em Budismo

Relatos De Um Missionário Entre Budistas

por Alan R. Johnson

Texto usado com permissão pelo SEANET.

Há uma pressuposição popular em muitos círculos pentecostais de que se algo poderoso ocorre em nome de Jesus — uma cura, uma resposta dramática de oração, um sonho — segue-se imediatamente uma conversão para Jesus. Sinais e maravilhas são vistos como a resposta para o problema missionário de uma resposta lenta ao evangelho. Minha tese neste ensaio é que entre as grandes religiões mundiais com suas práticas religiosas populares vibrantes, “sinais e maravilhas” adquirem um status muito mais ambíguo. Embora obras de poder sejam necessárias para levar as pessoas à fé, em geral elas não são suficientes em si e por si para criar um compromisso forte com Jesus. Começo ilustrando a natureza dessa ambiguidade a partir de alguns encontros que tenho tido com pessoas no ambiente tailandês. Na segunda parte analiso por que sinais e maravilhas não são suficientes no contexto do budismo e também de acordo com as Escrituras. Por fim, examino algumas implicações para o ministério com base na experiência entre pessoas cuja cosmovisão é tal que sinais e maravilhas não propiciam um compromisso imediato com Jesus Cristo.

Definição de necessários, mas não suficientes

Ao longo de anos ouvindo tailandeses contando suas histórias de como chegaram à fé em Jesus Cristo, emergiu um tema indubitável — há demonstrações frequentes do poder de Deus, particularmente de curas e de respostas não usuais de orações. Relativamente poucos chegam à fé somente pelo evangelho compartilhado verbalmente por alguém ou pela leitura das Escrituras. As narrativas dos convertidos são temperadas com experiências do sobrenatural. Minha própria pressuposição, a partir de minha formação pentecostal, era que quando os tailandeses experimentassem o poder de Deus, isso os colocaria no caminho certo para se tornarem seguidores de Jesus Cristo. Entretanto, comecei a acumular grande quantidade de evidências, primeiro por experiências em meu ministério e depois ouvindo histórias semelhantes de outros, que me levaram a questionar essa pressuposição.

Deixe-me compartilhar alguns dos testemunhos que me levaram a pensar no assunto. No início de minha carreira, estávamos passando um filme sobre Jesus numa vila na periferia de uma cidade importante e orando pelos enfermos. Descobrimos que uma mulher fora curada de dor nas costas e havia enviado o filho para o encontro na noite seguinte para também receber oração. Descobrimos o lugar em que ela morava e fomos visitá-la alguns dias depois. A área em que ela vivia estava repleta de todos os tipos de imagens de Buda. Sentamos e falamos que tínhamos ouvido de seu filho que sua dor nas costas havia sido curada. Quando perguntamos como estava, ela nos surpreendeu dizendo “horrível” porque a dor nas costas havia voltado. Perguntamos o que havia acontecido e ela disse que voltou para casa depois de nossa reunião e se curvou diante de suas imagens e agradeceu a Buda pela cura. Logo depois disso, a dor nas costas voltou. Quando nos oferecemos para orar por ela, ela levantou a mão e recusou, dizendo: “esses dois poderes diferentes não combinam”. Essa foi a primeira vez que vi o caso de uma pessoa receber oração em nome de Jesus, mas dar graças a Buda.

Numa outra ocasião, disseram a um pequeno grupo caseiro que eu havia iniciado numa favela que um homem que vivia na comunidade estava morrendo. Então fomos orar por ele. Ele estava impossibilitado de se levantar e os médicos haviam lhe dito que não tinham como salvá-lo. Oramos. Algumas semanas depois me encontrei com ele. Ele estava andando e parecia saudável. Perguntei o que tinha acontecido. Ele disse que tinha melhorado. Então eu disse que iria visitá-lo. Quando o encontrei, contei como havíamos orado em nome de Jesus e ele tinha melhorado. Perguntei se ele gostaria de seguir Jesus. Ele disse que não. Então recontei tudo de novo e fiz a mesma pergunta. Ele disse não de novo. Quando lhe perguntei o motivo, ele me disse que tinha feito o que os tailandeses chamam de rap ong, que é convidar um espírito para morar em você, em geral, com o propósito de ser curado de alguma enfermidade. Eles aprendem que se você negar esse espírito e não fizer a oferta anual para ele, isso vai deixá-lo louco ou matá-lo. Uma vez que havia feito aquilo no passado, não tinha como seguir Jesus, ainda que aquele espírito não tivesse tido a capacidade de curar aquela doença quase fatal.

