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Alá é Deus? – Parte 1

Artigos escritos a partir da polêmica iniciada na Wheaton College sobre se muçulmanos e cristãos adoram o mesmo Deus

Mats Tunehag

A seguir estão os três primeiros artigos de um total de 23 que a EMS – Evangelical Missiological Society [Sociedade Missiológica Evangélica] publicou como uma edição especial do Occasional Bulletin em 2016.

 

WHEATON E A POLÊMICA SOBRE SE MUÇULMANOS E CRISTÃOS ADORAM O MESMO DEUS

Robert J. Priest

 

Assisti com interesse aos recentes acontecimentos na Wheaton College exibidos no noticiário nacional – eventos envolvendo a decisão de se demitir a professora titular Larycia Hawkins por seus comentários relacionados ao islã, especialmente por sua referência a muçulmanos e cristãos “adorarem o mesmo Deus”. Como evangélico, há muito aprecio a presença e a influência da Wheaton no mundo inteiro. Já tive a oportunidade de falar na capela da Wheaton, tive graduados da Wheaton em minhas aulas, e tenho amigos que lecionam lá. Eu amo a Wheaton e desejo o seu melhor. Além disso, como muitos evangélicos, vejo Wheaton como algo que pertence não apenas ao conselho, à faculdade, à administração e aos seus ex-alunos – mas à toda comunidade evangélica mundial. O que Wheaton faz afeta todos nós.

Enquanto observava o desenrolar do drama, passei a me preocupar com a maneira com a qual a Wheaton tratou os problemas, com as repercussões de tudo isso para o testemunho cristão, e com o fracasso em se incluir missiólogos e missionários como interlocutores. Ou seja, para a maioria dos evangélicos nos Estados Unidos, nosso contato com pessoas muçulmanas é relativamente recente, relativamente superficial e, com muita frequência, infligido pelos impulsos da guerra cultural norte-americana. A única categoria de evangélico norte-americano que há muito tempo nutre estreitas relações com pessoas muçulmanas é a de missionários e professores de missão (missiólogos) – muitos deles graduados na Wheaton. No entanto, tais pessoas, que representam o que é central no evangelho, e que carregam uma mistura única de experiência profissional e sabedoria acumulada ao longo de décadas de estudo e prática ministerial, não parecem ter sido adequadamente consultadas (se é que foram consultadas). Salvo algumas exceções, a maior parte da discussão on-line e da mídia sobre o assunto parece ter ocorrido como se missionários e missiólogos não tivessem muito a oferecer.

Embora eu não tenha nenhuma experiência pessoal relacionada ao islã, ensino missiologia em um proeminente seminário evangélico (Trinity Evangelical Divinity School), e sou ex-presidente da ASM – American Society of Missiology [Sociedade Americana de Missiologia] e atual presidente da a EMS – Evangelical Missiological Society [Sociedade Missiológica Evangélica]. Logo, vejo missiologia de um uma posição privilegiada, como estando dentro de seu ninho. Portanto, tenho conhecimento de muitos missiólogos com credibilidade fora do convencional em função de seus relacionamentos de longo prazo e em primeira pessoa com muçulmanos, e que têm, portanto, muito mais conhecimento sobre a amplitude das questões em jogo do que a maioria dos que estão conduzindo essa conversa sobre Wheaton/Hawkins. Em resposta às recentes reportagens sobre a Wheaton, convidei uma série de missiólogos e missionários dentre as principais instituições evangélicas, todos com doutorado, a maioria com experiências profissionais relacionadas ao islã, para escreverem pequenos ensaios abordando a seguinte pergunta: “Quais são as implicações missiológicas de se afirmar ou de se negar que muçulmanos e cristãos adoram o mesmo Deus?”. Enquanto a oposição binária “afirmar versus negar” é exemplificada no conflito administrativo Hawkins versus Wheaton, solicitei aos missiólogos que abordassem apenas a pergunta feita, e evitassem comentar o caso da Wheaton. Além dos evangélicos protestantes que convidei para responder a essa pergunta, convidei também Edward Rommen, um teólogo da missão ortodoxa oriental, e Lamin Sanneh, um estudioso da missão católica romana, conhecido por ter se convertido ao cristianismo tendo ascendência muçulmana. Assim, seus ensaios também estão incluídos aqui. Esta edição temática e especial do Occasional Bulletin [lançada em 2016 e traduzida e publicada pelo Martureo em parcelas] inclui esses artigos em ordem alfabética por sobrenome do autor, precedidos por um resumo descritivo do episódio de Hawkins/Wheaton College no artigo a seguir, de Howell.

