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Transmissão Global, Missão Global (Parte 2/6)

O impacto e as implicações da pandemia de Covid-19: “Visão amplificada – questões socioculturais” e “Mas e a economia?”

Jason Mandryk

O conteúdo a seguir é a segunda de seis parcelas do e-Book de mesmo título publicado pela Operation World. Foi originalmente escrito em inglês, e o Martureo recebeu autorização para traduzir para o português e republicar o material.

 

Se preferir, leia antes a Parte 1/6 – “Prefácio” e “Adentrando o desconhecido”, texto que traz os itens 1 a 6.

 

Visão amplificada – questões socioculturais

7. A globalização está passando por um duro golpe, por mais de uma razão. A imposição de restrições a viagens é uma das aparentes causas mais imediatas – e um dos efeitos. A desilusão, e até mesmo a indignação, com organizações globais como a Organização das Nações Unidas (ONU) em função de suas evidentes falhas é outra. E uma grande crise econômica, ainda outra. A humanidade tem uma histórica – e sensível – tendência a se agachar ou se deitar durante pandemias e outras crises, então não surpreende o fato de a globalização ter estremecido até uma parada. O dano sofrido, no entanto, é mais que um arranhão na obra O Lexus e a Oliveira – Entendendo a Globalização, de Thomas L. Friedman; os próprios fundamentos ideológicos da globalização encontram-se sob intenso escrutínio. Cristãos dividirão opiniões a respeito do golpe à globalização: é algo bom ou ruim? No entanto, a história de missões parecer mostrar que a globalização normalmente acelera a missão, enquanto o nacionalismo ascendente tende a dificultar a missão mundial. Adiante trataremos disso.

 

8. Racismo, xenofobia e formas tóxicas de nacionalismo estão aumentando. Algumas minorias têm se tornado alvo de ódio e violência, enquanto outras sofrem de forma desproporcional por conta da Covid-19. Atitudes anti-imigração e contra os imigrantes correm ao lado de tais tendências. Os imigrantes já estavam passando por dificuldades, seja nos Estados Unidos, Europa, Oriente Médio, África do Sul ou Sul da Ásia – bem, na verdade, em praticamente todo lugar. Em tempos como esse, há uma tendência de as comunidades tenderem a se fechar a estranhos, proliferam atitudes de desconfiança, o “de fora” começa a ser demonizado, a discriminação é legitimada, e os corações endurecem. O secretário geral das Nações Unidas chama isso de “tsunami de ódio”.

Como os cristãos podem compartilhar as boas novas de Jesus em culturas e comunidades não alcançadas diante dessas barreiras? Estamos dispostos a transpor tais barreiras de preconceito a fim de demonstrar o poder reconciliatório do evangelho? Que oportunidade poderosa! O que é mais desconcertante em tudo isso é que muitos cristãos, em vez de se colocarem contra tais preconceitos, encorajam-nos e os manifestam. Se nossa resposta como seguidores de Cristo advém da pergunta “Quem é meu próximo?” ou, extrapolando, da afirmação de que “Nessa nova vida, não importa se você é judeu ou gentio, se é circuncidado ou incircuncidado, se é inculto ou civilizado, se é escravo ou livre…” (Cl 3.11), ela deveria ser clara a todos.

 

9. As tensões aumentaram, e as discussões saudáveis sobre direitos civis se tornaram incrivelmente raras, não apenas entre diferentes nações, mas entre diferentes segmentos da população de uma mesma nação, e até mesmo entre indivíduos. Na verdade, isso já acontecia antes da Covid-19.

É improvável que, em conversas cara a cara, um acordo ou reaproximação possa ser alcançado entre um fervoroso defensor da Organização Mundial da Saúde e alguém que acredita nas teorias da conspiração 5G ou ID21. Por meio de nossas mídias sociais onipresentes, então, isso é praticamente impossível.

