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O vocacionado e a agência missionária: cooperadores ou competidores?

Felipe Fulanetto

INTRODUÇÃO

Aulas de ioga, mesquitas, provérbios confucionistas, meditações zen, horóscopo do dia, amuletos de proteção e outras práticas e objetos religiosos são parte do dia-a-dia de milhões de brasileiros. Essa realidade sincrética, antes vivenciada pelos missionários em seus respectivos campos, agora também afeta as igrejas e as agências enviadoras no Brasil, além de gerar um desafio hermenêutico para a teologia contemporânea.

Neste artigo, levantamos inquietudes latentes a respeito da relação cultura-fé dos cristãos evangélicos. Serão apontados alguns efeitos do pensamento pluralista sincrético na vida e na prática das igrejas, bem como na pessoa vocacionada à obra missionária e nas agências enviadoras. A partir disso, levantaremos a indagação: “Vocacionados e agências agem como cooperadores ou competidores?”. Na sequência, propomos um diálogo otimista hermenêutico-bíblico a fim de nortear nossas atitudes.

Quero ressaltar que este artigo não pretende ser pessimista, mas serve como uma alerta para todos nós. Críticas outrora feitas apenas aos pastores e líderes da igreja estendem-se aos missionários e líderes de agências. O objetivo é nos precavermos e reorientarmos nossas ações, assim como David Hesselgrave, em seu livro Paradigmas in Conflict (Paradigmas em Conflito), já o fez em 2005 ao levantar alguns dos pontos expostos.

PLURALISMO RELIGIOSO, UM RESUMO

O pluralismo religioso não é um fenômeno novo. No Império Romano, que produziu a globalização no seu tempo, a diversidade religiosa era um movimento não somente real, mas desejado. O intercâmbio de cultura, língua, mercadoria e tecnologia foi um marco extraordinário, inclusive para os moldes atuais. Nessas transações internacionais, os romanos tinham facilidade de adicionar novos deuses ao seu panteão, fomentando assim a pluralidade religiosa.

Já no mundo moderno, o expansionismo europeu colocou a igreja frente a um novo mundo, repleto de diferentes religiões, e colocou a hegemonia do cristianismo em xeque (CRAIG, 2010, p. 162). O encontro com religiões bem evoluídas e éticas oriundas da Índia, China e Japão levou muitos a se perguntar se realmente a fé cristã era a única verdadeira.

No século XVIII, junto com o Iluminismo, ganhou força o humanismo racional, que colocou o homem como centro do universo e a razão como sua maior arma. A verdade passou a ser ponderada por argumentos lógicos, relegando as demais experiências humanas (arte, música, estética e religião) a opções pessoais e privadas (HIBERT; SHAW; TIÉNOU, 2009, p. 20).

Em nossos dias de pós-modernidade, esse pensamento humanista abraça um relativismo moral e religioso e tende a questionar qualquer verdade ou valor absoluto, querendo reconhecer em todo ponto de vista a validez humana do outro. Acaba abrindo as portas para o que chamamos inclusivismo religioso[1]. Como John Stott salienta: “As denominadas metanarrativas – as grandes histórias que pretendem explicar a vida, como o cristianismo – têm se fragmentado e a verdade então passa a ser vista como algo pessoal e não público, como algo subjetivo e não objetivo (STOTT, 2014, p. 76).

Gerard Biard, redator-chefe do jornal Charlie Hebdo[2], mostra como esse questionamento humanista nega o absoluto e “privatiza” a religião. Após o atentado, Biard declarou: “Cada vez que desenhamos a caricatura de Maomé, de profetas, de Deus, defendemos a liberdade de religião. Deus não deve ser uma figura política ou pública, mas sim privada” (COLON, 2015).

