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A Igreja Ortodoxa

A história de irmãos que, por 20 séculos, pagaram alto preço para permanecer fiéis ao nosso Senhor Jesus Cristo

Felipe Fulanetto

O texto a seguir foi extraído do eBook A Igreja Ortodoxa – Breve história até o século 12, de Marcos Amado, lançado pelo Martureo em parceria com a Sepal em novembro de 2019.

 

Ao atentarmos para a história dos conflitos humanos, fica claro que, no decorrer dos séculos, algumas das guerras mais cruéis e violentas foram provocadas, ainda que em parte, por convicções e divergências religiosas. Não é necessário olhar para séculos atrás (ou até mesmo décadas) para encontrar exemplos vívidos de tais situações. Ouvimos diariamente relatos de atrocidades perpetradas em diferentes partes do mundo em nome de Deus, ou, ousaria dizer, em nome da pureza e da exatidão ortodoxas. Essa realidade já seria moralmente deplorável se tais hostilidades ocorressem apenas entre representantes de diferentes religiões. Contudo, é frequente que seguidores da mesma religião promovam ações mútuas de violência, tanto verbais quanto físicas. Não raro isso ocorre devido a minúcias encontradas em declarações doutrinárias discordantes.

Infelizmente, o cristianismo também é um protagonista nesse cenário. Ao olhar para a história, é possível encontrar muitos registros de cristãos que não levaram em conta os ensinamentos de Jesus – especialmente no que diz respeito ao amor que devemos dedicar ao próximo como a nós mesmos (Mc 12.31) –, e, por conta disso, impuseram sofrimento e crueldade sobre outros cristãos. Foi o que aconteceu no caso de cristãos calcedonenses contra cristãos não-calcedonenses no Oriente Médio, de ortodoxos do oriente contra católicos na Ásia Menor e na Europa e, mais recentemente, de católicos contra protestantes no Reino Unido, para citar apenas alguns exemplos.

Felizmente, nossas diferenças não resolvidas nem sempre levam a agressões, mas elas, no mínimo, erguem muros que nos impedem de ficar um passo mais perto da realização do desejo de Jesus de ver seus discípulos como um, o que, por sua vez, faria com que o mundo cresse (Jo 17.21).

Possivelmente, uma das principais razões para tão grande discrepância é nosso fracasso, como cristãos, em dedicar mais de nosso tempo e esforços a fim de apreciar uns aos outros e aprender a partir de nossa história. A falta de entendimento engloba cristãos de todas as tradições, incluindo os membros de igrejas protestantes e ortodoxas. O teólogo russo Alexis Khomiakov, por exemplo, afirmava que “todos os protestantes são cripto-papistas”, e, embora no ocidente vejamos protestantes (especialmente os protestantes evangélicos) e católicos como grupos marcadamente distintos, acreditava que “ambos compartilham das mesmas pressuposições, pois o protestantismo saiu do ovo que Roma havia botado”.[1]

Se é isso o que um ortodoxo pode pensar de protestantes e católicos, o que um típico protestante evangélico brasileiro diria se lhe fosse pedido que definisse um cristão ortodoxo? A resposta provavelmente incluiria expressões como “fé nominal”, “adoradores de imagens”, “rituais vazios e entediantes”, para não mencionar “defensores de crenças não bíblicas”. Infelizmente, o evangélico brasileiro comum não tem qualquer conhecimento da singular história, da rica teologia e das liturgias dessa tradição cristã.

Diante de tal compreensão negativa, não é surpresa que nossos líderes evangélicos, estudantes de teologia e candidatos a missionários nem sequer considerem a necessidade de estudar a Igreja Ortodoxa com o objetivo de ter uma apreciação profunda não apenas de nossa herança teológica, mas também da história da igreja, passada e recente, de diferentes partes do mundo. O mais importante, porém, é que estamos perdendo a oportunidade de aprender com irmãos e irmãs que, por 20 séculos, pagaram um alto preço para permanecer fiéis ao nosso Senhor Jesus Cristo e aos seus ensinamentos em meio a muitas provações e perseguições.

