In Igreja

“Texto cedido para publicação online pelo Movimento de Lausanne”

Preâmbulo: Cristianismo de Alto Custo

Venham, todos vocês que estão com sede, venham às águas; e vocês que não possuem dinheiro algum, venham, comprem e comam! Venham, comprem vinho e leite sem dinheiro e sem custo. (Isaías 55.1)

O cristianismo vem se tornando economicamente caro na África hoje e isso, em parte, por causa das lacunas naquilo que é conhecido por evangelho da prosperidade. Neste artigo, trato do evangelho da prosperidade pentecostal contemporâneo e suas implicações para os materialmente pobres. Para avaliar alguns dos desenvolvimentos, considere iniciativas recentes do bispo Eric Kwapong, amplamente reconhecido como um líder de louvor carismático talentoso em Gana. Kwapong atua como consultor profissional sobre louvor pentecostal / carismático. Ele promove cultos periódicos para profissionais, separados por sexo, no hotel Holiday Inn, perto do aeroporto internacional. Os cultos de louvor são divulgados ou para homens profissionais, ou para mulheres profissionais, e realizados nas noites de sexta-feira. O público alvo é convidado a vir e experimentar a presença de Deus. Não há pagamento de entrada, mas o público alvo especificado e o local implicam a exclusão automática de todos os participantes desfavorecidos e materialmente pobres. Eles simplesmente não teriam as roupas necessárias e os níveis de ofertas requeridas. Em suma, o cristianismo, no culto coletivo deste caso, tornou-se caro, sob medida para alcançar certa classe privilegiada em Gana.

O desenvolvimento que descrevo acima, afirmo, é sintomático da comercialização ou comodificação do cristianismo que vem com o evangelho da prosperidade. Para compreender o evangelho da prosperidade, quero destacar, não é preciso ver apenas a aparência dos pregadores, suas aquisições pessoais ou só as mensagens pregadas. O evangelho da prosperidade deve ser compreendido como um pacote ou marca que se reflete nas escolhas de pregadores, lugares de reunião, textos usados na pregação e os tipos de associações incentivadas dentro de certas comunidades cristãs. Neste ensaio, primeiro localizo o evangelho da prosperidade dentro do contexto do pentecostalismo contemporâneo e depois discuto, do ponto de vista bíblico, suas implicações para os pobres e marginalizados na sociedade. O contexto religioso e socioeconômico da discussão é o cristianismo na África, com um número desproporcional de exemplos meus provenientes de Gana. Os cultos de louvor profissionalizados que descrevo acima são sintomáticos de desenvolvimentos mais disseminados dentro do pentecostalismo africano contemporâneo, para o qual o evangelho da prosperidade é um assunto teológico importante. Nessas igrejas, alguns têm formado clubes bilionários e milionários e a própria mensagem é cuidadosamente voltada para aqueles que chegaram ao topo ou já estão em ascensão. Não é incomum os pastores se gabarem abertamente do número de ricos e poderosos atraídos pelo seu ministério.

Algumas igrejas pentecostais contemporâneas desenvolveram programas de intervenção social em favor dos pobres. Em geral, porém, falta uma teologia adequada que lide com a pobreza como uma questão social e teológica. Ligada a isso há uma teologia precária da dor e do sofrimento no cristianismo pentecostal contemporâneo. Os que estão passando por problemas são em geral vistos ou como alvos de atividades demoníacas, entendendo-se, às vezes, que a situação é autoimposta pela falta de pagamento dos dízimos à igreja. Assim, a ênfase pentecostal contemporânea no dinheiro e nas coisas materiais formaria uma base importante para a discussão que se segue. O que critico nesta apresentação não é simplesmente um estilo de vida de prosperidade, porque prosperar em saúde, riqueza e circunstâncias materiais não é errado. Entretanto, o espírito do materialismo, que alas desse tipo de cristianismo parecem endossar de maneira acrítica, levanta dúvidas com respeito ao que a Bíblia realmente ensina acerca dos pobres, da pobreza e dos marginalizados em nossa sociedade. Precisamos de coisas materiais para viver, afirmo, mas o materialismo corre em paralelo com a cobiça e a ganância. Isso vai contra o cerne da verdade bíblica sobre como se espera que os cristãos lidem com a riqueza. A Bíblia não endossa a pobreza, mas ordena àqueles que têm condições, que estejam atentos às necessidades dos pobres.

Quanto à ênfase no dinheiro, considere alguns métodos para captação de recursos diretamente associados à prosperidade das pessoas. Alguns anos atrás visitei uma das novas igrejas pentecostais associadas ao evangelho da prosperidade em Gana. A igreja estava promovendo uma semana de encontro de avivamento para a qual haviam convidado como preletor um líder carismático nigeriano de Londres. Ele pregou o que considerei uma boa mensagem ao longo de três dias, falando acerca de vários reinos físicos e espirituais e de como se espera que os cristãos atuem neles. Ao final da segunda reunião, achei que ele ia clamar do altar para que entregassem a vida a Cristo. Em vez disso, ele disse que Deus ia realizar um milagre de vinte e quatro horas e que todos os que desejassem se beneficiar daquilo deveriam pagar 240 dólares. A maioria dos participantes era ou estudante ou jovem adulto. Poucos atenderam. No dia seguinte, o montante foi reduzido a 120, para um milagre de 12 horas: “Se você deu 240 ontem”, declarou o pregador, “foi para as bênçãos de ontem. Para as bênçãos de hoje, dê um passo à frente e pague 120 dólares, mesmo que tenha pagado ontem”. Meus pensamentos foram: se alguém deu 240, as bênçãos ainda não expiraram. Por que se espera que alguém pague mais se, talvez, nem todos os benefícios do pagamento anterior já foram entregues? De uma perspectiva mais teológica, por que temos de pagar pela graça de Deus? Estávamos no meio de uma venda pré-reforma de indulgências, pensei.

