In Igreja
Africa Mercado Cores

A COPA, A IGREJA E SUAS NOVAS CONFIGURAÇÕES GLOBAIS

por Mila Gomides

Assim como a Copa do Mundo, a Igreja de Cristo nunca esteve tão global. Em 40 anos, o movimento cristão mundial passa por umas das maiores transições de sua história, revela dados do recente relatório do Center for the Study of Global Christianity (Centro de Estudos do Cristianismo Global. Entenda os desafios e como podemos fazer vários gols como igreja de Cristo.

O que tem te chamado mais a atenção nos jogos da Copa do Mundo de 2014? Você arrisca um palpite de quem vai ganhar?

“Não tá fácil para ninguém” diz o comentarista Cléber Machado da Rede Globo durante a partida da Argentina e Suíça. Os hermanos ganharam, mas foi por muito pouco que a Suíça não os leva para os pênaltis.

Os que torciam para a última campeã, Espanha, devem ter se decepcionado com sua eliminação logo na primeira fase.  As consagradas Portugal, Itália e Inglaterra também já foram embora.  E quem imaginaria que o Neymar sofreria uma contusão que o tiraria do torneio? Essa é a copa das surpresas, das zebras e da prova que qualquer jogo é uma emoção. O  placar pode ser inesperado, o favorito pode perder ou virar a partida a poucos minutos do apito final.

Como missionária e pesquisadora na área de estudos interculturais no Martureo, tenho lido e visto como um dos fatores que tem aumentado a maior qualidade dos times é a migração, resultando numa crescente multiculturalidade das equipes e em novas configurações na competição.  Advinha o nome do principal jogador suíço? Xherdan Shaqiri ! E o nome do principal jogador francês? Karim Benzema! Um soa bem eslavo e outro bem africano.

Assim como Shaqiri, que nasceu na Iugoslávia, vemos jogadores filhos de imigrantes asiáticos, africanos ou latinos em vários times. Desde de 2010, a FIFA tem afrouxado as regras sobre a nacionalidade do jogador. Se preciso for, os times se empenharão para a naturalização de novos atletas, como acontece com vários jogadores nascidos no Brasil e que hoje moram no exterior.

E engana-se quem pensa que somente os times europeus tem vários jogadores estrangeiros. Existem vinte e cinco jogadores nascidos na França competindo em outros times, sendo que dezesseis deles jogam para a Argélia. Na dança da migração, raças, culturas e religiões se misturam no campo e fora dele. Segundo a FIFA, são 600 mil turistas estrangeiros no Brasil para assistir a competição.

E nas mudanças, novas configurações se estabelecem. Essa é a copa com mais jogadores muçulmanos também.  França, Alemanha, Suíça, Bélgica, Argélia e Nigéria estão entre as seleções que possuem jogadores muçulmanos[1].  A seleção francesa, nação que já foi predominantemente cristã, hoje tem mais jogadores muçulmanos do que a Nigéria[2]. E justamente na fase do mata-mata, começou o Ramadã, quando o jejum dos jogadores deveria ser obrigatório.  Novas configurações suscitam novas perguntas. Afinal, os atletas muçulmanos vão jejuar ou não? Os profissionais sabem que isso prejudicaria o condicionamento físico dos jogadores  e um médico especializado no jejum de atletas integra a comissão técnica da Argélia.

Novas perguntas levam a novas respostas.  O Conselho Central de Muçulmanos na Alemanha, em apoio ao jogador Ozil, consultou especialistas em islã na Al-Zahar Academy no Cairo, que concluíram que os jogadores poderiam ficar isentos do jejum. Desde 2010, pela primeira vez na história do islamismo, esse caso tem sido discutido e na Copa de 2014 tem divido bastante opiniões.

E o que as mudanças na Copa tem a ver com a nova configuração do Cristianismo no Mundo?

