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Viagens missionárias de curto prazo

História, implicações e eficácia

Felipe Fulanetto

A maior parte das igrejas engajadas com Missões já realizou algum tipo de viagem de curto prazo, prática que tem se espalhando por diferentes denominações e agências missionárias. É algo rápido e acessível a muitas pessoas que nunca sonharam ser missionários “de carreira”.

Entretanto, muitos missiólogos, pastores e membros de igrejas têm questionado se as viagens missionárias de curto prazo (doravante VMCP) são eficazes ou mesmo biblicamente defensáveis. Este artigo traz uma breve análise histórica, bíblica e antropológica da VMCP e, ao final, propõe alguns pontos para reflexão.

Influência dos EUA no modelo atual

De acordo com Roger Peterson (PETERSON, 2009, p. 752), cerca de 1,6 milhão de pessoas das igrejas americanas viajaram em alguma VMCP somente em 2005, e os gastos estimados nessas viagens giram em torno de 2 bilhões de dólares.

Howell diz que as VMCP surgiram entre 1946 e 1960 (HOWELL, 2012, p. 87-101), época de grande entusiasmo evangelístico dos jovens cristãos nos Estados Unidos, e que aparentemente essas viagens lhes pareciam mais atraentes do que abraçar uma vida missionária de carreira logo de início. Duas organizações missionárias em particular, Jovens Com Uma Missão (JOCUM) e Operação Mobilização (OM), moldaram a práxis e a teologia desse movimento.

Após a 2ª Guerra Mundial, o mundo estava em completo caos e reestruturação, e o coração de milhares de jovens cristãos pulsava para transformar o mundo destruído. O avanço da tecnologia aeronáutica e o crescimento econômico dos EUA propiciaram uma relação forte e duradoura entre as VMCP e os jovens. Loren Cunninghan, fundador da JOCUM, fala sobre isso em sua autobiografia, escrita em 1984, ao relatar uma visão que teve certo dia:

Naquela noite, após a reunião de louvor, retornei ao quarto de hóspedes com suas paredes brancas, o único adorno que nelas havia era a cena de uma ilha em uma moldura de madeira barata. Deitei-me na cama, minha cabeça sobre o travesseiro dobrado, e abri minha Bíblia, pedindo como sempre que Deus falasse em minha mente. O que aconteceu em seguida não foi algo comum. De repente, estava olhando para um mapa do mundo e o mapa estava vivo, movendo-se! Sentei-me. Balancei a cabeça, esfreguei os olhos. Era um filme mental. Eu podia ver todos os continentes. As ondas batendo nas costas. Cada onda foi para um continente, depois recuou, e, em seguida, veio de maneira mais forte, até que cobriu os continentes por completo. Prendi a respiração. Então, enquanto eu observava, a cena mudou. As ondas transformaram-se em jovens – e ainda mais jovem – cobrindo os continentes. Eles estavam conversando com as pessoas nas esquinas e fora dos bares. Eles estavam indo de casa em casa. Eles estavam pregando. Em todos os lugares cuidavam de pessoas […] “Era realmente você, Senhor?”, eu me perguntei, ainda olhando para a parede, espantado. Jovens – na verdade, crianças – que saíam como missionários  […].  Se essa imagem estranha realmente tinha vindo de Deus, devia haver uma maneira de atuar nos problemas aproveitando a energia dos jovens. (HOWELL, 2012, p. 90-91)

De acordo com Howell, a influência do movimento de VMCP foi de tal magnitude que o presidente John Kennedy criou, em 1961, o Peace Corps (Corpo de Paz), programa do governo por meio do qual jovens americanos candidatam-se como voluntários para ir a países chamados “em desenvolvimento” para servir por dois anos ou mais . No entanto, os valores por trás da iniciativa do Peace Corps estavam impregnados de uma visão colonialista e imperialista – havia a intenção de promover os valores democráticos norte-americanos valendo-se das virtudes cristãs e de um discurso anticomunista. Apesar disso, a resposta da população ao projeto Peace Corps foi entusiástica. Em apenas cinco anos, mais de 10 mil voluntários foram treinados para servir em mais de 40 países diferentes. Publicações renomadas como a revista Time e o jornal The New York Times afirmaram que esses voluntários americanos eram a melhor forma de levar o idealismo democrático ao mundo inteiro (HOWELL, 2012, p. 93-97).

