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Os cristãos têm um lugar à mesa para Maomé?

Deveríamos separar o “Maomé da fé” do “Maomé histórico” para tentar construir uma biografia intelectualmente honesta sobre ele?

Marcos Amado

Tempos atrás, um muçulmano perguntou a um missionário cristão que há vários anos vivia entre eles se ele acreditava no Alcorão e em Maomé. Depois de pensar um pouco, pedindo sabedoria a Deus para responder com respeito, mas sem abrir mão de suas convicções, o missionário disse: “Se eu cresse no Alcorão e em Maomé, eu seria um muçulmano. Como eu sou um cristão, eu creio na Bíblia e em Jesus”. O muçulmano aceitou perfeitamente a lógica da resposta, e isso permitiu que o diálogo continuasse.

O missionário em questão certamente poderia ter ido por caminhos mais ‘tortuosos’, mas, em vez de atacar Maomé e o Alcorão, preferiu afirmar sua confiança na Bíblia e em Jesus. Atuando assim, ele evitou dois possíveis posicionamentos extremos vistos com frequência entre líderes e leigos cristãos quando o assunto é Maomé ou o Alcorão: a islamofobia e a islamofilia.

Tanto Maomé como Jesus ocupam lugares de muita importância no imaginário islâmico. Há pouco mais de um ano, participando de uma conferência internacional realizada nos Estados Unidos sobre o trabalho missionário cristão entre os muçulmanos, ouvi um dos principais preletores compartilhando uma pergunta que os muçulmanos lhe fazem reiteradamente: “Nós, muçulmanos, temos um lugar à mesa para Jesus. Será que os cristãos têm um lugar à mesa para Maomé?”. Obviamente, quando os muçulmanos afirmam “ter um lugar à mesa para Jesus”, eles estão se referindo ao fato de o islã considerar Jesus um profeta enviado por Deus. Será que, então, não podemos fazer o mesmo em relação a Maomé?

Nós evangélicos cremos que Jesus é o único caminho para o Pai, e que, fora dele, não há salvação nem vida eterna com Deus. Nós cremos que a Bíblia é o único livro verdadeiramente inspirado por Deus. E nós entendemos que não podemos aceitar nenhum Evangelho diferente daquele revelado pelo Senhor Jesus. Mas foi justamente isso que Maomé fez: apresentou um evangelho sem a morte e a ressurreição de Cristo (para mencionar apenas as diferenças mais importantes). Portanto, não há como aceitarmos que Maomé foi um profeta enviado por Deus, nem que o Alcorão faz parte da revelação especial de Deus.

Por outro lado, considerando as reações que normalmente temos ao falar sobre Maomé, provavelmente o mais adequado seria tentar discernir, através das lentes do Novo Testamento e do exemplo de Jesus, qual deveria ser nossa atitude diante de Maomé, do Alcorão e do islã. Foi pensando nisso que, depois de tentar mostrar a importância do assunto para o testemunho cristão entre os muçulmanos, eu perguntei, em um artigo que escrevi, se não seria possível olhar para Maomé

como um homem que era filho da sua época e que, durante sua juventude e também na sua fase adulta, teve contato com judeus e cristãos, escutou suas histórias religiosas e que, apesar de suas imperfeições, cria (equivocadamente) que tinha a missão divina de pregar aos árabes (que ainda não possuíam as Escrituras Sagradas em seu próprio idioma) aquilo que já havia sido revelado a judeus e cristãos (Amado, 2019).

Provavelmente a resposta da maioria dos evangélicos brasileiros seria um rotundo “não”. Afinal de contas, aprendemos que Maomé foi um homem violento e impiedoso; um falso profeta influenciado por espíritos malignos que inspirou (e continua inspirando) a perpetração de atrocidades ao redor do mundo por meio do seu exemplo de vida e das palavras violentas proferidas por ele, registradas com riqueza de detalhes no Alcorão, o livro sagrado muçulmano.

 

Maomé, o impostor?

Para corroborar essa perspectiva tão generalizada, temos a ajuda de incontáveis estudiosos cristãos. Um deles é Don Richardson, missionário e autor bastante conhecido no meio evangélico. Seus livros (lançados a partir dos anos 70) e suas “analogias redentoras”[1] inspiraram milhões de cristãos ao redor do mundo. Em 2003, em uma mudança abrupta de foco, ele escreveu o livro Secrets of the Koran.[2] “Baseando-me principalmente naquilo que os muçulmanos estimam como sua fonte mais fiável – o próprio Alcorão— eu busquei a verdade sobre o Alcorão e Maomé”, diz Richardson (p. 19), que convida o leitor a se perguntar se, na verdade, estamos falando sobre um livro de paz ou do Mein Kampf[3] de Maomé.

Para ajudar o leitor nessa caminhada, ele sugere que os versículos violentos proferidos por Maomé precisam ser analisados de acordo com o seu contexto, e os eventos descritos devem ser confirmados pelas fontes muçulmanas (p. 28). E essas fontes, afirma Richardson, mostram-nos um Maomé terrivelmente muçulmano (pelo menos na acepção que normalmente os ocidentais dão à palavra).

Maomé, provocando um mini genocídio, aniquilou os judeus que viviam na cidade de Medina e resistiam à sua mensagem supostamente profética (pp. 35, 49). No período em que o seu quartel general foi a cidade de Medina, Maomé “não era mais do que o líder de uma comunidade de ladrões, indispostos a ganharem a vida de forma honesta” (p. 37). Ele era alguém ainda muito mais sinistro do que um Jesse James[4] árabe, pois, além de aniquilar judeus, ele escravizava meninas e mulheres, mantinha algumas para ele mesmo e presenteava outras para os seus seguidores (p. 38). Ele promoveu a circuncisão feminina, autorizou o assassinato cruel de árabes pagãos da cidade de Meca (p. 45), consentiu na morte de poetas que não aceitavam sua liderança (p. 47) e forçou mulheres a se tornarem suas concubinas (p. 50). Como se tudo isso não fosse suficiente, o “profeta” condenou à fogueira muçulmanos que se tornaram ateus (p. 62), cometeu pedofilia casando-se com uma garota de nove anos (p. 76) e manipulou para que pudesse se casar com sua nora, esposa do seu filho adotivo (p. 82).

 

Definindo Maomé a partir de textos históricos questionáveis

Qualquer cristão que olhar para essa lista (incompleta) de atrocidades e imoralidades supostamente perpetradas por Maomé não teria outra opção a não ser perguntar-se como é possível alguém com essa folha corrida de antecedentes criminais ser considerado um profeta enviado por Deus.