Enquanto eu lia os textos enviados, ensaios esses que abordavam uma imensidão de pontos de vista, fiquei impressionado como muitos apresentavam posicionamentos discordantes em relação às ações tomadas pela Wheaton. Também fiquei impressionado com a ideia de que muitos missionários evangélicos e missiólogos norte-americanos, e talvez o próprio apóstolo Paulo, correriam perigo de serem demitidos caso lecionassem na Wheaton College, já que muitos de nós provavelmente seríamos culpados da mesma coisa que a Wheaton sanciona. O resultado disso tudo é que, de certo modo, arrependo-me de ter pedido a todos que evitassem comentar diretamente sobre o episódio Wheaton, principalmente porque os documentos envolvidos, tanto de Larycia Hawkins como de Stanton Jones, tornaram-se públicos e estão disponíveis on-line para quem quiser ler. Além disso, todos nós temos interesse em saber como as coisas se desenrolaram na Wheaton. Portanto, contando com o seu perdão e compreensão, violarei minhas próprias instruções e comentarei a relevância desse tema do Occasional Bulletin quanto ao caso da Wheaton. Meus comentários não têm a intenção de representar a opinião unânime dos membros da Evangelical Missiological Society, eles são simplesmente as reflexões de um missiólogo que pretende destacar a relevância das considerações missiológicas para essa situação.

A professora de ciências políticas da Wheaton College, Larycia Hawkins, citou de maneira passiva e aprovadora a declaração do papa de que muçulmanos e cristãos “adoram o mesmo Deus”. Pelo que entendi, isso foi dito no contexto de desejar expressar amor e solidariedade para com os muçulmanos americanos em uma época em que eles [muçulmanos], frequentemente, sofriam hostilidade por parte dos cidadãos norte-americanos, incluindo os cristãos norte-americanos (veja Howell a seguir). Quando questionada sobre sua declaração, nas perguntas cuidadosamente elaboradas em uma carta redigida pelo reitor da Wheaton, Stanton Jones, ela esclareceu por escrito que sua referência à “adoração” não pretendia comunicar nada sobre “soteriologia” – isto é, se as pessoas são salvas ou não, ou se estão em íntimo relacionamento com Deus –, mas era simplesmente uma referência à sua “solidariedade incorporada”. Em resposta à sua carta escrita e sua recusa em renunciar ao cargo durante um processo moroso e longo, o reitor recomendou que a Wheaton College a demitisse.

Vale a pena destacar que Hawkins usou a palavra “adoração” da mesma maneira que o apóstolo Paulo a usou em Atos 17.23, onde ele relacionou um altar ateniense a um deus desconhecido que os atenienses “adoravam”, o qual posteriormente ele passou a tratar como sendo o do deus sobre o qual ele desejava lhes apresentar. Claramente, ele não pretendia que compreendêssemos esse uso do termo “adoração” como algo soteriológico, dando a entender que esses atenienses estavam, portanto, em um relacionamento, salvos, com Deus. Como Larycia Hawkins, Paulo pretendia apenas fazer referência à sua “solidariedade incorporada”. Além disso, como Hawkins, buscando um terreno comum, ele estava disposto a assumir um ponto de referência em comum, embora não houvesse uma compreensão compartilhada dessa referência entre as partes. [Para uma explanação mais abrangente do significado referente a esse “ponto de referência”, adiante teremos o esclarecedor artigo de Netland.] Os atenienses esperavam que ele lhes falasse sobre outro deus, um deus estrangeiro, um deus à parte de suas próprias vidas. Em vez de fazer isso, Paulo mencionou um Deus já implicitamente reconhecido, um Criador “não muito distante de nenhum de nós”. Ele não usou uma palavra estrangeira para Deus, como Yahweh ou Elohim, mas usou a palavra Theos, uma palavra grega de uso comum. Surpreendentemente, ele estabelece um ponto em comum em Atos 17.28, citando dois filósofos estóicos que escreviam explicitamente sobre o deus do céu Zeus, embora nesse caso ele reformule o referente como Theos: ‘Pois nele vivemos e nos movemos e temos nossa existência’ [Epimênides]. Como alguns de seus próprios poetas disseram: “Nós somos descendência dele” [Aratus].

