In Missão no Século XXI

O Iluminismo, o Pós-Modernismo e o “Particularismo Escandaloso” da Mensagem Cristã

Marcos Amado

O que falarei a seguir contem vários pontos que são encontrados nos livros ‘Invitation to World Missions”, de Timothy Tennent (ainda não publicado em português) e no conhecido livro de David Bosch, “Missão Transformadora”. Os temas que eles abordam são realidades que acabaram afetando profundamente a igreja e o envolvimento missionário do cristão brasileiro.

Em 1979 o filósofo francês Jean-François Lyotard cunhou o termo pós-modernismo para descrever o desconforto que o ocidente experimentava como resultado da falência de pelo menos parte do projeto iluminista. Alguns estudiosos ainda não aceitam o termo pós-modernismo (ou pós-modernidade), e preferem a expressão “modernismo tardio”. Também vale lembrar que, mesmo com o pós-modernismo, as ideias do projeto iluminista continuam influenciando fortemente a sociedade ocidental. Há uma sobreposição entre o iluminismo e o pós-modernismo.

Mas seja como for, e como costuma ser o caso, esses processos de mudanças sociais que começam na Europa e nos Estados Unidos vão lentamente chegando ao Brasil à medida que nosso país avança, a passos cada vez mais acelerados, na direção de tornar-se uma sociedade que absorve (como um dos resultados da globalização) os valores e princípios que emanaram do iluminismo e, mais recentemente, do pós-modernismo.

Segundo Lyotard a cristandade e o Iluminismo eram duas “forças gêmeas” que forneceram os fundamentos para o mundo moderno, dando às sociedades ocidentais um sentido de coesão ao redor de uma verdade abrangente, baseada ou numa cosmovisão teísta-judaica-cristã, ou em uma crença na inevitabilidade do progresso, na confiança da razão humana e no aperfeiçoamento da humanidade.

David Bosch afirma que nesta etapa da história, os que se declinaram a favor do projeto iluminista passaram a negar “a pecaminosidade inerente da natureza humana, e propagou-se uma concepção notavelmente otimista da humanidade como sendo, em essência, boa” (p. 327)

Mas o iluminismo (também conhecido como modernismo) ruiu, pois ficou claro que o ser humano não era essencialmente bom nem estava se aperfeiçoando. O pós-modernismo surgiu com o colapso dessas crenças, com o colapso das estruturas de plausibilidade.

Isso levou ao surgimento do pluralismo relativista, à perda da fé na inevitabilidade do progresso da raça humana, e a uma crescente incerteza sobre as reivindicações de verdades absolutas ou normativas. Em relação ao cristianismo, o resultado foi uma crise cultural, teológica, eclesiástica e missionária.

Aquilo que Tennent chama de “o particularismo escandaloso” da mensagem cristã passou a ser cada vez mais inaceitável para os novos “iluminados”, que eram os que passaram a definir os valores da sociedade.

As denominações protestantes históricas, que perderam a posição privilegiada que tinham durante a cristandade, reagiram tentando evitar perder terreno. Essas igrejas, na Europa e nos Estados Unidos, acharam que era necessário fazer algo para manter a credibilidade dentro da cultura.

Nesse processo, as denominações foram abandonando sua confiança na autoridade e credibilidade das Escrituras. Isso levou a uma deterioração na confiança da supremacia de Jesus Cristo e na relevância universal da mensagem do Evangelho. Rapidamente o pluralismo relativista era quase tão agressivo nas principais igrejas como na sociedade de uma forma geral.

Isso fez com que, paulatinamente, qualquer argumentação lógica sobre missões e evangelismo ficasse naturalmente desacreditada. Muitos cristãos, juntamente com a sociedade em geral, começaram a associar os termos missões e missionários com intolerância e abuso.

Foram necessárias algumas décadas, e mesmo entendo que aqui estou correndo o risco de uma excessiva simplificação, creio que podemos afirmar que as reverberações desses acontecimentos acabaram chegando ao Brasil e afetaram a fibra missionária dos cristãos brasileiros.