De acordo com Lesslie Newbigin, somos pluralistas quando privatizamos aquilo que chamamos crença e defendemos publicamente o valor daquilo que chamamos fatos (NEWBIGIN, 1989, p. 27). Religiões e seitas inclusivistas e sincréticas – hinduísmo, fé bahá’i, cristo cósmico, divino pai eterno, seicho-no-ie, nova era e candomblé, entre outras – crescem com facilidade, assim como o ditame: “Todas as religiões são válidas e nenhuma pode ser confrontada como falsa”. Para o pluralista, é inconcebível qualquer religião específica ser a verdadeira e todas as outras serem falsas. Logo, seguir qualquer dos caminhos religiosos permite alcançar o divino e, em nome do “politicamente correto”, não é possível confrontar crenças e erros. Reina, portanto, o hedonismo, a busca imperativa pelo prazer (não necessariamente promiscuidade) já que aquilo que agrada é o correto. Frases como: “Se isso te faz feliz”, “Tudo pelo amor”, “O que importa é sua felicidade” e “Busque o que está no seu coração” são constantemente ouvidas por pessoas de todos os níveis.

EFEITOS DO PLURALISMO SOBRE AS IGREJAS

Igrejas orientadas pelo mercado
Quando todos os caminhos são certos, a maneira de as religiões atraírem prosélitos é focar nas necessidades latentes de seu “público-alvo”. Vemos, no Brasil, muitas igrejas protestantes como que abrindo um quiosque em uma praça de alimentação. Qual produto ofereço para atrair meus possíveis clientes? Lançam mão de conceitos de mercado: definem metas e prazos, identificam públicos-alvo e suas necessidades, anunciam, inovam, contratam bons vendedores, vendem furiosamente. Tais tópicos têm sido única e exclusivamente a pauta de muitas reuniões pastorais e eclesiásticas.

Mensagem fundamentada sobre a magia
Gloecir Bianco salienta que a pluralidade religiosa resgatou o sagrado (BIANCO, 2007), religa o homo religious com o divino, ainda que pelo elemento imprescindível à composição do quadro religioso dos brasileiros: a magia. Como Ronaldo Lidório afirma, a magia é um artificio de manipulação do divino e serve para fins próprios completamente contrários ao princípio da oração, que visa submissão e adoração ao Criador (LIDÓRIO, 2011).

Espiritualidade rasa
Hoje, o “mercado religioso” oferece promessas de cura, libertação, salvação, milagre extraordinário e prosperidade material. Não são exigidas renúncia e consagração. Palavras como pecado, arrependimento, cruz, sofrimento e autonegação foram praticamente abolidas do vocabulário do púlpito. Agora, os termos são: decretar, conquistar, tomar posse, declarar. Conceitos como sola scriptura, solus Christus e soli Deo gloria são inconcebíveis neste mundo de pluralismo sincrético. A relação estreita entre igreja e mercado é brilhantemente observada por Berger e Luckmann: “Se quiserem sobreviver, as igrejas devem atender sempre mais aos desejos de seus membros. A oferta das igrejas deve comprovar-se num mercado livre. As pessoas que aceitam a oferta tornam-se um grupo de consumidores. Por mais que os teólogos se ericem, a sabedoria do velho ditado comercial – ‘O freguês tem sempre razão’ – impõe-se também às igrejas. Elas nem sempre seguem o ditado, mas frequentemente o fazem” (BERGER; LUCKMANN, 2004, p. 61).

Cristão com teologia rasa e experiências místicas profundas gera heresias profundas e maturidade espiritual rasa. Se antigamente mudar de religião significava uma ruptura brusca com a cosmovisão religiosa e a aderência a uma nova concepção de vida libertadora (metanoia), agora, em muitos casos, a conversão denota busca de realizações pessoais e a incorporação de novas crenças às antigas experiências (sincretismo).

VOCACIONADOS DESORIENTADOS

O pluralismo também afeta o vocacionado à obra missionária. A multiplicidade de opções a ele oferecida lembra um parque temático da Disney: são muitos os atrativos e pouquíssimo o tempo para deles usufruir, forçando-o a escolher o que mais lhe agrada.

A partir do que coloquei até agora, trago cinco pontos que podem ser considerados ciladas do pluralismo religioso para os vocacionados e para a obra missionária.

Relativismo hermenêutico bíblico
John Stott deixa claro que, quando ninguém tem o direito de desafiar o outro quanto à veracidade de sua crença, o resultado é um relativismo hermenêutico bíblico (STOTT, 2014, p. 77). Isso estende-se à cosmovisão do vocacionado. Quando fala mais alto a necessidade de ser tolerante e afável com outros pontos de vista religiosos, torna-se plausível negociar uma postura que despreza a autoridade bíblica, é “politicamente correta”, não contrapõe, não diz ao outro o que se deve fazer, simplesmente aceita a opinião alheia como uma verdade relativa ao seu ponto de vista.