Missionários que ingressaram em novas culturas geralmente lutavam para decidir qual palavra em um determinado idioma deveria ser usada para se referir ao Deus da Bíblia. Os missionários cristãos não encontraram nenhuma palavra pré-cristã para Deus em nenhuma cultura que envolvesse uma compreensão totalmente trinitária. Mesmo a palavra grega que Paulo usou para Deus, Theos, não veio com significados trinitários. No entanto, os missionários acabam encontrando, muitas vezes, mas nem sempre, uma palavra para designar um Deus único, altíssimo e bom, o Criador do universo. Alguns missionários insistiram em usar palavras emprestadas de outros idiomas para dar nome a Deus. Por exemplo, entre os povos indígenas da América Latina, alguns insistiram em usar o espanhol Dios/Yus. Tais palavras emprestadas do estrangeiro sinalizaram inadvertidamente a natureza [também] estrangeira da mensagem religiosa, muitas vezes dificultando a resposta. Como alternativa, muitos missionários cristãos evangélicos fizeram uso de termos indígenas já existentes que se referiam a um deus supremo para se referir ao Deus da Bíblia. [Para ver exemplos disso, consulte Don Richardson ou Lamin Sanneh.] Assim como fez o apóstolo Paulo, esses missionários insistiram que sua mensagem era sobre um deus já reconhecido até certo ponto, mas entendimentos mais completos e corrigidos desse deus precisavam ser expostos.

Essa abordagem missiológica paulina gerou frutos em todo o mundo. Incontáveis milhões adotaram o evangelho cristão, e chegaram ao que os evangélicos entendem ser um relacionamento salvífico com o Deus da Bíblia, um Deus que eles continuam chamando de Hananim se são coreanos, ou de Apajui se são aguarunas, ou de Alá se são árabes. Normalmente, esses novos crentes não se veem como tendo repudiado um antigo e falso deus em substituição ao novo mas, agora, compreendem plenamente e respondem adequadamente a esse mesmo ser à luz da revelação especial de Deus nas Escrituras.

O islã, obviamente, é um caso à parte. Ao contrário de algumas “religiões do mundo”, o islã possui uma conexão histórica e proximidades com o judaísmo e o cristianismo. A própria palavra “Alá” era a palavra usada para Deus por judeus árabes e também cristãos por centenas de anos antes de Maomé, e é usada por cristãos árabes hoje. É evidente que os cristãos árabes, assim como Larycia Hawkins, concordam que nossos entendimentos cristãos sobre Deus divergem de maneiras importantes dos entendimentos muçulmanos ou judeus contemporâneos sobre Deus. No entanto, “construtores de conexões” como o apóstolo Paulo estão alertas para enxergar possíveis elementos comuns como ponto de partida para o engajamento cristão. Observe o missionário Greg Livingstone, um ex-aluno da Wheaton College tido como modelo para os missionários e fundador da Frontiers, uma grande organização missionária focada em compartilhar o evangelho cristão junto aos muçulmanos. Em seu discurso de premiação, quando recebeu o prêmio “Distinguished Service to Society Award” [“Prêmio de Serviço Distinto à Sociedade”] de 2009 da Wheaton College, ele foi perguntado “se existe algum ponto em comum entre cristãos e muçulmanos que facilite alcançá-los – coisas que temos em comum”. Livingstone respondeu que compartilhava muito mais terreno comum com os muçulmanos do que com os franceses seculares, e identificou “Deus” e “o julgamento final” como duas das várias coisas que os cristãos têm em comum com os muçulmanos.

