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O Compromisso Dos Reformadores Calvinistas Com A Propagação Do Evangelho A Todas As Nações

Elias Medeiros

Em geral, os reformadores do final do século 16 e início do 17 são caracterizados por alguns historiadores de missões como pessoas que fizeram muito pouco, tendo sido indiferentes, silentes e até mesmo contrários à propagação do evangelho a todas as nações durante a Era da Reforma. O alemão Gustav Adolf  Warneck (1834-1910), um dos mais influentes historiadores e teólogo de missões do século 19, afirmou que os reformadores eram desprovidos de qualquer “ação missionária”, careciam de “zelo missionário”, eram estranhamente omissos quanto a “reconhecer a obrigação missionária”, obscureceram a “tarefa missionária permanente da igreja”, não falavam da “obra missionária estrangeira” e “não tinham ideias missionárias corretas”. Essa opinião geral foi disseminada em alguma medida em todo o mundo protestante por Kenneth Latourette, Stephen Neill, Herbert Kane, Ralph Winter, Ruth Tucker e outros.

Devo iniciar este artigo com uma observação preliminar: quando faço uma crítica a qualquer historiador que escreve sobre missões, não estou me referindo ao seu caráter ou à sua produção literária, mas aos seus escritos sobre a obra dos reformadores e, em particular, a respeito de João Calvino e dos calvinistas holandeses do século 17.

Fontes primárias disponíveis, mas não consideradas com atenção

Devido ao montante de informações (fontes) disponíveis hoje, não podemos falar da obra de Calvino em Genebra como algo limitado a Genebra ou mesmo à Suíça. Ele mesmo nunca limitou seu ministério à cidade de Genebra. E enquanto esteve ali, trocou grande quantidade de correspondência com outros ministros e líderes de todos os lugares. Por exemplo, em 7 de maio de 1549, Calvino escreveu a Henry Bullinger, que sucedeu Zuínglio em Zurique, pleiteando a aliança dos Cantões Reformados (13, na época de João Calvino) com a França naquele tempo: “Se eu fosse considerar minha própria vida ou meus interesses particulares, deveria dirigir-me imediatamente para outro lugar. No entanto, quando considero o quanto esta região [de Genebra] é importante para a propagação do reino de Cristo, tenho boa razão para sentir-me ansioso quanto a que ela seja cuidada com atenção”.[1] Essas cartas não eram tweets, nem e-mails de resposta rápida, nem notas de Facebook. Eram cartas longas, cheias de conteúdo, de orientações, que glorificavam a Deus, edificavam a igreja, preocupavam-se com os perdidos. Em suas cartas, encontramos o “diário”, a “agenda”, as emoções de Calvino e assim por diante. Que rica fonte de estudos é a correspondência de Calvino, juntamente com seus comentários, sermões, tratados teológicos, livretos, atas e consistórios em toda parte, registros da Academia de Genebra, o Registro da Companhia de Pastores, e assim por diante!

Uma leitura atenta de algumas dessas fontes do século 16 convenceria qualquer um do compromisso e paixão de Calvino pela disseminação do evangelho no mundo. Infelizmente, parece que a maioria que critica Calvino quanto a essa questão não o leu, enquanto outros simplesmente recorrem a referências secundárias ou terciárias, sem considerar as fontes primárias.

Portanto, ninguém pode escrever ou falar a respeito de João Calvino e Genebra como mero fenômeno localizado. John Knox descreveu a Genebra de Calvino como “a mais perfeita escola de Cristo vista na face da terra desde os dias dos apóstolos”.[2] Sua influência era sentida não só em Genebra na Suíça, mas também na Inglaterra, na Europa, na Holanda, na Alemanha, na Hungria, na Polônia, na Tchecoslováquia, na Itália e até mesmo na América do Sul.

João Calvino: Genebra e Europa

Sem dúvida, o tempo que Calvino passou em Genebra representa um ímpeto empolgante para a igreja em Genebra, entre o grupo dos pastores e dos alunos da Academia (fundada em 1559). Peter Jonathan Wilcox também demonstra na sua tese de doutorado que “a série de Preleções sobre os profetas do Antigo Testamento que Calvino proferiu ‘na escola’ em Genebra era dirigida a pessoas envolvidas nesse empreendimento missionário e deve ser lida sob essa luz”. Essas preleções proferidas no período posterior a 1559 (Wilcox emprega os registros da recém-inaugurada Academia de Genebra) e “foram originalmente dirigidas” quando o “empenho  evangelístico [em Genebra] estava no seu auge”.

“Esses registros”, descobriu Wilcox, “indicam que Calvino proferiu suas Preleções para um público misto de estudantes (a maioria dos quais era de missionários), ministros (a maioria dos quais era de missionários aguardando recolocação) e outros ouvintes (entre os quais estavam refugiados provenientes da França, dos quais muitos eram responsáveis pelo financiamento do esforço missionário, e emissários das nascentes igrejas reformadas francesas, em visita a Genebra para negociar a nomeação de um ministro)”.

O envio de pregadores para toda a Europa começou em 1555.[3] No entanto, sabe-se que “em menos de 25 anos entre a chegada de Calvino a Genebra e o início da guerra civil na França [1562], mais de um milhão de franceses, homens e mulheres, tinham se convertido ao protestantismo”.[4] Alister McGrath diz que “no início do histórico ano de 1562, o número de consistórios [de presbíteros e diáconos] na França havia chegado a 1.785”.[5] Os registros apresentados pelos pesquisadores são surpreendentes: “Um estudo de 88 agentes enviados em 105 missões durante o período de 1555-63 [[6]]” destaca os “primeiros sucessos do calvinismo” e confirma “a impressão de que o movimento exercia uma atração especial sobre a classe média urbana”.[7] Numa carta a Bullinger em 1º. de outubro de 1560, Calvino relata o seguinte:

Enquanto isso, a verdade do evangelho está avançando. Na Normandia nossos irmãos estão pregando em público, porque nenhuma casa particular é capaz de conter um público de três ou quatro mil pessoas. Há maior liberdade em Poitou, Saintonge, e em toda a Gasconha. Languedoque, Provença e Delfinado  há muitos discípulos intrépidos de Cristo.[8]

Por volta do ano de 1562, “houve uma explosão no crescimento de congregações e da influência calvinista; a total reforma da França parecia uma possibilidade real”. Imagine se a reforma da França tivesse se tornado realidade! Provavelmente a França, e não a Grã-Bretanha, teria se tornado o agente enviador de pastores huguenotes para a África, a América do Norte, a América do Sul e a Ásia.