Princípios de Prosperidade

Os acontecimentos que descrevi acima me levaram aos supostos princípios bíblicos que embasam o evangelho da prosperidade. O primeiro é o ensino da semeadura e da colheita; o segundo é o de reivindicar as promessas de Deus nas Escrituras. Vamos nos ater mais ao primeiro princípio: diz respeito à doação cristã, especialmente em dízimos e ofertas. Quanto ao segundo princípio, o cristianismo pentecostal contemporâneo acredita muito na palavra proferida, como algo mágico. Assim, em orações, clamores ou declarações, acredita-se que as palavras possuem certo efeito performático e que isso funciona tanto em casos de bênção como de maldição. Diz-se que o crente possui certa autoridade sobre Jesus Cristo. Isso inclui confessar coisas positivas e oportunidades, para torná-las realidade. A oração pentecostal contemporânea, portanto, evita muitíssimo tudo o que é negativo. Os pentecostais contemporâneos não oram por perdão dos pecados como parte da liturgia coletiva. Orar implica simplesmente saber o que Deus prometeu a seus filhos nas Escrituras — boa saúde, vida longa, riquezas materiais e prosperidade em geral — e reivindicar isso “em nome de Jesus”. Há uma relação entre esse princípio e o das ofertas, porque o “poder da vida” na boca do crente significa que os dízimos e ofertas podem ser destinados a cumprir certos propósitos ou romper barreiras. Em outro ponto, descrevo esse tipo de oferta como “transacional” porque a cosmovisão por trás dela é que a oferta a Deus é sempre recíproca. Esperam-se retornos gigantescos da parte dele.[1] Não é incomum ouvir pessoas orando na igreja pelo próprio dinheiro, instruindo as ofertas a voltarem para elas em forma de uma bênção material específica.

No princípio da semeadura e da colheita, supõe-se que Deus abençoa as pessoas de acordo com o nível de suas contribuições, especialmente em dízimos e ofertas. A expressão comum é que a doação abre portas, isto é, cria oportunidades. O que se doa é a “semente” e o retorno em bênçãos é o que o semeador “colhe”. Depois que as sementes são lançadas, os crentes são ensinados a esperar várias formas de colheita, entendidas em termos de dinheiro, serviços, promoções, saúde, crianças (frutos do ventre) e outras bênçãos e conquistas do gênero. Igrejas africanas que pregam a prosperidade têm atraído número considerável de jovens em ascensão e profissionais de classe média para alta. Os recursos que esses grupos de pessoas geram em termos de dízimos e ofertas são enormes. Membros testificam de chegarem à riqueza recanalizando para propósitos construtivos os recursos que sustentavam a vida desregrada, depois de experimentarem o novo nascimento. Em outras palavras, essas igrejas são economicamente muito poderosas e viáveis como comunidades por causa da cultura das ofertas e dos recursos gerados por vários tipos de programas. A ênfase nas ofertas dentro do pentecostalismo carismático precisa ser enaltecida porque ajuda igrejas nativas a permanecerem independentes. A ampla influência delas vem do uso da mídia. Televangelismo, rádio, propagandas religiosas, amplo uso de tecnologia no culto e manutenção de sites na internet requerem investimentos vultosos.

Isso significa que é inevitável certo nível de captação de recursos. O fundador do ICGC (International Central Gospel Church), pastor Mensa Otabil de Gana afirma possuir um mandato divino para desafiar a igreja na África a ser financeiramente autossuficiente:

Quando o Senhor me chamou para iniciar uma igreja, ele me inspirou intensamente a fundar uma igreja que não estivesse presa à saia da diretoria de uma missão estrangeira. O Senhor me chamou para ensinar minha congregação a parar de olhar para a Europa ou a América como fonte de recursos, mas cultivar um novo espírito e ética de desenvolvimento nacional. Creio plenamente que se Deus coloca você em alguma coisa, ele tem recursos suficientes ali para suprir suas necessidades. Como resultado daquela convicção, nossa igreja vem buscando uma prática vigorosa de financiamento e governo endógeno.[2]

Muitas das igrejas são ricas como também são ricos os pastores com acesso ao dinheiro. Os líderes de alta performance vivem de modo muito confortável, se não extravagante, que inclui a construção de casas palacianas e o uso de carros luxuosos. Na Nigéria, alguns como o bispo David Oyedepo da Living Faith Church Worldwide, também conhecida como Capela dos Vencedores, têm seguido o exemplo de televangelistas americanos, adquirindo jatos particulares. O bispo Oyedepo prega que Deus o chamou especificamente para tornar seu povo rico, e um jeito de fazer isso é ensiná-lo sobre as bênçãos produzidas pela fidelidade no dízimo. A moda agora entre os pastores pentecostais contemporâneos típicos é viajar em primeira classe ou classe executiva e ter os filhos nascidos e educados no estrangeiro. Os estilos de vida que poderiam ser descritos como escandalosos em igrejas evangélicas tradicionais seriam louvados em igrejas que ensinam prosperidade como sinais do favor e conquista divina. Os Estados Unidos são o destino preferido das viagens internacionais e, na volta ao púlpito depois dessa ou daquela viagem internacional, os pregadores são muitas vezes recebidos com aplausos longos e ruidosos.

