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A Antropologia e a missão urbana: estranhar o que é familiar é imprescindível

André Oliveira de Souza

Lembro-me como se fosse hoje! Estava lecionando Antropologia em uma universidade na cidade de São Paulo. Na minha frente, mesa a mesa, estavam um homem e uma mulher jovens. A moça era cristã evangélica; o jovem não revelara seu segmento religioso, mas se mostrava aberto a ouvir sobre o evangelho. Em certo momento da conversa, a moça usa a expressão “as pessoas do mundo”. Imediatamente, ele colocou a mão em seu antebraço e questionou: “Desculpe, não entendi. Como assim ‘as pessoas do mundo’?”.

Imagino o que deve ter passado na cabeça daquele rapaz. Talvez algo como: “Existem pessoas que não são do mundo? Os evangélicos vieram de outro planeta?”. Ela, então, gastou um bom tempo tentando explicar quem eram “as pessoas do mundo”.

Definitivamente, as pessoas fora do ambiente evangélico não sabem o que significa “as pessoas do mundo”. Estamos tão acostumados com nossa própria cultura religiosa – especialmente se Jesus foi-nos apresentado por nossos pais e avós – e com nossa forma de viver na cidade, que não percebemos:  as respostas que oferecemos não servem, necessariamente, para as perguntas que as pessoas ao nosso redor estão fazendo. Nossa linguagem é engessada e, muitas vezes, torna-se uma barreira para as pessoas compreenderem o evangelho a partir de suas próprias realidades.

Neste artigo, parafraseando Lesslie Newbigin, “não tenho a pretensão de ser original nem acadêmico” (2016, p. 11). Sou antropólogo, é verdade, mas também sou pastor e missionário, e me esforço muito para ser alguém que comunica o evangelho de modo fiel e relevante. Com isso em mente, listo aqui três dificuldades que nós cristãos enfrentamos, especialmente pastores e líderes:

  1. Estranhar o próprio espaço que ocupamos na cidade;
  2. Aprofundar nosso conhecimento intracultural[1] com metodologia e pesquisa estruturadas;
  3. Aplicar de maneira fiel e inteligível o evangelho em nossa cultura.

Para transpor essas dificuldades, primeiro devemos conhecer bem o evangelho e a cultura partindo do seguinte pressuposto: o evangelho sempre responde para a cultura e nunca o contrário, pois o evangelho mostra como o mundo deveria ser (conectado a Deus), e a cultura, como o mundo está (desconectado de Deus).

Parto também do pressuposto que conhecemos bem o evangelho. Falta-nos, então, uma leitura mais objetiva da cultura. É necessário descobrir quais perguntas são relevantes no contexto cultural de nossas cidades para sermos o mais assertivos possível, segundo o evangelho, em nossas respostas. Assim, sendo fiéis ao evangelho e relevantes para a cultura, desenvolvermos relacionamentos e ambientes que indiquem o caminho da reconexão das pessoas de nossa cidade com Deus, com o próximo, com o mundo e consigo mesmas, todos esses afetados pela queda[2].

Neste artigo, trago a seguir algumas ideias sobre o primeiro ponto, o estranhamento do que nos é familiar, tema recorrente de grande parte da literatura sobre antropologia urbana e algo imprescindível para o pesquisador intracultural.

 

O familiar deve se tornar exótico!

Precisamos, intencionalmente, transformar aquilo que é familiar em algo estranho se queremos conhecer melhor a cultura de nossa cidade. Ora, se a maior parte dos cristãos, sejam eles pastores ou não, engaja-se na Missão em um contexto intracultural e urbano, o encontro com uma nova cultura e com pessoas distintas (ou até mesmo radicalmente distintas) da sua própria cultura não é um desafio cotidiano. Estranhar o “outro”, a sociedade e a cultura diferente é complexo, mas está posto claramente sobre a mesa, isto é, o estranho é estranho, embora, gradativamente, tenda a se tornar familiar nas relações transculturais. Nossa dificuldade, então, está em olharmos para dentro de nossa própria cultura. Segundo o antropólogo A. Geertz, estranhar a si mesmo é um grande desafio. Ele aconselhava seus alunos a, antes de estudar outros povos e culturas, conhecer melhor a si mesmos e suas próprias culturas. Nas palavras de Da Matta (1974, p. 4), isso significa “transformar o familiar em exótico”. É necessário atenção neste momento, pois: “O que sempre vemos e encontramos pode ser familiar, mas não é necessariamente conhecido, e o que não vemos e encontramos pode ser exótico, mas, até certo ponto, conhecido” (VELHO, 2013, p. 72).