Howell diz também que apesar de o movimento de VMCP anteceder o Peace Corps, o projeto do governo moldou e inspirou o modelo de treinamento, propósito e filosofia dos projetos eclesiásticos posteriores. Conforme Shenk salienta, a áurea que certa vez existiu do “missionário” mudou para o termo popular “voluntário” e, com isso, surgiu a “era do voluntariado” (SHENK, 1970, p. 1). Naquele tempo eram jovens universitários os que predominantemente envolviam-se nos projetos. Porém, no início da década de 70, a JOCUM e a OM iniciaram viagens com estudantes pré-universitários. Por se tratar de um público mais novo, a linguagem empregada para conquistar voluntários sofreu uma grande mudança. O discurso de que a VMCP era para recrutar possíveis missionários de carreira não era mais válido, pois adolescentes de 13 a 18 anos não eram aptos a se tornarem missionários de longo período. Portanto, a linguagem foi remodelada para uma perspectiva mais individualista, isto é, a viagem servia para crescimento pessoal e desenvolvimento espiritual da pessoa envolvida e, em muitos casos, essa ênfase permanece até os dias atuais.

Décadas após o surgimento desse paradigma missionário, podemos afirmar que a maioria das agências e/ou juntas missionárias têm seus próprios programas de VMCP, setorizados de acordo com propósitos, períodos e públicos-alvo, como exposto a seguir.

Modelos

Hoje, há infindáveis possibilidades de envolvimento transcultural com a obra missionária tanto no Brasil como fora do País por meio de VMCP. Podemos segmentá-las de acordo com o propósito, a estratégia, o período de serviço e outras características. Os modelos listados adiante de VMCP podem, inclusive, ser aglutinados no intuito de se completarem e se tornarem mais eficazes.

a. Manutenção e construção
Equipes que viajam para, voluntariamente, prestar serviços tais como pintura, manutenção da casa pastoral ou de abrigo para crianças, construção de locais para celebrações, limpeza do bairro, construção de centros teológicos etc.

b. Assistência social
Tem como alvo levar alívio e assistência em situações de calamidade e de pobreza. Atividades como entrega de cestas básicas, roupas, kits para higiene pessoal, filtros de água e outros itens para melhorar qualidade de vida são algumas das atividades realizadas por quem participa de uma VMCP dessa natureza.

c. Assistência médica
Esse modelo tem o mesmo alvo do anterior, mas aqui o foco é prestar assistência na área de saúde. São equipes formadas por médicos de diversas especialidades, dentistas, enfermeiros, nutricionistas etc.

d. Proclamação
É o modelo mais usual e o mais praticado. São equipes cujo propósito é levar a mensagem do evangelho, desafiando as pessoas do local visitado a se tornarem seguidoras de Cristo. Nessas VMCP, há muitos programas externos em locais públicos e o objetivo é (ou deveria ser) levar os novos cristãos a se integrarem a uma comunidade de fé local.

e. Esportivo
É uma boa estratégia para alcançar um público que, de outro modo, não teria contato com cristãos e não ouviria sobre Jesus. Muitos brasileiros, aproveitando a imagem do País no exterior, promovem VMCP com jogadores de futebol que formam times para participar de campeonatos.

f. Treinamento
Para regiões onde o crescimento numérico da Igreja foi explosivo, mas onde há necessidade de crescimento espiritual, equipes específicas para treinamento de líderes podem (e devem) ser enviadas. Com o avanço do conhecimento teológico no Brasil, mais VMCP com acadêmicos têm sido feitas.

g. Entrega de bíblias e materiais cristãos
Ainda hoje, muitos países proíbem o acesso a materiais cristãos, especialmente a Bíblia. Assim, há VMCP para levar literatura à Igreja de determinadas localidades.

As VMCP têm contribuído com o movimento missionário nacional e global?