Ofertas, Prosperidade e Devoradores

É importante compreender como a teologia do dízimo e das ofertas está diretamente relacionada com a teologia da prosperidade no pentecostalismo contemporâneo. Os pentecostais popularizaram o dízimo dentro do cristianismo, transformando-o em algum tipo de encargo sacramental. Dízimos e ofertas não são meras responsabilidades cristãs, mas meios para garantir as graças de Deus nas empreitadas da vida. O dízimo é o único tópico ensinado em igrejas pentecostais contemporâneas cuja base bíblica vem esmagadoramente do Antigo Testamento. A passagem crucial é Malaquias 3.8-12, que diz:

Pode um homem roubar de Deus? Contudo vocês estão me roubando. E ainda perguntam: ‘Como é que te roubamos?’ Nos dízimos e nas ofertas. Vocês estão debaixo de grande maldição porque estão me roubando; a nação toda está me roubando. Tragam o dízimo todo ao depósito do templo, para que haja alimento em minha casa. Ponham-me à prova”, diz o Senhor dos Exércitos, “e vejam se não vou abrir as comportas dos céus e derramar sobre vocês tantas bênçãos que nem terão onde guardá-las. Impedirei que pragas devorem suas colheitas, e as videiras nos campos não perderão o seu fruto”, diz o Senhor dos Exércitos. “Então todas as nações os chamarão felizes, porque a terra de vocês será maravilhosa”, diz o Senhor dos Exércitos.

Em quase todos os casos, porém, ensina-se que o não cumprimento dessa responsabilidade sagrada tem consequências negativas nos interesses dos cristãos, às vezes até em forma de maldições hereditárias. Assim, as ofertas e a prosperidade estão completamente ligadas. Num livro muito interessante chamado The Coming Wealth Transfer [A futura transferência de riquezas], o pastor carismático nigeriano do Kingsway International Christian Centre, baseado em Londres, faz a ligação entre oferta e prosperidade, conforme se segue:

A oferta é um princípio de prosperidade em contraposição a opiniões seculares, mas que provoca a bênção do Senhor […] Ela abre as janelas do céu, repreende todos os devoradores financeiros e os imobiliza, matando-os em suas trilhas. A oferta torna-se sua semente poderosa para uma colheita futura.[3]

Pastor Ashimolowo considera que ofertas voluntárias e dízimos desempenham funções diferentes: “A oferta voluntária é o que determina o fluir das bênçãos depois que o dízimo abre as janelas”.[4] Em outras palavras, o pagamento de dízimos pode não ser suficiente para garantir o derramar das bênçãos de Deus. O dízimo precisa ser necessariamente acompanhado de ofertas voluntárias regulares. No discurso pentecostal contemporâneo da prosperidade, necessidades, carências, infortúnios, aflições e pobreza são constantemente ligados à falta de fidelidade nos dízimos e nas ofertas voluntárias. Os pastores, suas esposas e filhos tornaram-se exemplos de carne e osso da fidelidade de Deus para com os que dão para sua obra em dízimos e ofertas. A prova disso é em geral a situação material privilegiada deles. Ashimolowo tinha em mente a passagem de Malaquias, quando se referia ao “devorador financeiro” na declaração citada acima.

Em interpretações africanas típicas e tradicionais, esses devoradores incluiriam feiticeiras e magos, parentes invejosos, demônios e aqueles detentores de habilidades sobrenaturais malignas para sabotar outros no aspecto financeiro e em outras formas de progresso na vida. Crenças tradicionais da feitiçaria geram histórias populares sobre dinheiro que some misteriosamente de carteiras, cofres e armários, pelo que as pessoas buscam intervenção sobrenatural, alguns de sacerdotes nos templos e outros de pastores libertadores pentecostais. Quando os cristãos são fiéis nos dízimos, Deus os isola, junto com seus empreendimentos, dos devoradores, para que possam prosperar em saúde e riquezas. Paul Gifford cita o que um bispo carismático ganense teria pregado:

Deus sempre impediu que a humanidade tomasse tudo. Deus nos deu tudo, mas estabelece limites. Acã (Josué 7.21-25) criou problemas para Israel por tomar o que era de Deus: se você não paga seus dízimos está criando problemas para si mesmo … Quando você toma o dízimo de Deus, você se coloca sob maldição. Você impede Deus de abençoá-lo … Se você dá o dízimo, você tem sucesso … Quando você paga o dízimo, as pessoas olham para você e dizem: “Você é abençoado” … Se as pessoas vão dar emprego, você é a pessoa que estão procurando, porque você não está tomando o que pertence a Deus.[5]