Observamos a dificuldade de missionários norte-americanos e europeus (vindo de culturas altamente secularizadas e pós-modernas) na evangelização pessoal. Nós, brasileiros, temos tido a mesma dificuldade. A falta de treinamento antropológico adequado leva-nos a falhar na contextualização bíblica, seja para o extremo do sincretismo religioso, seja para a negação total dos costumes. Nesse último caso, muitos missionários são suscetíveis a aceitar novos paradigmas contrários ao ensino bíblico.

Motivações antropocêntricas no ministério
O hedonismo preponderante em muitas igrejas evangélicas tem obscurecido a verdadeira razão do cumprimento da comissão de Jesus, retirando o próprio Deus do centro da missão e colocando o homem como protagonista da obra. Podemos dizer o mesmo a respeito de nossa tendência religiosa de tratar Deus com magia – distorce a verdadeira razão de nos envolvermos com a Missio Dei.

Para alguns, servir como missionário em regiões pobres permite adquirir uma classe social mais alta, privilegiada e abastada. Para outros, o ministério oferece ascensão profissional: envolver-se em um trabalho transcultural acrescenta pontos interessantes ao currículo. Em contrapartida, outros, por não serem bem-sucedidos no trabalho ou não passar em uma faculdade, optam por seguir a carreira ministerial. Há ainda aqueles com espírito de “Indiana Jones”: desejam desfrutar o inóspito e exótico, procurando sempre uma aventura nova a ser experimentada. Tendo isso em vista, os povos não-alcançados, que em sua maioria vivem em situação de vulnerabilidade e em regiões remotas, ausentes de todo conforto, permanecem da mesma forma porque a nova geração de missionários, em muitos casos, não está disposta a se sacrificar por eles.

Infidelidade institucional
O resultado do antropocentrismo nas motivações ministeriais desemboca no terceiro ponto de nossa análise. Muitas vezes, a decisão de se afiliar a uma agência missionária não passa por uma discussão avaliativa do propósito, campo e metodologia, muito menos por direção espiritual. Ela leva em conta o que é atrativo, confortável e maleável. O leque de opções de agências missionárias funciona como o mercado de trabalho, onde currículos são distribuídos e a melhor proposta é aceita.

Decisões assim geram obreiros infiéis a suas organizações missionárias. Qualquer imprevisto ou descuido da agência, ainda que ela tenha ajudado o vocacionado a chegar ao campo, torna-se motivo para cortar a ligação com a instituição e ir buscar outra empresa, ou melhor, agência, que atenda às exigências.

Crise de conhecimento missiológico e perspectiva missionária (epistemológica)
A respeito do preparo acadêmico e prático do obreiro transcultural, a multiplicidade de centros teológicos e missiológicos é, sem dúvida, uma grande conquista. De outro lado, muitos deles não atentam para a qualidade do ensino que oferecem, nem para a formação espiritual dos formandos. Vale chamar a atenção também para as fontes dos estudos teológicos, missiológicos e religiosos a que os vocacionados estão tendo acesso: como consequência do pluralismo religioso, muitos centros de treinamento transmitem teologias mancas e missiologias míopes, diplomando pessoas despreparadas para a realidade. Pesquisa recente sobre as principais razões que impedem a igreja brasileira de enviar missionários transculturais³ traz vários pontos no tópico “Razões Estratégicas, Treinamento e Ensino”.

Evangelização triunfalista
A falta de preparo e o afã de ganhar vidas para o Reino promovem a adoção de projetos evangelísticos sem nenhum amparo teológico, que buscam apenas resultados batismais.

A teologia triunfalista, que prega a conquista de tudo o que se quer, foi transportada para a esfera da evangelização. Muitos missionários atropelam barreiras transculturais com pragmatismo impregnado de etnocentrismo, contradições e romantismo. E o missionário transforma-se em alguém impersistente e murmurador. Ao crer que o simples fato de pregar o evangelho convencerá o outro a respeito de sua verdade, é comum observar um desrespeito pela cultura do povo.

