em Movimento Missionário Global

O impacto da igreja chinesa para o cenário missionário global

por Wellington Barbosa

Brasil e China são parte de um bloco econômico que agora está enfrentando algumas crises, os BRICS. Temos muitas similaridades e diferenças. Nesse artigo quero pensar como podemos aprender sobre a China, seu movimento econômico e missionário e tentar avaliar como podemos mudar nossos paradigmas.

De 28 de setembro a 1 de outubro de 2015 aconteceu em Hong Kong a primeira Conferência Mission China 2030, que reuniu 900 líderes chineses continentais para pensarem e agirem sobre a missão. É impossível pensar sobre China, sem olhar o passado. Mais impossível ainda, no entanto, é olhar para o futuro missionário global sem a presença do grande dragão vermelho.

Em 1949, os missionários estrangeiros foram expulsos da China sob a tutela do governo comunista. A igreja foi perseguida, muitos líderes foram presos, torturados e alguns migraram para países livres, onde pudessem exercer sua fé. A igreja na China nas décadas seguintes tornou-se uma igreja rural, com líderes leigos e perseguida. O ocidente orou, mobilizou e enviou centenas, possivelmente, até milhares de missionários. Estima-se que desde o pioneiro Robert Morrison até o início deste século a China tenha recebido aproximadamente 20.000 missionários transculturais.

A igreja chinesa também tem passado por um ajuste expressivo nas duas últimas décadas, deixando cada vez mais de ser rural, liderada por idosos leigos e tornando-se urbana, com características marcantes apesar das dicotomias apresentadas em seu próprio contexto tais como: ruralidade e urbanização, falta de treinamento apropriado para as igrejas rurais onde há muitas seitas, uma geração de líderes jovens totalmente diferente de seus predecessores e cada vez menos perseguição por parte do governo. Fatores como estes nos fazem perceber que a igreja na China pode estar despontando para ser uma das maiores potências missionárias da história.

Em 2013, um grupo de líderes chineses que não puderam participar do III Congresso do Movimento Lausanne na Cidade do Cabo, África do Sul, reuniram-se em Seul, na Coréia do Sul, e chegaram a conclusão de que a China está em dívida com o movimento missionário global pelo fato de já terem recebido 20.000 missionários. Assim, seu desejo é de que até 2030 possam enviar 20.000 chineses para os povos não-alcançados. Iniciativas heróicas como o “De Volta para Jerusalém” (Back To Jerusalem – BTJ) têm sido avaliadas pelos seus erros e acertos e a igreja chinesa começa a entender a necessidade de treinamento missionário apropriado e de um melhor cuidado missionário. No encontro ocorrido em setembro de 2015, dos 900 presentes, 200 dedicaram suas vidas para irem como as primícias destes que a igreja na China enviará.

Qual lição a igreja brasileira pode tirar com a igreja chinesa? Seu DNA, sua perseverança e sua adaptação aos novos tempos e desafios nos fazem perceber que precisamos aprender com os nossos irmãos do outro lado do mundo. Apesar deles abertamente quererem absorver de nós brasileiros o modelo missionário que temos, e pedirem ajuda para os treinarmos, precisamos ainda avaliar e rever nossas próprias políticas missionárias.

Os chineses, ávidos empreendedores e disciplinados para os estudos, conseguiram mudar a órbita de seu futuro. Ezra Jin, um cristão de meia idade, pastoreia uma das igrejas mais vibrantes da capital chinesa, Pequim, e diz que a única instância capaz de confrontar o comunismo na China é a igreja. “Dentro de 30 anos é inevitável que o governo abra sua política acerca do cristianismo na China” acredita.

A igreja chinesa, assim como no mundo de negócios chinês, entendeu que a renovação na liderança seria a razão de sua sobrevivência nesse novo milênio. O perfil da liderança econômica assim como a eclesiástica na China são de jovens com menos de 40 anos de idade. As igrejas que antes eram domésticas, seguem crescendo em centros urbanos, entre imigrantes. Seus líderes já não são os antigos senhores carismáticos, mas jovens graduados no exterior, ou nas melhores escolas da China, homens de negócio, líderes na educação e instâncias da sociedade. É fato que a igreja na China cresce, mesmo em meio a sofrimento. Ainda há muitos desafios internos, mas eles têm conseguido entender seu papel global.

Logo, deixo algumas considerações para pensarmos:

– Por quê não vemos no Brasil, jovens líderes de expressão nacional abaixo dos 40 anos de idade?

– Por que a liderança evangélica brasileira não consegue investir nos jovens?

– Por que o movimento missionário brasileiro ainda é em sua maioria liderado por homens e mulheres que não passam o bastão?

  • E por que, com uma igreja tão grande, enviamos tão pouco aos campos missionários?

Daquele encontro, 200 se comprometeram a irem aos campos. Quando pensamos em nossa igreja brasileira, temos muito mais a aprender do que a ensinar.

Que aprendamos com nossos irmãos e irmãs chineses.

Wellington Barbosa – brasileiro, serviu por 5 anos na Ásia, bacharel em teologia, pós-graduado em Antropologia Cultural e Estudos da Missão e Mestrado em Gerenciamento e Marketing pela UKSW, Indonésia. É consultor de novas frentes missiológicas na Missão Kairós.

Notas

  1. De acordo com o Seoul Commitment (compromisso de Seul), publicado pelo encontro da ACLF, que aconteceu na Coreia do Sul, em 2013.
  2. JIN, Daniel. Mission China Today Magazine,, Páginas 34-36, Junho 2013 3. Conforme relato do Dr. Jeferson Chagas, representante brasileiro e um dos palestrantes no Mission China 2030.
  3. JIN, Ezra. A Landmark Encounter the significante of the aclf for the church in China. Disponível em https://www.lausanne.org/content/lga/2013-11/a-landmark-encounter-the-significance-of-the-aclf-for-the-church-in-china. Acesso em 25/11/2015
  4. LAUSANNE MOVEMENT, Inaugural Mission China 2030 Conference. Disponível em: https://www.lausanne.org/news-releases/inaugural-mission-china-2030-conference. Acesso em 25/11/2015

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