Mais recentemente, uma igreja tailandesa local com que trabalho desenvolveu um relacionamento com uma família que tem um filho com síndrome de Down. Ele também tinha um buraco no coração e os pais souberam que um dia aquilo exigiria uma cirurgia. A igreja ajudava ativamente a família que era bem pobre, levando a criança ao médico quando ela ficava doente e também trazendo-a para a igreja e orando por sua cura. Em certo momento o doutor disse que era tempo de fazer a cirurgia, mas quando fizeram outro teste pré operatório, descobriram que o buraco tinha fechado e o menino estava totalmente curado. O pastor tailandês local ficou muito transtornado em sua visita seguinte à família quando descobriu, após toda essa oração e ajuda em nome de Jesus, que a mãe havia colocado um amuleto budista no pescoço do filho. Ele ficou pasmo! A mãe continua cordial e conversa conosco sobre fé, mas não se tornou cristã.

Além de minhas experiências pessoais e das coisas que tenho ouvido dos outros, encontrei evidências empíricas de apoio na obra de Marten Visser sobre padrões de conversões protestantes na Tailândia (Visser 2008). Visser desenvolveu uma hipótese baseada no trabalho de Edwin Zehner, que encontrou os temas do amor e do poder nas narrativas dos convertidos que coletara. Visser fez uma pesquisa para constatar se “milagres percebidos são tão importantes para levar pessoas a uma decisão de se tornarem cristãs quanto as experiências dentro de relacionamentos sociais”. Ele descobriu que somente 21% dos pesquisados listaram um milagre como o fator mais significativo em sua conversão e concluiu que, “milagres percebidos desempenham um papel decisivo para uma minoria significativa, mas experiências diretamente localizadas em relacionamentos sociais são decisivas para quatro vezes mais pessoas” (Visser 2008, 137).

Experiências como essa levaram-me a testar e a compreender o que está ocorrendo em torno da relação entre o poder sobrenatural e a aproximação ou o afastamento de Jesus. Comecei a formalizar minhas entrevistas com os convertidos e a fazer um levantamento da experiência deles com o poder de Deus e sua importância na decisão de se tornarem seguidores de Cristo. O que comecei a ver mais claramente foi que, para as pessoas chegaram à fé, o sobrenatural estava enraizado num conjunto de relacionamentos com crentes e outras experiências. Isso está em harmonia com o que Visser descobriu em sua pesquisa. Na tentativa de encontrar um meio de explicar isso, cheguei à ideia de que sinais e maravilhas são necessários, mas não suficientes em si e por si para levar as pessoas à fé. Por si, manifestações de poder não resultam em fé robusta, a menos que estejam ocorrendo num conjunto de condições que facilitam a conversão a Jesus. Na próxima seção examino o budismo, conforme praticado na Tailândia, como fonte para explicar por que os sinais e maravilhas por si são com frequência insuficientes para levar as pessoas à fé; e depois, examino as Escrituras para analisar se surge um padrão semelhante.

Por que os sinais e maravilhas são necessários, mas não suficientes?

No mundo do budismo popular não é difícil ver que milagres, curas, sonhos, visões e respostas notáveis de orações são vitalmente importantes para as pessoas chegarem à fé em Jesus. Em pouco tempo entre eles, você perceberá que falar sobre religião, comparar religiões e destacar as excelências de Jesus, fará pouco sentido para os ouvintes. Os nativos da região estão convencidos da superioridade do sistema de fé em que nasceram e estão conscientes das dificuldades que lhes vão advir se o abandonarem. Contudo, também é fato que obras de poder captam a atenção das pessoas, abalam e desestabilizam cosmovisões, abrindo as pessoas para novas opções. Ouvi repetidas vezes, em testemunhos de conversões de tailandeses, que eles haviam  “tentado tudo” que conheciam em situações de problemas/crises — visita a templos, santuários, cerimônias para reverter a má sorte e o infortúnio, meditação, realização de mais obras meritórias, sem proveito. Até que certo dia, alguém lhes falou que Jesus pode ajudar, e a oração em seu nome trouxe resultados.