O problema é que a vasta maioria das afirmações acima não são necessariamente oriundas do Alcorão. Elas são encontradas com pouquíssimos detalhes no Alcorão ou somente no Hadith, também chamado de tradições.[5] Essas tradições são coleções de pretensas ações e palavras de Maomé que, por quase dois séculos, foram (em tese) fielmente transmitidas oralmente, e compiladas por acadêmicos muçulmanos cerca de 200 anos após a morte do profeta do islã.[6]

Essas tradições nunca foram unanimidade entre os muçulmanos letrados. Já nas primeiras décadas do desenvolvimento do islã, houve muita discussão sobre quais delas eram verdadeiras ou não, ou ainda quais daqueles que transmitiam oralmente as supostas tradições eram dignos de confiança. Por volta do ano 850, teólogos muçulmanos que pertenciam a uma corrente de pensamento chamada ahl al-kalam rejeitavam totalmente o Hadith (Brown, 1996, pos. 144).

Apesar de com o passar do tempo o Hadith ter sido aceito pelos estudiosos muçulmanos como revelado por Deus, e o estudo do Hadith ter se transformado em uma ciência importante dentro dos estudos legais e teológicos muçulmanos, as dúvidas persistiram:

Virtualmente qualquer um dentre os [acadêmicos muçulmanos] que [deixaram de aceitar] o Hadith… insiste que em algum momento era devoto da autoridade do Hadith, mas que o estudo extensivo da literatura… o levou a se deparar com tradições [tidas como] confiáveis que simplesmente não podiam ser aceitas [como tal]. (Brown, 1996, pos. 641)

Nas últimas décadas, continua sendo considerável o número de acadêmicos (cristãos, muçulmanos e seculares) que estudam as origens do islã e que não aceitam o Hadith como fonte histórica.[7] Isso se deve ao fato de o Hadith ser um corpo literário extremamente complexo, às vezes absurdo (ao menos aos olhos modernos e pós-modernos), disponível em diferentes coleções compiladas por diferentes autores, e de origem duvidosa.

As diferentes coleções foram compendiadas entre os séculos 8 e 9. Entre os religiosos muçulmanos que se dedicam ao estudo do Hadith (conhecidos como muhaddithun), é necessário, entre outros passos importantes para a correta interpretação dessas tradições, tentar discernir quais deles possuem uma “cadeia de transmissão” crível e quais não para, assim, decidir quais são as mais fidedignas. Mas os acadêmicos muçulmanos tampouco concordam entre si sobre quais desses Hadith possuem uma cadeia de transmissão aceitável e, portanto, quais, exatamente, são confiáveis.

As coleções do Hadith… têm sido território disputado desde o princípio [da história islâmica]. Algumas das primeiras coleções do Hadith sofriam pela falta de um isnad claro que atestasse [a conexão com] o profeta[8], e foram rejeitadas pelas gerações subsequentes [de muçulmanos]. Coleções posteriores incluíam isnads completos, mas, com o passar do tempo, ficou simples fabricar tais conexões. A vasta maioria dos relatos que surgiram foi rejeitada por diferentes razões… Existem evidências de manipulação política ou mesmo “patrocínio”. Até mesmo as coleções que são atualmente tidas como as mais autênticas foram contestadas por acadêmicos muçulmanos, tanto sunitas como xiitas, em diferentes épocas… As coleções do Hadith sempre foram e continuam sendo um assunto de debate dentro da comunidade muçulmana. (Power, 2016a, p. 16)

Em 1885, por exemplo, o acadêmico muçulmano indiano Chiragh Ali concluiu que os Ahadith[9] eram invenções fantasiosas nas quais ele não podia confiar, enquanto, já em meados do século 20, outro acadêmico muçulmano, o egípcio Mahmoud Abu Rayyah, sugeriu que as coleções do Hadith fossem submetidas a uma extensa revisão para que sua confiabilidade fosse atestada. (Power, 2016a, p. 19)

Há, ainda, outro agravante: devido às diferenças históricas e doutrinárias entre sunitas e xiitas, as coleções do Hadith usadas pelas duas comunidades não são idênticas. Os xiitas não reconhecem os três primeiros califas que lideraram a incipiente comunidade islâmica após a morte de Maomé. Por isso, não aceitam a validade dos Ahadith que dependem do testemunho desses califas para sua validação. Além disso, nenhum dos Ahadith que surgiram por meio do hipotético testemunho de Aisha (uma das viúvas de Maomé e supostamente sua esposa preferida) é aceito pelos xiitas. É importante notar que, além de ser chamada pelos sunitas de “mãe dos fiéis”, ela é a pessoa que contribuiu com o maior número de tradições encontradas na coleção de Bukhari, que é a mais conceituada das coletâneas do Hadith sunita.[10]

Para aqueles que estudam as origens do islã com o objetivo de ter uma compreensão desapaixonada e intelectualmente honesta sobre o assunto, essa realidade traz um desafio importante. Praticamente toda a biografia de Maomé está baseada nas tradições, não no Alcorão. E “para qualquer incidente da vida de Maomé”, diz Brown[11], “existem provavelmente uma dezena de tradições diferentes que recontam os mesmos fatos de maneiras diferentes e incompatíveis” (2009). Há, inclusive, uma seleção de Hadith, chamados asbab al-nuzul (as ocasiões das revelações), que serve para prover o contexto em que diferentes passagens do Alcorão foram proferidas por Maomé. Sem isso, é praticamente impossível fazer uma interpretação correta do conteúdo corânico.[12]

Todo o imponente edifício da erudição islâmica tradicional é construído sobre os blocos de construção do Hadith. E sobre todo esse empreendimento paira uma questão crucial: como alguém pode saber se um determinado Hadith é autêntico ou não?(Brown, 2009, pos. 2544)

Sem o Hadith, as informações sobre o nascimento de Maomé nos arredores de Meca são extremamente escassas. Não há como saber detalhes sobre sua infância e juventude, ou mesmo exatamente o que aconteceu na migração (hijra) para Medina, um marco tão importante no desenvolvimento do islã que, sem o Hadith, torna-se um acontecimento obscuro. Até mesmo os pormenores que supostamente sabemos sobre as revelações confiadas a Maomé por intermédio do anjo Gabriel não são encontradas no Alcorão, mas sim no Hadith. Ou seja, o Alcorão não nos conta uma história; apenas apresenta-nos informações, muitas vezes desconexas, que precisam do contexto presumivelmente histórico oferecido pelo Hadith.