Por volta de março de 1562, o almirante Gaspar de Coligny e o governador de uma das províncias/estados francesas prepararam uma lista de igrejas huguenotes na França na época e enviaram os números para Catarina de Médici. De acordo com essa lista, “havia 2.150 igrejas huguenotes na França naquele tempo”.[9] McGrath entende que seria difícil verificar esses números. No entanto, ele afirma que “parece razoável inferir que havia pelo menos 1.250 daquelas igrejas, com número total de membros acima de 2 milhões para uma população de 20 milhões”.[10] E não vamos nos esquecer de que toda essa proeza ocorria num contexto de perseguição.

A obra “missionária” dos reformadores, especialmente a de João Calvino, por toda a Europa continental e não continental durante o século 16 é bem documentada. De acordo com o Registro da Companhia de Pastores de Genebra nos Tempos de Calvino,[11] Jean Vernou e Jean Lauvergeat foram os dois primeiros pastores comissionados pela Companhia “para ir e pregar a Palavra [aos irmãos espalhados por vários vales do Piemonte[12]] em resposta ao pedido de três irmãos que foram dali enviados com esse propósito”.[13] Eles foram enviados para estabelecer os crentes e evangelizar incrédulos. Esse foi só o início de um crescente recrutamento, treinamento e envio de obreiros para toda a Europa, especialmente à França e aos países vizinhos. E a maioria deles era enviada como ministros “secretos” à França, à Itália e a outros lugares.

Nos seus estudos, Hughes, o editor e tradutor dos Registros da Companhia de Pastores observou que “o Registro alista 88 desses homens que foram enviados de Genebra entre 1555 [quando pela primeira vez foi considerado seguro registrar o nome deles] e 1562, quando as guerras religiosas começaram na França e tornou-se mais uma vez conveniente deixar de registrar o nome daqueles homens, a maior parte dos quais havia ido para território francês; mas havia muitos mais que não são mencionados nesses anais”.[14] Por exemplo, em 1561, o Registro alista 12 nomes. Outras fontes (cartas, atas) indicam não menos que 142 pregadores foram enviados por Genebra em 1561.[15]

Depois de tudo ouvido, dito e escrito, Joe Beeke está correto quando conclui que,

Uma concepção negativa do evangelismo de Calvino é consequência de: (1) estudo deficiente dos escritos de Calvino antes de chegarem às suas conclusões, (2) compreensão incorreta da visão de Calvino do evangelismo no seu próprio contexto histórico, e (3) incorporação de noções doutrinárias preconcebidas a respeito de Calvino e da sua teologia nos estudos desses críticos. Alguns críticos afirmam ingenuamente que a doutrina calvinista da eleição nega virtualmente o evangelismo.[16]

João Calvino: Calvinistas franceses na América do Sul

As tentativas dos reformadores de estabelecer a fé reformada na América do Sul – calvinistas franceses/genebrinos no sul do Brasil em 1556 e calvinistas holandeses no nordeste do Brasil entre 1630-1654 – são outra prova da disposição e presteza dos reformadores em alcançar as nações quando Deus abre as portas.[17]

Infelizmente, muitos historiadores de missões simplesmente desconsideram esses fatos históricos como “empreendimentos missionários” válidos ou entendem que são irrelevantes em termos de evidências “missionárias” do compromisso dos reformadores com a evangelização mundial. Com respeito ao envio de 16 calvinistas de Genebra para o Brasil em 1556, temos uma inscrição no Registro da Companhia de Pastores de Genebra, cerca de 11 cartas em latim (duas das quais escritas por João Calvino, mas todas as outras passaram pelas mãos dele em Genebra – essas cartas já foram traduzidas para o português), um livro de Jean Léry e um relato histórico de Jean Crespin (sobre a tragédia e o martírio dos calvinistas no Rio de Janeiro). Infelizmente, Warneck, Latourette e os outros historiadores não consultaram essas valiosas fontes primárias nem fizeram uma exegese cuidadosa delas.[18]

Consideremos apenas os huguenotes calvinistas no sul do Brasil (1556-1558). Deixemos que Jean de Léry (1534-1611)[19] fale a respeito.[20] Ele foi muito amigo de João Calvino e testemunha ocular da jornada “missionária” dos 16 calvinistas para a América do Sul em 1557.

O propósito da viagem “missionária”

Uma leitura atenta da obra de Léry seria suficiente para convencer o leitor dos detalhes, da importância e dos discernimentos “missiológicos” que Warneck e outros historiadores de missões não tinham ou omitiram. Os huguenotes franceses fizeram seu primeiro esforço para levar a Reforma para o Brasil em 1556. Sob a proteção dos invasores franceses, 16 deles embarcaram para o Brasil[21] com o apoio direto e consciente de João Calvino e do Almirante Gaspar de Coligny. Eles partiram com o objetivo de ajudar no estabelecimento de uma colônia francesa no Rio de Janeiro, mas o relato de Léry deixa claro que era mais que isso. No prefácio a Francis Coligny (o filho do Almirante), Léry certifica-se de que seu propósito seja devidamente compreendido:

Uma vez que meu propósito é perpetuar a lembrança de uma jornada expressamente feita à América com o objetivo de estabelecer a verdadeira adoração a Deus entre os franceses que refugiaram-se naquele lugar e entre os nativos [índios], habitantes que viviam na região, julguei ser minha obrigação fazer conhecido o nome daquele que foi a causa e a motivação dessa expedição.[22]

E, …………………………………………………………………………………………………………………………….

[Minha] intenção e meu propósito será apenas relatar o que tenho praticado, visto, ouvido e observado, seja no oceano, indo [ao Brasil] e retornando [à França], seja entre os selvagens americanos entre os quais vivi por cerca de um ano.[23]

Léry pressupõe a fundação de uma igreja reformada no Brasil que incluiria os nativos, os quais eles se propunham a ganhar para Cristo por meio da pregação do evangelho. A equipe de Genebra seguiu para o Brasil para pregar o evangelho e apoiar Villegagnon como governante “reformado”. Léry não acreditava que os católicos romanos haviam levado o evangelho para o Brasil, mas que a equipe de Genebra era “a primeira a propagá-lo [o evangelho] no Brasil”.[24]

Os dois líderes por trás dessa empreitada: Calvino e Almirante Coligny (1519-1572)

Calvino e Coligny eram as cabeças e os corações por trás dessa expedição. Coligny estava familiarizado com a vida, a obra e a visão de Calvino. Ele se correspondia com Calvino, lia suas obras, conhecia a paixão do reformador de Genebra e era influenciado por ela.[25]

O líder huguenote francês, Almirante Gaspar Coligny (1519-1572) foi martirizado durante o massacre do dia de São Bartolomeu [mais de 3 mil a 5 mil em Paris e 70 mil a 100 mil em toda a França] nos dias 23/24 de agosto de 1572.[26] Coligny era amigo pessoal de João Calvino e mantinha com ele uma correspondência ativa.[27] Ele foi aquele que, juntamente com Calvino, incentivou e sustentou a formação de uma equipe huguenote para o Brasil em 1556 com dois pastores genebrinos autorizados pela igreja em Genebra a pregar o evangelho na “Antártica Francesa” como eles o chamavam.