Se evangélicos brasileiros fossem indagados sobre como se deu a expansão do cristianismo, a história apresentada certamente começaria em Jerusalém, no dia do Pentecoste, e, seguindo a narrativa baseada no livro de Atos, rapidamente moveria-se para a Ásia Menor e regiões mediterrâneas da Europa, concentrando-se, posteriormente, na expansão da Igreja Católica Latina rumo a outras parte da Europa. A narrativa certamente culminaria com a Reforma Protestante, que (diriam os evangélicos brasileiros) “resgatou a igreja dos perigos das heresias católicas romanas”, restabelecendo assim o “verdadeiro cristianismo ortodoxo”.

Embora essa percepção possa parecer exagerada, ela pode ser facilmente confirmada ao se analisar o programa de aulas de muitos seminários bíblicos e centros de treinamento de missões espalhados pelo Brasil. Além de algumas breves menções a certos eventos históricos extremamente importantes (como o Grande Cisma), quase nenhuma atenção é dada à história de mais de mil anos da Igreja no Império Bizantino, assim como às terras a leste da Síria, principalmente Mesopotâmia e Império Persa.

 

A era apostólica – Cristianismo no século 1

A expansão rumo ao Ocidente

O Império Romano, dentro do qual o cristianismo primitivo desenvolveu-se, era composto por várias cidades importantes. Sendo assim, foi natural ver, depois do Pentecoste, como os discípulos e os novos convertidos começaram a levar o evangelho para essas cidades. Vale dizer que o fato de a Bíblia mostrar o avanço do evangelho e o crescimento da Igreja principalmente nessas áreas não significa que os primeiros cristãos não levaram as boas novas a outras partes do mundo. Já no século 1, os seguidores de Jesus levaram a mensagem ao norte da África e às regiões a leste da Síria. Voltando ao movimento rumo às importantes cidades do Império Romano, embora natural, ele não foi, pelo menos inicialmente, o resultado de um plano de ação elaborado pelos apóstolos, mas a consequência da perseguição iniciada logo após o martírio de Estêvão (34 d.C.), que levou os discípulos para a Fenícia, Chipre e Antioquia (At 11.19-21). Foi em Antioquia, então uma das três cidades mais importantes do Império (naqueles dias, ela estava sob a jurisdição da província romana da Síria, mas hoje está dentro das fronteiras da Turquia), que o cristianismo começou a crescer e a criar raízes, a ponto de Barnabé, enviado a Antioquia pelos apóstolos que permaneceram em Jerusalém (At 11.22-24), sentir a necessidade de convocar Paulo para ajudá-lo (At 11.25-26), o que aconteceu por volta do ano 45 d.C.[2] A partir dali, iniciou-se o mais conhecido movimento missionário cristão do século 1, depois de a igreja em Antioquia, guiada pelo Espírito Santo, ter enviado Barnabé e Paulo em sua primeira viagem missionária (At 13.2-3).

Como resultado desse empenho, assim como dos esforços evangelísticos dos outros apóstolos e de miríades de discípulos anônimos, até o final do século 1, o que fora inicialmente visto como uma pequena seita judaica tornou-se uma religião mundial. Isso ocorreu não necessariamente por causa de seu grande número de convertidos, mas porque ela se espalhou para diferentes cantos do Império Romano, com representantes de todos os diferentes estratos sociais.