Os especialistas em crítica textual do século 20 particularmente no Ocidente têm questionado a historicidade das narrativas tradicionais muçulmanas (Hadith) e, ao fazê-lo, trouxeram tudo aquilo que supostamente conhecemos sobre Maomé — que tem como base principalmente o Hadith— à beira do colapso. (Accad, 2019, p. 1)

 

Rigor histórico

Sendo assim, deveríamos nos perguntar se seguiremos o exemplo de autores como Don Richardson e basearemos nossa compreensão do islã nas muito duvidosas tradições encontradas no Hadith. Definiremos quem Maomé é baseado na imagem que lhe foi imposta a partir de textos questionáveis que surgiram cerca de dois séculos depois da sua morte?

Também precisamos nos perguntar: por que aceitamos aquilo que é negativo acerca de Maomé, tendo como base as coleções do Hadith, mas não aceitamos, por exemplo, que sob o seu comando um cacho de tâmaras caiu da árvore, ou que ele alimentou multidões tendo em mãos apenas pequenas porções de alimento? Ambas as informações são oriundas das mesmas fontes. Considerando que não temos como saber quais são verdadeiras, precisamos decidir se aceitaremos todas ou rejeitaremos todas.

Recentemente, tive a oportunidade de participar de outra conferência, dessa vez no Oriente Médio, com a presença de líderes cristãos oriundos do ocidente e de países maioritariamente muçulmanos. Dentre os temas tratados, um deles – a busca pelo Maomé histórico — provocou grande controvérsia. Nessa conferência Martin Accad, acadêmico cristão libanês, sugeriu que deveríamos deixar totalmente de lado o Hadith, separar o “Maomé da fé” do “Maomé histórico”, e usar como fonte somente o Alcorão (2019) que, de acordo com as pesquisas mais recentes, já estava praticamente formado cerca de 50 anos depois da morte de Maomé (Amado, 2015). Mas isso nos deixa em uma situação bastante complexa. Quem realmente foi Maomé? Como vamos explicar o Alcorão sem um contexto histórico confiável? E, mais importante ainda para o objetivo deste artigo, de que maneira a dicotomia proposta por Accad pode nos ajudar na tarefa de termos uma perspectiva intelectualmente honesta sobre Maomé?

Diferentemente da Bíblia, o Alcorão não é formado por ‘livros’, mas sim por capítulos (ou suras). Não há uma ordem cronológica nem temática. Com o passar do tempo, os acadêmicos muçulmanos definiram, tendo como ponto de partida o conteúdo de cada capítulo e as estórias encontradas nos Ahadith, quais capítulos tinham sido proferidos por Maomé na cidade de Meca e quais haviam visto a luz do dia na cidade de Medina. Mas, se nós não levarmos o Hadith em consideração, também não poderemos aceitar a definição, usualmente aceita pelos muçulmanos, de que os versículos violentos do Alcorão foram proferidos na cidade de Medina, e os versículos que promovem a paz entre judeus, cristãos e muçulmanos foram proferidos em Meca. Nosso ponto de referência para melhor entender Maomé será somente o Alcorão. Ao fazermos isso, desenharemos uma imagem diferente daquela que está no imaginário dos muçulmanos dos dias atuais, mas, ao mesmo tempo, estaremos melhor posicionados para dialogar com estudiosos muçulmanos e seculares que levam em conta os critérios do rigor histórico.

 

O Maomé do Alcorão

Paz e amor

O que vem à tona quando tentamos discernir quem foi Maomé baseando-nos apenas no texto do Alcorão?[13] Descobrimos um homem religioso (e não um profeta) que tinha algum conhecimento sobre histórias e conceitos bíblicos, às vezes conforme contados na literatura apócrifa ou exegética de judeus e cristãos, e não conforme os textos canônicos (Amado, 2019).

  • Ele se preocupava com a usura dos ricos, com a penúria dos pobres, com o bem-estar dos órfãos (Sura 8.40) e com o politeísmo dos seus congêneres.
  • Ele cria no dia da ressurreição e do julgamento (Sura 4.87).
  • Para ele, a única forma de se livrar do fogo do inferno era submetendo-se totalmente à vontade de Alá, o único Deus verdadeiro, criador dos céus e da terra.
  • Ele cria que Maria recebeu o anúncio da sua gravidez pela intermediação do anjo Gabriel, cria no nascimento virginal de Jesus e nos seus milagres, mas não cria que ele era filho de Deus, nem que havia sido crucificado. Porém, ele afirmava que Jesus não morreu, mas ascendeu aos céus enquanto estava vivo e lá permanece até hoje.

Em algum momento da sua vida, Maomé defendia que “não haverá coação na religião” (Sura 2.257). Afinal de contas, ele se via como um profeta monoteísta enviado por Deus para confirmar e comunicar, em árabe, o que já havia sido transmitido aos judeus e cristãos (chamados, no Alcorão, de o Povo do Livro) por meio dos profetas bíblicos e do messias (Sura 3.3-4; 26.192-197; 46.12). Por isso, ele exortava judeus e cristãos a obedecerem ao Pentateuco e ao Evangelho (Sura 5.68), pois dessa forma alcançariam a salvação[14]:

Verdadeiramente aqueles que creem nesta mensagem, assim como os judeus, os cristãos, e os sabeus, qualquer um que crê em Deus e no último dia e faz atos justos terá a recompensa de seu Senhor, e não terá medo, nem lamentará. (Sura 2.62)

Os crentes, assim como os judeus, os sabeus e os cristãos: todos os que creem em Deus e no último dia e fazem atos justos, não terão nada a temer e não lamentarão. (Sura 5.69)

Maomé também relata que se surgissem dúvidas em relação às revelações, elas deveriam ser dirimidas por cristãos e judeus: “Então, se você está em dúvida sobre o que temos revelado a você, pergunte àqueles que têm lido o livro (revelado) antes do seu tempo…” (Sura 10.94).

Quando arguissem com os cristãos e judeus, os muçulmanos, seguindo orientações de Maomé, deveriam fazê-lo da maneira mais amável possível, já que tanto os muçulmanos como o Povo do Livro acreditavam no mesmo Deus:

Se argumentarem com o Povo do Livro, façam isso argumentando apenas da maneira mais amável, exceto com aqueles entre eles que são injustos, e digam: “Nós acreditamos no que foi revelado a nós e no que foi revelado a vocês. Nosso Deus e o Deus de vocês é um; e nós somos submissos a ele”. (Sura 29.46)

 

Ambiguidade

Por outro lado, fica muito claro que Maomé, por vezes, parecia mudar de ideia em relação aos judeus e cristãos, mostrando-se ambíguo. Em determinados momentos, ele enaltece os cristãos em detrimento dos judeus, afirmando que os judeus eram hostis e os cristãos, amigáveis (Sura 5.82).

