Edita
Missionários em território de guerra

por Marcos Amado
Compartilhado do Blog marcosamado.substack.com/p/a-verdade-que-liberta
Você pode baixar duas ferramentas visuais que resumem o conteúdo deste artigo: uma apresentação de slides em pdf e um infográfico.
Circula nos meios de comunicação textos alarmantes escritos por líderes evangélicos sobre a “chacina de cristãos” na Nigéria. Tais textos, carregados de emoção, descrevem um cenário de perseguição sistemática e extermínio motivado exclusivamente pela fé, concluindo com um urgente apelo à oração.
Como Corpo de Cristo, nosso primeiro instinto é, e deve ser, a oração. O sofrimento na Nigéria é real e a dor de nossos irmãos é genuína. Contudo, diante de tragédias dessa magnitude, nossa fé exige um compromisso inegociável com a verdade. Precisamos ter cautela com informações exageradas ou imprecisas, pois o exagero, ainda que bem-intencionado, pode transformar uma crise humanitária em ferramenta ideológica.
O Cenário Real: Mais complexo do que parece
A Nigéria enfrenta, há décadas, um cenário de violência extrema, caracterizado por terrorismo, conflitos étnicos e fragilidade das instituições. Embora seja verdade que os cristãos estejam entre os que mais sofrem, eles não são as únicas vítimas dessa crise. Milícias jihadistas, como o Boko Haram, não se limitam a atacar igrejas; suas ações violentas também atingem mesquitas, escolas públicas e mercados, demonstrando o alcance indiscriminado de sua brutalidade.
Um aspecto pouco divulgado, mas que ilustra a complexidade da situação, é o fato de o presidente do país ser muçulmano e, ao mesmo tempo, casado com uma pastora de uma influente igreja pentecostal. Esse detalhe revela a intricada teia de relações que compõe o cenário nigeriano, desafiando visões simplistas sobre o conflito.

Dados do Armed Conflict Location and Event Data (Acled) mostram que muçulmanos, cristãos e pessoas sem filiação religiosa morrem em proporções semelhantes. As diferenças estatísticas são muito menores do que as narrativas de “genocídio religioso” sugerem. Além disso, muitos conflitos entre pastores muçulmanos (Fulani) e agricultores cristãos originam-se de tensões por terra e água, e não apenas por motivos religiosos.
Permitam-me dar um exemplo prático para ilustrar o perigo de rótulos sem contexto. Um fato pouco divulgado é que Brasil e Nigéria são responsáveis por 20% das mortes violentas intencionais no mundo, embora juntos representem apenas 6% da população mundial.
No Brasil, integrantes de grupos criminosos armados, responsáveis por parte dessa violência, se autodenominam cristãos. Diante disso, surge a pergunta: seria correto afirmar que cristãos brasileiros armados estão aterrorizando a população em diversas cidades?
A imprensa internacional já observa esse fenômeno. Em 2024, o jornal inglês The Guardian publicou uma matéria intitulada “Gangues ‘narco-pentecostais’ do Rio são acusadas de ordenar o fechamento de igrejas católicas”. Em outro artigo, chamado “Cristo e cocaína: as gangues de Deus no Rio de Janeiro misturam fé e violência”, o jornalista Tom Phillips afirma que “uma nova geração de ‘narco-pentecostais’ está abraçando símbolos cristãos” e relata que um desses grupos de “criminosos nascidos de novo” foi acusado de saquear templos de religiões afro-brasileiras.
Para um leitor desavisado lá fora (que desconheça a complexidade da realidade brasileira e não tenha definições claras sobre termos como “cristãos”, “pentecostais” ou “nascidos de novo”), essas informações podem facilmente levar à interpretação equivocada de que cristãos pentecostais brasileiros estão, de fato, em uma cruzada violenta contra católicos e outras religiões.
O risco é que, mesmo sem essa ser a intenção, uma mensagem distorcida sobre a realidade seja transmitida. Devemos ter esse mesmo cuidado ao julgar a situação nigeriana para não propagarmos, sem querer, uma visão que não condiz com os fatos.
A Verdadeira Ajuda
Muitas vezes, focamos tanto em “quem está matando” que esquecemos de perguntar “o que pode salvar vidas?”. Análises recentes mostram que cortes na ajuda humanitária americana resultaram na interrupção de programas vitais de saúde e nutrição na Nigéria. Estima-se que 270 mil pessoas (cristãs e muçulmanas, muitas delas crianças) deixaram de ser atendidas anualmente.
Oração com Entendimento
A intercessão é insubstituível, mas não anula a necessidade de buscarmos informações que reflitam, da melhor forma possível, a verdade. Nosso compromisso com os princípios cristãos rejeita o sensacionalismo e os boatos, pois o Reino de Deus se constrói sobre a verdade. Que nosso compromisso com a justiça e a vida nos leve a analisar os fatos com prudência, para que nossa oração seja tão sábia quanto fervorosa.
Observação1: Este texto é uma versão revisada e ampliada de um artigo originalmente publicado por Marcos Amado em um veículo de imprensa de circulação nacional em dezembro de 2025.
Obervação2: As opiniões apresentadas são de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, o posicionamento institucional da SEPAL.
Links úteis sobre informações mencionadas no texto
https://news.un.org/pt/story/2023/12/1824572
https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(25)01019-0/fulltext
https://www.nytimes.com/2025/11/08/opinion/trump-christians-nigeria.html