Os missionários cristãos perceberam que, às vezes, o próprio Alcorão estabelece um possível terreno comum quando afirma a verdade das Escrituras judaica e cristã, e quando afirma aos cristãos que “nosso Deus e o seu Deus são um” (Alcorão 29:46). Embora os cristãos evangélicos não aceitem que o Alcorão tenha sido revelado por Deus, os “construtores de conexões”, no entanto, podem tirar proveito dos elementos comuns decorrentes da afirmação explícita muçulmana de que a Bíblia é de Deus. Além disso, eles podem notar que o Alcorão descreve Alá de muitas maneiras que são consistentes com a Bíblia. Alá é o criador do céu e da terra. Alá criou o primeiro homem e a primeira mulher, Adão e Eva. Alá inundou a terra na época de Noé. Alá se revelou a Abraão, deu a Torá a Moisés no Sinai, e deu os Salmos ao rei Davi. Alá enviou João, o Batista, e depois Jesus e seus apóstolos para pregar o evangelho. O Alcorão afirma o nascimento virginal de Jesus, o messias, e a Segunda Vinda. Assim, os cristãos que constroem conexões estarão atentos às continuidades, e não meramente descontinuidades, no entendimento de Deus mantido pelos muçulmanos contemporâneos (e pelos judeus) em comparação aos entendimentos totalmente cristãos. Muitos cristãos evangélicos tradicionais estão dispostos, como parte de seu compromisso cristão para com os muçulmanos, a concordar com judeus e muçulmanos que o Deus onipotente e onisciente de Abraão realmente existe, e que podemos prosseguir em nossos diálogos sinalizando explicitamente entendimentos compartilhados sobre esse Deus, apesar de nossas diferenças igualmente importantes. Larycia Hawkins afirma que o seu “adoramos o mesmo Deus” é como uma afirmação de terreno comum, embora seja profundamente ambíguo e sem as advertências adequadas. Para uma descrição sistemática dos vários significados possíveis de tal afirmação, consulte o texto de Netland adiante. Se alguém inicialmente teve dúvidas de que ela não explicou adequadamente o significado pretendido (como eu e a maioria dos nossos colaboradores do Occasional Bulletin), dada a explicação posterior sobre o que ela quis dizer, eu, pessoalmente, não vi nada no que ela escreveu que contradiga a posição doutrinária da Wheaton.

Qual o meu temor quanto a Hawkins ter sido demitida com base nas razões e evidências declaradas publicamente? Receio que o significativo testemunho cristão de construção de conexões da única funcionária afro-americana da Wheaton College tenha sido anulado. Receio que esse episódio tenha prejudicado o nosso testemunho evangélico e a credibilidade para com a comunidade muçulmana, com a América negra e com um mundo secular que nos observa atentamente. Temo uma perda de credibilidade que afete negativamente nossos direitos legais legítimos de reivindicar proteções de liberdade religiosa. Receio que esse caso estabeleça um precedente que ameace os trabalhos dos principais missionários e missiólogos evangélicos. Afinal, muitos missiólogos, e eu mesmo, escrevem a partir da ideia (aprovada) de que os missionários podem sinalizar apropriadamente que compartilhamos um referente comum quando falamos de Apajui, Hananim ou Alá. Receio que os evangélicos que desejarem amorosamente, de forma criativa e empreendedora, estabelecer relações de testemunho positivo com muçulmanos e outras pessoas sejam fortemente inibidos e desencorajados pelo medo de outros cristãos, pelo modo como eles podem reagir. Receio que as mulheres e, em particular, as minorias, passem a viver sob vigilância e suspeita em nossas comunidades, e falhem em viver suas vocações missionais pretendidas por Deus em confiança, alegria e liberdade. Receio que os muçulmanos tenham a ideia de que a fé em Jesus exija um repúdio a Alá como sendo mal, e que isso represente uma enorme barreira à compreensão da verdade e da bondade do evangelho. Muitos missionários com vasta experiência em guiar muçulmanos à fé em Jesus através do contato pessoal testemunham que essa é uma mensagem missiologicamente difícil de ser transmitida, sendo contraproducente ao testemunho do evangelho (ver, por exemplo, Greenlee, Naylor, Travis).

No entanto, como cristão, sei que devo viver com esperança e em oração, não com medo. Mas então, pelo que eu espero e oro? Espero e oro para que as partes envolvidas reconsiderem exatamente o que está em jogo enquanto ouvem a sabedoria de outras pessoas (incluindo missiólogos). Espero e oro para que, com sabedoria, humildade e destemor, aproximem-se do caminho que honre a Deus e transmita o evangelho cristão a outras pessoas. Acima de tudo, não importa o que aconteça na Wheaton, espero e oro para que a comunidade evangélica nos Estados Unidos seja energizada para mostrar sabiamente o amor e formas apropriadas de respeito aos muçulmanos na América – e que isso contribua para uma abertura no testemunho do evangelho, bem como para uma sociedade civil mais pacífica. Finalmente, como o nosso campo é o da missiologia, espero e oro para que os missiólogos possam trazer as ideias e os entendimentos que forjaram nos lugares distantes a fim de que sejam discernidos com coragem e clareza pelos aos evangélicos norte-americanos hoje, sejam eles seminaristas, professores universitários, administradores, e que eles também alcancem empresários, executivos e membros de conselhos. Espero e oro para que possamos ajudar outras pessoas a entender que boas intenções não são suficientes, para que atos e pronunciamentos teatrais sejam alicerçados por entendimentos profundos de todos os significados relevantes, culturais e doutrinais a fim de se evitar ambiguidades, mal-entendidos e até mesmo heresias. De outro modo, espero que tenha ficado claro que esse engajamento da linha de frente para com os “outros sociais” feito de maneira improvisada com pessoas despreparadas leva inevitavelmente à confusão, e que os julgamentos daqueles que não são igualmente engajados são frequentemente e profundamente equivocados, e que essa linha de frente dos trabalhadores devidamente preparados precisa de nossa valorização e apoio. Por fim, espero e oro para que possamos transformar isso em um momento de aprendizado que beneficie toda a comunidade evangélica, tanto no âmbito do nosso testemunho do evangelho quanto em nossa participação na sociedade civil.