O fato de morar muitos anos em um mesmo lugar pode ser uma grande armadilha na intenção de conhecer melhor a nossa cidade. Quando olho por cima do muro de minha casa, posso perceber o fluxo de carros, de pessoas que se reúnem numa praça, que frequentam um café, posso ver trabalhadores consertando o asfalto ou pedreiros construindo um prédio. Posso perceber diferentes grupos sociais, dos mais pobres aos mais ricos, e tudo isso me é bastante familiar, porém, não os conheço realmente, com exceção de alguns. Qual a história de cada um? Onde moram e como se organizam geograficamente? Como se identificam e quais são os seus valores? O que mais temem? Quais são seus hábitos? Em que creem? Posso até fazer alguma ideia, mas isso está no campo intuitivo e subjetivo, não foi alvo de qualquer avaliação intencional e objetiva, nem de pesquisa com alguma metodologia.

Há outros complicadores quando falamos da cultura de uma cidade. Será que na pluralidade dos centros urbanos fazemos parte de uma mesma cultura? A resposta está na retórica da própria pergunta. Se é plural, dificilmente será igual. Além disso – valendo-se do termo do sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman –, cidades têm seus valores cada vez mais líquidos, próprios da pós-modernidade. Cidades são fluídas, estão em constante e rápida transformação. Uma pesquisa realizada hoje deve ser reavaliada em no máximo cinco anos dada a velocidade de transformação das cidades. Podemos ter uma ideia geral sobre uma cidade qualquer, mas o que realmente importa para a comunicação fiel do evangelho são os dados específicos. Em outro artigo, tratarei de métodos para antropologia aplicada a missões urbanas. Por ora, vou me deter à prática do exercício de estranhar o familiar.

Precisamos afinar a capacidade de ver e ouvir o outro. Parafraseando Geertz (1973, p. 452), é como se estivéssemos olhando por cima dos ombros daqueles que vivem na cidade. Estranhar o familiar nos torna mais sensíveis, mais compassivos e mais compreensivos em relação a quem estamos olhando por sobre os ombros. Construímos, então, novas estratégias, mais objetivas, uma vez que temos conhecimento sobre as pessoas, a cultura, a história e a geografia de nossa cidade.

Ver e ouvir deveriam ser as duas atitudes de qualquer cristão que queira ser relevante em sua cultura e fiel ao evangelho. Estranhar o familiar é um passo fundamental para minimizar o risco eminente que sofremos, o de responder a perguntas com uma linguagem desconecta, ou mesmo o de dar respostas a perguntas que a sociedade onde vivemos não está fazendo. Cidades, mesmo as vizinhas, são diferentes uma das outras, portanto generalizações sobre a forma de comunicar o evangelho são sempre perigosas e correm o risco de ser descontextualizadas da realidade.

 

Algumas práticas para estranhar o que é familiar na cultura de minha cidade

  • Assim como fazem aqueles que levam o evangelho para contextos transculturais, adote uma postura intencional de estranhamento, como se quase tudo ao redor fosse desconhecido.
  • Relativize a cultura em que está inserido. Isso não tem qualquer relação com relativizar o evangelho. Conheça os hábitos, crenças e comportamentos dos outros deixando de lado o julgamento, ou seja, sem ser a partir de sua própria visão e experiência.
  • Deixe seu lado afetivo fluir e desenvolva compaixão pelas pessoas da sua cidade. Há muitos excelentes teólogos, mas poucos pastores. Jesus, ao contrário de muitos de nós, que permanecemos em nossos escritórios, não viveu entrincheirado. O Bom Pastor andava no meio da multidão, era empático e se compadecia (Mt 9.35-38). Pegue metrô, ande de ônibus, caminhe a pé por seu bairro (sem ficar com a cara enfiada no celular!). Olhe para as pessoas, converse com todos que puder – ouça mais que fale e, quando falar, use uma linguagem compreensiva. Ao fazer isso, se você é um pregador, perceberá que suas mensagens mudarão, pois saberá quais perguntas as pessoas têm feito, quais são as angústias e os sofrimentos dos que vivem na sua cidade.
  • Seja intencional, relativize sua própria cultura, tenha compaixão e AJA! Em Mt 9.35-38, vemos que Jesus avaliou o contexto – havia uma grande multidão aflita e os trabalhadores eram poucos –, teve compaixão e agiu: instrumentalizou seus discípulos (Mt 10) e continuou seu ministério onde estava (Mt 11.1).

O que você vai aprender hoje sobre sua cidade ao exercitar o estranhamento do que é familiar? Isso não é tudo, claro, mas é um bom pontapé inicial.

 

André Oliveira de Souza é pastor e missionário da Missão Evangélica da Amazônia (Meva), atua entre grupos indígenas há quase 20 anos. É formado em Antropologia e Mestre em Sociedade e Fronteiras pela Universidade Federal de Roraima.

 

Bibliografia

DAMATTA, R. O ofício do etnólogo, ou como ter “Anthropological Blues”. In: Publicações do programa de Pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, 1974.
GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
NEWBIGIN, L. O evangelho em uma sociedade pluralista. Viçosa: Ultimato, 2016.
VELHO, G. Um antropólogo na cidade: ensaios de antropologia urbana. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

 

[1] Do grupo cultural a que pertencemos.
[2] O relato da queda, bem como suas consequências, está no capítulo 3 do livro do Gênesis.

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