Naquela época, nas regiões da Palestina, Síria e Mesopotâmia, as pessoas comuns falavam aramaico (siríaco), o idioma usado por Jesus. No entanto, a língua franca por todo o império era o grego, o que facilitava em muito a interação social em diferentes contextos. Além do fato e da realidade das perseguições que ocasionalmente se levantavam contra os seguidores de Jesus, forçando-os a deixar seus lares e a encontrar locais mais seguros,[3] os eruditos acreditam que houve uma série de outros fatores que contribuíram para esse avanço relativamente rápido: a boa qualidade e a expansão das estradas romanas; a paz relativa que tornava as viagens seguras; a visão de mundo greco-romana, que facilitava, em determinadas situações, a discussão de novas ideias religiosas; e a existência de sinagogas, que serviam de ponto de partida para o compartilhamento do evangelho.[4]

Ao final do século 1, o cristianismo havia não apenas experimentado um crescimento geográfico e numérico significativo, como também começado a definir alguns elementos importantes da estrutura eclesiástica e da liturgia. O reverenciado patriarca Inácio, bispo de Antioquia, atesta esse fato nas cartas que escreveu a caminho do martírio em Roma na primeira década do século 2. Nesse ponto da história, a eucaristia já havia assumido um papel central na liturgia cristã, a tal ponto que, para Inácio, a Igreja só cumpre seu verdadeiro papel quando celebra “a Ceia do Senhor, recebendo seu Corpo e seu Sangue no sacramento”.[5] Quanto aos seus pontos de vista em relação à estrutura da liderança eclesiástica, Ware explica:

 

O bispo de cada Igreja (…) preside no lugar de Deus (…) que ninguém faça qualquer coisa relativa à Igreja sem o bispo (…) onde quer que o bispo apareça, que ali esteja o povo, assim como onde quer que Jesus Cristo esteja, existe a Igreja Católica. É tarefa primária e distintiva do bispo celebrar a Eucaristia, “o remédio da imortalidade”.

A unidade básica era a comunidade em cada cidade, governada por seu próprio bispo; para assistir o bispo existem presbíteros ou padres, e diáconos (…). Esse padrão (…) já estava estabelecido em alguns lugares no final do século 1. [6]

 

O Concílio de Jerusalém, uma importante reunião que aconteceu no ano 49 d.C. com a presença dos apóstolos (At 15), teria tremendas implicações para o desenvolvimento da Igreja, não apenas por conta de suas conclusões, mas também devido ao modelo que ele estabeleceu para as decisões relacionadas a assuntos teológicos e práticos que afetaram a Igreja, o que atestaremos mais adiante.

 

O que dizer do Oriente?

É possível que a falta de conhecimento dos evangélicos brasileiros (e muito provavelmente dos católicos brasileiros também) em relação à expansão do cristianismo além das fronteiras orientais do Império Romano se deva, em parte, ao fato de que a Bíblia praticamente não diz nada a esse respeito. Além disso, a história da Igreja que nos foi apresentada veio em primeiro lugar pelos olhos e filtros do Império Bizantino e, posteriormente, por meio da pena de cristãos latinos.

Um exemplo do quão seletivos alguns estudiosos foram é o fato de o historiador Eusébio, ao escrever a obra História Eclesiástica no século 4, praticamente não mencionar a Igreja no Oriente. De acordo com Brock, isso aconteceu não porque a Igreja não existisse ali, vindo a surgir apenas depois da controvérsia nestoriana, mas simplesmente porque Eusébio não estava preocupado em mostrar como a Igreja havia se desenvolvido fora das fronteiras do Império Romano.[7] Para piorar, historiadores eclesiásticos posteriores seguiram a mesma prerrogativa de Eusébio.[8]

A despeito das óbvias limitações que essa situação particular impõe ao estudo do cristianismo na Síria Oriental e na Mesopotâmia no século 1, há indicações, a partir do Novo Testamento, assim como dados históricos e tradições cristãs, que nos levam a crer que os seguidores de Jesus levaram o evangelho, ainda no início de sua expansão, à Mesopotâmia e aos domínios de um dos mais ferozes inimigos de Roma, o Império Persa (Império Sassânida).