Sobre o autor
Robert J. Priest é Professor de Estudos Internacionais na G.W. Aldeen e Professor de Missão e Antropologia na Trinity Evangelical Divinity School.

 

WHEATON COLLEGE, UM DEUS E O DIÁLOGO MUÇULMANO-CRISTÃO: O PASSADO RECENTE E O PRESENTE DIFÍCIL

Brian M. Howell

 

Em 7 de dezembro, em resposta aos ataques armados realizados em San Bernardino (2015), o candidato presidencial republicano Donald Trump anunciou, em uma manifestação de campanha na Carolina do Sul, o seu apoio a uma “completa e total proibição de muçulmanos entrarem nos Estados Unidos”.1 O comentário surgiu como o eco de uma ligação feita por Franklin Graham, CEO da Associação Evangelística Billy Graham, para que se proibisse a imigração muçulmana após um ataque que deixou quatro fuzileiros navais mortos em Chattanooga, TN, em julho daquele ano.2 Vários dias antes da proposta de Trump, o presidente da Liberty University, Jerry Falwell Jr., falando na convocação semanal da universidade, incentivou os alunos a solicitarem o porte de armas, afirmando que: “Se mais pessoas boas tivessem licenças para o porte de armas, poderíamos acabar com esses muçulmanos antes que eles entrassem…”.3

Como resposta à retórica política e religiosa que parece estigmatizar todos os muçulmanos como uniformemente violentos e perigosos, vários membros da comunidade da Wheaton College tomaram medidas para criar conexões com membros muçulmanos dessa comunidade a fim de lhes comunicar amor e atenção. Essas ações incluíram a entrega de flores e notas a um centro islâmico local, a elaboração de uma carta aberta ao Dr. Falwell condenando suas observações e, o que seria o gesto mais proeminente, o compromisso da professora de ciências políticas Larycia Hawkins de usar um hijab (o véu típico da vestimenta feminina) em solidariedade aos muçulmanos durante o restante do Advento [tempo de preparação dos cristãos para o Natal].

No anúncio dessa sua ação, publicada em sua página pessoal do Facebook em 10 de dezembro [2015], a Dra. Hawkins publicou duas fotos de si mesma usando um lenço no cabelo e uma declaração de 366 palavras incentivando outras pessoas a permanecerem em “solidariedade incorporada” para com os muçulmanos como uma expressão da humanidade em comum, e que os cristãos o fizessem por solidariedade religiosa. Ela chamou esse seu ato de “Expressão de sua Adoração no Advento”, e pediu a todos que documentassem suas experiências e as publicassem nas mídias sociais.

Todas essas ações chamaram atenção considerável4, bem como receberam críticas de vários comentaristas políticos e teológicos, mas uma afirmação, em particular, destacou-se e recebeu mais atenção. Ao pedir solidariedade, Hawkins escreveu: “Eu me posiciono em solidariedade religiosa junto aos muçulmanos porque eles, como eu, uma cristã, são pessoas do Livro. E, como o papa Francisco declarou na semana passada, adoramos o mesmo Deus”.5

Essa não foi a primeira vez que questões sobre as relações entre muçulmanos e cristãos foram levantadas na Wheaton College. Em 2007, o ex-presidente da Wheaton, Duane Litfin, e o atual reitor, Stanton Jones, assinaram o “Amando a Deus e ao Próximo”, um documento redigido no Yale Center for Faith and Culture [Centro pela Fé e Cultura da Universidade de Yale], destacando áreas em que muçulmanos e cristãos estão de acordo. Depois que o documento foi criticado por alguns líderes evangélicos, incluindo John Piper (Wheaton, turma de 1968), Al Mohler e Focus on the Family, eles removeram seus nomes. O Presidente Litfin foi citado no jornal do campus, no qual ele afirma que o documento

não foi elaborado com cuidado suficiente para se evitar incentivar essa premissa básica da religião civil, isto é, que todos nós estamos adorando o mesmo Deus, escalando a mesma montanha, apenas seguindo caminhos diferentes. […] Falar desqualificadamente de “nosso amor comum a Deus”, como se o Alá do Alcorão e o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo fossem o mesmo, e como se o significado de “amar a Deus” nessas duas bases de fé significasse a mesma coisa, é dizer mais do que estou disposto a conceder. Não critico outras pessoas que não compartilham desses escrúpulos. Mas quanto a mim, eu precisava me afastar.”6