Gaspar de Coligny “levou a cabo seu empreendimento por meio daqueles que enviou à América, além de fazer com que parte daquela terra se sujeitasse à coroa francesa; também deu ampla prova de seu zelo de ter o evangelho declarado [pregado] não só em todo esse reino, mas no mundo inteiro”.[28] Reformadores como Coligny não estavam interessados apenas em ver essas nações sob a coroa francesa, mas sob a coroa do Senhor Jesus, enquanto o verdadeiro evangelho do Senhor Jesus Cristo seria disseminado por todo o mundo, de acordo com o tempo e a vontade de Deus.

O chamado “macedônio” para enviar trabalhadores para o Brasil

Assim que Villegagnon, o invasor e “governador” francês, chegou ao Brasil em novembro de 1555,[29] ele edificou uma fortaleza a que deu o nome de Coligny. Villegagnon, então, enviou um mensageiro a Genebra, requisitando ministros ordenados para ajudá-lo no Brasil.

[Villegagnon] pediu [a Calvino] que enviasse não só pastores, mas também outras pessoas, leigas, que fossem bem instruídas na religião cristã [fé reformada] para levar a reforma para ele mesmo, bem como para os que já estavam com ele [no Brasil] e ao mesmo tempo proclamar o caminho da salvação para os selvagens.[30]

Como Calvino e a Igreja de Genebra encararam esse chamado?

Lembre-se de que João Calvino e a igreja em Genebra estavam muito ocupados com a evangelização (Reforma) na Europa, as controvérsias doutrinárias com outros grupos protestantes, sob perseguição, e que João Calvino estava constantemente enfermo (estômago, enxaquecas, cólicas/diarreias, pedras nos rins). No entanto, apesar de tudo isso,

Quando a Igreja de Genebra recebeu suas cartas [de Villegagnon] e ouviu suas notícias, primeiro deu graças a Deus pela extensão do domínio de Cristo a um território tão distante, até mesmo para uma terra tão estranha, e para o meio de uma nação de fato completamente ignorante do verdadeiro Deus.[31]

Um líder escolhido para ser responsável pela “missão” no Brasil

Quem a igreja colocou como responsável por essa “missão” ao Brasil? Um aposentado. A pessoa a quem Coligny e a igreja e ministros de Genebra pediram que “fizesse a viagem” para o Brasil e “liderasse os que quisessem juntar-se a Villegagnon” no Brasil foi “Phillippe de Corguilleray, Sieur du Pont (que se havia retirado para perto de Genebra e fora seu vizinho [de Coligny] na França, perto de Châuntilon-sur-Loing)”.[32]

Como o Sier du Pont recebeu o pedido?

[E]mbora já fosse idoso e fraco, o Sier du Pont, pelo forte desejo de se empregar em tão boa obra, concordou em fazer o que lhe foi pedido, postergando todos os seus negócios, deixando até mesmo os filhos e a família para seguir para tão longe.[33]

O recrutamento de ministros para serem enviados

Ao que parece, era mais fácil e mais rápido encontrar tais obreiros na Genebra do século 16 e enviá-los para a América do Sul do que para uma agência missionária contemporânea recrutar um pastor hoje para o trabalho missionário. De novo, vale a pena ler o relato de Léry a respeito desse passo crucial no envio de obreiros (“missionários”) para uma terra tão distante.

Feito isso [Sieur du Pont ter aceito liderar o grupo], a questão seguinte foi encontrar ministros da Palavra de Deus. Du Pont e outros amigos dele falaram a respeito disso para alguns alunos de teologia em Genebra, e vários deles, incluindo Pierre Richier [um ex-católico romano com doutorado em teologia com mais de 50 anos de idade] e Guillaume Chartier [30 anos de idade], prometeram que se fossem reconhecidos de acordo com a ordenança da Igreja como adequados ao encargo, estavam dispostos a assumi-lo.[34]

O exame dos dois ministros a serem enviados

A igreja e os ministros de Genebra sob a liderança de Calvino examinaram os dois ministros.

Depois que esses dois [Richter e Chartier] foram apresentados aos ministros de Genebra, que os ouviram expor sobre certas passagens das Escrituras Sagradas e foram exortados a respeito do restante da tarefa, eles aceitaram de bom grado, juntamente com o líder Du Pont, atravessar o mar para se juntarem a Villegagnon e assumir a difusão do evangelho na América.[35]

Eles não estavam simplesmente contando os obreiros.  Eles os estavam ponderando — a maturidade e a capacidade deles, e assim por diante.

Todo o processo foi conduzido com seriedade e consciência do privilégio, da responsabilidade e da obrigação de cruzar os mares com o propósito de pregar o evangelho do Senhor Jesus Cristo. Para Calvino, só pastores do sexo masculino, ordenados, testados como expositores da Palavra de Deus e exortados pelo “presbitério”[36] teriam a autoridade  bíblica e eclesiástica para pregar o evangelho em qualquer lugar a que o Senhor os enviasse.[37]

A consideração do custo e das consequências para a equipe

O recrutamento não terminou com Sieur du Pont, Richier e Chartier. Eles também escolheram leigos que acompanhariam esses líderes e especificaram que essas pessoas deviam ser teologicamente orientadas e estar conscientes dos riscos.