Os magos mencionados no capítulo 2 do evangelho de Mateus vieram do oriente e, ao regressarem à sua terra natal, certamente compartilharam sobre o que viram e ouviram em relação ao Messias. Também é provável que “partos, medos e elamitas” e “habitantes da Mesopotâmia” (At 2.9) que estavam em Jerusalém no dia de Pentecoste tenham voltado para casa falando sobre as maravilhas que haviam testemunhado.[9]

Quanto às tradições, um dos primeiros exemplos é a que liga o apóstolo Tomé ao estabelecimento da Igreja na Índia. Um livro intitulado Atos de Tomé, do século 3, apresenta alguns detalhes sobre a jornada missionária de Tomé à Índia, até mesmo mencionando o nome do rei Gundaphorus. Na parte sul da Índia, existe uma igreja chamada “Cristãos de Tomé”, cujos membros afirmam ter sido fundada pelo apóstolo.[10] Outra obra antiga, A Doutrina de Addai, afirma que Addai (que supostamente foi um dos 70 discípulos mencionados nos evangelhos) foi enviado a Edessa pelo apóstolo Tomé, o qual foi, ele mesmo, de acordo com outra tradição, missionário em Edessa.[11] É possível que durante sua jornada (que deve ter ocorrido entre os anos 50 e 60 d.C.) Tomé tenha passado pela Mesopotâmia e pelo Império Persa antes de chegar à Índia. Tal como ele, outros cristãos, ainda que sem a intenção declarada de evangelizar, devem ter viajado, por razões pessoais, para o oriente e, de maneira natural, testemunhado de seu encontro com a mensagem do evangelho. Como resultado, antes do ano 200, a Igreja já estava estabelecida em regiões da Mesopotâmia e em certas áreas do Império Persa.[12] As Crônicas de Edessa (uma cidade a leste do rio Eufrates), por exemplo, nos falam sobre um templo cristão que foi destruído por uma inundação no ano 202.[13] Se já existia o prédio de uma igreja no início do século 3, o cristianismo deve ter chegado à região bem antes, embora nenhuma evidência escrita importante tenha sobrevivido para confirmar esse fato.

 

Começo humilde — perseguição, expansão e consolidação: séculos 2 e 3

O fortalecimento da estrutura eclesiástica

O século 1 foi marcado pela perseguição intermitente de cristãos, e os séculos 2 e 3 da era cristã também viram as autoridades romanas prosseguirem com sua política de perturbação aos seguidores de Jesus. Em alguns momentos, a perseguição foi tão severa que inúmeros cristãos foram martirizados nos coliseus espalhados por todo o Império Romano. Todavia, a despeito da perseguição, Justino Mártir (m. 165) afirma em uma de suas obras:

 

Não havia um povo — grego, bárbaro ou de qualquer outra raça (…), por mais ignorante que fosse em relação às artes ou à agricultura, quer habitasse em tendas ou vagueasse em carroças cobertas — entre o qual orações e ações de graça não fossem oferecidas, em nome do Jesus crucificado, ao Pai e Criador de todas as coisas.[14]

Dessa forma, foi em meio à perseguição que a nova religião, que surgiu afirmando que seu Deus se tornara homem, morrera, ressurgira e retornara para o céu, prosseguiu marchando com determinação indômita. A presença cristã nas diferentes partes do mundo romano era tão forte que “Maximiniano, em um de seus editos, diz que ‘quase todos’ haviam abandonado a adoração de seus ancestrais em favor da nova seita”.[15] As estimativas apontam que, ao final do século 3, os cristãos no Império Romano eram cerca de 10% de toda a população, composta por aproximadamente 10 milhões de pessoas.[16]

Outro acontecimento do século 2 teve grande influência na maneira como o cristianismo se desenvolveria nos anos seguintes. Se a destruição do Templo de Jerusalém em 70 d.C. marcou o início da mudança do centro gravitacional do cristianismo de Jerusalém para Antioquia, a destruição de Jerusalém e a subsequente expulsão da população judia de seu próprio território em 135 d.C. consolidou definitivamente Antioquia como a principal metrópole cristã da região. Isso deixou uma marca indelével na expansão e na consolidação do cristianismo. No norte da África, Alexandria já possuía uma florescente população cristã e, juntamente com Roma, as três metrópoles centralizaram o desenvolvimento da teologia cristã e da formação de líderes cristãos altamente influentes.

