Quando as crianças abriram as portas para o evangelho nos Andes equatorianos

Quando as crianças abriram as portas para o evangelho nos Andes equatorianos


O ministério infantil no plantio da Igreja Casa de Dios

Por Juanna Rodrigues Quinaluisa

Nos Andes equatorianos, anunciar o evangelho vai muito além de traduzir palavras ou repetir métodos prontos de evangelização. Significa compreender uma cultura profundamente marcada pela religiosidade popular, pelas tradições ancestrais e por uma forte visão comunitária da vida. Entender a cosmovisão de um povo é essencial para conhecê-lo e entender o porquê de cada comportamento.

Na cidade de Latacunga, localizada na província de Cotopaxi, no Equador, muitas comunidades rurais vivem influenciadas pela cosmovisão andina. Mesmo após séculos de colonização e forte presença católica, práticas espirituais ancestrais continuam presentes no cotidiano das famílias. Em muitos povoados, o padre ainda exerce grande influência social, enquanto rituais populares xamânicos e crenças tradicionais convivem lado a lado com o cristianismo.

Foi nesse contexto que nasceu a Igreja Casa de Dios.

Mas o mais interessante nessa história é que o início da igreja não aconteceu dentro de um templo. Não começou com grandes estruturas, eventos massivos ou programas sofisticados. Tudo começou nas praças, nas ruas e, principalmente, através das crianças.

Enquanto muitos adultos observavam com distância e desconfiança a mensagem do evangelho, as crianças se aproximavam com curiosidade, alegria e abertura. Elas ouviam as histórias bíblicas, participavam das atividades, aprendiam os cânticos e levavam para casa aquilo que tinham experimentado. Pouco a pouco, os pais começaram a se aproximar também.

O que inicialmente parecia apenas um trabalho evangelístico infantil acabou se tornando uma das principais bases do plantio da igreja.

A experiência da Igreja Casa de Dios mostra que o ministério infantil não deve ser tratado como um departamento secundário da igreja, mas como parte essencial da missão cristã. Em muitos contextos missionários, especialmente em regiões vulneráveis e culturalmente fechadas ao evangelho, as crianças podem se tornar pontes entre a igreja e a comunidade.

Esse processo do plantio nos trouxe a constatação de como o trabalho com as crianças contribuiu para o nascimento, crescimento e consolidação da Igreja Casa de Dios nos Andes equatorianos, mostrando que investir nas crianças é também investir na expansão do Reino de Deus.


O desafio missionário no contexto andino

Latacunga faz parte da cordilheira andina do Equador e carrega marcas profundas da cultura indígena (Quéchuas) e da influência católica construída ao longo da história. Em muitas comunidades rurais, a fé cristã ainda se mistura com práticas ancestrais, superstições e rituais populares.

Entre algumas famílias, por exemplo, permanece a prática da “limpa com cuy”, ritual realizado para afastar enfermidades, maldições ou o chamado “mau-olhado”. Em outros casos, decisões familiares importantes continuam sendo influenciadas pela religiosidade popular e pela tradição comunitária.

Nesse cenário, o crescimento evangélico na região aconteceu de forma lenta. Os primeiros missionários protestantes chegaram à região de Cotopaxi na década de 1960. O trabalho começou principalmente na área rural, por meio da construção de relacionamentos, perfuração de poços e evangelização comunitária.

As dificuldades eram muitas.

Houve perseguições, ameaças e forte resistência religiosa. Alguns obreiros locais tiveram suas vidas colocadas em risco simplesmente por pregarem o evangelho. Ainda assim, a semente foi lançada.

Décadas depois, mesmo com o crescimento populacional da região, a presença evangélica continua pequena em muitas áreas rurais. Isso revela uma necessidade urgente de novos plantios de igrejas e de estratégias missionárias contextualizadas.

Foi dentro dessa realidade que a Igreja Casa de Dios começou sua caminhada.


Das praças ao nascimento de uma igreja

Antes de existir um templo, havia cultos ao ar livre.

Os primeiros encontros aconteciam nas praças. Famílias se reuniam para momentos simples de oração, louvor e pregação da Palavra. As atividades eram públicas, abertas e aconteciam no meio da rotina da comunidade.

