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A covid-19 e a Missão de Deus

Igrejas e ministérios “para um momento como este”

Leandro Silva

A pandemia de covid-19 chegou ao Brasil e traz novos e imensos desafios aos cristãos. A crise diante de nós impacta todos, especialmente os mais vulneráveis, e requer respostas ágeis, biblicamente fiéis, e encarnadas em nossos contextos. Estamos diante de uma oportunidade única para demonstrar o amor de Deus e proclamar o evangelho de Cristo de formas inovadoras, contextuais, criativas e compassivas.

Daniel Chin, médico com especialização em epidemiologia pulmonar e cuidados intensivos com 25 anos de experiência em saúde pública global, que liderou grande parte do apoio da OMS à China para conter a epidemia de SARS em 2003, assinala que:

Vários fatores uniram-se e foram propícios para que a covid-19 invadisse nossas comunidades de maneira eficaz e furtiva. Primeiramente, [sem testes] é difícil saber se você tem covid-19 ou apenas o resfriado comum. […] [E como muitos não apresentam sintomas], uma pessoa pode estar carregando e transmitindo o vírus sem saber. Em segundo lugar, você não precisa estar perto de uma pessoa infectada para se infectar. As pessoas infectadas podem tossir e gerar gotículas respiratórias que se alojam em superfícies próximas. […] Como esse vírus pode sobreviver nas superfícies por várias horas, as pessoas que tocam uma superfície com o vírus e depois tocam o nariz ou os olhos podem ser infectadas. Em terceiro lugar, cerca de 20% das pessoas infectadas podem precisar ser hospitalizadas. […] No entanto, o vírus é particularmente agressivo entre idosos e pessoas com doenças crônicas.

Para aumentar a dificuldade, atualmente não temos kits de testagem suficientes […]. Precisamos disponibilizá-los amplamente, só então poderemos ter uma ideia do tamanho real desse surto, que é o que precisamos para poder contê-lo.

[…] Quando o vírus ganha uma posição na comunidade, derrotá-lo requer um distanciamento social muito mais agressivo, […] são necessárias medidas extremas de distanciamento social, como bloquear cidades ou regiões. Mas o custo social desse distanciamento extremo é sempre alto, sem mencionar o custo econômico.

Como parte de nossa missão neste mundo, a igreja pode ser um agente importante na prevenção de doenças e proteção dos mais vulneráveis […]. Tendo entendido como o vírus se espalha e causa danos, nosso plano de resposta deve incluir maneiras de servir com compaixão os doentes, cuidar dos mais vulneráveis, ​​e contribuir para nos tornarmos uma congregação mais sensível e comprometida com as necessidades do mundo”.[1]

A questão que paira sobre nós neste momento é: como fazer missão quando a alternativa mais acertada de responsabilidade social recomenda é cessar momentaneamente nossos cultos públicos e outras ações que gerem aglomerações, e incentivar o isolamento social das famílias em suas casas?

Esse aparente paradoxo proporciona-nos uma oportunidade para ser igreja em missão pautando nossa ação para muito além do que faríamos em nossos habituais encontros e aglomerações.

Scott Allen recorda-nos de que lidar com pragas não é um fator novo na missão da igreja. Na verdade, a resposta às pragas foi um dos aspectos fundamentais para o testemunho da igreja primitiva:

Nos dias da igreja primitiva, terríveis pragas varreram o Império Romano. Milhares, talvez milhões, morreram. A igreja respondeu incrivelmente. Eles amavam seus vizinhos incrédulos sacrificialmente, cuidando daqueles que contraíram a doença mesmo ao custo de suas próprias vidas. Fizeram isso porque Deus os amava tanto que ele desistiu do seu próprio filho para que eles pudessem viver. Ele os chamou para responderem a esse incrível amor e graça, amando seus vizinhos — mesmo aqueles abandonados e morrendo sozinhos nas ruas das pragas […]. O amor e serviço destemidos e sacrificiais que a igreja primitiva demonstrou era absolutamente sem precedentes na história humana. Rodney Stark, em seu magnífico livro O Crescimento do Cristianismo[2], demonstra que a resposta da igreja primitiva a essas pragas foi o catalisador central para seu crescimento exponencial, ao ponto de todo o Império Romano ter sido transformado pelo amor de Cristo!”[3]

Estou convicto de que a atual pandemia constitui-se um dos mais promissores momentos da história para que cada comunidade cristã atue em sua localidade como uma cidade construída sobre um monte, atendendo ao imperativo do Senhor Jesus: “Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus” (Mt 5.16).