Então, ainda restava encontrar algumas outras pessoas instruídas nos principais artigos de fé [[38]], e também, conforme Villegagnon havia pedido, artesãos peritos em suas especialidades. Porém, para que ninguém fosse enganado, Du Pont falou do caminho longo e tedioso que seria percorrido: ou seja, cerca de 150 léguas [cerca de 375 milhas (= 603 k,)] por terra e mais de 2 mil léguas [mais de 5 mil milhas] por mar. Ele acrescentou que ao chegarem à terra da América teriam de se contentar em comer, em vez de pão, uma certa farinha feita de uma raiz [[39]]  e quanto ao vinho, nenhuma gota, pois ali não cresce nenhuma videira. Em suma, assim como num Novo Mundo (como Villegagnon dá a entender na sua carta), teriam de adotar meios de vida e de alimentação completamente diferentes daqueles dos de nossa Europa.[40]

Essas instruções não estavam de acordo com os ensinos de Jesus quando enviou os 70 ? “Quando entrardes numa cidade e ali vos receberem, comei do que vos for oferecido” (Lc 10.8). Eles estavam conscientes dos desafios. Isso não significa que seria fácil ministrar num contexto diferente.

Eles não incentivaram nem apelaram a todos para que fossem, mas selecionaram e avaliaram os que estavam desejosos, motivados, examinados e preparados até mesmo para morrer no lugar para o qual iriam. Du Pont, porém, não parou nesses requisitos. De acordo com a descrição de Léry, eles não romantizaram a empreitada “missionária”, mas fizeram exigências realísticas.

Portanto, qualquer um que prefira a teoria à prática nessas coisas, e não esteja disposto a enfrentar uma mudança de ares ou suportar as ondas do mar e o calor da Zona Tórrida, ou a ver o Polo Antártico, de modo algum optaria por aceitar esse desafio ou alistar-se e aventurar-se nesse tipo de viagem.[41]

A perseguição e os primeiros mártires reformados na América do Sul

Os pastores de Genebra organizaram a primeira Igreja Reformada no Brasil em 10 de março de 1557, quando realizaram o primeiro culto de adoração reformado na Baía de Guanabara, no estado do Rio de Janeiro.[42] Essa foi a primeira reunião evangélica realizada no Brasil católico-romano.[43]

O entusiasmo de Villegagnon pelos reformadores e sua teologia não durou. Devagar, mas decididamente, voltou à sua antiga confissão e começou a rejeitar o ensino dos ministros de Genebra no forte de Coligny.[44] Em janeiro de 1558, Villegagnon expulsou os huguenotes enviados de Genebra e da França. A perseguição começou pelo lado de dentro. Villegagnon estrangulou três deles[45] (esses foram os primeiros mártires protestantes reformados no meu país natal), depois de obrigá-los a confessar sua fé. A confissão de fé escrita por eles tornou-se conhecida como “Confissão Fluminense”,[46] escrita por Jean du Bourdel. Jacques le Balleur fugiu e pregou entre os índios tamoios ou tamoios tupinambás em São Vicente, São Paulo. Balleur foi então preso na cidade de Salvador, Bahia. Por volta de 1567/1568, ele foi condenado e estrangulado por incitação da Igreja Católica Romana. O jesuíta Padre Anchieta ajudou os portugueses a executarem le Balleur.[47]

Léry e Crespin escreveram a respeito desses episódios históricos menos conhecidos, mas históricos, na história da obra reformada na América Latina. Jean Crespin, o pregador flamengo, ministro de Antuérpia e editor em Genebra, publicou um relato histórico dessa tragédia.[48] O verdadeiro propósito da jornada da equipe genebrina ao Brasil era realmente estabelecer “o puro serviço de Deus” no Novo Mundo.[49]

Léry previu quase que profeticamente os argumentos dos futuros críticos que não considerariam aquela labuta no Brasil uma “obra missionária” porque não resultou num movimento permanente de fundação de igrejas. Léry escreveu: “Alguns podem dizer que pelo pouco tempo que essas coisas perduraram, e pelo fato de que no presente [1578?] não mais haver notícias da verdadeira religião naquela terra, como também não haver nome de franceses ali vivendo, esse empreendimento merece pouca estima”.[50]

Podemos simplesmente concordar com Warneck que os pastores e o grupo de leigos enviados para o Brasil por Calvino para evangelizar os franceses pagãos no Brasil e os índios brasileiros não podem ser contados como atividade “missionária” porque os irmãos de Genebra no Brasil reconheceram a dificuldade de aprender a língua nativa e foram martirizados? Phillip Hughes vê da seguinte maneira essa aparentemente “fracassada” tentativa de evangelizar a América do Sul: “Por mais abortiva que essa excursão se tenha provado, ela testifica de modo contundente a amplitude da visão que Calvino e a Igreja de Genebra tinham da sua tarefa missionária”.[51]

Conclusão

A obra dos reformadores na Europa foi um exemplo incomparável da obra  missionária durante o século 16.[52] Desconsiderar essa obra como não missionária é ridículo e absurdo. Pressupor que a Europa estava “cristianizada” e que as necessidades espirituais na Europa durante o século 16 não eram tão urgentes e relevantes quanto a situação dos pagãos na África, na Ásia e na América é decepcionante à luz do ensino bíblico e da realidade histórica daquele tempo, bem como do nosso tempo. Insinuar que os reformadores estavam preocupados apenas com sua sobrevivência imediata e não estavam ativamente envolvidos na propagação do Evangelho do Reino de Deus por todo o mundo, começando pela própria “Jerusalém” deles, é também um erro histórico gravíssimo.[53]

Quando os atos, escritos, pregações, correspondências, atas e outros documentos históricos de Calvino são considerados cuidadosamente e quando perguntamos: “os reformadores foram omissos quanto à ’missão’ (a propagação, a pregação do evangelho e a fundação de igrejas) durante o período da Reforma como afirmado por muitos historiadores de missões?” A resposta é: absolutamente não. Concluo que, no que diz respeito ao compromisso com a propagação do evangelho para todas as nações, os reformadores dos séculos 16 e 17 eram comprometidos e estavam envolvidos em termos bíblicos,[54] teológicos[55] e práticos[56] com a pregação do evangelho para todos os homens em todos os lugares por meio dos ministros da Palavra. Os historiadores de missões que têm negado categoricamente esse fato estão enganados. O erro deles pode ser atribuído (1) à disponibilidade limitada de fontes para pesquisa/exploração na época em que eles pesquisaram (especialmente atas, correspondências, arquivos e assim por diante); (2) a suas pressuposições preconcebidas e preconceituosas por causa de alguns aspectos da teologia reformada;[57] (3) a uma insuficiência de análise dos dados que mencionam; e (4) à mera desconsideração de alguns dados históricos cruciais. Portanto, muitas das crenças hoje sustentadas contra os reformadores a esse respeito são baseadas em rumores. A propósito, com exceção de Warneck e Latourette, outros historiadores de missões influentes não documentam a maior parte das suas ousadas afirmações contra os reformadores.