O tempo não nos permite uma análise exaustiva, mas é possível citar pelo menos alguns exemplos dessa influência.

Já não são poucos os líderes de relevância nacional que, tanto dos púlpitos como por meio da mídia, começam a apresentar discursos teológicos e missiológicos distantes dos ensinamentos bíblicos.

Nesse contexto, um exemplo que raramente é relacionado à influência do iluminismo e do pós-modernismo é o movimento das mega-igrejas. Nos Estados Unidos esse movimento foi um esforço para que a igreja saísse da periferia da sociedade, uma reação à perda de relevância. Aqui no Brasil ele chegou na forma de estratégia de plantação de igrejas.

Os cultos e os programas dessas igrejas são planejados para que as pessoas tenham um tempo agradável e descontraído. Paulatinamente o “exclusivismo escandaloso” do Evangelho deixou de ser anunciado. Isso fez com que o Evangelho ensinado dos púlpitos dessas igrejas passasse a ser (com óbvias exceções) um “Evangelho do bem-estar e da felicidade”. Não é um Evangelho sem Cristo como alguns afirmam, mas, nessas pregações, Cristo serve para satisfazer as necessidades pessoais dos frequentadores. É um Evangelho de autoajuda.

Outro esforço realizado pela igreja para tornar-se relevante dentro de uma sociedade cética em relação às reivindicações de verdades absolutas foi o surgimento de grandes conferências, com palestrantes cristãos e não-cristãos, especialistas em suas áreas de atuação profissional, que se prestam a ensinar aos líderes cristãos quais estratégias são as mais indicadas para que suas organizações e igrejas se tornem maiores e mais influentes. Nesses eventos, muito se fala de administração, estatísticas, metodologias e ciências sociais, mas a Bíblia não é, necessariamente, o ponto de referência para as propostas oferecidas.

Tais eventos, quando chegaram ao Brasil, chegaram em um formato ‘enlatado’, sem nenhum esforço de contextualização ou adaptação, mas dando fórmulas (oriundas principalmente do hemisfério norte) para que o líder cristão tivesse êxito, mas êxito com grande ênfase nos aspectos gerenciais e de crescimento.

Com tudo isso, pouco a pouco conceitos como discipulados, sofrimento, entrega e sacrifício praticamente deixaram de fazer parte do nosso vocabulário. O mais importante era apresentar um Evangelho amigável e que produzisse grandes resultados numéricos.

Porém, sem conceitos como sofrimento, entrega e sacrifício não é possível fazer missões.  O filósofo cristão Soren Kierkegaard disse que “o cristianismo é a ferida mais profunda que pode ser imposta sobre uma pessoa, calculada na sua mais terrível escala para colidir com tudo que existe”. Em contraste, os novos movimentos, numa tentativa de tornar-se relevante de acordo com o espírito da nossa época, aprenderam a abraçar de maneira acrítica a cultura do entretenimento e as fórmulas para o sucesso ministerial.

De acordo com Newbigin, a força do iluminismo e do pós-modernismo fez com que “domesticássemos” nosso Evangelho. Ser testemunhas do Senhor Jesus deixou de ser uma prioridade. Além disso a igreja, em muitos casos, deixou de ser uma voz profética, com um evangelho radical que levasse seus membros a anunciarem, com entrega e sacrifício, a salvação que há em Cristo até os confins da terra.

Tudo isso sem contar o fato de que, no nosso afã de nos tornarmos relevantes de acordo com os padrões impostos pela cultura, nossos líderes cristãos passaram a atuar muito mais como Diretores Executivos de grandes organizações, do que como líderes-servo preocupados com o crescimento espiritual do rebanho.

Na minha opinião, se vamos realmente ser testemunhas do Senhor Jesus e de todo o seu ensinamento, precisamos, como sugere o ‘Compromisso da Cidade do Cabo’, voltar urgentemente à humildade, à integridade e à simplicidade. Precisamos de um profundo arrependimento que nos leve a um grande avivamento.

Que o Senhor tenha misericórdia de nós, ajudando-nos a caminhar nos Seus caminhos, fazendo o que é justo e direito.

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