Como mencionado na introdução, muitos missiólogos, pastores e até membros de igrejas têm questionado se as VMCP são válidas. Olhando para o início do movimento, muitas perguntas têm sido levantadas há décadas. Wilbert Shenkj , escrevendo para a revistaInternational Bulletin of Missionary Research em 1970, ressaltou algumas limitações dos jovens envolvidos com VMCP:

  • Menos preparo e experiência para trabalhar em contexto transcultural;
  • Nível de produtividade baixo;
  • Menos flexibilidade de função/trabalho;
  • Imaturidade para resolver problemas;
  • Percepção de que o trabalho de curto prazo tem menos valor que o do missionário de carreira;
  • Motivações equivocadas;
  • A VMCP não muda (necessariamente) o conceito de Missões dos participantes como alguns criam.

Entretanto, Shenk também salientou aspectos positivos:

  • Mobilidade e adaptabilidade;
  • Força da mente investigadora;
  • Ampliação do conhecimento de mundo e de suas necessidades;
  • Missionários não estigmatizados como profissionais.

Um dos pontos debatidos desde o início (e que atualmente passou por grande mudança) diz respeito à duração de uma VMCP. Quando o movimento surgiu, o tempo mínimo para se voluntariar variava entre 2 e 4 anos. Hoje, é possível participar de programas de alguns dias. Eles são promovidos por igrejas, agências missionárias ou estão disponíveis em sites como o https://www.shorttermmissions.com.

Devemos analisar criticamente se essas viagens geram realmente o resultado esperado em tão curto prazo, e se tais resultados são relevantes e profundos o suficiente. Dentro da minha experiência como missionário residente e também como voluntário em VMCP, uma coisa é certa: qualquer projeto que não tenha objetivos claros, estrutura bem-definida, espírito de serviço e acompanhamento pós-viagem redundará em perda de tempo e de dinheiro.

A visão colonialista e paternalista de muitas agências missionárias ainda perdura após séculos, e influencia muitos projetos de VMCP. É comum observar viagens serem organizadas apenas sob a ótica dos participantes (que creem ser produtivos, eficazes e, algumas vezes, “superiores” aos do local para o qual estão indo), sem qualquer diálogo com a Igreja que recebe a equipe. Isso gera, muitas vezes, duplicidade de esforços e atritos no relacionamento entre a equipe de curto prazo e eventuais missionários residentes. Outro fator para o qual Howell chama a atenção é que, para a maior parte dos que vão para uma VMCP, compartilhar o evangelho significa combater a pobreza, “servir os necessitados” (HOWELL, 2012, p. 159). Em decorrência disso, projetos são selecionados em função do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do destino: quanto pior a situação de pobreza, melhor produzirá um sentimento de utilidade e satisfação nos participantes da viagem.

Missiologicamente, a visão deturpada de que “os enviados vão para ajudar os nativos” demonstra que a motivação da VMCP deve ser cuidadosamente submetida a critérios bíblicos, não humanos. Devemos ir a uma VMCP com espírito de aprendiz, não como alguém que irá ensinar e solucionar todos os problemas.

Portanto, em todos os tipos de projeto, a via de aprendizagem e serviço deve ser bilateral, isto é, ambos podem aprender e servir, tanto aquele que foi enviado como o que recebe. Por isso, a VMCP deve ser cristocêntrica em todas as suas ações, não antropocêntrica.

O que a antropologia pode nos ensinar?

Brian Howell, em seu livro Short-Term Mission – An Ethnography of Cristian Travel Narrative and Experience, traz uma observação etnográfica de participantes de VMCP.

Ao conversar com promotores de VMCP, é comum ouvir frases como: “Esta viagem mudará a sua vida”; “Você nunca mais será a mesma pessoa”; “Você se sentirá realmente importante”; “Precisamos de você para impactar vidas”. Todas essas falas têm um aspecto em comum: o antropocentrismo.

O maior perigo da VMCP está na intenção por trás de todas as ações. Será que, sem essa equipe, as pessoas não sobreviveriam? Sem o conhecimento e a habilidade dos enviados, elas não teriam capacidade? As pessoas são tão pobres e carentes que  esperam pelo amor do estrangeiro? Muitos responderiam “sim” para todas essas perguntas.