Proponho aqui que tudo a ver. Se a Copa do Mundo está mais multicultural e diversa, prepare-se para se surpreender com as estatísticas sobre a Igreja. Ela nunca esteve tão global e tão diversa, étnica, sócio, econômica e politicamente.  O Centro de Estudos do Cristianismo Global, (CSCG), lançou um relatório intitulado “Cristianismo em Seu Contexto Global, 1970-2020, Sociedade, Religião e Missões”[3], durante o Fórum de Líderes do Movimento Lausanne,  em Junho de 2013, na Índia.

Na ocasião, Todd Johnson[4] e Gina Zurlo [5], (CSCG), apresentaram os dados e convidaram Molly Wall, atual diretora da Intercessão Mundial, e eu, Mila Gomides, para sugerir como podemos responder aos desafios propostos em oração e missões, respectivamente.

Os cristãos ao redor do mundo estão hoje em contextos muito diferentes que estavam há cerca de 40 anos, quando o movimento Lausanne foi fundado.  Neste artigo, publico a transcrição da apresesentação da plenária de abertura por Gina Zurlo, pesquisadora do centro.  Espero, contudo, não somente informá-los, mas convidá-los à uma profunda reflexão de como a igreja de Cristo vai responder às novas perguntas e desafios do nosso tempo. Precisamos rever como nos relacionamos, vivemos e trabalhamos, tanto com as pessoas que interagimos no contexto local quanto no global. Entender quem eles são poderá proporcionar um grande potencial para uma cooperação futura.

As principais conclusões deste relatório foram organizados de acordo com o Congresso Edimburgo 1910 e o lema do Movimento de Lausanne: ” Toda a igreja, levando todo o Evangelho ao mundo todo”.

Toda A Igreja

Toda a igreja inclui todos os cristãos. Atualmente, existem 2.3 bilhões de cristãos em todas as tradições, incluindo católicos romanos, ortodoxos, protestantes, independentes e outros.

Em 1970, existiam 18.800 denominações cristãs no mundo. Este número cresceu para 41.000 in 2010. Estimamos que até 2020 existirão 50.000 denominações cristãs.

Isso tem implicações enormes para a cooperação. Além de diferentes questões transculturais e sócio-políticas em seus contextos, tal crescimento tem sido marcado por uma grande fragmentação, que continua a ser um desafio para cristãos ao redor do mundo.

E as mudanças na configuração da igreja não param por aqui. A transição da maioria da população cristã do norte para o Sul Global tem sido bem documentada. É importante notar que Sul Global[6] não são países do hemisfério Sul, mas refere-se a países na América Latina, Ásia, África e Pacífico. Assim como no futebol, países emergindo dessa região estão ficando cada vez mais com equipes e igrejas fortes.

Há cem anos, cerca de 2/3 de todos os cristãos moravam na Europa, palco principal do cristianismo por um milênio. Hoje, somente 26% dos cristãos estão lá. Veja, por exemplo, como equipes de futebol da Alemanha, França e Suíça têm jogadores muçulmanos.

Tal mudança não se deu somente pela diminuição do número de cristãos na região, mas muito por causa do crescimento da igreja em outras regiões do mundo. Hoje a igreja é mais global do que nunca.

Para se ter uma ideia, em 1970 41.3% dos cristãos viviam na África, Ásia, Pacífico e América Latina e, em 2020, esse número deverá ser 64,7%.

A emergência do Sul Global enuncia a formação de novos líderes globais provenientes na região, fato que já acontece. Atualmente, o atual papa, Francisco, é de origem argentina, e o CEO do Movimento Lausanne, Michael Oh, é de origem asiática, ambos assumindo a gestão antes desenvolvidas por líderes nascidos no Norte Global. Tais transformações abrirão caminho para a exposição de novos modelos advindo de diferentes cosmovisões que influenciarão as características étnicas, sociais, teológicas e missionais da igreja[7].

A terceira grande tendência acontecendo em toda a igreja é o crescimento dos movimentos pentecostais e evangélicos. Pentecostais, carismáticos e carismáticos independentes têm crescido quase quatro vezes a taxa do crescimento do cristianismo global. Em 1970, estes cristãos representavam 5% do cristianismo global, e hoje representam 26%. Quanto aos evangélicos, havia cerca de 98 milhões em 1970 e atualmente, são mais de 300 milhões.

