In Missão no Século XXI

Transformações no Cristianismo Mundial

Marcos Amado

Ainda hoje quando mencionamos a palavra ‘missionário’, a imagem que vem à mente de muitos evangélicos brasileiros é a de uma pessoa que visita nossas igrejas para contar histórias incríveis sobre povos que vivem em lugares distantes na floresta ou no deserto, e que possuem comidas, línguas e costumes estranhos. E até pouco tempo atrás pensávamos que somente europeus e norte-americanos podiam ser missionários.

Mas nos últimos 40 a 50 anos a situação do cristianismo mudou de forma dramática, e essa é uma das realidades que certamente afeta a missão nos nossos dias.

Apenas para exemplificar brevemente, vejamos algumas realidades surpreendentes que resultaram dessa mudança:

  • Há alguns anos 85% dos participantes das reuniões da organização missionária Cruzada Estudantil na Universidade de Yale, nos Estados Unidos, eram chineses, coreanos, japoneses e indianos. Até meados do século passado certamente a maioria dos participantes seria composta por ocidentais.
  • Já nas reuniões budistas ocorria o inverso: na mesma universidade, a grande maioria dos presentes eram ocidentais e não orientais.
  • A histórica igreja memorial de William Carey na Inglaterra (como sabemos ele foi missionário na Índia no final do século 19) é hoje um templo hindu.
  • Atualmente mais cristãos anglicanos frequentam reuniões semanais na Nigéria do que em todas as reuniões semanais das igrejas episcopais e anglicanas da Europa e América do Norte.

É certo que ainda podemos continuar falando de povos não alcançados com o Evangelho e de seus costumes ‘estranhos’. Mas já não podemos relacionar cristianismo apenas com pessoas procedentes do hemisfério norte.

E isso se deve ao fato de até recentemente o Ocidente ser cristão e o resto do mundo era o campo missionário. Mas se até meados do século 20 a maior parte das pessoas que se declaravam cristãs viviam na Europa e nos Estados Unidos, as estatísticas nos mostram que hoje 70% dos cristãos vivem no ‘Sul Global’, antes conhecido pelo termo pejorativo de ‘terceiro mundo’.

Segundo Mark Noll,

Alguém que dormiu por 50 anos e acordou recentemente tentando encontrar seus irmãos cristãos, os encontraria em lugares surpreendentes, expressando sua fé de formas surpreendentes, sob condições surpreendentes, realizando surpreendentes conexões entre cultura e política, e fazendo surpreendentes perguntas teológicas que não teriam sido possíveis quando ele caiu no sono há 50 anos.”

Com essas mudanças, o movimento missionário também sofreu transformações. Hoje existem milhares de missionários cristãos provenientes das mais variadas regiões do globo terrestre. A igreja na Índia, terra do hinduísmo, envia mais de 40 mil missionários transculturais, muitos deles para as milhares de etnias existentes dentro do próprio país. Além disso, já encontramos por todo o mundo missionários cristãos originários da Coreia do Sul, Brasil, Quênia, Argentina, Mongólia, China e muitos outros países.

Também não podemos nos esquecer que com o desaparecimento da ‘cristandade’, missões já não é sinônimo de cristãos do Norte levando o Evangelho para o Sul. Missões passou a ser multidirecional, ou seja, de todos os lugares para todos os lugares. E este fenômeno só tende a aumentar nas próximas décadas, o que também aumenta a responsabilidade missionária da igreja brasileira.

Outra implicação dessa realidade para nós é que quando enviarmos missionários para o Oriente Médio, África e Ásia, não podemos nos esquecer que nesses lugares já existem igrejas estabelecidas, algumas delas há mais de dois mil anos. Precisaremos respeitar a liderança local e entender que o nosso papel provavelmente não será de liderança, mas sim o de apoiar a igreja local para que seus membros possam cumprir a Grande Comissão na sua própria região e, por que não, até os confins da terra.

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