Vêm de Singapura, situada na ponta sul da península Malaia, ao norte da região equatorial e da Indonésia, alguns dos melhores exemplos de boas práticas de igrejas locais em resposta à pandemia. Uma das comunidades cristãs que compreenderam a oportunidade única que o surto do covid-19 representava para a ação missional e compassiva do povo de Deus em sua região foi a Cornerstone Community Church, cujo testemunho foi destacado em matéria da revista norte-americana Christianity Today:

 

Entre outras ações, sua equipe e membros da igreja procuraram trabalhadores migrantes — muitos dos quais não conseguiram ganhar a vida depois que os projetos foram cancelados devido ao medo do vírus— e motoristas de táxi, cuja atividade foi altamente impactada por pessoas que optaram por ficar em casa durante esse período. Da mesma forma, os cristãos de Singapura iniciaram muitos atos de amor e bondade, incluindo:

    • Uma canção de esperança escrita por uma criança de 12 anos.
    • Ação de abençoar os trabalhadores da limpeza urbana.
    • Dar aos trabalhadores migrantes máscaras e vitaminas gratuitas.
    • Escrever milhares de bilhetes à mão para incentivar os profissionais de saúde.
    • Organizar uma campanha de doação de sangue para ajudar os bancos de sangue locais com pouco suprimento, à medida que as pessoas evitam hospitais.[4]

Lim Lip Yong, pastor executivo da Cornerstone, foi entrevistado pela Christianity Today. Sua visão demonstra o compromisso com o exercício de uma liderança missional frente a um período de crise que requer atitudes rápidas e atentas à realidade da sua localidade, e que podem inspirar outros líderes sobre como agir em suas próprias regiões à medida que se deparam com a chegada da covid-19:

Tendo implementado as medidas necessárias na igreja, percebemos que essa crise apresentava uma oportunidade de alcançar e ajudar a comunidade […]. Uma das principais coisas que queríamos influenciar era a atmosfera presente na comunidade […]. No início do surto, as pessoas agiram com medo. Em Singapura, muitos saíram às compras em pânico. Alguns profissionais de saúde foram expulsos do transporte público por medo de terem tido contato com pacientes infectados. Comentários altamente discriminatórios foram dirigidos a cidadãos chineses. Nunca poderemos evitar completamente esses elementos negativos na sociedade […], mas o que podemos fazer é garantir que haja mais vibrações positivas sendo geradas do que negativas. Por isso, enviamos nosso pessoal para cuidar — para ser gentil e fazer o possível para ajudar.[5]

Cada igreja e ministério deve refletir contextualmente e em oração sobre que ideias de projetos e ações poderiam comunicar a esperança do evangelho em palavra e ação em seu contexto local durante a pandemia. Há muito o que podemos e devemos fazer em diversas áreas:

Evangelização. A mensagem do evangelho deve ser anunciada de forma sensível e misericordiosa, o que envolve não apenas o fortalecimento do uso da tecnologia para ministrar e interagir como igreja e mais amplamente com a sociedade, mas também a dedicação a cuidar e pastorear as pessoas de nossas comunidades, direcionando nosso olhar para as multidões “aflitas e desamparadas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9.36). As igrejas e ministérios missionais devem estar atentos às oportunidades para um envolvimento autêntico com a dor pessoal e emocional ao seu redor, compartilhando com coragem as boas novas de Cristo.

Ações de emergência para os mais vulneráveis. Os mais empobrecidos serão atingidos de forma devastadora pela crise, o que requer uma ampla mobilização de misericórdia por parte das igrejas e ministérios cristãos. Isso inclui campanhas emergenciais de arrecadação de alimentos e itens de higiene pessoal; ações especificas direcionadas a servir os moradores de favelas e a população de rua; campanhas de apoio aos idosos e integrantes dos grupos de risco; cuidado emocional e pastoral das famílias dessas comunidades.