De fato, não conseguimos julgar as reais intenções de alguém que se envolve com uma VMCP, mas devemos prestar atenção às falas e às atitudes dos participantes. É praxe, ao final de um dia de trabalho, a equipe trocar experiências. Não raras vezes, ouvem-se citações como estas: “Eu agora darei mais valor para o que tenho”; “Realmente somos abençoados no nosso país”. Isso aponta para e experiências relacionadas ao próprio indivíduo.

Nesta sociedade pós-moderna, hedônica e narcisista, os projetos evangelísticos estão permeados por tais influências. As inúmeras fotos e selfies em redes sociais (de algo que deveria ser singelo e altruísta) seriam formas de autopromoção da santidade e piedade, com dezenas de imagens que mostram “como eu sou bom”? Quanto à escolha do local da viagem, além de se levar em consideração o quão pobre e exótico ele é, muitos afirmam não desejar ir para onde já foram. Querem conhecer outros lugares, trazendo a lógica do turismo para a VMCP.

Esta é outra realidade a ser ponderada: a Viagem Missionária de Curto Prazo seria turismo ou missionária? Críticos afirmam que o conceito de VMCP foi infectado por uma mentalidade turística, e alguns dados corroboram tal entendimento. A maior parte das VMCP das igrejas americanas, por exemplo, tem como destino a América Central, principalmente o Caribe, e não raras vezes há mais de uma equipe em um mesmo local para realizar trabalho idêntico ou similar. Um missionário que atua nas aldeias Tikuna, na floresta amazônica, relatou que, em uma única aldeia com 200 pessoas, dois projetos distintos entregaram óculos para os mesmos indígenas no espaço de semanas.

Ainda em relação ao etnocentrismo, se de um lado as VMCP ampliam o conhecimento das necessidades no mundo, de outro contribuem para uma visão míope das culturas.

Sim, o contato com outra cultura ajuda a entender o que é um contexto transcultural. A falta de preparo e o curto período a que os voluntários são expostos à cultura, por sua vez, comprometem um bom entendimento e geram conclusões precipitadas e equivocadas. Há norte-americanos que visitam o Peru por duas semanas e pensam conhecer toda a cultura latina; e brasileiros que viajam para o Quênia e acreditam que todos os africanos vivem como eles.

Howell, em seu artigo, diz que mesmo quem nunca integrou uma equipe de curto prazo, ao ver as imagens e ouvir os relatos dos que foram, constrói uma visão de “campo missionário” limitada: missões tem a ver com lugares exóticos e com necessidades materiais (HOWELL, 2009, p. 207).

O que há na Bíblia a respeito de VMCP?

A Escritura não traz um mandamento claro especificamente sobre isso, mas é possível extrair dela ensinamentos e princípios norteadores para esta reflexão.

O primeiro e maior exemplo missionário é o do próprio Deus encarnado na pessoa de Jesus Cristo. Missiólogos como Peterson, Aeshlimann e Sneed (ROBINSON, p. 2) afirmam que Jesus seria semelhante a um missionário de curto prazo, pois seu ministério durou apenas três anos. No entanto, estou de acordo com George Robinson, que contesta essa afirmação asseverando que a vida inteira de Jesus foi missionária: Cristo veio ao mundo com a missão de morrer e ressuscitar para redenção da humanidade. É possível dissertar, contudo, que Jesus teve uma vida missionária de longo prazo valendo-se da estratégia de VMCP.

Narrativas como as de Mateus 10 e Lucas 10 apresentam-nos o método de VMCP no ministério de Jesus. Primeiro, Jesus preparou os seus discípulos para o que eles iriam enfrentar, e os enviou, então, para um ministério específico por um curto período. A progressão da quantidade de discípulos enviados entre as duas histórias – de 12 para 70 – demonstra que a primeira viagem foi positiva, e que a metodologia era válida. Um dos objetivos de Jesus com essa pequena excursão missionária foi ensinar e treinar os seus discípulos, o que mostra a importância e a relevância de uma viagem com curto período. Vale apenas lembrar que os discípulos enviados por Jesus conheciam a cultura e o idioma, o que, raramente, é o caso em uma VMCP. Dessa forma, o exemplo é válido, mas com limitações.