Num artigo que trata de fatores que contribuem para o crescimento dos movimentos pentecostais, Luther Gerlach e Virginia Hine citam as ofertas recíprocas como um fator importante. Eles explicam a natureza de tais ofertas a partir de uma perspectiva norte-americana: “A atividade financeira pentecostal é pessoal e recíproca, no sentido de que o dinheiro é dado como uma ‘oferta de amor’ em proporção direta à importância à dádiva não material que o doador sente ter recebido por meio de determinado evangelista ou mestre num situação grupal específica” Isso significa não só que os pentecostais dão dízimos e ofertas à igreja como instituição, mas também que a oferta dada diretamente ao homem ou mulher de Deus gera bênçãos para o ofertante. Essa ideia é fundamentada no princípio da semeadura e da colheita mediante a qual os pentecostais contemporâneos articulam o entendimento que têm da oferta. “Quanto maior a semeadura”, ensinam, “maior a colheita.” O pastor Ashimolowo, portanto, ensina que “a oferta aumenta nosso saldo credor com Deus” e que “a força da bênção financeira é derramada quando doamos dinheiro”.[7] Em suas palavras, “ofertar é plantar sementes financeiras para experimentar uma colheita financeira”.[8] Ashimolowo justifica essas afirmações apelando para Paulo em 2 Coríntios 9.6: “aquele que semeia pouco também colherá pouco, e aquele que semeia com fartura também colherá fartamente” (NVI).

Cristãos não Dizimistas e Pobreza

Um livro importante e fascinante sobre a diferença que o dízimo faz na vida vem das casas publicadoras do bispo Dag Heward-Mills da Lighthouse Chapel International, sediada em Gana. A teologia do dízimo de Heward-Mills pode ser lida desde a imagem da capa de seu livro: Por que Cristãos não Dizimistas Ficam Pobres e Cristãos Dizimistas Ficam Ricos [Why Non-Tithing Christians Become Poor and Tithing Christians become Rich].[9] Nessa ilustração de duas metades, a metade superior é um retrato que parece uma favela haitiana depois de seu maior terremoto; a metade inferior é o retrato de um condomínio fechado novo, com uma casa elegante ostentando uma piscina. O retrato superior representa a pobreza e a devastação, e a inferior, a riqueza e o bem estar. Heward-Mills abre seu livro sobre o dízimo com a seguinte afirmação reveladora:

Prosperidade em sua forma básica consiste em alguém plantar uma semente e colher, mais tarde, os resultados. O não pagamento dos dízimos o separa desse princípio mais básico da semeadura e da colheita. Quando você não paga seus dízimos, você estraga suas finanças porque arranca os alicerces de sua prosperidade.[10]

A declaração é seguida por uma lista de razões pelas quais os não dizimistas ficam pobres. Os não dizimistas ficam pobres porque não têm nada para colher; eles não atraem bênçãos para a própria vida; eles são amaldiçoados; “devoradores” comem constantemente as riquezas deles; os frutos dos campos deles são constantemente destruídos; e eles perdem os frutos antes que tenham chance de serem colhidos. O bispo Heward-Mills não descarta o trabalho duro e as recompensas que se acumulam a partir disso. Entretanto, para ele, mesmo o trabalho duro pode deixar de produzir o retorno devido se a pessoa que labuta não cumpre as obrigações dos dízimos. Ele conclui em suas análises que “o dízimo é uma chave importante para a prosperidade real”, porque Deus promete manter os ganhos que os dizimistas obtêm trabalhando com afinco.[11]

A segunda parte do livro de Heward-Mills contém algumas ideias importantes também para nossos propósitos. Os dizimistas “ativam as leis da semeadura e colheita”; o capítulo quinze é dedicado a esse entendimento do dízimo. O capítulo dezesseis ensina que os que dão dízimos “fazem com que Deus edifique uma casa para eles”, significando que recebem recompensas materiais pelo “investimento em dízimos”. O capítulo dezessete registra que os dizimistas “provocam a graça de Deus”. Aqui, graça é compreendida em termos de bondade, benevolência, generosidade, compaixão, leniência, compreensão e misericórdia.[12] No mesmo capítulo, o autor observa:

Ser gracioso para com alguém é mostrar simpatia, bondade e generosidade de espírito acolhedor. Deus demonstrará bondade e generosidade quando você ajuda a cumprir a visão dele. Graça é a bondade e a cortesia benevolente demonstrada por um rei a seus súditos. Deus estenderá cortesias benevolentes a você quando você assumir a grande tarefa dele.[13]

Uma das “grandes tarefas” a que se refere aqui está relacionada ao pagamento de dízimos e ofertas para sustentar a obra do ministério. Num cenário de crescente desemprego, pobreza e a situação econômica severa sob a qual o povo subsiste na África, é difícil aceitar o fato de que nem mesmo os pobres são isentados do princípio de dar a Deus, caso desejem colher suas bênçãos. O bispo Duncan-Williams afirma: “mesmo em condição de pobreza, Deus precisa de algo fornecido por você para poder abençoá-lo”.[14] Mas o convite de Isaías era dirigido aos que não tinham dinheiro. A principal referência para o ensino de que os pobres também devem dar, caso queiram receber de Deus, é o encontro de Elias com a viúva de Sarepta (1 Reis 17.7-16). A ideia é que, assim como Elias pediu que a viúva investisse seu último pote de azeite para o bem estar do profeta, sem considerar as circunstâncias inoportunas dela, Deus também espera que os pobres de hoje invistam o que têm como prova de fidelidade. De acordo com um pastor, isso “é válido em todas as circunstâncias. Seja pobre, seja rico, se você praticar, você é abençoado; mas se não, você não é abençoado”.[15]