É um pouco difícil compreender por que manifestações sobrenaturais poderosas nem sempre são suficientes para levar pessoas à fé em Cristo ou mantê-las nela. Experiências práticas de pessoas que trabalham no mundo hindu, muçulmano e budista mostram que não existe um movimento linear direto entre um encontro de poder e a decisão de seguir Jesus. Na tentativa de formar uma perspectiva mais matizada da relação entre os sinais e maravilhas e a conversão, descobri ser útil observar em duas direções diferentes. Primeiro, examinar como o contexto religioso local impacta a pessoa que experimenta o poder de Deus no nível pessoal em termos de sua estrutura interpretativa e, depois, no nível social ajuda a começar a entender as experiências que narrei acima. Segundo, uma observação mais atenta das Escrituras mostra que na história bíblica as obras de poder e os sinais e maravilhas não eram garantia de uma resposta de fidelidade a Javé no AT nem a Jesus no NT.

O impacto do contexto religioso local

Andrew Walls fala acerca de três grandes fases da era cristã, sendo que cada uma delas mudou o centro de gravidade da fé. A primeira foi quando cristãos judeus proclamaram as boas novas a gregos e trouxeram a civilização helênica à fé em Cristo. A segunda foi quando os povos bárbaros, que eram vistos como os destruidores da civilização cristã, voltaram-se para o Deus dos cristãos. E a terceira vem sendo “o movimento massivo rumo à fé cristã em todos os continentes do sul” que está ocorrendo hoje (1996: 68). Walls observa que “o aspecto óbvio que essas três grandes fases têm em comum é que cada uma consiste predominantemente de adeptos das religiões primais; em comparação, convertidos advindos de outras tradições religiosas têm sido poucos” (1996:68). Para tentar explicar por que isso acontece, Walls introduz a ideia de que embora a adoção da fé cristã causasse grande mudança social, muitas vezes ela também “fazia parte do mecanismo de ajustes à mudança social” (1996: 68-69). Religiões primais sob o impacto de mudanças sociais encontravam instrumentos para lidar com essas mudanças, particularmente nas áreas de valores, hierarquia de liderança e provisão de um ponto de referência universal, “ligando a sociedade, com seu foco tradicional no âmbito local e nas relações de parentesco, a uma ordem universal” (1996:69).

Penso que, vistas pelo outro lado, essas observações de Wall podem fornecer uma visão proveitosa do motivo pelo qual grandes tradições religiosas, como o hinduísmo, budismo e islamismo, têm se mostrado menos suscetíveis à fé cristã. O sistema religioso delas lhes dá instrumentos para lidarem com mudanças sociais. Isso também pode ajudar a explicar por que no mundo primal há maior propensão de o poder atrair as pessoas à fé do que no âmbito das grandes religiões mundiais. Os esquemas interpretativos de uma pessoa formada numa cosmovisão budista provê uma cosmovisão poderosa que fica puxando todas as experiências de volta para seu quadro de referência e estruturas plausíveis. Isso torna mais compreensível a experiência da mulher, narrada acima. Ainda que tivéssemos orado em nome de Jesus para que suas costas fossem curadas, a cosmovisão budista dela lhe deu uma explicação mais convincente para sua melhora.

Na cosmovisão do budismo popular, Jesus é somente um das muitas opções de poder. Jesus está dentro dos limites do samsara e em paridade com muitos tipos de semideuses e seres poderosos que possuem reservas enormes de méritos, mas que ao final do dia ainda estão sujeitos à lei do carma e necessitados de iluminação. Outros atingiram a iluminação, mas optaram por permanecer como bodisatvas para ajudar outros seres sensíveis. Na prática, o que pode ocorrer é que as pessoas se voltam inicialmente para Jesus, mas com a ressalva interna de que se as coisas não funcionarem, vão buscar outras fontes de poder. De modo que você pode ver pessoas fazendo uma profissão de fé, vindo à igreja, lendo a Bíblia e até dando testemunhos, mas mantendo suas opções abertas o tempo todo para o caso de Jesus não “entregar” o que precisam. Isso faz com que fiquem desapontadas quando a oração “não funciona” e assim busquem o auxílio de outros seres poderosos. O que tenho observado é que o resultado final não é tanto uma posição sincrética que joga dos dois lados, mas que as pessoas nessas circunstâncias saem da igreja por si mesmas.