À medida que a igreja se tornou mais forte e bispos eram estabelecidos em diferentes cidades, concílios regionais começaram a ocorrer. Outro concílio como aquele que aconteceu em Jerusalém em 49 d.C. com a presença de líderes representando a Igreja como um todo não ocorreria antes do ano 325, mas, à época de Cipriano (por volta de 240 d.C.), já era comum os bispos de uma determinada região do Império se reunirem para discutir questões importantes que se levantavam, normalmente “na capital da província, debaixo da presidência do bispo da capital, que recebia o titulo de Metropolitano”.[17] Lentamente, os concílios ampliaram seu escopo de modo a incluir os bispos de várias províncias. Esses concílios maiores aconteciam nas principais cidades do Império, como Alexandria e Antioquia, o que levou ao início de uma maior hierarquização da igreja: “Os bispos de certas cidades grandes começaram a adquirir importância acima dos Metropolitanos provinciais”.[18] Dessa forma, foi pavimentado o caminho para aquilo que se tornaria, nos anos seguintes, o Patriarcado, que determinava posições de honra aos bispos de certas cidades de destaque dentro do Império, como se verá mais adiante.

 

O desenvolvimento do pensamento teológico cristão

a) As escolas de Alexandria e Antioquia

No posto de segunda metrópole mais importante do Império depois de Roma, Alexandria tinha a tradição de ser um importante centro de aprendizado e transmissão de conhecimento antes do surgimento do cristianismo. Diz-se que ela abrigava uma biblioteca de 700 mil volumes,[19] e suas muitas escolas e eruditos atraíam pessoas de diferentes regiões do mundo conhecido.

A tradição diz que o evangelista Marcos levou o Evangelho ao Egito e foi o fundador da Escola Cristã de Alexandria no século 1. Contudo, é mais provável que ela tenha sido iniciada em 180 com Panteno, e tenha se tornado a “Escola Catequética de Alexandria” sob a liderança de Orígenes.[20] Vários assuntos eram ensinados naquela escola, como os diferentes ramos da ciência e da filosofia, mas o ensino da teologia era o principal. Assim, “a escola tornou-se o mais antigo centro de ciências sagradas na história do cristianismo. Nela, o primeiro sistema de teologia cristã foi formado, e o método alegórico da exegese bíblica foi idealizado”.[21] Grande ênfase era dada ao método exegético na descoberta do significado mais profundo por trás do significado exterior e mais superficial das palavras das Escrituras.[22] Já no século 3, a Escola de Alexandria tinha uma influência significativa sobre a Igreja, dando ao mundo grandes teólogos como Clemente (m. c. 215), Orígenes (m. c. 254), Atanásio (m. 373) e Cirilo (m. 444), os quais fizeram importantes contribuições ao desenvolvimento da teologia cristã.

Enquanto Alexandria era o lar de uma famosa escola catequética cristã, Antioquia nunca teve uma instituição teológica de destaque. Embora não pudesse rivalizar com Alexandria em questões de aprendizado e conhecimento seculares, o fato de a Igreja naquela cidade ter desempenhado um papel importante na formação e na disseminação da fé cristã fez com que ela fosse um dos principais centros do pensamento teológico cristão por muitos séculos.

Assim, “quando se fala da ‘Escola de Antioquia’, o que se quer dizer é uma linhagem de grandes mestres concentrados no período que vai do final do século 3 ao século 5, os quais ensinavam em uma variedade de escolas diferentes”.[23] Diodoro (m. 394), João Crisóstomo (o “boca de ouro”, m. 407), Teodoro de Mopsuéstia (m. 428) e Teodoreto (m. 458) são provavelmente os mais conhecidos professores associados à escola de Antioquia.