Prosperidade, Materialismo e Textos-Prova

Nos últimos anos, tenho usado a expressão “evangelho da prosperidade” com muita cautela. Há dois motivos para essa cautela. Primeiro, há alguns aspectos do tal evangelho da prosperidade que podem ser muito positivos. Em muitos casos, o tipo de cristianismo carismático que prega a prosperidade se afastou da mensagem simplista do “determine e reivindique”. Na África, muitos de seus atuais líderes, especialmente o pastor Mensa Otabil, de Gana, destacam o empenho no trabalho, educação, investimentos e pensamento visionário como o caminho para o sucesso abençoado por Deus. Ele critica abertamente os que atribuem todos os problemas aos demônios e avisa à África que não é amarrando os demônios da pobreza que trazemos a prosperidade. Em vez disso, ela virá mediante muito trabalho, honestidade, precisamos tomar nosso destino nas mãos e olhar para Deus. Num sermão recente, marcando o 30º. aniversário de sua igreja em fevereiro de 2014, o pastor Otabil observou que receber fundos dos chineses para construir uma sede da União Africana na Etiópia era incompatível com o texto bíblico sob a imponente estátua de Kwame Nkrumah em frente do prédio. O texto vem de Salmos 68.31, “a Etiópia cedo estenderá para Deus as suas mãos” (ARC). Segundo, a prosperidade não é estranha às escrituras cristãs. Em especial, em boa parte do Antigo Testamento, o sucesso material é o produto da obediência a Deus; e no Novo Testamento, há motivos para crer que o Senhor recompensa o cristianismo fiel.

Entretanto, a cosmovisão do evangelho da prosperidade parece estar fundamentada num método hermenêutico seletivo que não dá atenção suficiente ao ensino bíblico sobre a pobreza e aos alertas contra o materialismo. Gordon Fee está certo, portanto, ao identificar a interpretação das Escrituras como o problema básico dos ensinos da prosperidade.[16] Com frequência, textos selecionados da Bíblia são usados para provar que Deus deseja que todos os crentes prosperem nesta vida. Ao usar textos-prova, as pessoas empregam textos da Bíblia para sustentar argumentos independentemente do contexto. Os textos selecionados são considerados provas suficientes da mente e do propósito de Deus em questões específicas. Desse modo, sermões inteiros podem ser construídos em torno de uma palavra ou frase extraídas de passagens bíblicas. Uma das principais falhas do uso de textos-prova é que se pode fazer com que a Bíblia, palavra de Deus, fale coisas que o intérprete deseja que fale, não o que o Espírito Santo pode realmente estar falando ou orientando. Pois, de acordo com o Senhor Jesus, é o Espírito que deve nos conduzir à verdade da palavra de Deus (João 16.13).

Vamos começar com a constante menção da “bênção de Abraão” em Gálatas 3 como referência à bênção em termos materiais. A bênção de Abraão, ao contrário da hermenêutica da prosperidade em voga, depende do tema da carta de S. Paulo. Ela está ligada à inclusão dos gentios na agenda divina da salvação. Essa inclusão, Paulo empenha-se para mostrar, vem pela fé em Cristo e não por meio da lei. Para deixar claro seu ponto, Paulo constrói o argumento muito antes. Ele observa que, com toda a certeza, a justificação vem, não pela observância da lei, mas pela fé em Cristo,

Assim, nós também cremos em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não pela prática da Lei, porque pela prática da Lei ninguém será justificado (Gálatas 2.15-16).

Na Epístola aos Gálatas, Paulo defende com vigor a doutrina da justificação pela fé, não por obras. Ao fazê-lo, ele repreende os gálatas por desconsiderarem o fato de que o Espírito de Deus foi recebido pela graça e não por esforço humano pela observância da lei (Gálatas 3.1ss). Ao citar Gálatas 3.14 em particular, os expositores do evangelho da prosperidade muitas vezes omitem a frase “para que recebêssemos a promessa do Espírito mediante a fé”. O que fica evidente na Epístola de S. Paulo aos Gálatas é que o elemento chave na conversão cristã é a experiência dinâmica do Espírito como o cumprimento da promessa de Abraão. Aliás, em outra passagem, Efésios 1.13 e 14, “é a garantia da nossa herança até a redenção daqueles que pertencem a Deus”.

Na realidade, Gálatas 3.14 não tem nenhuma relação com riquezas materiais. O argumento de Paulo era apenas que a fé que Abraão tinha em Deus foi contada a favor dele como justiça, do mesmo modo que a fé em Cristo torna redundante a confiança na lei para efeitos de salvação (Romanos 4.1-3). Para Paulo, o que indica o cumprimento da promessa de Abraão é a experiência do Espírito. Pelo derramar do Espírito, mesmo os que antes eram considerados estranhos à promessa a Abraão são incluídos pela fé em Cristo Jesus. A bênção de Abraão na passagem de Gálatas, portanto, não é só a justificação pela fé, mas também se refere à vida escatológica agora acessível tanto a judeus como a gentios, possibilitada pela morte de Cristo, mas realizada pelo ministério dinâmico do Espírito — e tudo isso pela fé e não por fórmulas.[17]

Pentecostes: Espírito de Inclusão

Por ser um movimento baseado numa experiência partilhada do Espírito, Gálatas 3.14 deveria ter sido compreendido como uma passagem importante para legitimar o pentecostalismo como um mover de Deus na geração presente. Nos novos movimentos pentecostais e igrejas da África hoje, muitas pessoas simples estão sendo integradas à agenda divina de salvação por meio da experiência com o Espírito. Pois, como profetizou Joel, uma consequência do derramar do Espírito de Deus seria a experiência da salvação independentemente de sexo, raça ou condição social (Joel 2.28-32). Em cumprimento à promessa, interessados reuniram-se de todas as nações debaixo do céu para a experiência pentecostal em Atos. Quando chegou o dia de Pentecostes, as pessoas vieram “de todas as nações do mundo” (Atos 2.5): “partos, medos e elamitas; habitantes da Mesopotâmia, Judeia e Capadócia, do Ponto e da província da Ásia, Frígia e Panfília, Egito e das partes da Líbia próximas a Cirene; visitantes vindos de Roma, tanto judeus como convertidos ao judaísmo; cretenses e árabes”. Todos ouviram os apóstolos declarando a palavra de Deus em sua própria língua! (Atos 2.9-12).