Dentre os argumentos contrários à VMCP, um dos mais utilizados diz respeito à disparidade entre o que pode ser realizado em uma quantidade de tempo limitado por “amadores” versus o investimento monetário para tal atividade: a relação custo-benefício não é recompensadora. Mas o que dizer sobre o movimento missionário documentado no livro de Atos? Uma breve leitura mostra que o apóstolo Paulo e outras figuras bíblicas realizaram grandes feitos em visitas curtas e muitas vezes propositais. Mais uma vez, entra a ressalva de que eram circunstâncias em que os atores principais conheciam profundamente as Escrituras, a cultura e o idioma

De acordo com Robinson, o apóstolo Paulo, ao que parece, era um missionário de longo prazo que, como Jesus, utilizava estratégias de curto prazo. É amplamente aceito que Paulo raramente ficou mais que alguns meses ou mesmo semanas em um único local, com algumas exceções notáveis como em Éfeso (29 meses) e Corinto (17 meses) (ROBINSON, p. 4). Paulo nunca planejou ficar a vida inteira em uma região (como o padrão das missões modernas), porém ele fez um compromisso de toda a vida para missões desde o início de seu ministério, e o perseguiu sacrificialmente até sua morte. Não obstante, é verdade também que o principal motivo de Paulo não ter ficado em apenas um local por longo período foram as perseguições que lhe acometeram. Essa realidade, porém, não anula sua forte intenção de ser um pregador itinerante, notória em suas cartas (Rm 15.22-29).

No Antigo Testamento, podem ser citadas como exemplos de “VMCP” (não na forma como as temos hoje, é claro) as narrativas de:

  • Elias e a viúva de Sarepta (1Rs 17);
  • Neemias e o projeto de construção (Ne 2-10);
  • Jonas em Nínive (Jn).

Esses casos atestam que Deus pode, quando Ele assim desejar, realizar grandes coisas em um curto espaço de tempo. Uma Viagem Missionária de Curto Prazo pode, portanto, ser um instrumento para propagação do evangelho entre as nações.

Enfrentando desafios e aprimorando a VMCP

Peterson salienta que o propósito maior da VMCP é as nações, mas muitas vezes a preocupação em discipular o grupo que está participando da viagem tem ofuscado o principal objetivo, e, então, “o que poderia ter sido algo significativo na Missio Dei torna-se mais uma Missio Eu” (PETERSON, 2009, p. 754). Também é verdade que muitos programas de curto prazo causam transtorno e deturpam o testemunho cristão no local em que são realizados. Porém, erros e falhas humanas não devem anular o grande potencial desse modelo, por isso estou de acordo com Erickson: os benefícios da VMCP são muito maiores que qualquer percepção negativa (ERICKSON, p. 3).

As conclusões que podemos chegar depois da análise bíblica são que as Escrituras nos mostram que Deus pode fazer qualquer coisa que Ele quiser em qualquer curto ou longo período de tempo – às vezes através dos seus servos e, em outros momentos, apesar deles. A Bíblia mostra que tal estratégia foi utilizada tanto por Jesus como por Paulo e outros discípulos no primeiro século. Apesar disso, o modelo atual de VMCP – metodologia missionária que cresce em todo o mundo, inclusive no Brasil – está ainda em processo de amadurecimento e aprimoramento. Há quase nada escrito em português sobre o assunto, não somente de autores brasileiros, mas também traduções. Isso mostra uma lacuna a ser preenchida.

Quanto à crítica a respeito do custo-benefício de uma VMCP, deveria a lógica empresarial capitalista (o lucro deve ser maior que o investimento) nortear os projetos missiológicos? Marcos Amado, no artigo “A relevância do livro de Jonas para Missões”, argumenta que não.

