In Igreja, Movimento Missionário Global
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A Lacuna do Meio Excluído

Paul G. Hiebert

Os discípulos de João Batista perguntaram a Jesus: “És tu aquele que haveria de vir ou devemos esperar algum outro?” (Lucas 7.20; NVI). Jesus respondeu não com provas lógicas, mas com uma demonstração de poder ao curar enfermos e expulsar espíritos malignos. Isso está claro. No entanto, certa vez, quando li essa passagem da minha perspectiva de missionário na Índia e tentei aplicá-la a missões no meu tempo, tive uma sensação de desconforto. Sendo ocidental, estava acostumado a apresentar Cristo com base em argumentos racionais, não por evidências do seu poder na vida de pessoas enfermas, possessas ou necessitadas. Em particular, os confrontos com espíritos que pareciam parte tão natural do ministério de Cristo pertenciam, em minha mente, a um mundo distinto, o dos milagres – longe das experiências comuns do cotidiano.

Outra situação, no início do ministério na Índia, provocou o mesmo desconforto. Certo dia, enquanto dava aula na escola bíblica em Shamshabad, vi Yellayya em pé junto à porta no fundo da sala. Ele parecia cansado, pois havia caminhado muitas milhas desde Muchintala, onde era presbítero na igreja. Passei uma leitura para a classe e fui com ele até o escritório. Quando perguntei por que viera, ele disse que a varíola havia chegado à vila umas semanas antes, e algumas crianças ficaram doentes. Médicos treinados em medicina ocidental haviam tentado deter a praga, mas sem sucesso. Por fim, em desespero, os anciãos da vila procuraram um adivinho que lhes disse que Museum, a deusa da varíola, estava irada com a vila.

Para satisfazê-la e interromper a praga, a vila teria de realizar o sacrifício de um búfalo d’água. Os anciãos da vila foram de casa em casa na vila para conseguir o dinheiro para comprar o búfalo. Quando chegaram às casas dos cristãos, estes se recusaram a lhes dar alguma coisa, dizendo que aquilo ia contra as crenças religiosas deles. Os líderes ficaram bravos, deixando claro que a deusa não ficaria satisfeita até que cada família desse alguma coisa como oferta simbólica – uma paisa (moeda) seria suficiente.[1] Como os cristãos se recusaram, os anciãos os proibiram de retirar água dos poços da vila e os comerciantes se negavam a lhes vender comida.

No fim, alguns dos cristãos tinham desejado interromper a perseguição dando a paisa, dizendo para Deus que aquilo não significava nada, mas Yellayya se recusou a permitir que fizessem isso. Agora, dizia ele, uma das meninas cristãs estava doente, com varíola. Ele queria que eu orasse com ele, pedindo a cura divina. Quando me ajoelhei, havia um turbilhão na minha mente. Aprendi a orar quando criança, estudei oração no seminário e, como pastor, preguei sobre a oração. Mas nesse momento precisava orar por uma criança enferma enquanto toda a vila observava para ver se o Deus cristão era capaz de curar.

Por que o meu desconforto tanto na leitura das Escrituras como na vila indiana? Será que o problema era, pelo menos em parte, causado pela minha cosmovisão – as pressuposições que eu, um ocidental, tinha a respeito da natureza da realidade e de como eu via o mundo? Mas como alguém descobre esses pressupostos, uma vez que eles são considerados tão naturais que raramente se tem alguma consciência deles? Um recurso é observar a cosmovisão de outra cultura e contrastá-la com o nosso modo de ver o mundo.

Doenças e remédios numa vila indiana

Há muitas doenças numa vila indiana. De acordo com a cosmovisão indiana, as pessoas ficam enfermas com doenças “quentes”, como a varíola, e precisam ser tratadas com remédios e alimentos “frios”; ou têm doenças “frias”, como a malária, e precisam de alimentos e remédios “quentes”. Alguns precisam de tratamento para furúnculos, cortes e ossos fraturados, outros para doenças mentais. Mulheres podem ser amaldiçoadas com esterilidade. Indivíduos ou famílias inteiras podem ser assolados por má sorte, sendo constantemente roubados ou tendo as casas incendiadas. Ou podem ser dominados por mau humor, ciúmes ou ódio. Podem ser possuídos por espíritos ou atingidos por forças planetárias ou magia negra.