Levando Todo O Evangelho

Em termos da pregação do evangelho, o número de pessoas não evangelizadas no mundo manteve-se alta em relação à população.

Estima-se que em 1974, quando o Movimento Lausanne foi iniciado, existiam cerca de 1,8 bilhões não evangelizadas no mundo, ou seja, 44% da população na época. Em 2010 esse número subiu para 2 bilhões de pessoas, mas percentualmente caiu para 29% da população mundial. Em 2020, estima-se que haverá cerca de 2,2 bilhões de não-evangelizados.

Contudo, existe uma boa notícia. Mesmos os esforços de evangelismo mundial sendo muito inferiores ao crescimento da população, o número de pessoas não evangelizadas no mundo está caindo.

O relatório “Cristianismo em seu contexto global” não inclui apenas dados demográficos do cristianismo global, mas também questões sociais importantes que o mundo e a Igreja enfrentam, e uma delas é em servir os pobres. Entre as questões sociais fundamentais, as crianças mais pobres tiveram os progressos mais lentos em termos de melhoria da nutrição. A fome ainda é um desafio global.

Entre 2006 e 2009, 850 milhões de pessoas em todo o mundo ainda vivia com fome, ou seja, 16% da população mundial. Embora a pobreza extrema tenha diminuído, o progresso tem sido lento na redução da desnutrição infantil, em particular. Em 2010, cerca de um em cada cinco crianças no mundo estava abaixo do peso, incluindo um terço das crianças no sul da Ásia.

Outra questão social fundamental pesquisada no relatório é o trabalho feito nas favelas em todo o mundo. A presença cristã em favelas, em particular, é desproporcionalmente pequena. Uma em cada seis pessoas, no mundo, vivem em favelas, mas estima-se que apenas um em cada 500 missionários cristãos trabalhem nas favelas. Indo um passo adiante, apenas uma pequena fração, talvez 1 em 10.000 obreiros nacionais (tais como pastores), trabalhem em favelas em seus próprios países. Logo, em termos de toda a igreja pregar todo o Evangelho ainda há alguns desafios à nossa frente.

Pelo Mundo Todo

A percentagem de religiosos no mundo continua a aumentar. Em 1970, cerca de 80% da população do mundo seguia uma religião. Até 2010, esse índice aumentou para 88%, e em 2020 estima-se que 90% da população mundial será religiosa, contrariando a tendência de 1970, quando havia um aumento do índice demográfico da população de ateus e agnósticos. Logo, o mundo está cada vez menos ateu.

Em relação às religiões, em 1970, o cristianismo e o islamismo juntos representaram 49% da população global; e em 2020 estima-se que eles provavelmente irão representar 57%. Seguindo a tendência, o Cristianismo e Islã continuarão a ser as duas maiores religiões do mundo, sendo que este último continuará crescendo a um ritmo mais rápido em muitos lugares. Na copa do mundo mesmo, vemos jogadores cristãos e muçulmanos expressarem mais publicamente sua fé do que os que seguem outras religiões.

Outra questão fundamental do cristianismo em seu contexto global é o baixíssimo índice de contato pessoal entre cristãos e outras religiões. Estima-se que 81% de todas as pessoas no mundo não conhecem pessoalmente um cristão sequer, de qualquer tradição. Os países em que isso acontece com maior frequência são de maioria esmagadoramente muçulmana. Em nível regional, acredita-se que apenas 10% das pessoas na Ásia Ocidental tenham contato pessoal com um cristão.

Ao lermos este texto, vemos que foram apresentados várias estatísticas. Para uma maior reflexão, os detalhes e explicações estão na versão completa “Cristianismo no seu Contexto Global”, disponível somente em inglês no momento, para download gratuito.

Mas tudo o que foi exposto levanta a questão: por onde é que vamos começar a agir e responder aos desafios como igreja? O que poderemos fazer?

Como Marcar Gols

Em luz aos desafios apresentados, Gina propõem algumas sugestões para a igreja global marcar vários gols em prol da glorificação de Cristo no mundo. Para ela, esta transição é uma oportunidade para o evangelho crescer em vários lugares.