Em outras situações, ele aumenta o tom polêmico em relação ao “Povo do Livro”, afirmando que o problema não estava com as escrituras sagradas dos judeus e cristãos, mas sim com a desobediência deles, orientando os muçulmanos a não fazerem alianças com eles:

E se eles realmente observassem a Torá e o Evangelho e tudo o que lhes foi revelado pelo seu Senhor, eles teriam recebido uma abundância de graça do céu e da terra. Alguns deles estão no curso certo, mas a maioria deles faz o que é mau. (Sura 5.66)

Que os seguidores do Evangelho julguem de acordo com o que Deus revelou nele. Aqueles que não julgam à luz do que Deus revelou são desviadores. (Sura 5.47)

Crentes, não aceitem os judeus e os cristãos como aliados. Eles são apenas aliados uns dos outros, e quem se alia a eles torna-se um deles. Deus não guia pessoas que sejam tão injustas. (Sura 5.51)

 

Violência: perseguição e guerra

Mas a frustração de Maomé em relação aos judeus, cristãos e em relação a todos aqueles que não aceitaram sua mensagem torna-se tão grande que as recomendações violentas que ele dá aos muçulmanos sobre essas pessoas são abundantes[15]:

Lutem no caminho de Deus contra aqueles que lutam contra vocês, mas não sejam agressores, pois Deus não ama os agressores. (Se eles começarem uma luta,) mate-os onde quer que você os encontrar, e os expulsem de onde quer que eles expulsaram vocês(Sura 2.190,191)

Combatei-os até que não haja mais perseguição, e até que toda a adoração seja dedicada apenas a Deus (Sura 2.193)

Não os tome (aqueles que não querem lutar na causa de Deus) como aliados até que migrem para a causa de Deus. Mas, se eles se virarem contra vocês com hostilidade aberta, mate-os onde quer que possam encontrá-los. Não tomem nenhum deles como seus aliados... (Sura 4.89)

Quanto aos homens e mulheres que roubam, cortem as mãos como punição pelo que fizeram. É uma dissuasão ordenada por Deus (Sura 5.38)

Seu Senhor revelou aos anjos: “Eu estou com você. Faça com que os crentes permaneçam firmes. Colocarei o terror no coração dos incrédulos. Então, golpeie acima de seus pescoços e corte seus dedos”. Isso é porque eles se opuseram a Deus e a seu mensageiro, e, se alguém se opõe a Deus e a seu mensageiro, a punição de Deus é severa. (Sura 8.12-13)

Mas, uma vez que os meses sagrados tenham terminado, mate os idólatras onde quer que os encontre, cerque-os, embosque-os e os aprisione… (Sura 9.5)

Lutem contra aquelas pessoas do livro que não acreditam em Deus e no último dia, aqueles que não proíbem o que foi proibido por Deus e seu mensageiro, e não seguem a religião da verdade, até que paguem o imposto de isenção depois de terem sido subjugados. (Sura 9.29)

Alguns judeus dizem: “Ezra é o filho de Deus”, enquanto alguns cristãos dizem: “O Messias é o filho de Deus”. Isso é o que dizem com as próprias bocas. Eles repetem as asserções feitas antes pelos incrédulos. Que Deus os destrua. Quão pervertida são suas mentes. (Sura 9.30)

Crentes, lutem contra os incrédulos que vivem perto de vocês, e que eles encontrem vocês firmes em sua determinação. Saibam que Deus está com aqueles que estão atentos a ele. (Sura 9.123)

Os hipócritas juram por Deus que eles não disseram nada de errado, mas eles definitivamente proferiram palavras de blasfêmia e se tornaram incrédulos depois de terem se submetido. Eles conspiraram acerca do que estava além de sua capacidade… Se eles se arrependerem, será para o seu próprio bem, mas, se eles se afastarem, Deus fará com que eles sofram dolorosamente neste mundo e na vida por vir, e ninguém na terra será capaz de ajudá-los ou protegê-los. (Sura 9.74)

Então, quando vocês encontrarem os incrédulos (em batalha), apliquem o golpe em seus pescoços… (Sura 47.4)

Quanto àqueles que são mortos na causa de Deus, ele não permitirá que suas obras se percam. Ele os guiará e dará tranquilidade às suas mentes. E ele os admitirá no paraíso, que ele já lhes deu a conhecer. (Sura 47.4-5)

Ao ler as passagens acima, poderíamos nos perguntar por que Don Richardson se deu ao trabalho de buscar no Hadith justificativas para a violência dentro do islã. Com as passagens acima, fica óbvio que o próprio Alcorão, através das palavras proferidas por Maomé, dá bastante lugar para as interpretações radicais.

Mas, como interpretar essas passagens? As interpretações dadas pelos muçulmanos para elas variam bastante. Muçulmanos seculares, moderados, fundamentalistas etc. costumam ter diferentes posições. Elas também variam de acordo com as escolas legais ou teológicas que eles seguem, à semelhança das diversas interpretações da Bíblia que se encontram entre cristãos de diferentes denominações e/ou persuasões religiosas.

 

As passagens violentas da Bíblia

Para o judeu e o cristão típicos, “o Alcorão ensina a guerra, enquanto a Bíblia oferece uma mensagem de amor, perdão e caridade”, provoca o historiador cristão Philip Jenkins (2011, p. 5). Mas, quando os muçulmanos examinam certas passagens da Bíblia, o que será que eles veem? Um livro de amor, perdão e caridade? E a qual conclusão eles chegariam ao ler alguns dos episódios da vida de alguns dos mais importantes personagens bíblicos, tais como Moisés, Josué, Samuel, Davi e Elias?

Para Jenkins, no que tange à violência, “qualquer reivindicação simplista sobre a superioridade da Bíblia em relação ao Alcorão seria veementemente equivocada” (Jenkins, ibid.). E ele não poupa esforços para, com riqueza de detalhes, provar o seu ponto.

Ele nos lembra do Salmo 137.9, que afirma que são bem-aventurados aqueles que esmagarem as crianças babilônias contra a pedra. Ou ainda da ordem divina de destruir totalmente determinadas cidades, seus habitantes e animais: “Porém, das cidades destas nações que o SENHOR, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida tudo o que tem fôlego. Antes, como te ordenou o SENHOR, teu Deus, destrui-las-ás totalmente…” (Dt 20.16-17).