Certa vez numa igreja, trabalhei com um casal que começou a frequentar os trabalhos. Eles passavam por grandes dificuldades financeiras depois de um insucesso nos negócios e experimentaram a provisão divina mediada, em parte, por um sonho com instruções muito específicas. Participavam regularmente dos cultos da igreja e estavam estudando a Bíblia. Entretanto, quando se recuperaram e começaram um novo negócio precisaram participar de licitações. Depois que perderam uma licitação crucial, eles começaram a ir a um santuário local para obter ajuda, inicialmente sem deixar de frequentar a igreja. Com o tempo, em vez de continuarem na dualidade, não demorou muito para eles simplesmente pararem de frequentar a igreja e se afastarem da fé.

A religião local também provê um sistema social poderoso que refreia a resposta aos milagres. Em muitas sociedades a religião está entrelaçada a tudo e é central na formação da identidade pessoal e nacional. Quando as pessoas chegam à fé em Jesus, isso as coloca fora do grupo e, aos olhos dos outros, já não são vistas como pares. Assim, a compulsão de se conformarem pode vencer a desestabilização da cosmovisão criada pela resposta à oração ou pelo milagre. A pressão social é muitas vezes combinada com a força da estrutura interpretativa quando o convertido passa por dificuldades. Dizem para eles que a causa de seus problemas atuais é que deixaram os caminhos dos ancestrais. Esse tipo de pressão constante pode desgastar aqueles que experimentaram sinais e maravilhas no passado, mas ainda têm no presente problemas que parecem não se resolverem facilmente com orações.

Evidências bíblicas de reações conflitantes a milagres

Na Bíblia também descobrimos que milagres são insuficientes para gerar fé e obediência. No Pentateuco, desde o Êxodo até a renovação da aliança antes da travessia do Jordão para tomarem posse da terra prometida, não há, seguramente, um grupo de pessoas que nunca viu milagres. Mas eles se esqueciam continuamente de Javé. O testemunho profético em Amós 5.25-27, citado por Estêvão em Atos 7.42-43, é que eles de fato cultuavam outros deuses durante a peregrinação no deserto, mesmo depois de terem visto todos os atos poderosos de Javé.

Jesus mesmo reprova Corazim e Betsaida por causa de sua dureza de coração que rejeitou os milagres que ele havia realizado ali e deviam tê-los levado ao arrependimento (Mt 11.20-24; Lc 10.13-15). No início do ministério de Jesus, suas curas, em vez de estimularem a fé, provocam uma reação contra ele por quebrarem as leis do sábado (Mc 3.1-6; Mt 12.1-14; Lc 6.6-11). Só um dos dez leprosos curados em Lucas 17 volta para agradecer a Jesus. A ressurreição de Lázaro em João 11 gera reações conflitantes; e a cura da orelha do servo do sumo sacerdote, cortada por Pedro durante a captura de Jesus, não inspira nenhuma fé naqueles que chegaram para prendê-lo (Lc 22.49-51).

O evangelho de João chega mais longe que os sinóticos, desenvolvendo a ideia da inadequação da fé nos sinais. Keener observa que, embora João compartilhe com a tradição dos sinóticos a ideia de que a fé nos sinais é inadequada em textos como Marcos 8.11-12; 15.32; Mateus 12.38-39; 16.1-4; Lucas 11.16, 29, os sinais “desempenham uma função mais ambígua no Quarto Evangelho, que dá ênfase à potencial ocultação da revelação divina aos que talvez não demonstrem serem discípulos perseverantes” (Keener 2003, 275). Keener diz que enquanto os sinóticos usam os sinais para autenticar as missões de Jesus, João os coloca num contexto cristológico e os usa, juntamente com os discursos ligados a eles, para interpretar a identidade de Jesus e sua conclamação à fé (2003, 275).