Com o passar do tempo, as escolas de Alexandria e Antioquia desenvolveram métodos diferentes de interpretação da Bíblia, bem como uma cristologia diferente. Se Alexandria tinha um método mais alegórico de interpretar as Escrituras, Antioquia (principalmente sob a influência de Diodoro e de Teodoro) “aplicava as técnicas de crítica literária e erudição seculares à Bíblia”,[24] dando maior ênfase ao significado histórico e mais literal do texto do que os acadêmicos de Alexandria. Os alexandrinos, dizem os historiadores, estavam preocupados com “uma exegese mais espiritualizada, fazendo uso da alegoria, mostrando muito menos interesse pelas dimensões históricas do texto”.[25]

Em relação às diferenças cristológicas entre as duas escolas, fato que causou as maiores divisões no mundo cristão no século 5, Antioquia enfatizava grandemente “a completa e perfeita humanidade de Cristo”, fazendo uma divisão clara entre as suas naturezas divina e humana sem perder de vista sua “unidade essencial”. Por outro lado, para os alexandrinos, a unicidade de Cristo tinha um papel central.

Dessa forma, pode-se dizer que as tradições cristológicas antioquense e alexandrina possuem dois pontos de partida diferentes: a antioquense parte do Jesus histórico (isto é, da humanidade de Cristo), enquanto a alexandrina inicia com a Palavra divina, ou o Logos (ou seja, sua divindade). Devido a esses dois pontos de partida diferentes, cada lado apresenta um conjunto diferente de ênfases.[26]

 

b) As escolas de Edessa e Nísibis

Além de não ser bem documentada, a expansão inicial do cristianismo rumo ao leste da Síria, Mesopotâmia e além das fronteiras orientais do Império Romano é às vezes coberta de mistério pela existência de lendas e tradições orais não confirmadas. Do mesmo modo, a história dos primórdios da Escola de Edessa (de tradição siríaca e situada na parte nordeste da província romana da Síria, mas relativamente próxima da fronteira com o Império Persa) também não é completamente clara. Todavia, registros históricos mostram que é possível traçar as origens da Escola Teológica de Edessa ao terceiro século, quando se podem identificar os estágios iniciais daquilo que viria a se tornar uma escola teológica cristã na cidade.[27] Foi somente no século 4 que a escola se tornou mais proeminente e, durante a primeira metade do século 5, ganhou o epíteto de “Escola dos Persas” devido ao grande número de alunos cristãos do Império Persa que foram atraídos por sua reputação.

Também foi durante o século 5 que a Escola de Edessa tornou-se bem conhecida por traduzir e disseminar os escritos do teólogo antioquense Teodoro de Mopsuéstia (cuja cristologia foi tomada emprestada por Nestório), o que contribuiu para que a escola se tornasse “estreitamente associada à tradição antioquense tanto de cristologia quanto de exegese”.[28] Isso aconteceu exatamente durante o período das controvérsias cristológicas, que foram tratadas durante o terceiro e o quarto concílios ecumênicos. Por fim, a escola foi vista como um centro de propagação do “nestorianismo” (em vez do “teodorismo”), e foi fechada em 489 por ordem do imperador Zenão. Como resultado, a Escola Persa de Edessa mudou-se para o outro lado da fronteira, para a cidade de Nísibis, localizada no Império Persa, e se tornou fundamental nos séculos posteriores para o fortalecimento da Igreja do Oriente e para o treinamento de bispos.