Como todos os povos, os aldeões indianos têm maneiras tradicionais de lidar com essas enfermidades. Casos sérios, particularmente os que põem em risco a vida ou dizem respeito a relacionamentos são levados ao sadhu (santo), um homem de deus que afirma curar por meio da oração. Uma vez que a divindade sabe de todas as coisas, incluindo a natureza e as causas da doença, os santos não fazem nenhuma pergunta. Além disso, por serem espirituais, não cobram nenhuma taxa, embora se espere que os curados façam ofertas generosas à divindade, entregando-as ao santo.

Outros casos os aldeões levam a um mantrakar ou mágico, especialmente nos casos em que suspeitam de alguma causa maligna humana ou sobrenatural. O mágico cura pelo conhecimento dos espíritos e das forças sobrenaturais que se crê existirem na terra e pelo controle que ele tem sobre esses espíritos e forças. Se, por exemplo, alguém se aventura a sair num dia inauspicioso, quando as forças malignas do planeta estão particularmente fortes, essa pessoa pode ser picada por uma víbora. Para curar isso, o mágico teria de dizer o seguinte mantra (cântico mágico) sete vezes – uma para cada listra das costas da víbora: om namo bhagavate. sarva peesachi gruhamulu nanu dzuchi paradzuru. hreem, klem, sam phat, svaha. Isso combina uma fórmula poderosa para conter forças malignas com uma série de sons poderosos (hreem, klem, sam, phat, svaha) que dão ainda maior força à fórmula. Às vezes, o mágico emprega símbolos visuais (yentras; amostra abaixo) ou amuletos para controlar os espíritos e as forças neste mundo. Uma vez que são capazes de adivinhar tanto a natureza como a causa do mal que assola o paciente, eles não precisam fazer nenhuma pergunta e, como os santos, recebem as ofertas dos que foram ajudados.

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Um terceiro tipo de praticantes de medicina são os vaidyudu (médicos), que curam pessoas por meio do conhecimento científico baseado nos sistemas medicinais ayuvédico ou unani. Por causa das suas habilidades em diagnosticar, esses também não fazem perguntas. Os aldeões relatam que esses vaidyudu sentem o pulso, o estômago e o corpo deles e são capazes de determinar a enfermidade. Eles cobram caro, visto que o conhecimento deles é poderoso, mas dão garantias: os remédios e o serviço só são pagos se o paciente for curado.

Além deles há os curandeiros locais que curam as pessoas com remédios populares. O conhecimento deles é limitado, de modo que precisam fazer perguntas a respeito da enfermidade: onde dói e há quanto tempo está doendo? Estiveram com alguém enfermo? O que comeram? Pelo mesmo motivo, eles cobram pouco e não dão garantias. As pessoas precisam pagar os remédios antes de recebê-los. Não é de admirar que, muitas vezes, de início, os médicos ocidentais sejam equiparados aos curandeiros.

O que acontece com os aldeões que se tornam cristãos? A maior parte deles leva ao ministro ou missionário os problemas que antes levavam aos santos. Cristo substitui Krishna ou Siva como aquele que cura doenças espirituais. Muitos deles, com o tempo, voltam-se para os remédios alopáticos ocidentais nas doenças que antes levavam ao médico e ao curandeiro. Mas que dizer das pragas curadas pelo mágico? Que dizer da possessão espiritual, ou maldições, ou feitiçarias, ou magia negra? Qual é a resposta cristã para isso?

Com frequência, o evangelista ou o médico missionário não têm resposta. Na realidade isso não existe, eles dizem. Mas para quem essas experiências são muito reais na vida, é preciso outra resposta. Portanto, muitos deles retornam ao mágico para obterem curas.

Essa sobrevivência da magia entre os cristãos não se restringe à Índia. Em muitas partes do mundo o quadro é o mesmo. No Ocidente, a magia e a feitiçaria persistiram século 17 adentro, mais de mil anos depois de o evangelho ter chegado a essas terras.

UMA ESTRUTURA ANALÍTICA

Precisamos de uma estrutura analítica para compreender os textos bíblicos, o cenário indiano e a dificuldade dos missionários ocidentais em suprir as necessidades supridas pelos mágicos. Para criar essa estrutura, precisamos de duas dimensões de análise (veja o quadro abaixo).