Essa ordem, dada por Deus a Moisés, foi ‘exemplarmente’ cumprida por Josué na conquista de Jericó (conquista essa cantada em prosa e verso por nós cristãos), ou na conquista de Ai, por exemplo: “Com suas espadas, destruíram completamente tudo que havia dentro [de Jericó]: homens e mulheres, jovens e velhos, bois, ovelhas e jumentos” (Js 6.21, NVT).

Tendo os israelitas acabado de matar todos os moradores de Ai no campo e no deserto onde os tinham perseguido, e havendo todos caído a fio de espada, e sendo já todos consumidos, todo o Israel voltou a Ai, e a passaram a fio de espada. Os que caíram aquele dia, tanto homens como mulheres, foram doze mil, todos os moradores de Ai. Porque Josué não retirou a mão que estendera com a lança até haver destruído totalmente os moradores de Ai. (Js 8.24-26)

Outro exemplo bíblico bastante emblemático de uso extremo de violência mencionado por Jenkins é quando Deus, através do profeta Samuel, ordena a Saul atacar “os amalequitas, destruindo totalmente aquilo que eles tiverem. Não poupe ninguém. Mate homens e mulheres, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos” (1Sm. 15.3). É por isso que Jenkins afirma:

Através da história cristã, cristãos usaram as narrativas sobre Moisés e Josué para formular suas teorias de guerra, argumentando que tais exemplos bíblicos mostravam a legitimidade de guerrear e lutar pela causa de Deus – um tipo de jihadcristã. Embora pensadores das principais correntes [cristãs] tenham formulado ideias bem elaboradas de “guerra justa”, estabelecendo limites apropriados para a conduta militar, [grupos cristãos] extremistas buscavam restaurar as implacáveis práticas de herem[16] e da guerra santa bíblica, guerra sem misericórdia. (p. 11)

Seguindo uma lógica parecida à de Jenkins, o teólogo reformado Tremper Longman III, que durante quase 20 anos foi professor do Antigo Testamento no Westminster Theological Seminary[17], fez uma analogia bastante ousada. Em um ensaio sobre a violência no Antigo Testamento, ele escreveu que a ideologia extremista de Osama bin Laden e a que vemos no Antigo Testamento (particularmente em Deuteronômio e Josué) são parecidas (Longman, 1994). O Dr. Matt Lynch (2016), deão acadêmico do Westminster Theological Center, resume os argumentos de Longman da seguinte forma:

  • Ambas ideologias acreditavam na ideia do ‘espaço sagrado’ ocupado por ‘infiéis’. No caso de bin Laden, era a presença de ocidentais na Arábia Saudita que o incomodava.
  • Ambas acreditavam que seus atos eram uma ‘guerra santa’ abençoada e sancionada por Deus.
  • Ambas tinham o propósito de destruir até a última pessoa, sem se importar com a idade ou status.

 

Lentes hermenêuticas

Obviamente as passagens bíblicas acima mencionadas levantam perguntas cruciais que estão sendo debatidas por teólogos cristãos há séculos. O mais importante, porém, para o propósito deste artigo é nos perguntarmos: como, apesar de termos exemplos claros de atos violentos perpetrados por personagens bíblicos (às vezes com a anuência de Deus), nós, cristãos evangélicos, afirmamos com toda convicção que o cristianismo é uma religião de paz e que Moisés, Josué, Davi, etc. foram santos homens de Deus?

Existem várias formas de respondermos à essa pergunta, mas provavelmente o elemento mais importante a ser levado em conta é a questão hermenêutica. De acordo com o The Anchor Yale Bible Dictionary:

A hermenêutica pode ser descrita como “a arte de compreender”. Usada no seu sentido mais restrito, a hermenêutica pode se referir ao método e técnicas usados para interpretar textos escritos. Em um sentido mais amplo, pode se referir às condições que fazem com que a compreensão seja possível, e até mesmo ao processo de compreender como um todo. Na teologia é normalmente usada em contraste à exegese – [sendo que a hermenêutica] é entendida como a teoria, e [a exegese], como a prática da interpretação. (Lategan, 1992)

Ou seja, quando olhamos para o texto bíblico, utilizamos métodos e técnicas pré-definidos para interpretá-lo. Temos lentes hermenêuticas que nos levam a chegar a determinadas conclusões. Levamos em conta a autoridade das Escrituras, o gênero dos diferentes livros (narrativa, poesia, sabedoria, profecia etc.), a gramática, o contexto histórico e cultural, entre muitos outros aspectos.

Algo muito importante é que, como cristãos evangélicos, olhamos para todo o texto bíblico através das lentes do Novo Testamento, e isso leva-nos a afirmar, com toda convicção, que o cristianismo é uma religião de paz, e que os personagens bíblicos que perpetraram violência o fizeram por viverem em outra época, em contextos históricos e culturais diferentes, e em um momento diferente da história da salvação.

Há, porém, outros grupos (históricos e atuais) que também consideram-se cristãos e que, usando diferentes lentes hermenêuticas, chegam à conclusão que as Escrituras Sagradas condescendem, e até ordenam, o uso da violência para um suposto cumprimento da vontade de Deus.

Será que algo parecido acontece com os muçulmanos? Diferentemente dos muçulmanos radicais, é bastante comum encontrar muçulmanos na Arábia Saudita, no Irã ou em outras partes do mundo afirmando veementemente que o islã, assim como o seu profeta, são arautos de paz, apesar das passagens beligerantes do Alcorão mencionadas acima. Como isso é possível? Da mesma forma que nós, cristãos evangélicos, chegamos à conclusão que o cristianismo é uma religião de paz. No islã, existem diferentes escolas teológicas, e existem métodos e técnicas predefinidos para a interpretação do Alcorão que levam a grande maioria dos muçulmanos ao redor do mundo à autocompreensão de serem um povo pacífico por seguirem o exemplo do seu profeta.