Nós deveríamos ficar entristecidos, mas não surpresos que, nos Estados Unidos, questões políticas e econômicas relacionadas à Covid- 19 têm levado ao aprofundamento de divisões que já eram profundas. Ouvi a respeito de pessoas da geração conhecida como baby boomers culpando os da geração conhecida como millennials e vice-versa sobre condutas irresponsáveis e atitudes egoístas. Observe o abismo entre populações urbanas com alta densidade e populações rurais mais dispersas no que se refere à atitude perante os lockdowns. Os pobres culpam os ricos por terem trazido o vírus a seus países, e se ressentem do conforto do qual os ricos podem usufruir no lockdown. Os ricos, por sua vez, ressentem-se do lockdown devido às perdas que ele traz aos seus ativos financeiros. Aqueles que querem trabalhar reclamam dos que querem permanecer seguros em casa e vice-versa, e por aí vai. Os cidadãos perdem a confiança no governo, e as frustrações emergem, especialmente quando os governos falham em dar repostas rápidas e sábias. A China, em especial por algumas de suas condutas indesculpáveis relacionadas ao manejo da Covid-19, é cada vez mais alvo de recriminação por parte de outros países, em especial dos que necessitam de um bode expiatório para desviar a atenção de seu mau gerenciamento da crise. E a resposta da China é surpreendentemente belicosa. Alguns alertam para uma onda de nacionalismo chinês que possa levar a algo além de embates comerciais, ou seja, a uma escalada de tensões militares na região do leste asiático. O nacionalismo e a política externa conhecida como hawkish (contracionista, não expansionista) ganham aceitação em tempos de declínio econômico. E não é apenas Taiwan que enxerga isso com preocupação.

 

10. Autoritários estão aproveitando a oportunidade para consolidar o poder. O autoritarismo já estava em expansão. Os lockdowns em função da Covid-19 acelerarão isso, assim como eles aceleram a degradação de todo aparato das democracias saudáveis. É bastante razoável e assertivo que, em prol do interesse coletivo, suspendam-se determinadas liberdades na luta contra o coronavírus. Mas quando vamos tê-las de volta? Regimes opressores do passado com sucesso convenceram suas populações a trocar direitos civis por promessas de segurança. É raro um governo que renuncia voluntariamente, mesmo em uma democracia liberal, a um maior controle sobre seus cidadãos após esse controle ser obtido. O que dizer, então, das potências que estão perfeitamente confortáveis controlando e oprimindo seus próprios cidadãos? Na Rússia, médicos com equipamento de proteção individual inadequado estão sendo coagidos a trabalhar quase que em regime de servidão, expondo-se a altos riscos e com baixos salários. Na China, as publicações sobre Wuhan nas mídias sociais foram censuradas, e há pessoas que divulgaram a situação e desapareceram ou enfrentaram ameaças de morte. Em Hong Kong, as autoridades aproveitaram a oportunidade do bloqueio para prender vários líderes de protestos pró-democracia. Alguns autocratas negam a presença do vírus em seu país [ou minimizam ou ignoram seus efeitos], e há até pessoas que são presas por dizer a palavra “coronavírus”. Essas dinâmicas serão replicadas em outros lugares (mesmo que de forma sutil), pois os regimes autoritários se aproveitam da agitação da crise do coronavírus para mudar as leis, afirmar um controle mais minucioso da vida dos cidadãos, e remover a oposição política.

 

11. Você ESTÁ sendo monitorado. À medida que o globalismo [condição de interligação de todo o planeta com redes de comunicação] sofre repetidos golpes estruturais, os autocratas tomam o poder, os direitos civis são suspensos, e a prestação de contas do governo às pessoas é interrompida. Também vemos a disseminação da vigilância a uma velocidade (e em níveis) que deve nos acender um alerta. Anteriormente, o monitoramento servia para combater o crime e fornecer segurança aos cidadãos cumpridores da lei – “Se você não tem nada a esconder, não há o que temer”. Hoje, estamos vendo o lançamento da vigilância digital em nome do combate à Covid-19. Na República Popular da China, a liberdade de movimento de cada cidadão foi ditada por aplicativos gerenciados pelo governo em dispositivos pessoais. No Ocidente, debates técnicos e filosóficos sobre questões de privacidade em aplicativos de rastreamento de contatos parecem mais benignos. Mas a realidade é que já vendemos – ou melhor, fizemos assinaturas de – nossa privacidade para as empresas que gerenciam nossas vidas digitais, tudo por conveniência.