Rev. Elias Medeiros (Ph.D. Estudos Interculturais) é professor de Missões e chefe do departamento de missões do Reformed Teological Seminary (RTS), em Jackson, Mississippi. É ministro ordenado da Igreja Presbiteriana do Brasil. Antes de ir para o RTS, em 1993, trabalhou como fundador de igrejas rurais na foresta amazônica e como fundador de igrejas urbanas no Nordeste do Brasil. Pastoreou igrejas no Estado da Paraíba; lecionou no Seminário Presbiteriano do Norte, no Recife; e trabalhou como deão acadêmico no Centro Evangélico de Missões, em Viçosa, Minas Gerais. É membro do Global Diaspora Network Advisory Board do Comitê de Lausane e é casado há 42 anos com Fokjelina, uma bela senhora holandesa. Ele é autor de “Deus espalha para reunir por intermédio do seu povo: Uma resposta missional a igrejas migrantes”, o capítulo 9 de Reformado quer dizer Missional: Seguindo Jesus dentro do mundo de Samuel T. Logan Jr. (org.) © 2015, Editora Cultura Cristã.

 

NOTAS

[1] Bonnet. Letters of John Calvin, 2:213

            [2] Philip Schaff. History of the Christian Church (1910; reimpressão; Grand Rapids: Wm B. Eerdmans Publishing Company, 1958), 8:510.

            [3] O ano em que Villegagnon ocupou uma ilha na Baía de Guanabara, no sul do Brasil.

            [4] Mack P. Holt. The French Wars of Religion, 1562-1629: New Approaches to European History (Cambridge: Cambridge University Press, 2005), 192. Veja também Robert M. Kingdon, autoridade em história da expansão do protestantismo na França por meio dos pastores enviados de Genebra, in Robert M. Kingdon. Geneva and the Coming of the Wars of Religion in France, 1555-1563 (Genebra: Librairie E. Droz, 1956). Sua obra tornou-se referência para estudiosos como Holt, McGrath e outros.

            [5] Alister E. McGrath. A Life of John Calvin…, 184. A igreja de Genebra preparou e enviou os pastores, mas os líderes eclesiásticos (presbíteros e diáconos) eram supridos por cada congregação local.

            [6] Calvino morreu em 1564.

            [7] Alister E. McGrath. A Life of John Calvin…,191.

            [8] Carta de Calvino a Bullinger de 1º. de outubro de 1560. Negritos meus.

            [9] Ibid., 191.

            [10] Ibid., 192. McGrath parece basear-se na informação contida in Robert M. Kingdon. Geneva and the Coming of the Wars of Religion…, 79-80. Veja também Samuel Mours. Le Protestantisme en France au seizième siècle (Paris: Libraire Protestante, 1959), 183.

Peter Wilcox colheu outros dados encontrados na correspondência de Calvino. Conferi os textos originais mencionados por Wilcox, exceto a carta de 1561 da igreja de Bergerac a Colladon, que incluía a seguinte informação: “A igreja em Bergerac se vangloriava de que ‘há pela graça de Deus, tal movimento no distrito que, em grande parte, o diabo já foi expulso, de modo que não somos capazes de prover [ministros] para nós mesmos. E de dia em dia estamos crescendo, e Deus faz com que sua obra dê tanto fruto que nos sermões aos domingos encontram-se cerca de 4 mil a 5 mil pessoas” (“L’Église de Bergerac à Colladon”, 5 de maio de 1561, Ms. L. 121, n. 36). Os outros dois exemplos citados por Wilcox dizem respeito à igreja em Montpellier e em Toulouse. In Montpellier lemos o seguinte relato: “nossa igreja, graças ao Senhor, tem crescido de tal modo e de tal modo continua crescendo a cada dia que somos obrigados a pregar três sermões cada um aos domingos, para um total de 5 mil a 6 mil pessoas” (Epistolae 3714, C.O. Volume 19, p. 585). E em 1562, o ministro de Toulouse escreveu a Calvino a respeito do crescimento do rebanho naquela localidade, garantindo a Calvino que sans mentir, sem mentir (Wilcox traduziu como “sem exagerar”) havia crescido “até o impressionante número de cerca de 8 mil a 9 mil”. Wilcox acrescenta que “esse estado de coisas excepcional ocorreu porque o Conselho da Cidade havia dado seu apoio a ele [o ministro de Toulouse], encarregando-o de ‘pregar a Palavra de Deus de modo puro e sincero’ e lhe provendo uma escolta armada para lhe permitir pregar ao ar livre” (Epistolae 3714, C. O. Volume 19, 282).

            [11] O manuscrito original dos Registres de la Compagnie des Pasteurs de Genève au Temps de Calvin está nos Arquivos do Estado de Genebra. Empregamos The Register of the Company of Pastors of Geneva in the Time of Calvin, organizado e traduzido por Philip Edgcumbe Hughes (Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company,1966) e uma cópia do Tomo 2, 1553-1564 publicado por Robert M. Kingdon em colaboração com Jean-François Bergier e Alain Dufour sob a direção dos Arquivos do Estado de Genebra — Registres de la Compagnie des Pasteurs de Genève au Temps de Calvin (Genebra: Librairie E. Droz, 1962). O Tomo 1, 1546-1553, foi organizado por Jean-François Bergier em 1964.

            [12] Vernoul e Lauvergeat ministraran no Vale de Angrogne, Piemonte. Veja Wulfert de Greef. The Writings of John Calvin: An Introductory Guide, edição expandida, traduzido por Lyle D. Bierma (Louisville: Westminster John Knox, 2008), 55.

            [13] Registres de la Compagnie des Pasteurs de Genève au Temps de Calvin traz o seguinte: “Maistre Jehan Vernoul et M. Jehan Lauvergeat estans envoiez par les ministres de ceste eglise aux freres qui sont espars en plusieurs vallees de Piedmont, ont escript lettres dattees du 22e d’apvril, contenans comme le Seigneur avançoit là son ceuvre, ainsy qu’il appert par lesdites lettres. Et fut la charge d’aller là annuncer la Parole commise auxdits Vernoul et Lauvergeat, à l’instance de trois freres qui furent envoiez de pardela icy à cest effect” (Volume 2, 1553-1564, 62).