Esse evento ocorreu no primeiro ano de Hawkins na Wheaton, e não está claro se ela refletiu sobre o assunto quando redigiu suas próprias declarações. No entanto, citando o papa Francisco e, mais tarde o teólogo de Yale, Miroslav Volf, e Timothy George, do Wheaton Advisory Life Trustee e ex-reitor da Beeson Divinity School (dentre outros), Hawkins considerou que suas palavras estariam dentro do escopo da declaração de fé da faculdade, e eram teologicamente defensáveis. O que rapidamente ficou claro, porém, como na declaração “Deus amoroso …”, é que alguns – incluindo administradores – entenderam que a ideia de cristãos e muçulmanos adorando o “mesmo deus” contradizia os compromissos teológicos com os quais todos os professores deveriam concordar. Em 15 de dezembro, Hawkins foi convidada a se reunir com o reitor, outros membros da administração e representantes do corpo docente, e foi informada de que seria colocada em licença administrativa remunerada, além de ser “convidada” a fornecer uma explicação por escrito sobre suas declarações. No tiroteio de mídia que se seguiu, houve artigos nos jornais The New York Times, Washington Post, The Atlantic, The Guardian (Reino Unido), USA Today e em muitos mais. Editoriais com posicionamento de opinião foram escritos pelos dois lados do debate. Mulheres muçulmanas escreveram artigos tanto elogiando quanto criticando as ações de Hawkins. Estudiosos bíblicos, historiadores, cientistas sociais e teólogos de várias tradições escreveram matérias que também expressavam tanto apoio como crítica.

No campus, as opiniões eram igualmente mistas. Aproximadamente 100 estudantes participaram de um protesto no campus, e apresentaram petições ao presidente Phil Ryken pela reintegração da Dra. Hawkins. Alguns poucos acabaram apoiando a ação administrativa, e vários outros escreveram posts em seus blogs expressando apoio semelhante. A voz do corpo docente foi silenciada enquanto as discussões institucionais oficiais e legais estavam em andamento. Inquestionavelmente, houve um forte apoio à Profa. Hawkins, e preocupações em relação ao processo. Ao mesmo tempo, alguns membros do corpo docente manifestaram apoio às preocupações teológicas expressas pelas ações da administração.

A pedido da administração, Hawkins forneceu à faculdade uma justificativa por escrito de suas declarações. Esse documento, tornado público em 5 de janeiro (disponível aqui), explicou como ela entendeu que a sua afirmação de que muçulmanos e cristãos adoram o mesmo Deus não era contraditória aos compromissos para com a teologia trinitária, a teologia da salvação através de Cristo, e outras doutrinas explícitas na Declaração de Fé da faculdade, todas as quais ela afirma continuar a defender. Ao descrever sua compreensão da noção de “mesmo deus”, ela escreve:

Como [Timothy George, John Stackhouse, Scot McKnight, Miroslav Volf e os escritos pontificiais pós-Vaticano II] reconheço que a afirmação “adoramos o mesmo Deus” é um “sim” e um “não” simultâneos à questão de saber se cristãos e muçulmanos (assim como judeus) se voltam para o mesmo objeto de adoração, a saber, o “Deus e Pai de todos, que está sobre todos, através de todos e em todos” (Ef 4.6).

Após receber o documento, os administradores da faculdade solicitaram que Hawkins fornecesse explicações adicionais pessoalmente ao Conselho de Administração como condição para permanecer no cargo. Ela recusou esse pedido e, a partir desse momento, começaram negociações transitando entre advogados representando os dois lados. Em 4 de janeiro, a Dra. Hawkins recebeu um aviso de rescisão de 38 páginas. Embora esse documento não tenha sido divulgado na íntegra, várias declarações à imprensa sugeriram que a causa da revogação da posse e da destituição da função que exercia na faculdade fora de âmbito teológico e contratual, relacionada à “insubordinação” ou à sua falta de vontade de participar de discussões em curso, a despeito de o emprego estar assegurado.