No fundo, há uma crise epistemológica (falta conhecimento e perspectiva) e vemos projetos desastrosos no campo. Com maestria, o filósofo brasileiro Mário Sergio Cortella compara a diferença entre quem vive velozmente e quem vive apressadamente. O primeiro emprega todos os seus conhecimentos meticulosamente o mais rápido possível dentro da sua capacidade. O segundo finaliza seu dever rapidamente em detrimento da qualidade final (CORTELLA, p. 20). Da mesma forma, há projetos missionários feitos apressadamente, visando somente resultados numéricos, enquanto deveriam agir velozmente e com destreza.

COMPLEXO AXIS MUNDI E AS AGÊNCIAS MISSIONÁRIAS

E as agências missionárias, estão isentas da influência desse pluralismo religioso que afeta a igreja e os candidatos à missão? Penso que não.

Multiplicação desenfreada de agências

A primeira evidência é a multiplicação de agências missionárias. A tabela a seguir mostra quantas delas foram fundadas em cada período:

No primeiro período da tabela, observa-se que foram necessários 70 anos para a criação de 27 agências. Nos apenas 20 anos seguintes, foram fundadas 29, depois, mais 31 e, por fim, outras 17 de 2000 a 2010! Sem dúvida, o número de igrejas evangélicas cresceu bastante de 1970 a 2000, bem como o movimento missionário brasileiro, sendo necessário criar novas agências. Contudo, muitas delas foram fundadas com os mesmos fins de outras já existentes. Isso salienta o ponto exposto – igrejas orientadas pelo mercado competem umas com as outras, demarcando território e ostentando poder – e indica que essa tendência chegou às agências missionárias também.

O sentimento de união, outrora notório no meio missionário, tem sido ameaçado. Há competição de quem mais planta igrejas, batiza mais pessoas e arrecada mais ofertas. De acordo com Justo González, o ecumenismo surgiu no seio do movimento missionário, pois um dependia do outro para realizar o objetivo que tinham em comum (GONZÁLEZ; ORLANDI, 2010, p. 249-256). A realidade atual é outra e pode fazer do missionário um profissional lutando por suas causas pessoais e carreira.

A história de uma missionária voluntária que viveu na Guiné Bissau exemplifica essa competição entre vocacionados. Depois de anos batalhando para iniciar um trabalho pioneiro da denominação, ela foi obrigada, de forma traiçoeira, a passar todos os documentos e igrejas para o missionário de carreira, pois ele, o “profissional”, deveria legalmente ser o pioneiro no campo. Infelizmente, como resultado dessa arapuca, igrejas estão morrendo e o missionário de carreira não obteve respeito do povo local.

Há clara duplicação de força missionária em muitos locais e isso é desperdício de tempo, dinheiro e obreiros. Agências abrem bases missionárias sem ao menos verificar se há outras atuando no mesmo contexto. O objetivo é simplesmente marcar presença onde não há a “minha” instituição por questões pessoais e, arrisco dizer, egoístas.

Outro triste exemplo – e não se trata de caso isolado – é o da aldeia Ticuna, no Alto Solimões, Amazonas. Ela é formada por 20 famílias (aproximadamente 200 pessoas) e lá existem quatro distintas igrejas evangélicas. Certa vez, uma delas mobilizou uma clínica médica e distribuíram óculos para os índios. Exatamente uma semana depois, outra equipe médica, trazida por outra igreja que ali há, entregou novamente óculos. Esse esforço poderia ter sido direcionado para 117 etnias brasileiras onde não há nenhuma presença missionária. Tenho dificuldade também em entender a validade de viagens missionárias turísticas em torno de Manaus cujo propósito é mostrar aos participantes um índio ou ribeirinho em carne e osso.

A desunião se agrava ainda mais entre as agências missionárias interdenominacionais e as juntas missionárias denominacionais. As primeiras acusam as segundas de partidarismo e falta de visão de Reino. As denominacionais, por sua vez, dizem que as agências interdenominacionais são insubmissas e liberais.

Outro fator que contribui para a desunião é a crise de gerações. Os mais antigos tendem a ser mais conservadores e a nova geração, mais flexível e imediatista. O vocacionado torna-se, muitas vezes, alvo de disputa entre as agências.