Por mais surpreendente que pareça, as escolas de Alexandria, Antioquia, Edessa e Nísibis, por meio de suas importantes contribuições para o conhecimento, também provocaram impacto no desenvolvimento da cultura árabe depois do advento do islã e da conquista da Palestina, Mesopotâmia e Império Persa. “Correndo o risco de simplificar demais”, segundo Brock:

 

Pode-se dizer que a Escola de Antioquia representa simbolicamente o casamento do cristianismo primitivo com a herança da cultura grega clássica, enquanto as Escolas de Edessa e Nísibis representam o casamento da descendência daquela primeira união, a saber, a tradição cristã grega, com a tradição cristã siríaca local. Nesses dois casamentos culturais estão refletidos todos os elementos essenciais da tradição cristã conforme ela havia se desenvolvido no Oriente Médio na época das conquistas árabes no século 7.[29]

 

Isso, por sua vez, levou a outro “casamento”, o das tradições cristã e árabe, que moldou profundamente o cristianismo e o islã quando as duas culturas tiveram um encontro inesperado e repentino no século 7. Se esse encontro “não tivesse acontecido, a história intelectual tanto do Oriente Médio quanto do mundo ocidental teria sido bastante diferente”, e “o escolasticismo da Europa ocidental medieval teria se desenvolvido de maneira bem diferente”.[30]

 

Nasce uma igreja imperial e ecumênica – século 4

A despeito de os cristãos continuarem sendo perseguidos, a Igreja debaixo dos impérios romano e persa, como já visto, perseverou em meio às dificuldades, e não deixou de estender suas raízes por todo o mundo conhecido e por todas as esferas da sociedade.

Em 312 d.C., aconteceu um evento dramático e inesperado, que mudaria completamente a face do mundo, assim como algumas das características mais arraigadas da Igreja: a conversão do imperador Constantino ao cristianismo. Esse episódio alterou profundamente, quase que de maneira instantânea, o status quo de cristãos por todo o Império Romano, e assim teve início uma nova era que criou as condições para o estágio final de consolidação do cristianismo como religião mundial.

Por meio do Edito de Milão, em 313, Constantino declarou o cristianismo como oficialmente tolerado e, em 324, decidiu mudar a capital do império de Roma para Bizâncio (daí o nome “Império Bizantino”). Quando a Nova Roma, que se chamaria Constantinopla, foi dedicada em 330, Constantino ordenou que o paganismo e seus ritos não tivessem mais lugar na cidade.[31] De acordo com Ware, Bizâncio ficou conhecida como “a imagem da Jerusalém celestial”, e:

 

A religião penetrou em todos os aspectos da vida bizantina. Os feriados bizantinos eram festivais religiosos; as corridas que aconteciam no circo começavam com o canto de hinos; e os contratos comerciais invocavam a Trindade e eram marcados com o sinal da Cruz.[32]

 

Depois de dar ao cristianismo um novo lugar de honra no império mais poderoso que o mundo já vira, a próxima decisão crucial de Constantino foi convocar os bispos de todo o mundo para deliberar sobre controvérsias teológicas que estavam atacando a fé cristã, o que ocorreu em 325 na cidade de Niceia. Na opinião de Ware, “os três eventos — o Edito de Milão, a fundação de Constantinopla e o Concílio de Niceia — marcaram o futuro do cristianismo”.[33]

Imperador Constantino: Edito de Milão, fundação de Constantinopla e Concílio de Niceia, eventos que marcaram o futuro do cristianismo

A Igreja Ortodoxa Grega reconhece um total de sete concílios ecumênicos, e todos eles ocorreram entre os anos de 325 e 787. Eles marcaram a vida da Igreja no início do período bizantino, e serviram a dois propósitos principais: definir a estrutura organizacional da Igreja (com a designação dos cinco Patriarcados), e estabelecer quais eram os componentes não negociáveis da fé cristã, especialmente as doutrinas da Trindade e da Encarnação. Na opinião de Schaff,

 

Os primeiros quatro concílios são, de longe, os mais importantes, uma vez que eles estabeleceram a fé ortodoxa na Trindade e na Encarnação. O quinto concílio, que condenou os Três Capítulos (Nestorianos), é um mero suplemento do terceiro e do quarto concílios. O sexto condenou o monotelismo. O sétimo sancionou o uso e a adoração de imagens.[34]

 

Apesar de a Igreja Ortodoxa Grega reconhecer que “os concílios tenham sido frequentados por humanos imperfeitos…, esses humanos foram guiados pelo Espírito Santo”.[35] Assim, para essa tradição cristã, as deliberações dos Sete Concílios Ecumênicos são infalíveis e, juntamente com os escritos dos Pais da Igreja e a Bíblia, revelam a verdadeira fé cristã ortodoxa.