Keener observa que embora João mencione com frequência que muitos “creram” em Jesus (2.23; 7.31; 10.42; 11.45; 12.11, 42):

“pelo menos em muitos desses casos essa fé mostra-se inadequada para conservar a salvação. Aqui, João faz eco a retratos bíblicos anteriores da natureza humana em geral e, talvez, de recipientes das revelações de Deus em particular; por exemplo, os israelitas acreditaram quando viram os sinais de Moisés (Êx 4.31), mas a fé entrou em colapso quando foi desafiada (Êx 5.21-23)” KEENER, 2001, p.746.

Os sinais não são desimportantes em João. A história de Tomé mostra como a fé nos sinais, embora considerada inadequada, ainda é uma fé válida (2003, 275). “Mesmo que não creiam diretamente em suas palavras e identidade, Jesus os convida a crerem por meio de suas obras (10.38; cf. 14.11); essas obras eram de seu Pai (10.37; cf, 5.17), revelando, portanto, sua origem” (2003, 830). Keener afirma que os sinais têm um propósito revelador, mas “não controlam a reação das pessoas. E reação ao testemunho do Espírito na palavra é um estágio superior de fé, elas estão entre as obras de Jesus que testificam sua identidade (10.32, 37-38; 14.10-11; 20.29-3 (275)”. Ele conclui que os sinais não são negativos, só inadequados:

“A relutância de Tomé em crer sem ver reflete uma corrente que percorre todo o evangelho: muitos reagem com fé aos sinais (1.50; 10.38; 11.15, 40; 14.11) e recusam a crer sem sinais (4.48; 6.30), mas a menos que essa fé amadureça, tornando-se discipulado, vai acabar se mostrando inadequada (8.30-31)” KEENER, 2003,  p.1208.

Essa forma de considerar a fé nos sinais tem me ajudado a compreender os fenômenos de curas parciais que tenho visto ao longo dos anos na Tailândia. Eu ficava intrigado em ver pessoas que recebiam uma grande medida de cura, mas permaneciam com um problema físico específico. Passei a entender que essas curas parciais têm um tipo de função parabólica em que as pessoas podem ou escolher buscar mais luz e se aprofundar ou dar meia volta. É função de Jesus revelar sua glória (Jo 2.11), mas há uma ambiguidade inerente que permite vários entendimentos. O sinal convida à fé, mas o problema físico persistente pode servir como um lembrete de que um relacionamento com Jesus não será baseado unicamente nos benefícios proporcionados.

Algumas implicações missiológicas de reações ambíguas a sinais e maravilhas

Nesta seção trato de duas questões. A primeira examina os problemas que podem surgir de uma estratégia missionária que confia em sinais e maravilhas, na suposição de que levarão diretamente a conversões sólidas em moldes relativamente diretos. A segunda deixa algumas sugestões para o desenvolvimento de métodos ministeriais que incorporem sinais e maravilhas como parte de uma estratégia maior de evangelização e discipulado.

Deixe-me começar dizendo que não estou insinuando aqui que há pessoas que oram pedindo que aconteçam milagres para os outros e depois simplesmente os largam. Pessoas que acreditam em Deus, no que diz respeito a sinais e maravilhas, para confirmarem a proclamação do evangelho estão muito interessadas em ver os outros se tornando cristãos. O problema é quando acham que o trabalho duro está feito se ocorre um milagre e insistem numa “profissão de fé” sem muita preocupação com um discipulado contínuo. As pessoas muitas vezes perguntam por que os convertidos não “permanecem” ou não se dispõem a vir para a igreja. Confiar em milagres sem trabalhar com questões de cosmovisão pode provocar um curto circuito no processo de ancorar as pessoas na fé.

Outra questão que surge é quando sinais e maravilhas são vistos como o alvo final de serem cristãos. As pessoas terão fé quando as coisas correrem bem, mas quando ficarem desapontadas com Deus, por ele não lhes dar benefícios tangíveis, deixarão a fé. Por fim, quando as pessoas veem sinais e maravilhas como a única resposta para trazer os outros à fé, isso pode desencorajá-las de se empenharem na lição de casa cultural intensiva que as ajudará a lidar com as questões de cosmovisão dos convertidos em potencial.