Deve-se ressaltar que a faculdade publicou uma série de notas sobre as várias declarações feitas pela professora Hawkins e demais professores e estudantes, apoiando a liberdade de todos, estudantes e funcionários da Wheaton, de expressar suas opiniões sobre a solidariedade religiosa. Eles foram muito claros que a decisão de suspender Hawkins não se devia à sua decisão de usar o hijab (embora vários comentaristas tenham criticado tal ação), mas à “falta de clareza” em torno de suas declarações consideradas de natureza teológica, particularmente a de que cristãos e muçulmanos adoram o “mesmo deus”. Eles negaram que raça ou gênero tenham sido fatores que pesaram em sua decisão, pois todos estavam cientes de que vários observadores notavam a dinâmica da única professora titular negra que havia recebido o que era, indiscutivelmente, uma resposta administrativa excepcionalmente dura.7 A administração da Wheaton publicou uma página com respostas a perguntas frequentes (FAQ) em seu site, abordando uma série de questões que foram levantadas em torno da suspensão da Dra. Hawkins.

Parece claro que isso se tornou uma espécie de teste de Rorschach para aqueles que se perguntam sobre o estado da Wheaton College, do evangelicalismo e até do cristianismo dos EUA. Para alguns, é mais uma evidência da mentalidade curta, cultural e racialmente míope do evangelicalismo norte-americano, deslizando para a irrelevância. Para outros, é o caso de uma instituição enfrentando as forças do liberalismo e do pluralismo que desvalorizariam as reivindicações da verdade do evangelho e os distintivos teológicos cristãos em nome da tolerância. Embora o caso particular da Dra. Hawkins já esteja resolvido, fica claro que essas perguntas e ações atingiram áreas vitais da conversa e missão cristãs; elas certamente merecem uma reflexão ponderada que seja bíblica, cultural e teologicamente correta.

  1. http://www.cnn.com/2015/12/07/politics/donald-trump-muslim-ban-immigration/
  2. http://www.christianpost.com/news/evangelicals-condemn-franklin-grahams-call-to-ban-muslim-immigration-after-chattanooga-shooting-141697/pageall.html
  3. https://www.washingtonpost.com/news/acts-of-faith/wp/2015/12/05/liberty-university-president-if-more-good-people-had-concealed-guns-we-could-end-those-muslims/
  4. A visita da faculdade Wheaton ao Centro Islâmico de Wheaton foi compartilhada nas mídias sociais mais de 500 vezes, atingindo mais de 50.000 pessoas. Uma carta aberta a Jerry Falwell Jr., escrita por estudantes da Wheaton e publicada originalmente no jornal da escola (o Wheaton Record) foi reimpressa no Washington Post. A publicação de Larycia Hawkins no Facebook foi veiculada pela primeira vez pelo Chicago Tribune, depois pelo Christian Post on-line, antes de circular amplamente entre um grande número de meios de comunicação on-line e impressos. A cobertura acabaria se estendendo à televisão, à National Public Radio, a vários canais europeus e a inúmeros blogs e publicações on-line.
  5. Uma dos membros da faculdade que participaram do envio de flores e notas para o Centro Islâmico de Wheaton também escreveu que cristãos e muçulmanos compartilham da adoração ao “único Deus verdadeiro”. Sua nota, em papel timbrado da Wheaton, foi publicada na página do ICW no Facebook, e também atraiu críticas e preocupações administrativas. Também solicitaram que ela fornecesse uma resposta por escrito à administração, que foi aceita sem a necessidade de ações subsequentes.
  6. Veja de modo mais completo aqui: http://www.acommonword.com/wheaton-college-administrators-remove-names-from-christian-muslim-statement/
  7. A única outra ocasião em que um membro do corpo docente foi colocado em licença administrativa nessas últimas duas décadas foi num caso em que um professor foi acusado (e condenado posteriormente) de possuir e comercializar pornografia infantil.

 

Sobre o autor
Brian M. Howell é professor de Antropologia na Wheaton College.

 

SERÁ QUE MUÇULMANOS E CRISTÃOS ADORAM O MESMO DEUS?

Miriam Adeney

 

Que outro Deus existe por aí? No universo inteiro existe apenas um só Deus. Contudo, a compreensão humana a respeito de Deus possui muitas variações. Muito embora Deus seja o mesmo em qualquer lugar, e não se altere a despeito daquilo que se pense a seu respeito, as maneiras usadas pelas pessoas para descrevê-lo e entendê-lo diferem de maneiras gritantes.