Assim, o Pentecostes, entre outras coisas, foi uma experiência de inclusão dos gentios. O Espírito de Deus, de maneira poderosa e dramática, transmitiu essa mensagem a Pedro durante sua visão e subsequente experiência em sua visita pastoral à casa de Cornélio. Pedro, assim, tomou consciência, pelo Pentecostes de Cornélio e sua família, que Deus aceita pessoas “de todas as nações” (Atos 10.34-35). Na cena do Pentecostes, Deus surge como o Deus das nações, porque as nações foram reconciliadas com Deus quando as pessoas ouviram a mensagem do evangelho em sua própria língua. Abraão é o “pai das nações”, de modo que a bênção de Abraão é a bênção das nações.

João Batista alertava sistematicamente que, com a vinda do Senhor, a entrada no reino já não dependeria da ancestralidade abraâmica natural, mas da presença purificadora do Espírito de Deus (Mateus 3.7-12). Esse é um argumento coerente com a mensagem da salvação conforme apresentada por S. Paulo. No argumento de Paulo, Cristo redimiu a humanidade da “maldição da lei” para que, por meio dele, a bênção de Abraão pudesse chegar a todos pela fé. Ao editar Gálatas 3.14b e interpretar a bênção de Abraão no sentido material, os expositores do evangelho da prosperidade não só erram na interpretação e aplicação das Escrituras, como também perdem de vista uma mensagem crucial por trás da nova experiência do Espírito de Deus que, creio, explica o mover de Deus no surgimento desses novos movimentos dentro do cristianismo africano.

Hermenêutica da Semeadura

Há também algumas dificuldades na ideia de semeadura e colheita conforme delineada no evangelho da prosperidade. A posição de que Deus toma dinheiro dos incrédulos para enriquecer os crentes é equivocada. Jesus impôs restrições à logística material para os discípulos cumprirem tarefas evangelísticas (Mateus 10.8-10). O ministério dos apóstolos era orientado simplesmente no sentido de permitir que o Espírito atuasse por meio deles para alcançar os que estavam sofrendo. Nos ensinos da prosperidade, a capacidade de Deus cumprir sua agenda missionária às vezes é apresentada como se ela dependesse só do dinheiro. Ao pensar desse modo, os disseminadores da prosperidade não só contestam os princípios bíblicos da evangelização, como também o direito básico do incrédulo à riqueza. A Bíblia não desconsidera totalmente a capacidade divina de abençoar seu povo em termos concretos. A Bíblia não diz que a abundância material é má. Entretanto, as riquezas são muitas vezes denunciadas como distrações em potencial que impedem as pessoas de colocar Deus em primeiro lugar na vida (Marcos 10.17-25).

Essa teologia da oferta também pode ser manipuladora. Na hora da oferta em um culto carismático, a pastora tinha um recipiente à parte na mão e pediu que todos os que fossem ofertar mais de 20.000 cedis (cerca de US$8) colocassem no recipiente dela. A impressão criada era que as ofertas maiores davam aos adoradores a chance de gozar de maiores bênçãos que os outros. A lição que se tira do elogio que Jesus faz à viúva que deu tudo o que tinha, ainda que menos que os outros, é uma indicação de que, para Deus, o espírito com que alguém oferta tem precedência sobre a quantia ofertada. Em Malaquias 3, o profeta chama a atenção para a responsabilidade de Israel naquilo que este parece ter renegado. Se Israel fizesse sua parte, cumprindo fielmente suas obrigações de dízimos e ofertas, Deus se mostraria fiel e ele espera que os crentes não se esqueçam disso. Entretanto, também é certo que a fidelidade de Deus decorre mais de seu amor, graça e misericórdia incondicionais do que das obras. Assim, Isaías podia clamar aos que não têm dinheiro, convidando-os a vir, comprar e comer sem custo (Isaías 55.1-2). O problema é que Malaquias 3 e passagens semelhantes têm sido reduzidas a uma fórmula pela qual as pessoas têm o direito de esperar que Deus devolva depois que elas ofertam.

Pobreza, Reino e Prosperidade

O que critico no evangelho da prosperidade, portanto, não é o sucesso material na vida, mas o materialismo. Materialismo significa viver para coisas materiais como se fossem um fim em si. Jesus deixou vários ensinos sobre o materialismo. Dentre eles, o seguinte revela o que Cristo pensa do materialismo:

Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouros nos céus, onde a traça e a ferrugem não destroem e onde os ladrões não arrombam nem furtam. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração. […] Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro (Mateus 6.19-21, 24).