Imagine um cenário em que um cristão tem todos os seus movimentos e encontros pessoais rastreados por uma corporação ou pelo governo. Se esse cristão é um missionário em um contexto transcultural, ou se é um pastor que está inserido em um governo em que sua denominação não tem o endosso governamental, bandeiras digitais levantam-se para alertar os que estão no controle que tal indivíduo teve contato com as pessoas A, B, C e D. A partir disso, esses quatro também estão na lista de observação. Imagine congregações subterrâneas cujos dispositivos mostram não apenas suas localizações, mas suas próprias conversas. Não há necessidade de imaginar; a tecnologia já está em toda parte. É preocupante perceber que isso pode acontecer conosco em países com liberdade de expressão e liberdade de religião; é arrepiante pensar em como forças hostis à fé cristã poderiam abusar de tal poder.

 

12. Ajuda como arma infelizmente não é algo novo. A retenção da ajuda internacional a minorias étnicas, políticas e religiosas tem sido uma ferramenta empregada por regimes opressores. Também é verdade que o lockdown contribui para o bloqueio de envio de suprimentos (principalmente alimentos), aumentando a miséria. É comovente ler relatórios em que a assistência alimentar é negada àqueles que não pertencem ao grupo dominante local, ou quando ela só é permitida mediante concessões – como a conversão para a religião majoritária. É alentador ler quando instituições de ajuda humanitária cristãs locais, nesses mesmos lugares, ajudam todos os necessitados, independentemente de credo ou cor – para incredulidade dos que são alvo de tal ato de bondade.

 

13. Um modo de operar em torno da vida digital está surgindo, mesmo que nosso mundo físico esteja próximo de nós. Há muita vantagem nisso. Famílias, amigos, igrejas e organizações conseguem continuar interagindo uns com ou outros, pelo menos nos lugares onde há acesso aos dispositivos e banda larga. Nós temos uma boa quantidade de recursos cristãos disponíveis digitalmente, ao mesmo tempo que há uma quantidade absurda de distração, entretenimento e de vícios. As esferas de educação, negócios, governo e, claro, mídia, todas elas passaram por essa migração com níveis diferentes de sucesso. É muito improvável que muitos de nós retornemos aos níveis de existência off-line que havia antes disso tudo eclodir. De qualquer forma, as organizações estão se desdobrando para construir uma estrutura capaz de acelerar e melhorar essa transição – há, literalmente, bilhões de potenciais consumidores, e eles estão simplesmente aguardando conexões mais rápidas e baratas e mais e mais conteúdo.

 

14. Questões de saúde mental e correlatas estão aumentando. É praticamente certo que haverá aumento significativo do número de pessoas que sofrem com alguma questão de saúde mental. Perdas de emprego, crise econômica, luta para lidar com as realidades impostas pelos lockdowns, violência doméstica (incluindo infantil), pensamentos suicidas, ansiedade, pânico e depressão – tudo isso demanda repostas compassivas e eficazes. Para milhões, a falta de qualquer tipo de contato físico por muitas semanas acarretará novos níveis de sofrimento emocional e físico. Adicione-se a isso o estresse emocional nos lares em que há crianças estudando em casa [e muitas nem contam com essa possibilidade] – cerca de 90% das crianças em idade escolar estão fora da escola.