Nenhuma compreensão de nossa parte a seu respeito será perfeitamente adequada. Nenhum de nós compreende Deus perfeitamente ou integralmente. Ainda assim, por mais incompletas que as nossas expressões possam ser, uma verdadeira percepção de Deus deve incluí-lo como sendo o criador do cosmos, tendo escolhido assumir a forma humana, que adentrou em nossas dores e vulnerabilidades chegando ao ponto de conhecer a morte e de fato morrer, irrompendo o outro lado a fim de gerar (ou demonstrar) nova força de vida, a saber, o poder da ressurreição. O arco dessa história mostra uma dimensão essencial da natureza de Deus. Demonstra o cerne de quem Deus é.

Será que os muçulmanos entendem Deus dessa maneira? Ambos, muçulmanos e cristãos, afirmam que Deus é o criador e o sustentador do universo, e é também o consumador final de toda a história. Deus é onipotente, Deus é santo e Deus é misericordioso. Por ter criado todos nós, Deus não abandona a raça humana em momento algum. Pelo contrário, ele continua a se importar conosco ao nos enviar profetas e as Escrituras. Todas as três vertentes da fé abraâmica afirmam que Deus é um. Há apenas um só Deus, e não uma pluralidade de deidades.

Todavia, os muçulmanos não creem que Deus assumiu forma humana na pessoa de Jesus. Embora vejam a Jesus como sendo um grande profeta de Deus, e tenham um grande respeito por ele, os muçulmanos não adoram a Jesus como sendo Deus. Na verdade, eles condenam isso. Adorar a Jesus seria uma expressão máxima de pecado a ser evitado, o de tratar algo como sendo Deus.

A maioria dos muçulmanos também não acredita que Jesus morreu na cruz. Muitos creem que embora homens maliciosos pretendessem matar Jesus, Deus não permitiu que seu santo profeta morresse a vergonhosa morte de um criminoso. Deus arrebatou Jesus, e um anjo ou aparição ou outra pessoa, possivelmente Judas, tomou o lugar de Jesus na cruz. Claramente, então, para eles Jesus não ressuscitou dos mortos.

Muçulmanos e cristãos têm o mesmo entendimento de Deus? Em parte, mas apenas em parte. Juntos, celebramos as misericórdias de Deus. Em contraste com o budismo e o confucionismo, por exemplo, as crenças abraâmicas afirmam a misericórdia de Deus expressa por meio de seus dons na natureza, na comunidade humana, e na sabedoria das escrituras, na ética e na revelação geral. No entanto, essa misericórdia é uma sombra pálida da chocante misericórdia que impulsionou Jesus à terra e à cruz. Aquela misericórdia radical que chamamos de graça. Se, de fato, a encarnação e a morte de Jesus são expressões essenciais da natureza de Deus, os entendimentos muçulmanos e cristãos de Deus são realmente muito diferentes.

E quanto à terminologia, especificamente a questão de se usar a palavra Alá para se referir ao Deus e pai de Jesus? Historicamente e até o presente, a palavra Alá tem sido usada nas Bíblias em todo o mundo muçulmano, das Bíblias árabes às Bíblias indonésias. Nelas, Gênesis começa com: “No princípio, Alá criou o céu e a terra”. Neste presente momento, os cristãos da Malásia – católicos e todos os tipos de protestantes – lutam pelo direito de usar a palavra Alá. O governo exige que eles usem a palavra Tuhan, que significa “Senhor” ou “Sr”. Mas o termo Tuhan não atribui a conotação de criador do cosmos à palavra. É muito pequeno e limitado.

Afinal, muçulmanos e cristãos adoram o mesmo Deus? Dificilmente essa seria a pergunta certa a se fazer. Mais apropriado seria perguntar onde podemos construir pontes junto aos muçulmanos por meio de entendimentos compartilhados (posicionamento que eu presumo ter sido a intenção da autora do texto, membro da faculdade de Wheaton, na melhor das intenções, apesar de sua redação infeliz) –, e onde devemos articular claramente a diferença, a saber: o que a encarnação, a morte e a ressurreição de Jesus nos mostram sobre a natureza de Deus.

 

Sobre a autora
Miram Adeney é professora associada de Estudos Cristãos Mundiais na Seattle Pacific University e autora de Kingdom without Borders: The Untold Story of Global Cristianity [Reino sem Fronteiras: A História Não Contada do Cristianismo Global].

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