De fato, entende-se que as pessoas são pobres porque não dão dinheiro para Deus. Embora alguns pregadores da prosperidade reconheçam que algumas das causas da pobreza estão fora do controle dos pobres, muitas vezes essa percepção pode ser acobertada pela insistência na prosperidade material e financeira como principais indicadores do cristianismo verdadeiro e da bênção de Deus. Se o ensino funciona, perguntamos por que as próprias igrejas não coletam para os pobres de seu meio para que sejam beneficiados pela prosperidade divina.

Um texto popular citado para defender o princípio de semear dinheiro para colher dinheiro e outras bênçãos materiais é a palavra de Jesus de que os que dão colherão em medida abundante (Lucas 6.38). Essa passagem também é aplicada de maneira errada. No contexto do Sermão do Monte, a passagem parece ser uma conclusão lógica de sua admoestação aos discípulos, no sentido de evitarem julgar, condenar ou remoer as ofensas dos outros contra eles. Assim, entender que se refere a empenhar o dinheiro no ministério de alguém é tirá-lo do contexto. Percebe-se melhor isso em Mateus, onde a frase “a medida que usarem, também será usada para medir vocês” é ligada diretamente ao alerta contra o julgamento de outros (Mateus 7.1-2). Aliás, Mateus parece até dar um motivo pelo qual é preciso que não julguemos ou condenemos os outros ao afirmar que todos têm suas faltas: “Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho?” (Mateus 7.3; cf. Lucas 6.41).

Definitivamente, não está fora do caráter cristão doar para boas causas, sabendo que Deus espera que os cristãos sejam uma bênção para os necessitados. Jesus esperava que a compaixão demonstrada pelo samaritano fosse imitada por todos (Lucas 10.25-37). De modo semelhante, Tiago também assinala que a religião “pura e imaculada”, aceitável para o Pai deve incluir cuidado com “os órfãos e as viúvas” (Tiago 1.27). Entretanto, não se percebe um princípio semelhante operando nos ensinos da prosperidade. MacDonald ataca essa estratégia como uma forma moderna da síndrome de Simão e Geazi, em que se tenta atribuir valor monetário à graça de Deus.[18] Geazi tentou cobrar os presentes originalmente recusados por seu senhor, o profeta Eliseu, depois da cura de Naamã (2 Reis 5.15-27).

Simão, seu paralelo no Novo Testamento, ofereceu dinheiro aos apóstolos para obter a capacidade de impor as mãos e transmitir o Espírito Santo (Atos 8.9-24). O fato de ambos terem sido punidos severamente — Geazi com lepra e Simão com cegueira — indica a seriedade com que seus atos foram considerados. É instrutivo para essa teologia observar que, de acordo com Tiago, além do cuidado com órfãos e viúvas, a religião aceitável inclui “não se deixar corromper pelo mundo” (Tiago 1.27). O desejo insaciável por riquezas torna isso impossível, formando a base para a advertência de S. Paulo de que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Timóteo 6.9-10). Na África há casos em que pregadores têm criado para si e para o ministério não pouco constrangimento quando “semeaduras” de algum montante e itens caros como carros na vida deles mais tarde acarretam problemas legais por transações escusas. Em outros casos ocorrem tensões, separações e até divórcios em casamentos porque entende-se que um dos cônjuges teria patrocinado um pastor ou seu ministério com presentes e dinheiro à custa do orçamento doméstico.

O ensino da confissão positiva, como os outros, não se sustenta diante da Bíblia. As dificuldades geradas por essa teologia formulista de confissão positiva não são apenas teológicas, mas também pastorais. Teologicamente, apresenta uma ideia errada de Deus como alguém que existe só para atender aos desejos da humanidade, desde que se apliquem os princípios ou as fórmulas corretas. Parece não haver margem seja para a vontade de Deus, seja para explicar de maneira adequada por que nem sempre as coisas melhoram. As explicações oferecidas para reveses em termos de confissões negativas, atividade demoníaca ou falta de fé são, muitas vezes, simplesmente inadequadas, inoportunas e insuficientes no que dizem respeito aos enigmas da vida. O resultado tem sido a dor, o sofrimento e a decepção causados a muitos crentes por meio desses princípios. Está simplesmente fora da realidade e é pastoralmente insensível e antibíblico pregar que os cristãos podem gozar de uma vida livre de dores e de problemas só pela confissão positiva e pelo pagamento de dízimos. Na experiência de S. Paulo, é quando se carrega no corpo a morte de Jesus, que a vida do Cristo ressuscitado também pode ser revelada no corpo do crente (2 Coríntios 4.9-10).

Isoladas, passagens bíblicas como João 10.10 e 3 João 2 parecem prometer exatamente o que a mensagem da prosperidade encontra nelas, ou seja, vida abundante e prosperidade na saúde e na alma. No Antigo Testamento, conforme se vê em Deuteronômio 28, a prosperidade material é muitas vezes ligada à justiça. Em Salmos 37.25, por exemplo, os justos não são esquecidos e seus filhos não mendigam pão. Em Provérbios 10.22, “a bênção do Senhor traz riqueza e não inclui dor alguma”. A série de bênçãos que acompanham a fidelidade à aliança em Deuteronômio 28 inclui abundância em termos de fertilidade humana, produção agrícola e segurança financeira. Portanto, há argumentos para acreditar na capacidade divina de abençoar aqueles que confiam nele.