            [14] Philip Edgcumbe Hughes. The Register of the Company of Pastors of Geneva…, 25-26. A contagem de Hughes refere-se apenas ao número de pastores enviados de Genebra entre 1555 e 1562. Isso pode ser verificado numa leitura cuidadosa de The Register of the Company of Pastors of Geneva…, 305-359; na publicação francesa de Robert M. Kingdon sob a direção dos Arquivos do Estado de Genebra, veja páginas 59-100.

            [15] Philip Edgcumbe Hughes, The Register of the Company of Pastors of Geneva…, 25.

            [16] Joel Beeke. “Calvin’s Evangelism”, Mid-America Journal of Theology 15 (2004) 68.

            [17] Atos 14.27, 1 Coríntios 16.9 e Colossenses 4.3. Como comenta Calvino, “Além disso, é dito que a porta da fé foi aberta para os gentios, não só porque o evangelho foi pregado a eles com a voz externa, mas porque, sendo iluminados pelo Espírito de Deus, eles foram eficazmente chamados para a fé. O reino do céu é de fato aberto para nós pela pregação exterior do evangelho; mas nenhum homem entra, exceto aquele a quem Deus estende a mão; nenhum homem se aproxima, a menos que seja interiormente atraído pelo Espírito” (Calvino a respeito de Atos 14.27).

Na realidade, Calvino nunca negligencia a iniciativa dos pregadores em tirarem vantagem das oportunidades para pregarem o evangelho em toda parte. Mas a soberania de Deus em abrir portas é o grande consolo e motivação para seus servos. Calvino escreve que Paulo “faz uso de uma metáfora que é de uso muito comum quando emprega o termo porta com o significado de uma oportunidade. Pois o Senhor abriu um caminho para ele levar adiante o evangelho. Ele o chama de porta ampla, porque poderia ganhar muitos. Ele a chama promissora, desde que o Senhor abençoasse seu trabalho e fizesse com que sua doutrina fosse promissora pelo poder do seu Espírito. Portanto, vemos como esse santo homem buscava em toda parte a glória de Cristo, e não escolhia um lugar de acordo com a própria conveniência ou prazer,mas simplesmente procurava isto — onde ele pudesse fazer o maior bem e servir a seu Senhor com mais abundante fruto” (Calvino sobre 1 Coríntios 16.9).

[18] Warneck baseou-se em uma história de missões publicada no século 19 pelo historiador William Brown, The History of Christian Missions

[19] Jean de Léry nasceu na Borgonha em 1534. Ele era um artesão (provavelmente sapateiro) que estudou sob João Calvino em Genebra. Na época era leigo, mas era teologicamente orientado e versado na Bíblia. Depois de deixar o Brasil em 1557 passou cerca de dois anos em Genebra com João Calvino. Mais tarde foi ordenado como ministro do evangelho em La Charité e morreu em Berna em 1611. Encontre mais informações sobre a vida de Léry in Gérald Nakam (1975). De acordo com Whatley, a obra de Nakam é “a biografia mais completa de Léry”. Para um resumo de 24 páginas bem escritas da vida e das publicações de Léry, recomendo com veemência a Introdução de Whatley à History of a Voyage to the Land of Brazil, xv-xxxviii de Léry. Veja também Janet Whatley. “Food and the Limits of Civility: The Testimony of Jean de Léry”, em Sixteenth Century Journal 15 (1984): 387-400.

[20] A credibilidade e fidedignidade de Léry são incontestes. Seu principal crítico foi André Thevet, um frade franciscano viajante como Léry. Thevet esteve no Brasil em 1556 por cerca de dez semanas. “Thevet era conhecido como alguém descuidado e ingênuo, enquanto Léry, com seus hábitos meticulosos de registro, verificação e lógica, demoliu as acusações falsas de Thevet.” Janet Whatle., History of a Voyage…, xxi. Alguns estudiosos contemporâneos questionam o uso que Léry faz da expressão “nobre selvagem”, considerando-a pejorativa. Isso é um exemplo da tentativa de impor um significado do século 21 a um documento do século 16. A verdade é que Léry emprega a expressão no sentido de “vivendo num estado natural”. Em todo seu livro, Léry critica os ateus franceses contemporâneos como bárbaros quando comparados com os índios tupinambás. Essa crítica foi desmistificada por estudiosos como Whatley.

            [21] Os franceses o chamaram “Gallia Antarctica” (Antártica francesa). Veja a carta em latim, Richerius (Richer) e Charterius (Chartier) a João Calvino em 1º. de abril de 1556, Joannis Calvini Opera (CO), vol. 16, Epistolae 2613. Minha referência segue os arranjos apresentados em Calvini Opera Database 1.0, do Instituut voor Reformatieonderzoek (www.instituutreformatieonderzoek.nl), Apeldoorn, Holanda, 2005, cujo editor é Herman J. Selderhuis. Essa carta faz parte do Corpus Reformatorum, vol. xliv.

            [22] Antes, na dedicatória da sua obra, “Ao ilustre e poderoso Lord François, Conde de Coligny, senhor de Chauntilon. Governador pelo rei na cidade de Montpellier, etc.”, Léry escreveu: “É minha intenção perpetuar aqui a memória de uma viagem à América realizada com o propósito de estabelecer o puro serviço a Deus, tanto entre os franceses que ali se retiraram como entre os selvagens que vivem naquela terra” (1990, xli).

            [23] Ibid., 49. Precisamente dez meses.

            [24] Ibid., cit., 45.

            [25] O comentário incompleto de Calvino sobre o Livro de Ezequiel foi dedicado a Coligny em 18 de janeiro de 1565 por Teodoro de Beza em nome de João Calvino, que morreu em 1564. Teodoro de Beza escreveu na dedicatória: “Se alguém por acaso perguntar por que dediquei [este comentário] a ti [Gaspar de Coligny] e não a qualquer outro, respondo simplesmente que Calvino é responsável por isso, pelo princípio de que cada um decide conforme lhe apraz em coisas que dizem respeito a si mesmo e que por motivos mais justos e importantes fiz propositadamente aquilo mesmo que ele também desejava”.

            [26] Quanto à vida e obra de Coligny, incluindo sua obra entre os huguenotes, veja Gaspar de Coligny, Memoirs of Gaspard de Coligny, Admiral of France, organizado e traduzido por David Dundas Scott (Edimburgo: William Oluphant and Sons, 1844). É possível fazer o download desse livro em http://books.google.com/books?id=f9YDAAAAQAAJ&printsec=frontcover&dq=Gaspar+de+Coligny#PPA1,M1.