Estrutura para a Análise de Sistemas Religiosos

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A dimensão visível-invisível

Mais distante do mundo imediato da experiência humana estão os mundos transcendentes acima deste — infernos e céus e outros tempos, como a eternidade. Nessa esfera transcendente cabem os conceitos africanos de um deus superior e as ideias hindus de Vishnu e Siva. Aqui se localiza o conceito judaico de Jeová que se coloca em contraste marcante com os baais e asterotes dos cananeus, que eram deidades deste mundo, da zona do meio. Certamente, Jeová entrava nos negócios deste mundo, mas sua morada ficava acima dele. Nesse nível também ficam as forças cósmicas transcendentes como o carma e o kismet.

O continuum mecânico-orgânico

Entre os estudiosos, é amplamente observado que os humanos usam analogias das experiências cotidianas para retratar a natureza e as operações do mundo mais amplo. Duas analogias básicas são particularmente disseminadas:

  1. analogia orgânica – entende as coisas como seres vivos que se relacionam entre si,
  2. analogia mecânica – entende as coisas como objetos inanimados que agem uns sobre os outros como partes de uma máquina.

Na analogia orgânica, entende-se que os elementos sob exame estão vivos em algum sentido, sofrendo processos semelhantes aos da vida humana e se relacionam entre si de maneira análoga aos relacionamentos interpessoais. Por exemplo, ao tentar descrever as civilizações humanas, o filósofo Oswald Spengler e o historiador Arnold Toynbee falam delas em termos de uma analogia orgânica: civilizações nascem, amadurecem e morrem. De modo semelhante, adeptos de religiões populares entendem que muitas doenças são causadas por espíritos malignos que estão vivos, podem ficar irados e podem ser aplacados por meio da súplica ou pelo oferecimento de um sacrifício. Os cristãos consideram seu relacionamento com Deus em termos orgânicos. Deus é uma pessoa e os humanos se relacionam com ele de maneiras análogas aos relacionamentos humanos.

Explicações orgânicas consideram o mundo em termos de seres vivos que se relacionam uns com os outros. Como os humanos e os animais, os objetos podem iniciar ações e reagir às ações dos outros. Eles podem ser pensados como tendo sentimentos, pensamentos e vontades próprias. Com frequência, são vistos como seres sociais que amam, se casam, têm filhos, discutem, guerreiam, dormem, comem, persuadem e coagem uns aos outros.

Na analogia mecânica, pensa-se que todas as coisas são partes inanimadas de sistemas mecânicos maiores. Elas são controladas por forças impessoais ou por leis impessoais da natureza. Por exemplo, as ciências ocidentais entendem que o mundo é formado de matéria inanimada que interage com base em forças. Quando a gravidade empurra uma rocha em direção à terra não é porque a terra e a rocha querem se encontrar – nem a terra nem a rocha têm algum pensamento nessa questão. Na ciência ocidental, é frequente pensar que até os seres vivos estão presos num mundo composto, em última análise, por forças impessoais. Assim como não temos escolha quanto ao que acontece conosco quando caímos de uma árvore, é frequente pensar que não temos controle sobre as forças que atuaram no início da infância e nos fizeram o que somos hoje.

Analogias mecânicas são basicamente deterministas; seres viventes num sistema mecânico estão sujeitos às suas forças impessoais. Mas se souberem como operar essas forças, podem manipulá-las ou controlá-las para proveito próprio. Em certo sentido, exercem controle sobre o próprio destino como se fossem Deus.

Analogias mecânicas são basicamente amorais. As forças não são intrinsecamente boas nem más. Elas podem ser usadas para ambos os fins. As analogias orgânicas, por outro lado, são caracterizadas por considerações éticas. As ações de um ser sempre afetam os outros seres.

Muitas das semelhanças entre a ciência, a magia e a astrologia que têm sido apontadas por antropólogos são causadas pelo fato de que as três usam analogias mecânicas. Assim como os cientistas sabem como controlar forças empíricas para atingir seus objetivos, os mágicos e os astrólogos controlam forças sobrenaturais deste mundo por meio de cânticos, amuletos e rituais para realizar propósitos humanos.

Uma das maiores lacunas culturais que separa os ocidentais de muitos que creem em religiões tradicionais encontra-se nessa dimensão. Os primeiros assimilaram profundamente a concepção mecânica deste universo e desta ordem social.[2] Para eles, a base deste mundo é a matéria inanimada controlada por forças impessoais. Muitos que creem em religiões tribais entendem o mundo como vivo. Pensam que não só os humanos, mas também animais, plantas e até mesmo as rochas, a areia e a água possuem forças de personalidade, vontade e vida. O mundo deles é relacional, não determinista.

