-lhes o coração. A tarefa de tornar o cristianismo compreensível aos amigos budistas exigirá grande sabedoria, uma vez que as ideias e os conceitos cristãos são muito estranhos e muito diferentes das ideias budistas na Tailândia. Assim, precisamos adequar a mensagem cristã ao contexto budista para ajudá-los a compreender Cristo. Os budistas poderão então perceber que a mensagem cristã não é inteiramente estranha a eles, receber novos insights e perceber que há uma resposta alternativa ao sofrimento humano ou dukkha.

Nosso sonho é que a comunidade budista abrace a mensagem do evangelho dentro de seu contexto cultural e desencadeie um avanço entre budistas theravadas.

 Rev. Dr. Bantoon e Sra. Mali Boon-Itt

Dr. Bantoon e Mali Boon-Itt são um casal que trabalha junto para o aprimoramento da comunicação da mensagem cristã a fim de torná-la compreensível e relevante para budistas tailandêses. Rev. Dr. Boon-Itt escreveu vários ensaios e uma tese de doutorado ligados a esse tópico. Ele é o pastor titular da 4a. Igreja Suebsampantawong em Bancoque, Tailândia.

O artigo original “Bridging Buddhist-Christian Worldviews” foi generosamente cedido pelo Mission Frontier Magazine, edição de novembro-dezembro de 2014, e traduzido em português pelo Martureo.

Notas

[1] Veja uma explicação das diferenças entre esses tipos de comunicação em www.ask.com/question/difference, entre a comunicação oral e escrita.

[2] Por exemplo: a igreja não consegue incentivar e preparar os cristãos para que sejam sal e luz na sociedade budista; pelo contrário, os tiramos dela e os colocamos em ambientes totalmente novos com novos amigos, vocabulário e tradições cristãs ocidentais. A sociedade tailandêsa entende o cristianismo como uma religião estrangeira (ocidental). Tailandêses que se tornam cristãos perdem a identidade cultural local. Novos convertidos não são orientados quanto à maneira de se relacionarem com a sociedade local como um nativo que crê em Cristo. Eles descobrem que precisam se desligar da família e da antiga sociedade. Não se faz nenhum esforço para formar uma identidade cristã tailandêsa, de modo que os cristãos locais possam ser vistos como cidadãos que não abandonaram suas raízes, pelo contrário, continuam sendo tailandêses de verdade. Insistimos para que aceitem Cristo, apesar de eles não terem compreendido o significado e as implicações disso. É como se os estivéssemos vacinando contra Cristo: eles acham que já o conhecem e que foram salvos. O parto prematuro diminui as chances de permanecerem firmes na fé.

[3] Três boas fontes para compreender o problema:

  • Boon-Itt, Bantoon. 2011 “What is being communicated to Buddhists”. In: Suffering: Christian Reflections on Buddhist Dukkha. Paul De Neui, ed. Pasadena: William Carey Library, 1-22.
  • Boon-Itt, Bantoon. 2007 “A study of the dialogue between Christianity and Theravāda Buddhism in Thailand as represented by Buddhist and Christian writings from Thailand in the period of 1950 – 2000”. Ph.D. dissertation, St John’s College, Nottingham, United Kingdom.
  • youtube.com/watch?v=_B_kVieeqSQ

[4] Veja Atos 13, 14 e 17.

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