            [27] A correspondência entre Calvino e François d’Andelot (irmão de Coligny) e Coligny e sua esposa é numerosa. Veja a correspondência de Calvino entre 1558-1562. Veja também Wulfert De Greef. The Writings of John Calvin: An Introductory Guide, edição expandida, traduzida por Lyle D. Bierma (Louisville: Wesminster John Knox Press, 2008), 48-59.

            [28] Jean de Léry, History of a Voyage…, xlii (veja também a p. 31). Negritos meus.

            [29] Villegagnon deixou a França em maio de 1555 e chegou ao Brasil em novembro do mesmo ano. Léry relata que o rei da França na época, Henrique II, “deu a Villegagnon dois bons navios equipados e munidos de artilharia, e dez mil francos para a viagem” (p. 4) e que “antes de deixar a França, Villegagnon prometeu a algumas pessoas honradas que o acompanhavam que estabeleceria o puro serviço de Deus no lugar em que residiria” (p. 4). Depois de zarpar da França em maio de 1555, a viagem “passou por muitas tempestades e tribulações; mas finalmente, apesar de todas as dificuldades, alcançou seu destino em novembro seguinte” (p. 4).

            [30] Jean de Léry, History of a Voyage…, 51. Negritos meus.

            [31] Ibid., 4-5. Negritos meus.

            [32] Ibid., 5.

            [33] Ibid., 5. Negritos meus.

            [34] Ibid., 5. Negritos meus.

            [35] A Companhia de Pastores de Genebra não faz referências importantes para distinguir os ministros enviados ao Brasil daqueles enviados para pregar o evangelho à Itália, à França, à Polônia, à Escócia, etc. A Teografia – geografia ou local em que um ministro trabalhava não o tornava mais honrado ou louvável. Esperava-se que Richier e Chartier fizessem no Brasil o que todo ministro do evangelho estava fazendo em Genebra e em toda a Europa: pregar o evangelho, fortalecer as igrejas locais, alcançar os não convertidos, fundar novas igrejas e estabelecer a liderança eclesiástica local.

            [36] A Companhia de Pastores de Genebra correspondia a um Presbitério.

            [37] Em todo o Registro da Companhia de Pastores… não se encontra nenhuma mulher sendo enviada para pastorear ou fundar igrejas em algum lugar. No dia 20 de novembro de 1541, o Concílio Geral havia promulgado as “Ordenanças Eclesiásticas” para a igreja de Genebra. Ela alista as quatro ordens na igreja — pastores, mestres, presbíteros e diáconos. Essas ordens deveriam ser exercidas por homens eleitos. O Registro foi iniciado em 1546, mas o texto das Ordenanças Eclesiásticas foi imediatamente anexado no início do Registro. As ordenanças estabelecem princípios a respeito da obrigação dos pastores, o exame de pastores, a eleição de pastores, o dia da semana para reunião, disciplina ministerial, estabelecimento de um colégio, modo de eleição dos presbíteros, o trabalho dos diáconos, princípios a respeito de sacramentos, casamento, hinos, sepultamento e assim por diante. O Colégio faria a “preparação [das crianças] tanto para o ministério como para o governo civil”.

            [38] Léry era um artesão bem “instruído nos principais artigos” da fé Reformada. Quando se lê todo o relato de Léry, percebe-se de imediato como ele era teológica e biblicamente instruído.

            [39] Os brasileiros ainda comem esse tipo de “farinha” – farinha de mandioca – misturada com arroz e feijão. Eles não eram ignorantes quanto a alguns aspectos dos nativos aos quais esperavam ministrar.

            [40] Jean de Léry. History of a Voyage…, 5. Negritos meus.

            [41] Jean de Léry. History of a Voyage…, 5-6.

            [42] Sem dúvida João Calvino se correspondia com os que ministravam e trabalhavam no Brasil naquele tempo. Confira, por exemplo, as cartas 2530, 2609, 2612, 2613, 2826, 2838, 2841 e 3229, in CO, vol. 16 (p. 277-278, 433-434, 437-443), vol. 17 (p. 80-83, 107-109, 114-118), e vol. 18 (p. 149-1251). Sessenta anos antes de os pais peregrinos ingleses chegarem à América do Norte, João Calvino estava apoiando os planos de Coligny e Villegagnon de estabelecer um refúgio sul-americano para os huguenotes franceses perseguidos e alcançar a população nativa da terra (veja Léry 1990, 33).

            [43] As primeiras palavras de Villegagnon registradas por Léry foram estas: “Quanto a mim, há muito desejo isto, de todo o coração, e vos recebo muito disposto sob estas condições: porque desejo que nossa Igreja seja renovada como a mais bem reformada de todas, doravante pretendo que todos os vícios sejam reprimidos, que a suntuosidade da indumentária seja reformada e, em suma, que tudo o que possa nos impedir de servir a Deus seja eliminado do nosso meio. [Tudo] que pretendo fazer aqui é por vós e por todos os que vieram com o mesmo propósito que o vosso. Pois pretendo formar aqui um refúgio para os pobres fiéis que são perseguidos na França, na Espanha e em outros lugares além-mar, de modo que, sem temer o rei ou o imperador, nem qualquer outra potestade, possam servir a Deus puramente de acordo com sua vontade” (1990, 33-34, negritos meus).

            [44] Havia pressões espirituais internas e pressões políticas externas. Léry oferece uma descrição detalhada das circunstâncias. Depois de uma celebração da Ceia do Senhor, “Villegagnon declarou abertamente que havia mudado a opinião que antes afirmava ter a respeito de Calvino e, sem esperar a resposta [as opiniões dos teólogos e especialmente de João Calvino] pela qual havia enviado o ministro Chartier à França [em 4 de junho de 1557], disse que Calvino era um herege perverso que se havia desviado da fé. Dali em diante foi uma face hostil que ele voltou para nós”. Jean de Léry, History of a Voyage…, 45).

A pressão política vinha dos governantes católicos romanos franceses da época. No dia 7 de junho de 1557, a rainha católica da Inglaterra, Maria Tudor declarou guerra contra a França. Na época, Henrique II, filho de Francisco I, era o rei católico na França.

            [45] Jean du Bourdel, Pierre Bourdon e Matthieu Verneuil. Os outros dois eram André La Fon e Jacques Le Baller. Cf. Léry. History of a Voyage… 200. Veja também Jean de Léry, “La persécution des fidèles em terra d’Amérique”, em Jean Crespin, Historie des choses memorables advenues en la terre du Bresil (Genebra, 1564). Três deles (Bourdel, Bourdon e Verneuil) foram torturados e mortos por Villegagnon depois de escreverem uma Confissão de Fé, conhecida como a Confissão Fluminense (ou Confissão de Fé da Guanabara – agora parte das Igrejas Reformadas no Brasil – essa é outra história per se).