O meio excluído

Os motivos do meu desconforto com as cosmovisões da Bíblia e dos indianos devem ser claros: eu havia excluído da minha cosmovisão o nível médio dos seres e forças sobrenaturais deste mundo. Como cientista, eu tinha sido treinado para lidar com o mundo empírico em termos naturalistas. Como teólogo, fui ensinado a responder às perguntas fundamentais em termos teístas. Para mim, a zona média de fato não existia. Diferente dos aldeões indianos, eu havia dado pouca atenção aos espíritos deste mundo, aos ancestrais e fantasmas locais ou às almas dos animais. Para mim, eles pertenciam ao campo das fadas, dos ogros e outros seres míticos. Por conseguinte, não tinha respostas para as perguntas que eles faziam (veja o quadro abaixo).

Concepção Ocidental de Dois Níveis da Realidade

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Deve ser evidente o motivo pelo qual muitos missionários treinados no Ocidente não tinham respostas para os problemas do nível médio – muitas vezes eles nem o enxergam. Quando povos tribais falam de medo de espíritos malignos, eles negavam a existência dos espíritos em vez de declarar o poder de Cristo sobre eles. O resultado, afirma Lesslie Newbigin, é que as missões cristãs ocidentais têm sido uma das maiores forças secularizadoras da história.[4]Como essa cosmovisão de dois níveis emerge no Ocidente? A crença no nível médio começou a morrer nos séculos 17 e 18, com a crescente aceitação de um dualismo platônico e de uma ciência baseada no naturalismo materialista.[3] O resultado foi a secularização da ciência e a mistificação da religião. A ciência lidava com o mundo empírico usando analogias mecânicas, deixando para a religião lidar com as questões do outro mundo, muitas vezes em termos de analogias orgânicas. A ciência foi baseada nas certezas da experiência, da experimentação e da prova dos sentidos. A religião ficou com a fé em visões, sonhos e sentimentos interiores. A ciência procurava a ordem nas leis naturais. A religião foi introduzida para lidar com milagres e exceções à lei natural, mas eles diminuíram com a expansão do conhecimento científico.

Quais são as perguntas do nível médio que os ocidentais têm tanta dificuldade em responder e como elas diferem das perguntas feitas pela ciência e pela religião? A ciência como sistema de explicação, seja popular, seja moderna, responde a perguntas a respeito da natureza do mundo do qual se tem experiência direta. Todos os povos têm teorias sociais sobre como criar filhos ou organizar atividades sociais. Todos têm ideias acerca do mundo natural e de como controlá-lo para benefício próprio.

A religião como um sistema de explicação lida com as questões supremas da origem, do propósito e do destino de um indivíduo, de uma sociedade e do universo. No Ocidente, o foco está no indivíduo; no Antigo Testamento, estava em Israel como uma sociedade.

Quais são as perguntas do nível médio? Aqui se encontram perguntas a respeito da incerteza do futuro, das crises da vida presente e das incógnitas do passado. Apesar do conhecimento de fatos como o de que as sementes uma vez plantadas crescerão e darão fruto, ou que uma viagem de barco rio abaixo levará à vila vizinha, o futuro não é totalmente previsível. Acidentes, infortúnios, a intervenção de outras pessoas e acontecimentos desconhecidos podem frustrar o planejamento humano.

Como prevenir acidentes ou garantir o sucesso futuro? Como ter certeza de que o casamento será frutífero, feliz e duradouro? Como evitar entrar num avião que vai cair? No Ocidente, essas perguntas ficam sem resposta. São acidentes, acasos ou eventos imprevisíveis, portanto inexplicáveis. No entanto, muitas pessoas não se satisfazem em deixar um conjunto tão importante de perguntas sem resposta, e as respostas que dão são com frequência formuladas em termos de ancestrais, demônios, bruxas ou deuses locais, ou em termos de magia ou astrologia.

De modo semelhante, é preciso lidar com as crises e infortúnios da vida presente: doenças e pragas repentinas, secas prolongadas, terremotos, insucessos nos negócios e as perdas de saúde empiricamente inexplicáveis. O que se faz quando os médicos fizeram tudo o que podiam e a criança piora? Ou quando se está num jogo e as apostas são altas? De novo, muitos buscam respostas no nível médio.