Mas a bênção de Deus nem sempre vem em forma de bênção material. Se interpretarmos dessa maneira, os pobres vão se sentir excluídos da economia divina, exatamente como o culto profissionalizado foi talhado sob medida para as necessidades dos cristãos de classe média. A bênção divina também vem em forma de graça para enfrentar as aflições e incertezas da vida. Um princípio crucial na interpretação bíblica é que a teologia deve ser baseada no ensino total da Bíblia sobre o assunto e não numa hermenêutica seletiva.[19] Por exemplo, João 10.10, citado por defensores da prosperidade como base de seu ensino não tem nenhuma relação com a prosperidade material como tal. A palavra traduzida por vida nesse versículo é zoe, referindo-se à vida eterna. O que Jesus desejava para os crentes, portanto, era que sobejassem na qualidade de vida que garante a concretização do reino de Deus na vida deles. Nesse caso, os crentes não morreriam eternamente.[20] De modo semelhante, Fee salienta que a palavra traduzida por prosperar em 3 João 2 é uma saudação que significa “dar-se bem com alguém”. É um desejo e não tem relação alguma com prosperidade financeira.[21] Assim, fé em Deus não exclui bem estar geral. Ela garante para os crentes, tanto ricos como pobres, o amor de Deus nesta vida e na próxima.

Conclusão

O fato notável na lei do Antigo Testamento, observa Dewi Hughes, é que ela reconhece que os homens têm uma inclinação muito grande para o interesse próprio e provê uma estrutura legal para controlá-la. De modo que a lei, destaca ele, concentra-se ostensivamente em estabelecer limites para os ricos e poderosos, para que os pobres e desassistidos não sejam explorados.[22] Jesus deu considerável atenção a leprosos, mulheres desprezadas e outros marginalizados e chega a avisar que os que não doam para os necessitados experimentarão condenação eterna (Mateus 25.31-46). Na verdade, Jesus queria que seus seguidores dessem para os pobres, não que tomassem deles. Nesse sentido, Ronald Sider conclui: “se a centralidade nas Escrituras serve de algum critério de importância doutrinária, o ensino bíblico sobre o interesse de Deus pelos pobres deve ser uma doutrina importante para os cristãos”.[23]

O ensino de que as pessoas são pobres porque não dão para Deus é a antítese do ensino de Jesus de que as pessoas devem perdoar até os inimigos, uma vez que Deus não faz distinção entre justos e injustos ao prover chuva e sol (Mateus 5.45). No ensino da prosperidade, o problema está na ênfase indevida na riqueza material. Nas palavras de Jesus, “a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens” (Lucas 12.15; cf. 1 João 2.15-27; Provérbios 27.24; 22.28; Eclesiastes 5.13; Salmos 62.10). A igreja cristã deve, portanto, precaver-se de dar atenção indevida às coisas materiais, como se representassem a satisfação de Deus com o cristianismo da pessoa.

Notas

[1] J. Kwabena Asamoah-Gyadu, Contemporary Pentecostal Christianity: Interpretations from an African Context (Oxford: Regnum International, 2013).

[2] Mensa Otabil, Beyond the Rivers of Ethiopia: A Biblical Revelation on God’s Purpose for the Black Race (Accra: Altar Media, 2004), 8, 64.

[3] Matthew Ashimolowo, The Coming Wealth Transfer (London: Mattyson Media, 2006), 193–94.

[4] Ashimolowo, Coming Wealth Transfer, 196.

[5] Gifford, Ghana’s New Christianity: Pentecostalism in a Globalizing African Economy (Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press, 2004), 62.

[6] Luther P.Gerlach e Virginia H. Hine, “Five Factors Crucial to the Growth and Spread of a Modern Religious Movement”, Journal for the Scientific Study of Religion 1 (1968), 29.

[7] Ashimolowo, Coming Wealth Transfer, 190, 192.

[8] Ashimolowo, Coming Wealth Transfer, 192.

[9] Dag Heward-Mills, Why Non-Tithing Christians Become Poor and How Tithing Christians Become Rich (Wellington, South Africa: Lux Verbi. BM, 2009).

[10] Heward-Mills, Why Non-Tithing Christians Become Poor, 1.

[11] Heward-Mills, Why Non-Tithing Christians Become Poor, 7.

[12] Heward-Mills, Why Non-Tithing Christians Become Poor, 134.

[13] Heward-Mills, Why Non-Tithing Christians Become Poor, 135.

[14] Duncan-Williams, Destined to Succeed, 52.

[15] Eastwood Anaba, Breaking Illegal Possession: Dislodge the Enemy and Possess the Land (Accra: Design Solutions, 1996), 29.

[16] Gordon D. Fee, The Disease of the Health and Wealth Gospels (Beverly, MA: Frontline Publishing, 1985), 3.

[17] Fee, God’s Empowering Presence, 394, 395

[18] W.G. MacDonald, ‘The Cross Versus Personal Kingdoms’, Pneuma vol. 3, 2 (1981), 33.

[19] William W. Klein et al., Introduction to Biblical Interpretation (Dallas: Word Publishing, 1993), 387-388.

[20] David Hill, Greek Words and Hebrew Meanings: Studies in the Semantics of Soteriological Terms (Cambridge: Cambridge University Press, 1967), 196.

[21] Fee, The Disease of the Health and Wealth Gospels, 4.

[22] Dewi Hughes, Power and Poverty: Divine and Human Rule in a World of Need(Nottingham: Intervarsity Press, 2008), 75.

[23] Ronald Sider, Rich Christians in an Age of Hunger (London: Hodder and Stoughton, 1997), 64; Cristãos Ricos em Tempos de Fome (São Leopoldo: Sinodal, 1984).

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