A Igreja, em geral (mas nem sempre), é um bom lugar para as pessoas que estão sofrendo – um lugar onde encontram amor, cuidado, suporte e aceitação. Tais provisões, é claro, estão usualmente disponíveis em uma igreja operando normalmente, o que não acontece no momento. E embora o ministério cristão possa responder às necessidades espirituais das pessoas, incluindo o lado espiritual da questão da saúde mental, crentes bem-intencionados não têm a competência necessária para lidar com questões de saúde mental sem que recebam treinamento apropriado. Um bom tratamento de saúde mental requer recursos dedicados, e os sistemas de saúde estão sobrecarregados, tornando tais tratamentos indisponíveis. As igrejas e a sociedade de forma geral precisarão aprender a lidar com essas demandas cada vez maiores, ao mesmo tempo que superam o tabu em relação às questões de saúde mental.

 

15. A fadiga da transitoriedade é real. A verdade é que temos sido introduzidos a mudanças profundas em um intervalo de tempo muito curto. Não é possível imaginar nossas vidas sem a Internet, ainda que a maior parte da população mundial seja mais nova que a própria rede mundial de computadores! Retrocedendo até o ano 2000, Peter Gabriel cantou em Downside Up: “A única constante sobre a qual tenho certeza é a do nível de aceleração das mudanças”.

Se você fosse contar às pessoas, naquele mesmo ano 2000, sobre Uber e AirBnB; drones e SpaceX; carros elétricos autoguiados; fones com cancelamento de ruído externo; Fitbits [relógios que monitoram os sinais vistais]; Strava [app para corrida e ciclismo]; relógios com GPS, bio-impressoras 3D; tablets com tela touch e smartphones para todos, incluindo crianças e avós; inteligência artificial; CRISPR e edição de genes; Echo, Alexa, Siri; e o triunfo total do Facebook, YouTube, Twitter, Instagram, Netflix etc., provavelmente pensariam que você estivesse louco. Se você tem alguma disposição paranoica, não assista a vídeos de robôs da empresa Boston Dynamics, ou às notícias de que eles agora estão sendo implantados para ajudar nos protocolos de distanciamento social. Quem conhece o mundo da computação conhece a Lei de Moore, e a taxa de progresso tecnológico nos microprocessadores. E tudo tão vertiginoso que assusta.

Ainda sobre o ano de 2020, o que aconteceu em apenas alguns meses foi tão repentino! Estamos culturalmente, socialmente, financeiramente e filosoficamente despreparados para essa violenta velocidade de transição. Tivemos muito pouco tempo para aprender sobre o novo normal (agora há um termo irritante para isso), mas não há muito sentido em se sentir confortável com essas rotinas.

É inevitável que elas mudem novamente em breve.

 

16. Os que puderem inovar mais rápido e melhor serão ‘vencedores’. Esse não é um conceito novo no ramo dos negócios, mas agora aplica-se a igrejas migrando para plataformas digitais, a agências paraeclesiásticas em busca de se tornarem relevantes, a agências missionárias tentando recrutar, treinar e enviar trabalhadores, e a times tentando ter um impacto em campos missionários. De algum modo (ainda que não totalmente), isso significa que não necessariamente você precisa ser reconhecido ou bem-amparado em termos de recursos financeiros para que cresça rapidamente e seja eficiente.

 

Mas e a economia?

17. Trata-se de um retrocesso histórico do crescimento econômico, tanto globalmente como na maior parte dos países e cidades. O impacto financeiro será maior que os eventos de 2008-9, que levaram a uma recessão mundial. Trilhões de dólares foram e serão perdidos. Alguns especialistas antecipam que levará vários anos, talvez décadas, para recolher toda a cascata de dominós que vai ao chão agora. Algumas indústrias talvez nunca mais se recuperem totalmente. Na Índia, a taxa de desemprego gira em torno de 27% (são mais de 120 milhões de trabalhadores sem emprego). Os Estados Unidos perderam 22 milhões de empregos só em abril de 2020. Temos de voltar até a Grande Depressão para encontrar um período que se equipare ao montante de perdas financeiras e à turbulência atuais. Apenas o tempo dirá se esta avaliação vai se sustentar, mas é sóbria, especialmente porque uma pandemia global deve causar uma depressão global. Mas, ainda que seja apenas parcialmente verdadeira, uma depressão global teria um impacto não só na sociedade em geral, mas também na prática da fé pública e da missão no mundo.