E há as perguntas sobre o passado que precisam de resposta: Por que meu filho morreu na flor da idade? Quem roubou o ouro que estava escondido na casa? Aqui, de novo, explicações transempíricas fornecem uma resposta quando faltam as empíricas.

Uma vez que o mundo ocidental já não provê explicações para perguntas no nível médio, muitos missionários ocidentais não têm respostas dentro de sua cosmovisão ocidental. O que é uma teologia cristã de ancestrais, de animais e plantas, de espíritos locais e possessão de espíritos, e de principados, potestades e dominadores deste mundo de trevas (Ef 6.12)? Que dizer quando novos convertidos tribais querem saber como o Deus cristão lhes diz onde e quando caçar, se devem fazer sua filha casar-se com aquele jovem, ou onde encontrar o dinheiro perdido? Não obtendo resposta, retornam ao adivinho que dá respostas definidas, pois esses são os problemas que causam grande preocupação na vida diária.

Implicações para Missões

Quais as implicações de tudo isso para as missões? Primeiro, indica a necessidade de os missionários desenvolverem teologias holísticas que lidem com todas as áreas da vida (veja o diagrama abaixo), que fuja do dualismo platônico ocidental e que leve a sério tanto o corpo como a alma.

Uma Teologia Holística

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No nível mais elevado, isso inclui uma teologia de Deus na história cósmica – na criação, na redenção, no propósito e no destino de todas as coisas. A história humana só obtém significado quando é colocada dentro de uma perspectiva cósmica, e a biografia humana só se torna significativa quando a história tem significado.

No nível médio, uma teologia holística inclui uma teologia de Deus na história humana – nos assuntos das nações, dos povos e dos indivíduos. Isso precisa incluir uma teologia da orientação, provisão e cura divina; uma teologia de ancestrais, espíritos e poderes invisíveis deste mundo; e uma teologia do sofrimento, do infortúnio e da morte.

Nesse nível, algumas seções da Igreja se voltam para doutrinas que apresentam os santos como intermediários entre Deus e os homens. Outras se voltam para doutrinas do Espírito Santo a fim de mostrar o envolvimento ativo de Deus nos acontecimentos da história humana. Não é por acaso que muitas das missões mais bem-sucedidas oferecem algum tipo de resposta cristã para as perguntas de nível médio.

No nível inferior, uma teologia holística inclui uma consciência de Deus na história natural – na manutenção da ordem natural das coisas. Enquanto os missionários forem com uma cosmovisão de dois níveis – com Deus confinado ao sobrenatural e o mundo natural operando para todos os propósitos práticos de acordo com leis científicas autônomas –, o cristianismo continuará sendo uma força secularizadora no mundo. Só vamos conter a maré do secularismo no Ocidente quando Deus for trazido de volta para o meio do nosso entendimento científico da natureza.

Há dois perigos contra os quais precisamos nos guardar quando formulamos uma teologia que lida com as perguntas feitas no nível médio. Essas perguntas de nível médio incluem o significado da vida e da morte para os vivos; bem-estar e ameaças de enfermidades, secas, enchentes e insucessos; e orientação num mundo de incógnitas. O primeiro perigo é o secularismo. Isso é negar a realidade da esfera espiritual nos acontecimentos da vida humana, e reduzir a realidade deste mundo a explicações puramente materialistas. Essa é a resposta oferecida pela ciência moderna.

O segundo perigo é um retorno a uma forma cristianizada de animismo em que espíritos e magia são empregados para explicar tudo. No espiritismo, os espíritos dominam a realidade, e os homens precisam lutar contra eles ou apaziguá-los constantemente para sobreviver. Na magia, os homens tentam controlar os poderes sobrenaturais por meio de rituais e fórmulas para obter seus desejos pessoais. Tanto o espiritismo como a magia são humanos e egocêntricos; uma pessoa pode obter o que deseja manipulando os espíritos e controlando as forças. Ambos rejeitam uma perspectiva teocêntrica da realidade e ambos rejeitam a adoração, a obediência e a submissão como a resposta humana à vontade de Deus. A igreja primitiva lutou contra as cosmovisões animistas à sua volta. Hoje há o perigo do retorno a um animismo cristianizado em reação ao secularismo da cosmovisão moderna.