            [46] Uma versão em português dessa Confissão em 17 artigos foi publicada por Domingos Ribeiro, Origens do Evangelismo Brasileiro (Rio de Janeiro: Graf. Appolo, 1937), 39-47.

            [47] Cf. o relato histórico do historiador francês Olivier Reverdin, Quatorze Calvinistes chez les Topinambous. Histoire d’une mission genevoise au Brésil. 1556-1558, (Genebra-Paris: Jornal de Genève, 1957). Veja também Álvaro Reis, O Martyr Le Balleur (1567), (Rio de Janeiro: Comemoração do Quarto Centenário da Reforma, 1917), e Vicente Themudo Lessa, Anchieta e o Supplício de Balleur (São Paulo: Livraria Record Editora, 1934). A versão de Anchieta é que Balleur foi enviado à Bahia (outro estado no nordeste do Brasil) como prisioneiro. Da Bahia, o bispo católico romano D. Pedro Leitão o enviou a Portugal, dali à Índia, e nunca mais se soube dele. José de Anchieta, Informações e Fragmentos Históricos (1584-1596) (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1886), 11. José de Anchieta morreu em1597.

            [48] Jean Crespin, Histoire des vrays tesmoins de la verité de l’Evangile, qui de leur sans l’ont signés depuis Jean Hus iusques au temps present , comprinse en VIII livres contenans actes mémorables du Seigneur en l’infirmité des siens ; non seulement contre les forces et efforts du monde, mais aussi à l’encontre de diverses sortes d’assauts et hérésies monstrueuses (Liège: Centre national de recherches d’histoire religieuse, 1570). A primeira edição foi publicada em Genebra em 1564. Veja especialmente as páginas 442-465 e 606-519, nas quais Crespin historiografa a perseguição contra os calvinistas no Brasil. Tenho um fac-símile desse material.

            [49] Jean de Léry. History of a Voyage…, xli.

            [50] Ibid., xli.

            [51] Philip Edgcumbe Hughes, “John Calvin: Director of missions”, em Columbia Theological Seminary Bulletin 59 (dez/1966), 21. Quanto ao Registro da Companhia de Pastores de Genebra de 25 de agosto de 1556, a respeito do envio de Pierre Richer e Guillaume Chartier, veja Philip E. Hughes, organizador e tradutor, The Register of the Company of Pastors of Geneva in the Time of Calvin (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1966). Esse livro foi reimpresso em 2004 por Wipf & Stock Publishers.

            [52] A palavra “missionário” e a expressão “obra missionária” não se encontram nos escritos dos reformadores do século 16. A questão da terminologia e definição de termos tem sido discutida por outros pesquisadores reformados. Os reformadores empregavam palavras e frases das Escrituras de modo frequente, e não esporádico. As cartas de Calvino aos ministros na Itália, na França, na Suíça, na Inglaterra, na Polônia e em outros lugares são repletas de palavras como “ministros”, “trabalho”, “trabalhadores”, “obreiros”, “companheiros de trabalho” e “colheita” entre outras. Por exemplo, numa carta a Charles Utenhover (um presbítero holandês em uma das igrejas protestantes francesas em Londres, cujo irmão, John Utenhoven, havia seguido com Laski até a Polônia) a respeito do trabalho em Londres, Calvino escreveu: “Confio que a Igreja Francesa em vossas partes, pelas quais tão ansiosamente nos solicitastes, tenha sido bem provida. Para nós, de fato, foi uma provação severa sermos privados de Nicholas des Gallars, que até aqui tem se provado um colega fiel e nosso companheiro de trabalho, mas considerando que em vossa opinião ele colherá entre vós uma colheita mais abundante dos seus labores, nos atrevemos a não deixar passar essa oportunidade” (carta enviada de Genebra em maio de 1560, Calvin’s Letters 1559-1564). Encontrei uma carta de F. Morellanus, provavelmente um emissário genebrino em Paris, datada de “Nonis Iunes 1559”, e endereçada a Calvino. Nessa carta, Morellanus menciona um ministro chamado Aurelian Arnaldo enviado a Orléans pela igreja de Paris, “quia tam copiosa illic seges est ut eam sine auxilio nostro metere non possint [porque a colheita é tão abundante que eles não são capazes de juntá-la sem nossa ajuda]” (Epistolae 3065, Ioannis Calvini: Opera Quae Supersunt Omnia, volume 17, 540. Negritos meus). Textos com essa terminologia abundam em toda a correspondência de Calvino.

            [53] Muitos estudiosos têm expressado suas opiniões e publicado suas pesquisas a respeito do assunto. A dissertação doutoral de Wilcox (1993) é uma obra especialmente impressionante e bem documentada. Veja Peter Jonathan Wilcox, “Restoration, Reformation and the Progress of the Kingdom of Christ: Evangelization in the Thought and Practice of John Calvin, 1555-1564” (tese de Ph. D., University of Oxford, Oxford, 1993).

            [54] Eles usavam o linguajar bíblico para referência e descrição do que os missiólogos de hoje chamariam de “missão”, “missionário” e “campo missionário”.

            [55] Os teólogos do período da Reforma eram centrados em Deus, centrados em Cristo, centrados no Espírito, centrados nas Escrituras, centrados na Igreja e centrados na escatologia — esperavam que Deus revivesse seu povo no devido tempo e de tal maneira que a terra fosse cheia “do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar” (Is 11.9) e “do conhecimento da glória do Senhor, como as águas enchem o mar (Hc 2.14). Essa motivação, baseada na soberania de Deus, levou-os a uma dependência ativa (nunca passiva). Eles estavam realmente propagando o evangelho e cuidando da fundação de igrejas em todos os lugares que tinham condições de assistir. As doutrinas da graça, especialmente a doutrina da predestinação, eram centrais em seu otimismo em relação ao sucesso da obra de Deus por todo o mundo até o fim do tempo.

            [56] Sobejam evidências históricas a respeito do interesse e dos atos explícitos e visíveis dos reformadores a respeito do assunto. Eles exploraram todos os meios adequados (escritos e orais), fontes (humanas, políticas, econômicas e materiais) e circunstâncias (sazonais ou não) a fim de disseminar o Reino de Deus em todos os cantos da terra, de acordo com suas limitações humanas.

            [57] Especialmente a doutrina da predestinação.

Foto por Samuel Zeller

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