Brown explica que um estudioso muçulmano que queira chegar à correta interpretação de uma determinada passagem do Alcorão deveria seguir os seguintes passos:

  • Primeiramente, precisaria ter um profundo conhecimento do vocabulário e da gramática do idioma árabe. Uma tradução do Alcorão em qualquer outro idioma não serviria.
  • As complexidades e incertezas do vocabulário levariam-no ao campo da lexografia e, por extensão, ele teria de se tornar um estudante da anciã literatura árabe tradicional, especialmente poesia árabe.
  • Naturalmente ele precisaria ter uma compreensão abrangente de todos os principais comentaristas corânicos que vieram antes dele.
  • Depois, ele dará sequência ao trabalho considerando o seu contexto.
  • Para esse propósito, ele necessitará de um profundo conhecimento da vida de Maomé, e conhecimento específico das circunstâncias por meio das quais aquela passagem particular foi revelada.
  • Será que a audiência é geral ou específica? Um determinado mandamento é limitado por circunstâncias particulares ou tem a intenção de ser aplicado de forma geral?
  • Para responder a essas perguntas, nosso acadêmico terá de estar familiarizado com a extensa literatura que descreve as “ocasiões das revelações”.
  • Ele precisará, ademais, comparar a passagem com qualquer outra passagem que seja paralela ou relacionada com o mesmo tópico dentro do Alcorão.
  • Também precisará determinar se existem outras passagens corânicas que substituam, modifiquem ou expliquem mais detalhadamente a passagem em questão.
  • Finalmente, ele precisará fazer o mesmo com o Hadith, buscando tradições do profeta que limitam a aplicação ou expliquem o objetivo da passagem (2009, pos. 2329).

Onde tudo isso nos leva? Qual a importância de toda essa argumentação para aqueles que desejam, sinceramente, apresentar Jesus Cristo aos muçulmanos como o Senhor e Salvador ressurreto?

 

A busca pela verdade

Mesmo diante da visão pós-moderna que afirma que a busca pela verdade é considerada um esforço inútil e impossível, como pesquisadores cristãos, essa busca deveria ser nossa grande prioridade. R. C. Sproul, renomado teólogo cristão, quando tratava da espinhosa controvérsia entre evolucionismo e criacionismo, disse:

Para alguns, esta é uma questão de tudo ou nada. Quando as pessoas me perguntam qual é a idade da terra, eu respondo “eu não sei”, porque realmente eu não sei. Ao mesmo tempo, temos todo este universo que expande e todas estas datações astronômicas, assim como triangulações; e todas estas informações vindas de fora da igreja, o que me faz pensar. E eu te digo porquê. Eu creio firmemente que toda verdade é verdade de Deus…[19]

Obviamente Sproul não é o único com essa linha de pensamento. Keith Mathison, editor associado da Reformation Study Bible, menciona que

a ideia [de que toda verdade é verdade de Deus] foi claramente apregoada antes da época da reforma. Agostinho, o maior teólogo do primeiro milênio, expressa isso em vários lugares. Na sua obra Sobre a Doutrina Cristã, por exemplo, ele escreve: “Não, mas que todo bom e verdadeiro cristão entenda que em qualquer lugar onde a verdade pode ser encontrada, ela pertence ao seu Mestre…” (II.18). O teólogo medieval Tomás de Aquino desenvolveu a ideia mais detalhadamente nos seus trabalhos teológicos e filosóficos.

Além disso, afirma Mathison:

João Calvino retomou [o assunto] a partir do ponto em que Agostinho e Aquino pararam. No seu comentário sobre Tito 1.12, por exemplo, Calvino afirma: “Toda verdade vem de Deus; consequentemente, se homens iníquos disseram qualquer coisa que é verdadeiro e justo, nós não podemos rejeitá-la; pois ela veio de Deus”. (Mathison, 2012)

Se dermos ouvido a Agostinho, Tomás de Aquino, Calvino, Sproul e tantos outros cristãos proeminentes, nós não deveríamos nos esgueirar da busca pela verdade sob nenhum pretexto, seja ela qual for e esteja onde estiver. Em relação à nossa percepção sobre Maomé, mesmo com as ressalvas acima, nós, cristãos, precisamos fazer uma autocrítica sincera e respondermos a algumas perguntas difíceis se queremos ao menos nos aproximar da verdade. Afinal de contas, é ela que nos fará livres. Quais seriam algumas dessas perguntas?

  1. É nosso dever, como cristãos evangélicos, buscar formas de contribuir para a construção de um relacionamento saudável entre cristãos e muçulmanos? Ou será que devemos sempre ressaltar as diferenças para provarmos que nossa religião é superior?
  2. Será que nossa percepção sobre quem realmente foi Maomé afeta nosso testemunho entre os muçulmanos?
  3. Se é que realmente existe animosidade da nossa parte em relação ao profeta do islã, será que isso influencia na maneira com a qual tratamos os muçulmanos, assim como o que pensamos sobre eles?
  4. Os cristãos têm um lugar à mesa para Maomé? Será que é possível encontrar uma posição intermediária sem comprometermos os fundamentos da nossa fé?
  5. Há diferenças entre o Maomé histórico e o Maomé da fé? Em caso positivo, na nossa busca pela verdade, devemos basear nossa percepção sobre ele com base no Maomé histórico ou no da fé?
  6. Sob a perspectiva da crítica textual, a única fonte relativamente confiável que temos sobre quem foi Maomé é o próprio Alcorão. Nele, vemos um homem cheio de religiosidade, que oscilava entre o respeito aos judeus, aos cristãos e às suas escrituras sagradas e a ordem explícita de persegui-los, inclusive usando a violência. Essa atitude de Maomé em relação ao uso da violência difere muito do que vemos no Antigo Testamento e em alguns dos nossos ‘heróis’ bíblicos?
  7. Se, apesar das dúvidas que pairam sobre a veracidade e confiabilidade das diferentes coleções do Hadith (tradições), nós decidirmos usá-lo para definir quem foi Maomé, qual o critério que utilizaremos para aceitar como verdadeiro o que se diz de negativo sobre Maomé, mas não aceitarmos o que há de positivo sobre ele? Não estamos falando da mesma fonte?
  8. Se podemos aceitar que certos personagens importantes do Antigo Testamento, mesmo fazendo uso da violência, eram fruto da sua época, será que não podemos aplicar o mesmo critério quando tentamos entender quem foi Maomé, mesmo concluindo que ele não era um profeta bíblico?
  9. Se, apesar das passagens ditas violentas na Bíblia, nós podemos aplicar lentes hermenêuticas que nos levam à conclusão de que o cristianismo é uma religião de paz, por que nos é difícil aceitar que o mesmo acontece com o islã?
  10. Normalmente o que nos leva a crer que o islã e os muçulmanos não promovem a paz é o que vemos nas ações e crenças dos muçulmanos radicais dos dias atuais. No tempo de Maomé (por volta do ano 600 d.C.), os cristãos tinham exércitos e matavam em nome de Deus como fruto de uma teologia da época. Mas isso não quer dizer que todos os cristãos do século 7 aceitavam a violência contra outros seres humanos como algo sancionado por Deus. Será que o mesmo não pode acontecer com os muçulmanos?
  11. O teólogo reformado Tremper Longman III diz que a ideologia extremista de bin Laden e a que vemos no Antigo Testamento são parecidas. Longman está sendo sincero na sua busca pela verdade ou devemos considerar que ele simplesmente se desviou da verdadeira ortodoxia cristã?
  12. Nos dias atuais, existem grupos radicais que se dizem cristãos e que usam a violência contra diferentes minorias. Isso significa que o cristianismo é uma religião violenta? Em caso negativo, será que podemos dizer o mesmo sobre o islã?