Ainda falando das agências, muitas delas têm diretores e líderes que exigem resultados numéricos irreais dos missionários, ameaçando cortar sustento ou dizer que devem retornar do campo caso não alcancem a meta preestabelecida.

Podemos, então, resumir a influência do pluralismo religioso dentro do seguinte panorama religioso:

Pluralismo religioso > relativismo > mercado > hedonismo > polarização.

E cada uma das bases do pluralismo pode ser subdivida da seguinte forma:

  • Relativismo > verdade subjetiva > sincretismo > inclusivismo;
  • Mercado > pragmatismo > duplicação de força missionária;
  • Hedonismo > antropocentrismo > complexo axis mundi > infidelidade institucional;
  • Polarização > desunião entre as agências e os missionários > testemunho comprometido.

A tudo isso que relatamos chamaremos complexo axis mundi. De acordo com Mircea Eliade, o homo religious tem a necessidade de estar no centro do mundo (axis mundi). Nesse centro, está o lugar sagrado, onde tudo acontece, onde o divino se manifesta, interligando o lugar sagrado com as regiões cósmicas (ELIADE, 2010, p. 38-44).

Há missionários e líderes de agências e de juntas missionárias que sofrem do complexo axis mundi – a necessidade de estar no centro do mundo – e, nas palavras de Eliade, o universo precisa circuncidar o seu “umbigo”. Para tais pessoas, o mais importante é o que acontece com elas, o universo “conspira” em seu favor, estabelecem um relacionamento mágico com Deus, reivindicando os seus “direitos” e negando os seus deveres.

CONTRAPARTIDAS NORTEADORAS

Para caminhar na direção de respostas a esses problemas graves, segue uma lista de contrapartidas. Sugerimos que sirva para nortear a atuação dos vocacionados e das agências missionárias.

Relativismo X verdade bíblica
Ser exclusivista não é negar a liberdade religiosa do outro. Nossa afirmação da verdade absoluta sobre Cristo, que há somente um Deus, que ele deu o seu filho para nos salvar, não admite ser arrogante e fundamentalista. É de suma importância que os centros de treinamento missionário sejam sistemáticos para ensinar a Bíblia.

O relativismo mina qualquer tentativa de pregação pública e impossibilita o rompimento com crenças antibíblicas. A metanarrativa cristã vem da afirmativa do próprio Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim” (Jo 14.6). O relativismo nega o grande pilar bíblico que há somente um Deus e que dele procede toda a verdade e salvação. Pedro foi enfático ao afirmar: “Não há salvação em nenhum outro, pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome [Jesus] dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4.12).

Não devemos ter medo de afirmar que a mensagem cristã exclui opções falsas de salvação que não sejam por iniciativa do Deus único que enviou um só Salvador que é o único caminho. Fora dessa afirmação, habita a mentira e o engano. Qualquer missionário que tente flexibilizar essas verdades bíblicas está negando o próprio Cristo – “Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus Cristo Jesus…” (1Tm 2.5).

Mercado X Missio Dei
A contrapartida cristã à influência de práticas de mercado nas igrejas, missionários e agências é o entendimento da Missio Dei. O mercado ensina aplicar todos os meios possíveis (às vezes até ilícitos!) para se chegar ao fim desejado, atribuindo o sucesso à capacidade do agente ativo. A Missio Dei, por sua vez, retira qualquer mérito humano da obra missionária, pois, como Paul Hiebert diz: “A missão é fundamentalmente de Deus, e nós somos apenas parte dessa missão” (HIEBERT, 2008, p. 17). Bosch acrescenta: “Não é a igreja que deve cumprir uma missão de salvação no mundo; é a missão do Filho e do Espírito mediante o Pai que inclui a igreja” (BOSCH, 1998, p. 468). A Missio Dei depende do Espírito para mover o povo de Deus à missão, para facilitar a proclamação do evangelho e para atrair a Cristo aqueles que se salvarão.

Se entendermos corretamente que Deus é o agente principal na obra missionária, descartaremos qualquer forma de pragmatismo, compreendendo que Deus trará os missionários que Ele deseja para cada agência missionária e plantará as igrejas onde Ele quiser. Uma Teologia de Missões saudável nos levará à conclusão de que os resultados do labor missionário definitivamente não nos pertencem (PADRO FILHO, 2009, p. 648). Qualquer atitude competitiva entre os missionários e as agências deve ser confrontada com a Missio Dei, apontando Deus como o protagonista e dono da história.