Nesse período, também ganhou destaque o trabalho realizado pela Fundação Resgate, projeto voltado para crianças em situação de vulnerabilidade social. Vinculamos o trabalho de evangelismo ao acolhimento das crianças engraxates. Além de ensinar pequenas profissões e oferecer apoio social, o projeto anunciava o evangelho às crianças.

A princípio, o foco não era necessariamente criar uma igreja no formato convencional — alugar um templo, ter cadeiras e a imagem de uma igreja construída. O objetivo era servir, evangelizar e alcançar vidas.

Mas algo começou a chamar atenção: enquanto muitos adultos permaneciam distantes, as crianças se aproximavam rapidamente. Quando nos reuníamos em uma das praças principais da cidade com um violão e tratados bíblicos para o evangelismo — o qual serviu como gancho para chamar a atenção das pessoas —, elas tinham curiosidade do que se tratava aquele papelzinho que queríamos entregar.

Elas participavam dos cânticos, ouviam atentamente as histórias bíblicas e convidavam outras crianças para os encontros. Muitas voltavam para casa contando aos pais aquilo que haviam aprendido.

Sem perceber, o trabalho infantil começou a abrir portas para famílias inteiras.

O que parecia apenas um trabalho com crianças tornou-se o início de uma comunidade de fé.

Essa experiência confirma algo importante no contexto missionário: muitas vezes Deus usa aquilo que parece pequeno para estabelecer algo duradouro.


Crianças como ponte para o evangelho

Com o passar do tempo, ficou evidente que as crianças não eram apenas participantes das atividades; elas estavam se tornando instrumentos de aproximação entre a igreja e a comunidade.

Muitas famílias chegaram à Igreja Casa de Dios porque, primeiro, seus filhos tiveram contato com o evangelho.

Isso aconteceu de maneira ainda mais forte durante programas evangelísticos realizados em parceria com a organização Samaritan’s Purse. Um dos eventos reuniu cerca de 250 crianças da comunidade.

Utilizando recursos visuais, histórias ilustradas, músicas e atividades lúdicas, o evangelho foi apresentado de forma simples e acessível. As crianças ouviram sobre a criação, a queda, o pecado, a morte e a redenção em Cristo.

Depois do evento evangelístico, iniciou-se um processo de discipulado infantil que durou vários meses.

Os encontros semanais não se limitavam a transmitir informação bíblica. Havia relacionamento, cuidado, acolhimento e acompanhamento espiritual.

Nem todas as crianças permaneceram.

Mas algumas continuaram firmes no discipulado, cresceram dentro da comunidade cristã e ajudaram a consolidar a igreja nascente.

Mais do que números, o impacto foi percebido na transformação das famílias.

Pais que inicialmente apenas acompanhavam os filhos começaram a frequentar os cultos. Alguns se converteram. Outros passaram a ouvir a Palavra regularmente. A igreja começou a criar raízes dentro da comunidade.

Essa experiência mostra que o ministério infantil possui um enorme potencial missionário. Crianças alcançadas pelo evangelho frequentemente se tornam influência dentro de seus próprios lares.

Em contextos onde os adultos demonstram resistência inicial ao evangelho, as crianças podem abrir caminhos que dificilmente seriam acessados de outra maneira.


O ministério infantil como estratégia missionária

Durante muito tempo, muitas igrejas trataram o ministério infantil apenas como uma área recreativa ou como um espaço para ocupar as crianças enquanto os adultos participam do culto. Entretanto, a experiência da Igreja Casa de Dios mostra uma realidade diferente. O ministério infantil pode ser uma ferramenta missionária poderosa.

Ronaldo Lidório afirma que o plantio de igrejas exige sensibilidade para identificar grupos mais receptivos ao evangelho. No contexto andino, as crianças demonstraram exatamente essa abertura.

Dan Brewster também destaca que as crianças não devem ser vistas apenas como “igreja do futuro”, mas como parte ativa da missão da igreja no presente. Essa visão transformou a maneira como a Casa de Dios passou a enxergar o trabalho infantil.