Movimento de oração. Pelas pessoas que integram os grupos de risco, pelas pessoas afetadas pela pandemia, pelos profissionais de saúde, pelas autoridades, pelos lugares atingidos, pelas nações, para que muitos se acheguem a Cristo nestes dias, pelo Corpo de Cristo em sua resposta a esse desafio missional.

Parceria com o poder público e com instituições da sociedade civil. Igrejas e ministérios podem ceder suas salas e instalações para uso do governo, como, por exemplo, para nelas funcionarem hospitais de campanha no período de pandemia. Os cristãos também devem se dispor a integrar comitês locais de enfrentamento da pandemia, caso sejam criados. A cooperação com as autoridades pode ser estendida no repasse de campanhas e informações de esclarecimento sobre a covid-19 e sobre como enfrentá-la, e na mobilização de estudantes e profissionais de saúde para servir como voluntários nos hospitais e unidades de atendimento, nas localidades em que esta oportunidade seja facultada. Campanhas de doação de sangue para reforçar o estoque dos hemocentros locais. Ações de encorajamento aos profissionais que devem continuar em campo (de saúde e da limpeza pública, por exemplo).

As igrejas locais e organizações missionárias são desafiadas a agir corajosamente como agentes de transformação em meio a uma sociedade amedrontada. “Deus não nos deu um espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio” (2Tm 1.7). Poder para agir com coragem e esperança frente à ansiedade e ao isolamento; amor para proclamar; compaixão para servir, especialmente os mais vulneráveis; e equilíbrio para nos mantermos atentos às medidas de saúde recomendas e encorajar o autocuidado dos cristãos e de seus entes queridos.

No Antigo Testamento, o livro de Ester apresenta-nos um cenário de ameaça concreta de genocídio ao povo judeu. Diante desse quadro desolador, encontram-se as palavras de Mardoqueu direcionadas à rainha Ester:

Não pense que, pelo fato de estar no palácio do rei, você será a única entre os judeus que escapará, pois, se você ficar calada nesta hora, socorro e livramento surgirão de outra parte para os judeus, mas você e a família do seu pai morrerão. Quem não sabe se não foi para um momento como este que você chegou à posição de rainha? (Et 4.12-14)

Compreendendo finalmente seu urgente e singular papel, Ester propõe uma estratégia que pode ser resumida em três pontos fundamentais: jejum e oração contínuos, ação concreta e disposição para considerar o alto custo de colocar em risco sua segurança pessoal (Et 4.15,16).

À medida que nos defrontamos com os desafios relacionados com a disseminação do coronavírus em nossas cidades, precisamos relembrar as palavras de Mardoqueu que, por sua vez, também nos desafiam a compreendermos que nossas igrejas e ministérios foram plantados pelo Senhor nas regiões em que se encontram presentes “para um momento como este”.

 

Sobre o autor
Leandro Silva é missionário da Action International Ministries no Brasil e Presidente da Missão ALEF, com base no Nordeste brasileiro. Coorganizador e coautor de diversos livros, dentre eles Igreja em Movimento, Comunidades em Transformação (Garimpo Editorial), Venha o Teu Reino: uma igreja para hoje (Editora Ultimato), Cosmovisão Cristã (Editora Reflexão) e Revitalizando a Igreja e a sua Liderança (Editora Esperança).

 

[1] ttps://www.christianitytoday.com/ct/2020/march-web-only/devo-ir-igreja-devem-fechar-covid-19-dicas-coronavirus-seat.html

[2] Stark, Rodney. O Crescimento do Cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. Paulinas, 2006.

[3] http://darrowmillerandfriends.com/2020/03/19/covid-19-an-opportunity-to-demonstrate-compassion/

[4] https://www.christianitytoday.com/ct/2020/march-web-only/7-luxors-covid-19-coronavirus-igrejas-singapura-brasil-eua.html

[5] https://www.christianitytoday.com/ct/2020/march-web-only/7-luxors-covid-19-coronavirus-igrejas-singapura-brasil-eua.html

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