 

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[1] Citado em Ware, Timothy. The Orthodox Church. London: Penguin, 1997, p. 1.

[2] Muito embora o livro de Atos dê grande destaque a Barnabé e a Paulo no que se refere ao trabalho da igreja em Antioquia, Eusébio de Cesareia (séc. 4) atesta a tradição de que Pedro foi o fundador daquela igreja. Pierre Canivet, “Christianity in the 1st Century – the Context of the Mediterranean Civilizations: Judaic, Greek, Roman, Asian”, em Christianity: A History in the Middle East, org. por Habib Badr. Beirut: Middle East Council of Churches, 2005, p. 59.

[3] A guerra judaica contra os romanos, que se iniciou em 66 d.C. e culminou no ano 70 d.C. com a captura de Jerusalém e a destruição do templo, juntamente com a dispersão dos discípulos, também deu um impulso importante para que Antioquia se tornasse o centro do cristianismo na parte oriental do Império no século 1 (Canivet, “Christianity in the 1st Century”, p. 54) e também nos séculos seguintes.

[4] Tucker, Ruth A. Missões até os confins da terra. São Paulo: Shedd Publicações, 2010, p. 15.

[5] Ware, The Orthodox Church, p. 13.

[6] Ibid., p. 12.

[7] Brock, Sebastian. “The Theological Schools of Antioch, Edessa and Nisibis”, em Christianity: A History in the Middle East, org. por Habib Badr. Lebanon: Middle East Council of Churches, 2005, p. 32.

[8] Ibid.

[9] Bawai Soro, “The Assyrians (East Syriacs)”, em Christianity: A History in the Middle East, ed. Habib Badr. Beirut: Middle East Council of Churches, 2005, p. 255.

[10] S. e Michael Rusten, E. The Complete Book of When and Where in the Bible and Throughout History. Wheaton, IL: Tyndale House Publishers, 2005, p. 83.

[11] K.E. McVey, “Edessa”, em The Anchor Yale Bible Dictionary, org. por D. N. Freedman. New York: Doubleday, 1992.

[12] Brock, “The ‘Nestorian’ Church”, p. 32.

[13] Canivet, “Christianity in the 1st Century”, p. 63.

[14] Citado em Schaff, P. History of the Christian Church, vol. 2. New York: Charles Scribner’s Sons, 1910, p. 22.

[15] Ibid.

[16] Ibid.

[17] Ware, The Orthodox Church, p. 15.

[18] Ibid., p. 16.

[19] Tadros Y. Malaty, “Theological Thought in the School of Alexandria”, em Christianity: A History in the Middle East, org. por Habib Badr. Lebanon: Middle East Council of Churches, 2005, p. 122.

[20] J. Newton, “Clement of Alexandria”, org. por J.D. Douglas, Who’s who in Christian history. Wheaton, IL: Tyndale House, 1992.

[21] Malaty, “Theological Thought in the School of Alexandria”, p. 122.

[22] Ibid., p. 123.

[23] Sebastian Brock, “The Theological Schools of Antioch, Edessa and Nisibis”, ibid., p. 146.

[24] Ibid., p. 147.

[25] Ibid.

[26] Ibid., p. 148.

[27] Ibid.

[28] Ibid., p. 152.

[29] Ibid., p. 159.

[30] Ibid.

[31] Ware, The Orthodox Church, p. 18.

[32] Ibid., p. 35.

[33] Ibid., p. 19.

[34] Schaff, P. The Creeds of Christendom, with a History and Critical Notes, vol. 1. New York: Harper & Brothers, Publishers, 1878, p. 44.

[35] Ware, The Orthodox Church, p. 35.

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