Em relação ao evangelho todo, Gina sugere dar formação em civismo, em hospitalidade, pois é importante “ver os outros como igualmente feitos à imagem de Deus e dignos de amor e respeito como parte integrante da mensagem cristã e da mensagem de Jesus “. A mensagem cristã é fortalecida pela civilidade que é praticada para com os adeptos de outras religiões, mas também para os membros de outras denominações.

Em relação à fragmentação do cristianismo, refletida num número crescente de novas denominações, precisamos estar praticando civilidade entre nós bem como entre as pessoas que não seguem Jesus .

Em termos de o homem todo, precisamos pensar em evangelismo e ação social em conjunto, como uma unidade, tanto global como localmente . Não há falta de oportunidades para os cristãos compartilharem sua fé e estarem envolvidos em ação social. Muitos ministérios e organizações locais estão bem informados sobre as necessidades de suas próprias comunidades , e geralmente, tem recursos e estão ligados a voluntários em todo o mundo.

E em termos de o mundo todo, precisamos aprofundar nosso conhecimento e interação com pessoas de outras religiões do mundo. Por exemplo, antes da Copa, o que sua igreja fez para ensinar sobre o islamismo e outras religiões dos turistas que vieram para a competição? Como vemos, o mundo está se tornando cada vez mais religioso e cada vez mais diversificado. Alcançar os adeptos de outras religiões é reforçado quando tanto aqueles que estão enviando e aqueles que são enviados entendem melhor as religiões do mundo, incluindo suas histórias , figuras significativas , teologias , crenças e práticas .

E é fundamental para tal compreensão, a perspectiva teológica sobre as semelhanças e diferenças entre o cristianismo e outras religiões do mundo. Ao pensar em todas essas mudanças, lembro-me do pensamento de um grande líder que também passa uma grande transição. John Piper recentemente se aposentou como pastor principal da Bethlehem Baptist Church. Num dos seus sermões de despedida, ele expôs sobre Atos 13, quando Deus chamava a igreja local (Antioquia) para participar da grande mudança que Ele fazia e iria fazer no mundo e concluiu: “A transição não foi para sobrevivência, mas para expansão”. Logo, que assim seja!

Ps: Até você ler o texto, pode ser que o Brasil tenha vencido a Copa do Mundo do 2014 ou não. Que bom, contudo, saber que Cristo sempre é vencedor e as nações hão de ver sua glória.

___________________________________________________

* Mila Gomides é missionária da Sepal como foco na Ásia. É Coordenadora de Pesquisas do Centro de Reflexão Missiológica Martureo e correspondente para o World Christian Encyclopedia.

[1] http://noticias.r7.com/internacional/jogadores-muculmanos-na-copa-enfrentam-decisao-sobre-ramada-25062014.

[2] Programa Fantástico da Rede Globo, exibido dia 29/06/2014.

[3] Baixe o texto completo em inglês http://wwwgordonconwell.com/netcommunity/CSGCResources/ChristianityinitsGlobalContext.pdf

A Bíblia Missionária de Estudo a ser lançada pela Sociedade Bíblica do Brasil no próximo CBM apresentará o relatório em português.

[4] PhD e Diretor do Center for the Studies of Global Christiany, na Gordon-Conwell Theological Seminary em South Haminton, Massachutes, EUA

[5] Gina Zurlo é doutoranda na faculdade de Teologia da Universidade de Boston e pesquisadora associada do Center of the Studies of Global Chrisitianity.

[6] “O sul global inclui quase 157 países, sendo eles menos desenvolvidos ou com recursos limitado” University, Center for the Global South

[7] Para entender mais as possíveis mudanças, sugiro ler o artigo “The New Pope and Evangelicals in Brazil: A Model for Transformation for the Global Church?” publicado no Lausanne Analysis em junho de 2013. http://conversation.lausanne.org/en/resources/detail/13031#.U7r3yKijRq5

Save

Save

Save

Save

Comments

Recommended Posts