Mesmo sabendo que seria um exercício de extrema simplificação, quais seriam as possíveis respostas às perguntas acima que, ao mesmo tempo:

(a) Não contradiriam nenhuma das doutrinas não-negociáveis da fé cristã evangélica;
(b) Ajudariam a caminhar na direção de uma sincera autocrítica em relação ao nosso posicionamento ‘típico’;
(c) Contribuiriam para a construção da paz entre cristãos e muçulmanos;
(d) Ofereceriam elementos que nos ajudariam a testemunhar de Jesus entre os mais de 1,5 bilhão de muçulmanos ao redor do mundo?

 

Respostas simples a perguntas difíceis

Resposta simplificada

  1. Sim, é nosso dever. Não fomos chamados para provar a superioridade de nenhuma religião, mas sim para testemunhar sobre uma pessoa, Jesus.
  2. Sim, afeta.
  3. Sim, influencia.
  4. No sentido de aceitá-lo como um profeta bíblico, não há um lugar à mesa para Maomé. No entanto, há elementos suficientes para reconhecê-lo como um personagem extremamente influente na história mundial nos últimos 14 séculos e para afirmar que ele cria (equivocadamente) que estava anunciando aos árabes o que já havia sido anunciado aos judeus e cristãos. Obviamente, há elementos para também chegarmos a outras conclusões, mas, seja como for, dada a distância histórica, qualquer conclusão será apenas uma aproximação. Com as informações disponíveis no momento, não há como ter certeza absoluta sobre nenhuma das hipóteses. Por que, então, não considerar seriamente a que nos levará a um diálogo e testemunho cristão mais construtivo?
  5. Sim, há diferenças. Ao lidarmos com os muçulmanos, temos de também ter em mente o Maomé da fé.[20] Porém podemos, ao mesmo tempo, levar em conta que não há provas históricas de que ele tenha sido um líder sanguinário e dissoluto como afirma Don Richardson e outros líderes evangélicos.
  6. É possível ver nos ‘heróis’ bíblicos atitudes parecidas às de Maomé.
  7. Precisamos ser ‘intelectualmente honestos’. Não há como, usando as mesmas fontes textuais, afirmar que o que se diz de negativo sobre Maomé é verdadeiro e o que há de positivo são invenções. A imagem que o muçulmano típico tem de Maomé está fortemente influenciada pelo Hadith. Mas, no nosso esforço de compreendermos quem realmente ele foi, precisamos nos ater às fontes mais confiáveis.
  8. Sim, podemos aplicar o mesmo critério.
  9. Porque somos ensinados a ver os personagens centrais de outras religiões sob um prisma eminentemente negativo.
  10. Sim, pode.
  11. Longman está sendo sincero e honesto na sua busca pela verdade. Aceitar que as ideologias são semelhantes não significa que estamos concordando com bin Laden e cia. Significa que existem problemas teológicos complexos que emanam da Bíblia e, alguns deles, também são encontrados no islã.
  12. O fato de haver grupos de cristãos radicais que usam a violência não quer dizer que o cristianismo é uma religião violenta. Sim, podemos aplicar a mesma ‘regra’ para o islã.

Comecei este texto dizendo que normalmente nós cristãos, quando opinamos sobre a figura de Maomé, oscilamos entre a islamofobia e a islamofilia, e que nosso posicionamento definirá nossa percepção sobre os muçulmanos e o testemunho cristão entre eles. Que o bom Deus ajude-nos na nossa busca pela verdade e pelo equilíbrio, e que isso permita-nos testemunhar com amor àqueles que ainda não escutaram sequer uma vez que Jesus Cristo é o Senhor.

 

 

Bibliografia

Accad, M. (2019). The quest for the historical Muhammad. Institute of Middle East Studies. Beirut, Lebanon.

Amado, M. (2015). Crítica textual e a formação do Alcorão: implicações para a interação entre cristãos e muçulmanos. Martureo – Centro de Reflexão Missiológica. São Paulo.

Amado, M. (2019). Respostas fáceis para perguntas difíceis? Maomé, o Alcorão e a influência dos textos judaico-cristãos.

Brown, D. (1996). Rethinking tradition in modern Islamic thought. Cambridge: Cambridge University Press.

Brown, D. (2009). A new introduction to Islam (versão eletrônica) (2nd ed.). West Sussex, UK: Wiley-Blackwell.

Jenkins, P. (2011). Laying down the sword: Why we can’t ignore the Bible’s violent verses. New York: HarperCollings Publishers Inc.

Kaskas, S. (2015). The Qur’an: A Contemporary UnderstandingBridges to Common Ground.

Lategan, B. C. (1992). Hermeneutics. In D. N. Freedman (Ed.), The Anchor Yale Bible Dictionary. New Haven: Yale University Press.

Longman, T. (1994). The case for continuity. In S. N. Gundry (Ed.), Show them no mercy: four views on God and the Canaanite Genocide (pp. 159-190). Grand Rapids: Zondervan.

Lynch, M. (2016). Joshua and violence (part 5): show them no mercy. Retrieved from https://theologicalmisc.net/2016/04/joshua-violence-part-5-show-no-mercy/

Mathison, K. (2012). All truth is God’s truth – a Reformed approach to science and scripture. Retrieved from font: 13.0px ‘Lucida Grande’

https://www.ligonier.org/blog/all-truth-gods-truth-reformed-approach-science-and-scripture/

Power, B. (2016a). Challenging Islamic Traditions. Pasadena, California: William Carey Library.

Power, B. (2016b). Engaging Islamic traditions – Using the Hadith in Christian ministry to Muslims. Pasadena, California: William Carey Library.

Richardson, D. (2003). Secrets of the Koran – Revealing insights into Islam’s Holy Book. Minneapolis: Bethany House Publishers.

