Edita
Missionários em território de guerra

por Marcos Amado
Compartilhado do Blog marcosamado.substack.com/p/a-verdade-que-liberta
Mesmo dois dias após o evento, o The Send Brasil continua a galvanizar atenções. Milhares de menções podem ser encontradas nas mídias sociais e em páginas da internet. Revistas e jornais (tanto cristãos quanto seculares) têm publicado reportagens e promovido debates. Teólogos e influencers também discutem o tema, alguns em tom de defesa, outros adotando uma postura claramente antagônica.
Trata-se de um evento relevante, que continuará provocando ondas concêntricas por um bom tempo, com implicações significativas tanto para a política quanto para o cristianismo evangélico no Brasil. Por essa razão, após analisar diferentes aspectos do evento e ler e ouvir reações de pessoas com as mais diversas orientações teológicas e políticas, decidi registrar por escrito aquilo que me parece positivo, bem como os aspectos que considero problemáticos. A seguir, apresento uma lista com os principais pontos.
Pontos que podem ser vistos como positivos
· Há o surgimento de uma liderança evangélica jovem que está amadurecendo e assumindo seu lugar na missão. Buscam entender o que Deus espera deles e atuam de acordo com as convicções que surgem dessa busca.
· A ênfase na ação sobrenatural de Deus pode ser um bom contraponto às igrejas tradicionais, que valorizam mais a razão.
· O evento alcançou (e continua alcançando), por meio das mídias sociais, centenas de milhares de pessoas, fazendo com que temas ligados à fé cristã chegassem tanto a cristãos quanto a não cristãos.
· Apesar dos aspectos que podem ser considerados negativos, Deus age de maneira multiforme. Ele utiliza eventos como esse para suscitar arrependimento e compromissos genuínos.
· A reunião de um número tão expressivo de jovens em um mesmo local, com elevado nível de engajamento emocional e espiritual, evidencia uma notável capacidade de convocação, mobilização e organização.
· É sempre significativo e encorajador ver milhares de jovens ajoelhados em oração, inclusive intercedendo por cristãos perseguidos e por outras causas relevantes.
· Em eventos multitudinários como esse, nem sempre os resultados são imediatos. Ainda assim, trata-se de um momento em que o “terreno foi arado”. Somente Deus sabe até onde as repercussões positivas poderão chegar.
· Elementos visuais e gestuais provocaram fortes reações emocionais. Apesar da reticência de muitos (inclusive a minha) em relação a essas reações, é inegável que muitos participantes estavam, de fato, se colocando na presença de Deus.
· O evento também gerou respostas vocacionais concretas em parte do público, com relatos de arrependimento, conversão e senso de chamado para a missão local ou transcultural.
Pontos que, na minha opinião, podem ser vistos como negativos (ou pelo menos preocupantes)
· O discurso religioso apresentado no evento mostrou-se claramente associado a uma ideologia política identificável com a direita brasileira e norte-americana, o que levanta questionamentos quanto aos limites entre fé cristã e alinhamento ideológico. Torna-se particularmente preocupante o uso de um grande evento cristão para a veiculação de discursos políticos, ainda que nem todos os participantes se enquadrem nesse padrão.
· Observou-se a elevação de valores ideológicos à condição de doutrinas bíblicas. O problema não reside no fato de cristãos possuírem posicionamentos políticos, mas na tentativa de líderes cristãos apresentarem determinado posicionamento como a única opção autenticamente cristã, removendo a Bíblia como principal referência. Tanto projetos políticos de direita quanto de esquerda são construções humanas e não refletem, necessariamente, o ensino bíblico, o que torna problemática sua sacralização no discurso religioso.
· O discurso assumiu um tom claramente triunfalista, marcado por linguagem de conquista, domínio e governo, incluindo em certos momentos um chamado à dominação de esferas governamentais e culturais. Isso se expressou no uso recorrente de termos como “conquistar”, “ocupar” e “governar”, bem como em referências a potestades malignas associadas a Brasília, revelando uma carga teológica e ideológica significativa que exige atenção crítica.
· Uma escatologia específica apareceu nas entrelinhas como a única verdadeiramente bíblica, desconsiderando a diversidade histórica e teológica do cristianismo. Essa escatologia, fortemente associada ao sionismo cristão, carrega implicações negativas concretas para o testemunho e a presença cristã no Oriente Médio.
·Uma parte importante da teologia que emergiu do evento exalta o nacionalismo cristão e um certo messianismo, retratando o Brasil como uma nação singularmente escolhida por Deus para abençoar os povos. Embora seja legítimo afirmar que Deus deseja usar a igreja (no Brasil e em outros contextos) para abençoar as nações, essa vocação não deve ser aplicada a um Estado-nação moderno específico, seja o Brasil, os Estados Unidos ou Israel.
· Palestrantes reforçaram, de forma explicita ou velada, a ideia de que cabe aos evangélicos fazer com que Deus seja o Senhor da nação por meio da imposição de valores cristãos à sociedade, o que representa, na minha opinião, um desvio do modelo de Jesus.
· A convergência entre diferentes denominações evangélicas aparece de forma ambígua: pode ser vista como sinal de unidade, mas torna-se problemática quando serve a um projeto ideológico comum de poder temporal. Pode ser interpretada como expressão de comunhão, mas pode ser sinal de perda de discernimento teológico, dependendo dos critérios adotados. É curioso ver presbiterianos, batistas, pentecostais e neopentecostais com um discurso, em certos aspectos, uniforme.
· O predomínio de uma estética impecável, assim como a forte ênfase em celebrações e testemunhos com forte apelo emocional, em detrimento da reflexão bíblica, pode ser compreendido como algo inevitável e reflexo do contexto cultural contemporâneo. Ainda assim, isso levanta questionamentos que não devem ser ignorados.
Recentemente li, em um post no Instagram, a afirmação de um líder evangélico de que “nenhum avivamento genuíno foi produzido por iniciativas institucionais da liderança eclesiástica; Deus costuma agir onde menos se espera”. Se essa afirmação estiver correta, então as reverberações dos movimentos sísmicos provocados pelo The Send tendem a ter vida curta. Ainda assim, Deus fará com que as sementes ali plantadas germinem, cresçam e produzam frutos para a eternidade.