As crianças deixaram de ser vistas apenas como participantes de atividades e passaram a ser consideradas pequenos discípulos em formação. Isso mudou prioridades. Mesmo sem estrutura adequada, a igreja continuou investindo no discipulado infantil.

As aulas aconteciam no quintal da casa pastoral. Duas professoras dividiam as crianças por faixa etária. Não havia salas modernas nem muitos recursos pedagógicos. Ainda assim, havia uma convicção clara: a Palavra de Deus precisava ser ensinada.

A força do ministério infantil nunca esteve na estrutura física, mas na fidelidade ao evangelho e no relacionamento construído com as crianças e suas famílias.


Evangelização infantil em um contexto de vulnerabilidade

Grande parte das crianças alcançadas pela Igreja Casa de Dios vive em contextos marcados por dificuldades sociais.

Muitas famílias trabalham longas jornadas nas floriculturas da região. Algumas vivem em terrenos compartilhados com parentes. O acesso à internet é limitado e a realidade econômica frequentemente é difícil.

Nesse cenário, o evangelho também se manifesta como acolhimento, dignidade e esperança. Quando uma criança escuta que é amada por Deus, que possui valor e propósito, algo profundo começa a acontecer. A igreja passa a representar um espaço seguro.

Por isso, o ministério infantil da Casa de Dios nunca se limitou apenas ao ensino bíblico formal. A utilização de jogos infantis e lúdicos, refeições compartilhadas, músicas, dramatizações e atividades em grupo também fazem parte da missão.

A criança não é vista apenas como alguém que precisa decorar versículos só por decorar, nem a entrega de uma folha para pintar como mero cumprimento de tarefa, mas como um ser humano completo, com necessidades emocionais, sociais e espirituais.

Essa visão se aproxima daquilo que René Padilla chamou de missão integral: anunciar o evangelho enquanto se demonstra, na prática, o amor de Deus.


Discipulado que atravessa gerações

Um dos aspectos mais belos da experiência da Igreja Casa de Dios é perceber como o discipulado infantil produziu frutos ao longo dos anos.

Algumas crianças que participaram das primeiras atividades evangelísticas hoje já são jovens envolvidos no serviço da igreja.

Alguns ajudam no ministério infantil. Outros participam da música, do evangelismo e das atividades comunitárias.

Isso revela algo importante: discipular crianças não produz apenas resultados imediatos. Produz continuidade.

John Piper afirma que a fé cristã está sempre a uma geração de distância da extinção, caso não seja transmitida às novas gerações.

Essa verdade se torna ainda mais forte em contextos missionários.

Quando uma igreja investe nas crianças, ela não está apenas pensando no futuro. Está fortalecendo o presente da comunidade cristã. Ao mesmo tempo, a experiência também mostra que nem todas as crianças permanecerão firmes na caminhada cristã.

Algumas se afastaram.

Essa realidade traz dor, mas também lembra que a conversão pertence ao Espírito Santo. O papel da igreja é continuar semeando, discipulando e crendo na obra do Espírito Santo, que chamará para a salvação pessoas de todas as línguas e etnias. E cremos que aqui, no meio dos Andes equatorianos, Deus tem pessoas escolhidas para si.


Juanna é missionária da Sepal, casada com Ruben e mãe de Clarissa e Samuel. Trabalha junto a seu esposo nos Andes equatorianos há 17 anos, plantando igreja e envolvida no ministério infantil.


Referências

BREWSTER, Dan. A criança, a missão e a igreja. Viçosa, MG: Ultimato, 2011.

BOSCH, David J. Missão transformadora: mudanças de paradigma na teologia da missão. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal, 2012.

HERNÁNDEZ, Juan. Teología de la infancia y misión. Madrid: CLIE, 2012.

LIDÓRIO, Ronaldo. Plantando igrejas: princípios e práticas. Viçosa, MG: Ultimato, 2006.

PADILLA, René. Missão integral: o reino de Deus e a igreja. São Paulo: FTL, 1999.

PIPER, John. Que as nações se alegrem!: a supremacia de Deus em missões. São Paulo: Cultura Cristã, 2001.

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