Richardson, D. (2007). Segredos do Alcorão. Minas Gerais, Brazil: Horizontes América Latina.

Walton, J. H. (2000). Herem. In The IVP Bible Background Commentary: Old Testament. Downers Grove, IL.: IVP Academic.

 

Sobre o autor

Diretor do Centro de Reflexão Missiológica Martureo, Marcos Amado é graduado em Teologia pelo All Nations Cristian College (Reino Unido) e Mestre em Missiologia com Especialização em Estudos Islâmicos pela mesma instituição. Em Beirute, no Líbano, cursou Estudos Avançados em Religiões e Culturas do Oriente Médio no Institute of Middle East Studies. É casado com Rosângela e acumula mais de 23 anos de experiência transcultural.

 

[1] Seus livros mais conhecidos no Brasil (e que sensibilizaram positivamente um grande número de cristãos brasileiros) são Senhores da Terra, O Totem da Paz e O Fator Melquisedeque.

[2] Este livro foi publicado no Brasil com o título Segredos do Alcorão (Richardson, 2007). Porém, as citações mencionadas neste artigo são oriundas da versão em inglês.

[3] Título do livro escrito por Adolf Hitler defendendo as ideias que eventualmente o levaram a cometer inúmeras atrocidades durante a Segunda Guerra Mundial.

[4] Jesse James foi um gangster norte-americano que viveu em meados do século 19. Além de roubos e assaltos, ele cometeu vários crimes que o tornaram famoso como um dos criminosos mais buscados do país.

[5] É do Hadith que emana a Sunnah do profeta. Sunnah é “o exemplo autoritativo estabelecido por Maomé e registrado nas tradições (Hadith) acerca de suas palavras, ações, sua aquiescência às palavras ou ações de outros, e suas características pessoais” (Brown, 1996, pos. 122).

[7] Esses acadêmicos tendem a aceitar o Hadith como documento que mostra o desenvolvimento da  percepção dos muçulmanos em relação a Maomé, assim como do desenvolvimento teológico do islã, mas não como fonte histórica fidedigna sobre a vida e obra de Maomé.

[8] Isnad é a lista dos nomes das pessoas que formam a cadeia de transmissão oral de um ou vários Ahadith.

[9] No idioma árabe, Ahadith é a forma correta para o plural de Hadith.

[10] Power (2016a) trata mais detalhadamente sobre este tópico, listando as principais coleções de Ahadith sunitas e xiitas.

[11] Daniel Brown é um acadêmico cristão, autor de vários livros sobre o islã e diretor do Institute for the Study of Religion in the Middle East.

[12] O livro Rethinking tradition in modern Islamic thought (Brown, 1996), publicado pela Cambridge University Press, apresenta uma discussão detalhada sobre o desenvolvimento das controvérsias entre muçulmanos através dos séculos, principalmente no subcontinente indiano e no Egito, em relação ao Hadith. O Dr. Bernie Power (que trabalhou como missionário durante muitos anos na península arábica e é professor de Estudos Islâmicos na Melbourne School of Theology, na Australia), por sua vez, publicou dois livros bastante pertinentes sobre o assunto: Engaging Islamic Traditions (2016b) e Challenging Islamic Traditions (2016a). Mas provavelmente o artigo mais recente escrito por um cristão árabe que frequentemente dialoga com acadêmicos muçulmanos é o texto do Dr. Martin Accad (diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio, em Beirute), “The quest for the historical Muhammad” (2019).

[13] Os textos do Alcorão mencionados nas próximas páginas são uma seleção dos textos mencionados por Accad no seu recente artigo “The quest for the historical Muhammad”.

[14] As traduções em português do Alcorão são muitas vezes de difícil compreensão, e usam um português bastante arcaico. A versão do Alcorão utilizada neste texto é The Qur’an: A Contemporary Understanding (Kaskas, 2015). Kaskas é um acadêmico muçulmano contemporâneo que, na sua tradução, dirimi várias dificuldades encontradas nas traduções mais tradicionais (minimizando o ‘ranço’ de determinadas ideologias encontradas no islã). A tradução dele é uma das mais recentes para o inglês. Em algumas passagens, foram feitas comparações com outras traduções e com o Alcorão em árabe.

Os versículos mencionados foram traduzidos do inglês para o português pelo autor deste artigo.

[15] É importante salientar que várias dessas passagens não estão mencionando diretamente cristãos e judeus, mas referem-se aos ‘incrédulos’, ‘aqueles que lutam contra vocês’, ‘os idólatras’, os hipócritas,  etc. Alguns exegetas muçulmanos afirmam que Maomé, nesses casos, referia-se aos habitantes da cidade de Meca que, antes de ser totalmente conquistada por Maomé, era composta por árabes idólatras e politeístas, que não aceitavam a mensagem monoteísta de Maomé. Já em outras passagens, fica claro que Maomé referia-se aos judeus e/ou cristãos.

[16] De acordo com o IVP Bible Background Commentary, herem, na Bíblia, significa “guerra santa ou interdição/proibição que requer a destruição completa de todas as pessoas, animais e propriedades como sacrifício dedicado a Jeová” (Walton, 2000).

[17] Em 2009, o Dr. Longman III envolveu-se em uma polêmica sobre a historicidade ou não de Adão, o que o levou a se afastar (ou ser afastado) de algumas instituições teológicas reformadas. No entanto, o texto aqui referido é do ano 1994, no auge da sua carreira como um dos mais importantes teólogos reformados do Antigo Testamento.

[18] Levando em consideração que uma dos atributos de Alá no Alcorão é ‘aquele que dá a paz’ (Sura 59.23), assim como o conteúdo de passagens como as Suras 4.90, 5.16, 8.61, 10.25, as escolas teológicas muçulmanas não radicais, seguindo as regras hermenêuticas que foram estabelecidas para a correta interpretação do Alcorão, defendem que o islã é uma religião de paz, e que um muçulmano pode fazer uso da violência somente para se defender quando for atacado.

[19] https://www.ligonier.org/blog/all-truth-gods-truth-reformed-approach-science-and-scripture/

[20] Mesmo se aceitarmos a argumentação central deste artigo, ainda assim teremos que lidar com o fato de os muçulmanos, na sua grande maioria, construírem a imagem que possuem de Maomé tendo como base determinadas passagens do Hadith. Eu espero lidar com esse aspecto em outro artigo, mas, de todos modos, isso não deveria nos impedir de nos aproximarmos, tanto quanto possível, do Maomé histórico.

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