A Escritura nos oferece uma terceira cosmovisão que não é nem secular nem animista. Ela leva muito a sério as realidades espirituais. Em contraste com escritos seculares, ela está repleta de referências a Deus, anjos, Satanás e demônios. Entretanto, considera com muita seriedade o mundo natural e os humanos. Em contraste com as mitologias grega e romana e com outros grandes textos religiosos como o Avesta e o Mahabharata, a Bíblia não concentra sua atenção principal nas atividades do mundo dos espíritos.[5] Em vez disso, é a história de Deus e dos seres humanos, e do relacionamento entre eles. Os seres humanos são considerados responsáveis por suas ações. Eles são tentados, mas escolhem pecar. Deus os chama para a salvação, e eles precisam atender a esse chamado. A Bíblia também apresenta a criação como um mundo organizado que opera de acordo com princípios divinamente instituídos.

Ao dizer isso, não quero negar a necessidade de lidar com o mundo dos espíritos e os temas afins. Mas precisamos centrar nossa teologia em Deus e nos seus atos, não nos seres humanos e seus desejos, como fazem o secularismo moderno e o animismo. Precisamos nos concentrar na adoração e no nosso relacionamento com Deus, não em maneiras de controlar Deus para nossos propósitos por meio de cânticos e fórmulas.

A linha entre a adoração e o controle é sutil, como aprendi no caso de Muchintala. Uma semana depois da nossa reunião de oração, Yellayya voltou para dizer que a criança havia falecido. Senti-me totalmente derrotado. Como eu podia ser missionário se não conseguia orar por cura e receber resposta positiva? Após algumas semanas ele retornou com um senso de triunfo: “Como você pode estar tão feliz depois que a criança morreu?”, perguntei.

“A vila teria reconhecido o poder do nosso Deus se ele tivesse curado a criança”, disse Yellayya, “mas eles sabiam que no final ela teria de morrer. Quando viram no funeral nossa esperança de ressurreição e reunião no céu, viram uma vitória ainda maior – sobre a própria morte – e começaram a perguntar a respeito do caminho cristão.”

Comecei a perceber, de um modo novo, que as verdadeiras respostas às orações são as que trazem a máxima glória a Deus, não as que satisfazem meus desejos imediatos. É facílimo tornar o cristianismo uma nova magia em que, como deuses, podemos fazer com que Deus atenda às nossas solicitações.

Paul G. Hiebert foi titular do departamento de Missão e Evangelismo e professor de Missão e Antropologia na Trinity Evangelical Divinity School. Publicou este artigo sendo professor de Antropologia e Estudos Sul-Asiáticos na Escola de Missões Mundiais do Fuller Theological Seminary. Hiebert serviu como missionário na Índia com o Conselho dos Irmãos Menonitas. Ele foi o autor de Cultural Anthropology, Anthropological Insights for Missionaries [Antropologia Cultural, Discernimentos Antropológicos para Missionários] e Case Studies in Mission [Estudos de Casos em Missões] junto com a esposa, Frances H. Hiebert.

Este artigo foi primeiro publicado em “The Flaw of the Excluded Middle”, Missiology 10:35-47, janeiro de 1982. Usado com permissão.

 

Notas

[1] A pisa é a moeda de menor valor na Índia, valendo um centavo de rúpia (uma rúpia equivale a cerca de 0,015 dólar).

[2] Peter L. Berger, Brigitte Berger e Hansfried Kellner. The Homeless Mind: Modernization and Consciousness (Nova York: Random House, 1973).

[3] Roger K. Bufford. The Human Reflex: Behavioral Psychology in Biblical Perspective (San Francisco: Harper and Row, 1981), p. 30.

[4] Lesslie Newbigin. Honest Religion for Secular Man (Filadélfia: Westminster, 1966).

[5] Isso se evidencia numa simples contagem de palavras na Bíblia. Na versão King James, em inglês, a palavra God [Deus] é usada 3.594 vezes, Jehovah [Jeová] 4 vezes, Christ [Cristo] 522 vezes, Jesus 942 vezes e Spirit of God [Espírito de Deus] 26 vezes. Muitas outras menções a lord [senhor] e spirit [espírito] também referem-se a Deus. Há 362 referências a anjos e querubins, e 158 a Satanás, Lúcifer, o maligno e demônios. Há 4.324 referências aos humanos.

 

Photo by Juan Ignacio Tapa

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