Além disso, é fato que a maior parte dos missionários de longo período de hoje integrou, primeiro, uma equipe de curto prazo, e isso foi de grande valia para seu treinamento, bem como fortaleceu e confirmou a vocação missionária desses obreiros. As VMCP são uma ferramenta extremamente importante para mobilização missionária de longo prazo.

Também devemos ser humildes para reconhecer que não somos sabedores de tudo, e que não estamos ensinando fazer missões para o mundo. Karla Koll faz uma crítica dura em seu artigo sobre o pensamento colonialista que perdura no  meio missionário (especificamente em VMCP), e nos põe a repensar nossas ações (KOLL, 2010).

Enfim, a questão central não é se a VMCP deve ser feita, mas por que e como ela deve ser feita. Do material Standards of Excellence in Short-Term Mission, extraem-se alguns pontos essenciais:

  • Centralidade de Deus
    • A glória de Deus deve ser o propósito principal.
  • Parcerias
    • Ações devem estar alinhadas com estratégias de longo prazo, por isso a VMCP deve ser planejada e executada junto com igreja(s) ou missionário(s) do local.
    • Relacionamento saudável e interdependente entre a equipe que vai e os receptores em todas as etapas, inclusive após a viagem (avaliação, apoio para continuidade do trabalho).
    • Receptores devem ser ouvidos e ter primazia.
  • Cultura local
    • Entendimento e respeito.
    • Aprender mais que ensinar.
  • Vida íntegra dos membros da equipe
    • Devem zelar pela sã doutrina.
    • Oração constante e persistente.
    • Piedade nos pensamentos, palavras e ações.
    • Liderança espiritualmente madura e serva.
  • Administração transparente
    • Informações claras e corretas na promoção.
    • Prestação de contas estruturada.
    • Gestão adequada dos riscos.
    • Excelência nas ações realizadas.
  • Treinamento adequado
  • Formação bíblica e em áreas específicas compatível com o trabalho a ser realizado.
  • Antes, durante e, se possível, após a viagem.

Almejemos que as Viagens Missionárias de Curto Prazo sejam um instrumento em prol da Missio Dei.

 

Bibliografia

ERICKSON, Howard. Before You Go. Disponível em:http://themastersview.com/pdf/Before_You_Go.pdf. Acesso em 12 julho de 2015.

FORWARD,  David  C. The  Essential  Guide  to  the  Short  Term  Mission  Trip. Chicago: Moody Press,1998.

HOWELL, Brian M. Short-Term Mission: An Ethnography of Christian Travel Narrative and Experience. Downers Grove: InterVarsity Press, 2012.

_____, Brian M. Mission to Nowhere: Putting Short-Term Missions into Context. In: International Bulletin of Missionary Research. New York, 2009.

KOLL, Karla Ann. Taking Wolves  Among Lambs: Some Thoughts on Training for Short-Term Missions Facilitation. In: International  Bulletin of  Missionary Research. New York, 2010, vol. 34, nº 2. p. 93-96.

PETERSON, Roger. Missio Dei or “Missio Me”?. In: Perspective on the World Missions, R. D. Winter. Pasadena: William Carey Library, 2009.

ROBINSON,  George. Biblical  Foundations  For  Short-Term  Missions.  Disponível  em:  http://ojs.globalmissiology.org/index.php/english/article/view/381/989. Acesso em 12 julho de 2015.

SHENK, Wilbert  R. The  role of  short-term  personnel  in  missionary  service. In: International Bulletin of Missionary Research. New York, 1970.

STANDARDS  of  excellence  in  short-term  mission. The  7  Standards  of  Excellence.  Disponível  em:  http://www.soe.org/explore/wp-content/uploads/2011/09/The7StandardsBooklet.pdf. Acesso em 12 julho de 2015.

 

Sobre o autor
Felipe Fulanetto é casado com Jéssika Fulanetto. Coordena o Centro de Formação Missionária (CFM) da Igreja do Nazareno, onde é pastor e missionário. Também está à frente das pesquisas missionárias da AMTB e integra as equipes do Vocare e do Martureo. É organizador e coautor do eBook Vocação e Juventude (Editora Ultimato) e autor de Artigos de Fé na Ótica Missional (Sal Cultural).

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