Influencers Evangélicos, a Politização da Fé e a Missão da Igreja

De acordo com a pesquisa “O Cenário Religioso Mundial”, de 2012, 1,1 bilhão de pessoas consideram-se sem nenhuma afiliação religiosa
Marcos Amado
O desafio das novas realidades
Quando vemos tamanha força do cristianismo no Sul-global, uma das perguntas que podem nos vir à mente é: como isso tem afetado a fibra ética e as condições socioeconômicas da nossa nação?
É incontestável que, no Brasil, igrejas evangélicas têm realizado um grande esforço para ser sal e luz em todas as esferas da sociedade, inclusive no alívio do sofrimento humano. Mas também é incontestável (não por culpa dos evangélicos, mas às vezes com a anuência deles) que a pobreza e a desigualdade continuam sendo uma realidade; os setores da educação e saúde estão entre os menos eficientes quando comparados a outras regiões do mundo; nossa produção industrial e de bens manufaturados, assim como nosso desenvolvimento tecnológico, são pífios; a violência e a criminalidade continuam com taxas altíssimas; a corrupção é rampante; o desemprego e a informalidade trabalhista afetam milhões de cidadãos. Quando somamos tudo isso à polarização política, o cenário não é nada alvissareiro.
O que tudo isso tem a ver com missões?
Não há dúvidas de que essa é uma realidade alarmante. Mas a relevância ou não desses acontecimentos para nossa reflexão missiológica dependerá de algumas considerações importantes. Uma delas é: o que queremos dizer quando mencionamos a expressão “A Missão de Deus”?
Nas últimas décadas a expressão se popularizou nos meios acadêmicos e não acadêmicos evangélicos brasileiros e, mesmo aqueles que não estão muito certos do seu significado, a utilizam de forma cada vez mais frequente. Parece-me que hoje já há uma aceitação quase generalizada de que “não é a igreja que tem uma missão de salvação a cumprir no mundo; é a missão do Filho e do Espírito através do Pai que inclui a igreja.”[2] E essa missão de salvação realizada por Deus, da qual a igreja é convidada a fazer parte, tem como objetivo a reconciliação de todas as coisas para com ele, por meio de Cristo Jesus.
A dificuldade maior surge quando tentamos definir qual é a nossa parte dentro da Missão de Deus de reconciliar todas as coisas para com ele. Resistirei à tentação de tentar apresentar uma “definição definitiva” e, em seu lugar, quero sugerir que ampliemos nossos horizontes por um momento e tentemos outro caminho. Tentarei fazer isso por meio de três suposições.
Primeiramente, suponhamos que nos dessem a oportunidade de usar um helicóptero extremamente sofisticado para ascender a uma altura em que pudéssemos ver o Brasil todo. Ao chegarmos à altura desejada, faríamos uso de um binóculo com tecnologia revolucionária que nos ajudaria a focar, através de filtros cristãos, as diferentes mazelas do nosso país no século 21. O que veríamos? Entre outras coisas, observaríamos:

• Povos ainda não alcançados com o Evangelho
• Crianças vivendo nas mais diversas situações de risco e vulnerabilidade
• Aumento crescente do nominalismo entre os cristãos evangélicos
• Urbanização desordenada e o sofrimento humano dela decorrente
• Pessoas que ainda não escutaram o evangelho
• Refugiados que, ao buscarem uma nova vida no Brasil, muitas vezes se deparam com situações difíceis
• Uma sociedade cada vez mais cética e materialista, que nos desafia a pensarmos em formas mais adequadas de apresentar o evangelho
• Grupos étnicos para os quais a Bíblia ainda não foi traduzida
• Supostos cristãos e não-cristãos fazendo uso da corrupção para enriquecimento ilícito
Agora, suponhamos que seja certo que quando Jesus desencadeou o início do fim e inaugurou o Reino de Deus entre nós, ele tinha em mente que seus discípulos fariam todo o possível para que a sociedade fosse impactada pelos valores desse Reino. Dentro desta linha de pensamento, enquanto o Reino não estiver plenamente estabelecido, a igreja, “na tensão criativa de, ao mesmo tempo, ser chamada para fora do mundo e ser enviada ao mundo, é desafiada a ser o jardim experimental de Deus na terra, um fragmento do reinado de Deus.”[3]
Finalmente, suponhamos que N. T. Wright esteja correto quando afirma que “a obra da salvação, em seu sentido pleno, é (1) sobre seres humanos por inteiro, não apenas almas; (2) sobre o presente, não simplesmente o futuro; e (3) sobre o que Deus faz através de nós, não apenas o que Deus faz em e para nós.”[4]
Considerando essas premissas, com quais das inúmeras realidades percebidas a partir do nosso helicóptero imaginário poderíamos ter certeza de que, ao nos engajarmos, estaríamos “fazendo missões”? Em outras palavras, levando em conta o contexto brasileiro e mundial, qual é, biblicamente falando, a expectativa que Deus tem de nós durante o espaço de tempo que vai desde a nossa conversão até o momento que nos encontraremos com Ele na eternidade? Eu destacaria quatro pontos basilares:
• Deus espera que reflitamos a sua imagem por onde passarmos,[5] o que contribuiria para que pudéssemos
• Promover os valores do Reino no contexto em que vivemos e atuamos,[6] permitindo com que
• Participemos no projeto dele de, em Cristo, reconciliar o cosmos para consigo mesmo,[7] e
• Proclamemos, até os confins da terra, que, na cruz, há perdão de pecados e restauração de todos os relacionamentos perfeitos que foram fragmentados no Éden.[8]
Se aceitarmos que esses pontos são essenciais, então as realidades sociais e econômicas do Brasil, assim como as mazelas vistas do alto de um imaginário voo de helicóptero, passam a ter uma grande relevância para nossa reflexão missiológica.
Afinal de contas,
Aqueles que sabem que Deus, um dia, enxugará todas as lágrimas não aceitarão com resignação as lágrimas dos que estão sofrendo. Qualquer pessoa que sabe que, um dia, não haverá mais enfermidade pode e deve antecipar ativamente a subjugação das doenças. E qualquer pessoa que acredita que o inimigo de Deus será derrotado já se oporá a ele agora. Pois tudo isso tem a ver com a salvação.”[9]
Entretanto, refletir a imagem de Deus e promover os valores do Reino diante de desafios desta magnitude não é uma tarefa simples. É imprescindível que tenhamos uma igreja que seja espiritualmente forte, teologicamente saudável e demonstre unidade no meio da diversidade.

Mas o que temos visto com cada vez mais frequência é o crescimento de um cristianismo muitas vezes individualista, descontextualizado, fragmentado e polarizado, que valoriza os eventos multitudinários, que cultua personalidades e influencers, que idolatra líderes políticos, aprecia a riqueza exacerbada e supervaloriza a estética e a “sentimentalização” da fé.
Sendo assim, o que estou propondo nesta série de artigos (e que tentarei demonstrar nas próximas semanas) é que precisamos fazer uma análise crítica sobre se a Igreja está suficientemente saudável para ser um instrumento nas mãos de Deus e testemunhar sobre o Senhor Jesus em todas as esferas da sociedade. Sem isso, nosso esforço para entender os desafios e oportunidades que surgem à partir da nossa participação na Missão de Deus pode se tornar pouco frutífero.
No próximo artigo: Como chegamos até aqui?
[1]Em um recente artigo publicado no New York Times, a clériga Anglicana Tish Warren resume algumas das implicações destas transformações: “Hoje, as três maiores igrejas protestantes em Paris são megas igrejas evangélicas afro-caribenhas de orientação carismática ou pentecostal.” (https://www.nytimes.com/2023/03/26/opinion/christianity-global-demographics.html)
[2]Moltmann, J. The Church in the Power of the Spirit. Minneapolis: Fortress Press, 1993, p. 64.
[3]Bosch, David. Missão Transformadora, p. 26-29.
[4]Wright, N. T. Surprised by Hope (pp. 200-201). HarperCollins. Edição do Kindle.
[5]Gênesis 1:26-27
[6]Mateus 5:14-16
[7]2 Coríntios 5:18-19
[8]Marcos 16:15-16; Efésios 1:7; Colossenses 1:19-20
[9]David J. Bosch, Transforming Mission, p. 400.