Ademais, todas as agências e juntas missionárias deveriam fazer parte da AMTB[3] cuja intenção é trazer união e comunicação, para assim haver um intercâmbio de ferramentas e conhecimentos, como também evitar duplicação da força missionária (PADRO FILHO, 2009).

Hedonismo X Teologia do Sofrimento
Precisamos ressuscitar nos centros de treinamento missionário, seminários teológicos e nos púlpitos da igreja que o sofrimento de Cristo não foi somente para nos libertar, mas, também, para estabelecer o padrão de vivência de seus seguidores. Seu sofrimento requer que nós, como seguidores dele, palmilhemos um caminho semelhante. Por isso, o hedonismo— a ideia que o máximo a buscar na vida é o nosso prazer — é possivelmente o mais perigoso de todos os ataques à igreja que afetam a missão.

Paulo, Pedro, João e todos os discípulos dos primeiros séculos tinham consciência do sofrimento, preparando-se para quando ele chegar e não se chegar. Eles reconheciam que as palavras de Jesus não eram falsas ao declarar: “Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, […] quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem e levantarem todo o tipo de calúnia contra vocês” (Mt 5.10-11).

Na realidade, Deus é glorificado quando seus filhos padecem em seu nome. Para o sofrimento ser considerado como algo que glorifica a Deus, os apóstolos e a igreja devem sofrer por amor ao seu cargo ou à sua vocação cristã; devem sofrer como cristãos (1Pe 4.16), injustamente (1Pe 2.19-20), não sendo considerados criminosos ou assassinos (1Pe 4.15). O verdadeiro sofrimento, para Cristo, é chamado sofrimento “segundo a vontade de Deus” (1Pe 4.19), sofrimento “pelo nome de Jesus Cristo” (At 9.16; Fp 1.29), “a favor do evangelho” (2Tm 1.8), “por motivo de sua consciência para com Deus” (1Pe 2.19), “por causa da justiça” (1Pe 3.14), “para que sejais considerados dignos do reino de Deus” (2Ts 1.5) (COENEN; BROWN, 2000, p. 2418).

A Teologia do Sofrimento desestrutura toda e qualquer filosofia hedonista, retirando qualquer antropocentrismo de nossas ações uma vez que o centro de todas as coisas é Deus. Consequentemente, o complexo axis mundi e a infidelidade institucional dos missionários são corrigidos para uma vida cristocêntrica e fiel a Deus e aos homens. Portanto, enfatizemos a necessidade de ensinar a Teologia do Sofrimento nas igrejas, nos seminários e nos centros de treinamento, pois dessa maneira os missionários estarão mais preparados para as circunstâncias adversas no campo e prolongarão o seu ministério.

Polarização X unidade em Cristo
A polarização existe há tempo em diversas áreas sociais como futebol, política cultura regional. No entanto, nos últimos 3 a 5 anos, ela se intensificou e está presente na igreja, principalmente após a última eleição presidencial de 2018. Os confrontos e embates políticos que se restringiam a períodos de eleição tornaram-se discussões rotineiras dentro de círculos eclesiásticos. É bem verdade que o confronto de ideias antagônicas ou diferentes dentro da igreja sempre existiu, mas a realidade hoje é muito mais intensa, confrontativa e pessoal. De acordo com Shanto, Gaurav e Yphtach, a polarização política está mais relacionada com sentimentos e afeições que com posição ideológica (IYENGAR; SOOD; LELKES, 2012), isto é, nossas discordâncias não estão nos argumentos e crenças, mas simplesmente no fato de estarmos em partidos diferentes.

Acredito que a nossa resposta frente a essa realidade antropológica é o resgate do princípio bíblico da unidade em Cristo. Quando olhamos a Palavra de Deus, observamos que, no Senhor, podemos caminhar juntos mesmo com opiniões diferentes. Jesus deu o maior exemplo unindo dentre os seus 12 apóstolos pescadores, zelotes e publicanos. Em sua oração sacerdotal, emitiu o seu desejo de unidade na diversidade: “Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17.20-21).