O que podemos fazer para ampliar nossa perspectiva a fim de incluir maior gama de instrumentos que contenha sinais e maravilhas, mas não se limite apenas a eles? O primeiro passo é nos preparar especificamente para lidar com questões de cosmovisão que dizem respeito ao entendimento de sinais e maravilhas. Se sabemos que as pessoas podem reinterpretar o que ocorreu mediante uma oração em nome de Jesus em termos da religião delas, podemos preparar a base para o entendimento ensinando-lhes que Jesus não é limitado pela cosmovisão deles. Ajudar as pessoas a verem que Jesus está fora do ciclo da samsara e não está sujeito à ele. Ou seja, isso significa que Jesus é qualitativamente diferente de todos os seres que estão atrelados ao carma.

Descobri ao longo dos anos que, ao ser solicitado a explicar às pessoas como os tailandeses chegam à fé em Jesus, é útil me valer da noção de Kraft, dos três tipos de encontros: poder, verdade e fidelidade (2005, 364). As narrativas de conversões tailandesas que tenho ouvido mostram que a maioria dos que perseveram e tornam-se cristãos sólidos, tiveram todas essas três experiências; mas não na mesma ordem. O poder é o mais comum porque desperta o interesse. Entretanto, há pessoas que começam com uma tentativa de fidelidade a Jesus, firmando um compromisso com seu povo, e depois vão fortalecendo essa ligação por meio de encontros com a verdade e o poder. Outros são confrontados com a verdade pelo estudo das Escrituras ou alguma exposição à mensagem cristã e, depois, em geral é o poder que então os leva a um compromisso pleno com Jesus.

Essa rubrica pode ser útil porque se sabemos que tipo de encontros a pessoa já experimentou, podemos então estar em oração e ajudá-la a navegar até os outros encontros. Isso significa ser mais ativo, estabelecendo estratégias que vão além da mera exposição das pessoas ao poder de Deus, incluindo o exame das alegações do evangelho. Podemos fazer as pessoas saberem que o Jesus que pode curar o corpo delas, livrá-las de espíritos malignos ou suprir necessidades financeiras também pode ajudá-las a conhecerem pessoalmente o Deus vivo e livrá-los do ciclo de renascimento para viverem em sua família eterna. Chris Wright em seu artigo “A salvação pertence ao nosso Deus” examina a amplitude da ideia da salvação nos dois Testamentos:

Uma vez que a experiência da salvação está colocada dentro do relacionamento histórico da aliança, ela possui uma gama muito ampla e abrangente de significados — no Antigo Testamento e também no Novo. “Deus salva” cobre vasta gama de realidades, precisamente, por causa da imensa variedade de circunstâncias em que o compromisso salvador de Deus com as pessoas ocorre ao longo do grande curso da história bíblica. . . Assim em ambos os Testamentos, portanto, Deus salva as pessoas por uma vasta variedade de meios físicos, materiais e temporais, a partir de todos os tipos de necessidades, perigos e ameaças. Mas, claro, e também nos dois Testamentos, a ação salvadora de Deus vai muito além. A Bíblia reconhece que todos os males imediatos dos quais Deus salva seu povo são manifestações da desordem muito mais profunda na vida humana. Inimigos, mentiras, doenças, opressões, acusações falsas, violência, morte — todas essas coisas sobre as quais oramos para sermos salvos são consequências da rebelião e do pecado no coração humano. É aí que está a mais profunda origem do problema” WRIGHT, 2010.

Sinais e maravilhas são, com muita frequência, salvação daquilo que Wright chama de males imediatos e, como tais, podem servir como sinalizadores de uma salvação mais cabal da fonte de todos esses males. Essa forma de visualizar os milagres tem implicações metodológicas importantes quando compartilhamos nossa fé. É tentador fazer de Jesus aquele que pode resolver todos os nossos problemas, acenando para o pecado e para a ruptura com Deus. No mundo do budismo popular, as pessoas buscam ajuda, mas não têm noção de que estão quebradas num relacionamento quebrado com o criador. Contar mais da história de que Deus salva do mal imediato e do mal supremo pode ajudar a lhes fornecer recurso interpretativo à medida que experimentam o poder divino em sua vida.