 

18. Os ricos ficam mais ricos e os demais são deixados para trás. Riqueza e poder têm se concentrado nas mãos dos mais privilegiados dentre nós em uma velocidade nunca antes vista.

Em uma era marcada por um sem número de tentativas de combate à pobreza, observamos agora a desigualdade social emergir. Isso é verdade não apenas para indivíduos, mas também pode ser aplicado a corporações, segmentos da sociedade e até mesmo nações. Quanto mais dura de suportar for a Covid-19 em termos financeiros, países como como Japão, Alemanha e Canadá estarão em melhor posição para enfrentar a tempestade do que o Equador, o Quênia e Bangladesh. Certas empresas ricas (como Amazon, Apple e Google) terão seu valor no mercado de ações subindo, enquanto negócios familiares tentam descobrir como não desaparecer. Em 2020, pela primeira vez em uma geração, estamos perdendo a batalha global contra a pobreza, pois quase metade da força de trabalho do mundo enfrenta o “perigo imediato de ter seus meios de subsistência destruídos”.

Celebridades confinadas em mansões expõem o tédio que enfrentam enquanto vão da piscina para o jardim, ao mesmo tempo um bilhão de moradores de favelas lutam por água e comida. As elites empresariais e políticas confortavelmente isolam-se em suas “gaiolas douradas” – gaiolas com carros de luxo e jatos particulares que as transportam para onde quer que precisem ir em seu

gaiolas com limusines e jatos particulares para transportá-las para onde quer que precisem ir em acúmulo de lucro ou poder. Mas, mesmo em nossas culturas obcecadas por riquezas e celebridades, chega um ponto em que a tolerância diante desse fosso crescente termina, e a raiva coletiva começa a se espalhar. O movimento Occupy [que expressa oposição à desigualdade social no mundo] é apenas uma amostra disso.

 

19. Os pobres sofrem de forma desproporcional com doenças transmissíveis. Considere estes itens de medidas do Norte global diante da Covid-19 e seus desdobramentos: distanciamento social, trabalho e ensino remotos de casa, consumo (de alimentos e outros produtos) que possa produzir benefícios sociais [priorizar pequenos empreendedores locais e negócios sociais, por exemplo], transição para um modo de vida digital, lavagem frequente das mãos com água e sabão, linhas de crédito (empréstimos), investimentos para estímulo dos negócios e até renda básica universal – tudo isso para “achatar a curva” e não colapsar o sistema de saúde.

E se nada disso for possível? E se você estiver em uma casa com dois cômodos, com oito pessoas, incluindo seus pais e avós idosos e vulneráveis? E se a sua única fonte de receita for um pequeno negócio que depende de transação em dinheiro vivo, dia a dia, em um mercado de rua lotado, e que demanda negociação face a face com os fornecedores das mercadorias? E se você, não obtendo o suficiente para a provisão diária, vir sua família passar fome à noite? E se o acesso à água demandar a ida a um poço comunitário a dois quilômetros de distância, e sabão for um luxo apenas para os mais abastados? E se não existir estrutura pública para o cuidado de saúde até mesmo básico? Relatos vindos tanto de jornalistas quanto de trabalhadores cristãos falam da escalada de fome e desespero em muitos contextos do Sul global.

Quando a cura ou o remédio são, na verdade, piores que a doença, outras abordagens tornam-se necessárias.

 

20. Um capitalismo sem critérios, que prioriza lucro em detrimento de pessoas, é moralmente falido. Eu certamente espero que, neste contexto, possamos concordar com essa premissa sem a necessidade de dizer que “nada é mais importante que vida humana”. Quando pessoas estão escravizadas a sistemas fundamentalmente injustos em vez de serem partes de sistemas que estão à serviço das pessoas, algo está errado. Reações de certos setores da sociedade ajudam a tornar mais clara a incompatibilidade do evangelho de Jesus (e o inestimável valor de cada ser humano) com a busca de lucro imprudente.