Olhando para as palavras de Paulo aos efésios, podemos ver que a igreja é a multiforme sabedoria de Deus (Ef 3.10). No grego, multiforme (polupoikilos) significa uma colcha ou pintura cheia de cores diferentes, mas unificada, demonstrando beleza e harmonia. Isso é exatamente o que devemos ser, unidos, mas não uniformes (com a mesma forma). Somos diferentes nas opiniões políticas, teológicas e missiológicas, contudo podemos caminhar juntos sem a polarização que tanto amarga. Em última análise, devemos ser cooperadores de Deus, não competidores (1Co 3.9).

 

PROPAGANDO A MENSAGEM DA VERDADE

Quero ponderar que não afirmo neste artigo que o movimento missionário brasileiro ou global está completamente perdido com essas influências. Longe disso! Acredito que há muitas ações louváveis e dignas de serem citadas aqui. O Vocare é um movimento que tem mobilizado de forma incrível a juventude brasileira, reunindo mais de 30 organizações denominacionais e interdenominacionais. A Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB) tem sido uma catalizadora e unificadora do movimento missionário brasileiro. O trabalho de Perspectivas Brasil tem resgatado a glória de Deus na obra missionária e mobilizado a igreja para o cumprimento da missão. Vale mencionar também as alianças promovidas no Brasil para alcançar segmentos menos evangelizados, bem como os ministérios com foco estratégico (quilombolas, ribeirinhos, tradução da Bíblia, pesquisa etc.). Ainda assim, não podemos nos furtar de mostrar indícios de influências perigosas na igreja que estão chegando ao movimento missionário.

Deus é o dono da Missão. Ele está no controle de todas as coisas, é o cabeça da igreja e está edificando o seu reino apesar de nossas falhas. Na obra missionária, não somos competidores uns dos outros, muito menos de outras religiões, devemos ser cooperadores fiéis que propagam a mensagem da verdade em busca da glória daquele que nos chamou. Enfim, concluamos com um texto bíblico escrito por Paulo inspirado pelo Espírito Santo: “Portanto, como povo escolhido de Deus, santo e amado, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou. Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito. Que a paz de Cristo seja o juiz em seus corações, visto que vocês foram chamados a viver em paz, como membros de um só corpo. E sejam agradecidos. Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seus corações. Tudo o que fizerem, seja em palavra ou em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai” (Cl 3.12.17).

 

Felipe Fulanetto é casado com Jéssika Fulanetto. Coordena o Centro de Formação Missionária (CFM) da Igreja do Nazareno, onde é pastor e missionário. Também está à frente das pesquisas missionárias da AMTB e integra as equipes do Vocare e do Martureo. É organizador e coautor do eBook Vocação e Juventude (Editora Ultimato) e autor de Artigos de Fé na Ótica Missional (Sal Cultural).

 

BIBLIOGRAFIA

BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. Modernidade, Pluralismo e Crise de Sentido. Petrópolis: Editora Vozes, 2004.

BIANCO, G. (2007). Pluralismo Religioso Brasileiro e a Crise de Sentido. Disponível em http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pdf/st3/Bianco,%20Gloecir.pdf. Acesso em 19 Janeiro de 2015.

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STOTT, J. Os Cristãos e os Desafios Contemporâneos. Viçosa: Ultimato, 2014.

 

[1] De acordo com Ricardo Quadros Gouvêa (GOUVÊA, 1996), a evolução do pensamento pluralista deu-se em duas etapas. A primeira, pluralismo moderno (entenda-se iluminista dos séculos XV a XIX), visava a convivência amigável entre visões diferentes e opostas e está relacionada ao ideal iluminista de fraternidade universal e tolerância. Já o pluralismo pós-moderno (entenda-se pós-kantiano) dá um passo além e propõe não apenas tolerância, mas inclusivismo.

[2] No dia 7 de janeiro de 2015, em Paris, França, o jornal satírico Charlie Hebdo foi alvo de um atentado terrorista que deixou 12 mortos. O motivo do ataque foi a publicação de uma série caricaturas de Maomé, algo considerado proibido por muitos muçulmanos, pois pode provocar idolatria.

[3] Qualquer agência e/ou junta missionária que deseja filiar-se a Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB) pode acessar http://amtb.org.br.

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