Outra área que precisa ser mais explorada é a pesquisa sobre como os convertidos tornam-se fortes na fé e persistem no caminho cristão. Uma vez que muitos tailandeses experimentam algo sobrenatural em sua jornada de fé, aprender como eles interpretam seu encontro com o poder de Deus poderia ser extremamente útil para os que trabalham no discipulado de interessados e novos convertidos. Se acontecer de haver padrões identificáveis, isso poderia nos guiar no processo de evangelização e discipulado para sabermos o tipo de experiências e conteúdo bíblico a inserir e a sequência apropriada deles.

Por fim, é preciso ajudar os tailandeses a lidar com o desapontamento das orações não respondidas. A cosmovisão tailandesa, que conta com seres espirituais poderosos de grande mérito que ainda estão em samsara  e a quem se pode suplicar ajuda na vida, pode predispô-los a ficarem desapontados quando Deus não responde a oração. Quando pessoas com problemas desesperadores ouvem acerca de Jesus e suas orações são respondidas, isso inicia seu processo rumo à fé. O avesso disso é que também há muitos que experimentam a mesma coisa e começam a se mover rumo à fé ou fazem uma confissão plena de fé, mas ao experimentar orações não respondidas começam a buscar ajuda de outros seres espirituais.

É uma versão espiritual do que ocorre em relações sociais entre patronos e clientes: quando o fluxo de benefícios diminui, os clientes buscam novos patronos. É crucial o desenvolvimento de recursos teológicos para ajudar as pessoas a compreenderem a oração bíblica como algo baseado no relacionamento e não no toma lá dá cá de um relacionamento transacional em que se fazem e se cumprem promessas. Se a fé cristã é apresentada só em termos de patronos e clientes onde Jesus se torna o grande patrono, dispensando benefícios, então é facílimo os novos crentes simplesmente se mudarem quando acabam os benefícios.

Conclusão

No mundo budista, os sinais e maravilhas são absolutamente necessários no processo de levar pessoas à fé, mas não são suficientes em todos os casos para levá-las a uma fé robusta. Quando compreendemos a ambiguidade inerente das obras de poder entre pessoas no mundo de religiões como o hinduísmo, budismo e islamismo, podemos começar a acrescentar conteúdo e experiências à nossa evangelização e discipulado, para que seja mais fácil as pessoas se tornarem seguidoras de Cristo na longa jornada.

Allan Johnson e sua esposa Lynette são missionários da Assembléia de Deus na Tailândia desde 1986, com foco em plantio de igrejas. Allan também é o diretor do Instituto de Estudos Budista e possui um PHD em missiologia pelo Oxford Center for Missions Studies na University of Wales.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KEENER, Craig S. 2003. The Gospel of John: A commentary. 2 vols. Peabody. Massachusetts: Hendricksen Publishers.

KRAFT, Charles H. 2005. “Spiritual Power: A missiological issue”. In Appropriate Christianity, ed. Charles Kraft , 361-374. Pasadena, Califórnia: William Carey Library.

VISSER, Marten. 2008. Conversion growth of Protestant churches in Thailand. Missiological researchers in the Netherlands, vol. 47, ed, G.J, Van Butselaar. Th. Van den End. M.T. Frederiks,  M.M. Jansen, Jongeneel, J.A.B, Kool, A.M, and J.J. Visser. Netherlands: Uitgeverij Boekencentrum, Zoetermeer.

WALLS, Andrews F. 1996. The missionary movement in Christian history: Studies in the transmission of faith. Maryknoll, NY: Orbis.

WRIGHT, Christopher J. H. 2010. “Salvation belongs to our God”. Evangelical Interfaith Dialogue. (November 1, 2014). http://cms.fuller.edu/EIFD/issues/Fall_2010/Salvation_belongs_to_our_God.aspx#sthash.mrJ(tBOK.dpuf.

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