Talvez sejamos capazes de aprender com este teste a que estamos sendo submetidos que o crescimento econômico é um ídolo, e que o verdadeiro florescimento humano consiste em algo muito além do PIB e do índice da Standard & Poor’s. Vimos notícias de empresas grandes recebendo ajuda financeira e empréstimos destinados a pequenas empresas (estou falando de você, LA Lakers!), de empresas que exploram brechas fiscais em paraísos fiscais agora apelando para pacotes de estímulo dos governos a fim de evitar pagar impostos e assim por diante. Vimos também enfermeiros, faxineiros, caminhoneiros, trabalhadores de residenciais para idosos, funcionários de serviços de alimentação, proprietários de lojas e quitandas de esquina e professores, todos sendo reconhecidos como “heróis”. Vimos o mito do “trabalho não qualificado” se desfazer diante do nosso aprendizado sobre o que é, de fato, um “trabalhador essencial”.

Talvez possamos emergir para um melhor sistema econômico, um sistema reformado, que distribua a riqueza a esses heróis na mesma medida em que eles agregam valor à sociedade; ao mesmo tempo, haveria uma redução nos bônus e salários dos executivos de empresas cujo principal objetivo é o enriquecimento de poucos às custas de muitos. Como um sábio líder da igreja de Cingapura pontuou: “As pessoas não devem ser forçadas a viver na beira do penhasco, mas devem receber um amortecedor adequado para crises inesperadas, que costumam nos incomodar de vez em quando. A economia global precisa ser reorientada de forma que justiça e compaixão sejam valores intrínsecos”.

Jesus demonstrou repetidamente o valor das pessoas em detrimento do valor de moedas. Seja quando uma mulher usou um óleo caro em seus pés, quando Maria sentou-se diante dele enquanto Marta trabalhava agitada, na porção escassa da viúva, na perturbação da economia local quando da limpeza do templo, quando houve a destruição indireta de uma manada de porcos, e em muitos outros episódios nos quais vemos a resposta de Jesus à pergunta “Mas e a economia?”. A única razão pela qual a economia importa é porque pessoas importam mais.

 

21. A adoção de novas tecnologias e políticas é possível como decorrência das mudanças citadas no item anterior. A crise financeira causada pela Covid-19 já está vendo várias nações aumentarem o consumo de energia limpa em detrimento de sistemas de energia poluentes (com emissões de dióxido de carbono) baseados em fontes não renováveis. Um reexame de paraísos fiscais que beneficiam apenas as empresas e os indivíduos mais ricos pode acontecer. Podemos ver uma reação contra as políticas de isenção de impostos em paraísos fiscais, levando as empresas a contribuírem de forma coerente com seus ganhos. É possível uma revisão das políticas de saúde pública em prol do interesse coletivo – incluindo os mais pobre e vulneráveis. Pode-se até discutir de forma mais ampla e séria a ideia mais radical de uma renda básica universal.

Nem todo cristão concorda com essas propostas [muitas delas, inclusive, recebem rótulos], mas é hora de mostrar, como se diz metaforicamente, que “o rei está nu”. O sistema, tal como estava funcionando, apresentava sérias falhas fundamentais, e essas falhas estão agora expostas. O capitalismo não controlado pela compaixão causa grandes danos. E as pessoas que sofreram com os danos colaterais desse sistema defeituoso estarão ansiosas – possivelmente violentamente ansiosas – por adotar modelos políticos e econômicos diferentes, muitos deles considerados radicais.

 

Sobre o autor
Jason Mandryk é canadense – fez seu mestrado em Estudos Cristãos Globais no Providence Theological Seminary –, mas vive na Inglaterra. Ele trabalha com a publicação Operation World, literatura cristã que compila pesquisas e dados de países em todo o globo e também um guia de oração. Inicialmente foi coautor e agora é o autor.

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