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Alá é Deus? – Parte 4

Artigos escritos a partir da polêmica iniciada na Wheaton College sobre se muçulmanos e cristãos adoram o mesmo Deus

Mats Tunehag

A seguir estão os ensaios 5 a 11 de um total de 23 que a EMS – Evangelical Missiological Society [Sociedade Missiológica Evangélica] publicou como uma edição especial do Occasional Bulletin em 2016.

Textos 1 a 3 disponíveis aqui.
Textos 4 a 7 disponíveis aqui.
Textos 8 a 11 disponíveis aqui.

 

REFLEXÕES SOBRE ALCANÇAR MUÇULMANOS POR UM ALUNO TARDIO

David J. Hesselgrave

“Ninguém jamais viu a Deus, mas o Filho único, que mantém comunhão íntima com o Pai, o revelou” (em grego exegeomai: o tornou conhecido) – João 1.18, NVT.

Não consigo me lembrar de ter encontrado nem sequer um muçulmano durante meu período missionário no Japão nos anos de 1950 e início da década de 1960. Não obstante, quando fui indicado para o corpo docente da “nova” Trinity Evangelical Divinity School [Faculdade de Teologia Evangélica Trinity], em 1965, fui designado para lecionar História das Religiões. Missões junto a muçulmanos não ocupavam lugar elevado nas listas de prioridades de muitas entidades missionárias naquele tempo, e minha falta de familiaridade com o islã não era uma grande preocupação. Mas aquilo estava para mudar. Pouco a pouco, o islã foi se tornando mais e mais objeto de atenção. As coisas modificaram-se rapidamente na Trinity depois que Francis Steele pregou na capela, e pediu aos professores e alunos que se preocupassem mais com a necessidade que os muçulmanos têm do evangelho. Algumas questões logo vieram à baila, incluindo aquelas com as quais estamos lidando hoje: “Os muçulmanos acreditam no mesmo Deus dos cristãos ou em um deus diferente? e “Quais são as implicações de uma ou de outra resposta?”.

Logo me tornei um “aluno tardio” a respeito dos fundamentos do islã. Obviamente o islã monoteísta não é como o xintoísmo politeísta. Contudo, de certa forma, as duas religiões apresentam problemas semelhantes para os missionários, evangelistas e pastores locais. O xintoísmo tem seus inícios envoltos em um mito registrado no Kojiki (712) e no Nihon Shoki (720) [livros sagrados do Japão]. É uma história complicada, mas vários deuses, incluindo Izanami, Izanagi e Amatesaru Omikami (a deusa sol), são alguns dos principais personagens. Xinto significa “caminho dos kami (deuses)”, e, tanto no aspecto etimológico quanto prático, a palavra kami permite miríades de deuses. Considerando que kami (bem como as formas honoríficas Kamisama e/ou Omikamisama quando usada sozinha) é regularmente usada por cristãos, é necessário que missionários e pastores locais distingam com clareza o único Deus verdadeiro das miríades de falsos deuses. Isso geralmente é feito pelo uso de palavras prescritivas e descritivas como “o verdadeiro e vivo Kamisama”, “o eterno Kamisama”, “o criador Kamisama”, “o Kamisama da Bíblia” e assim por diante.

Como disse, parece não haver como comparar o Japão com o mundo islâmico. Contudo, analisemos da seguinte forma. “Alá” era central no panteão da Arábia quando Hagar, Ismael e Esaú e seus descendentes viveram lá. Desde os tempos de Maomé, milhões de muçulmanos diariamente expressam o credo islâmico “Não há deus senão Alá”. Entretanto, à medida que o islã se expandia para além da Arábia, e experimentava divisões em diferentes escolas, a palavra “Alá” assumiu mais uma vez uma variedade de diferentes nuances.

Não possuo a competência necessária para falar com autoridade sobre o significado de todas elas. Entretanto, juntamente com o desprezo islâmico pelo ensino cristão trinitário ortodoxo quanto ao fato de Deus ser “um em três pessoas” e “três pessoas em um”, é evidente que as diferenças, a essa altura, não sejam apenas etimológicas e incidentais, mas fundamentais. O muçulmano confessa: “O Senhor nosso Deus é o único Senhor e Maomé é seu profeta” (a Shahada). O cristão confessa: “Na unidade da divindade há três pessoas, de uma única substância, poder e eternidade…” e “O Filho de Deus, a segunda pessoa da Trindade, sendo verdadeiro e eterno Deus, de uma substância e igual ao Pai…” (Confissão de Fé de Westminster).

Claramente, o resultado disso (e mais) é que, assim como o povo japonês precisa saber distinguir entre o Deus verdadeiro e vivo da Bíblia e os numerosos kami do panteão xintoísta, e entre Cristo e os outros “caminhos” de salvação, os muçulmanos precisam saber distinguir entre o Alá do Alcorão e o Deus da Bíblia, e entre o Maomé do islã e o Cristo do cristianismo. Em última análise, somente o Espírito Santo pode realizar isso, mas como sempre acontece no contexto japonês, palavras e frases descritivas devem ser usadas – palavras e frases como “o Deus Trino”, “Deus – Pai, Filho e Espírito Santo”, “o Deus de Abraão, Isaque e Jacó”, “o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo”, “Em nome do criador e sustentador de todas as coisas – o Senhor Jesus Cristo” e assim por diante.

Isso não é, de modo algum, o fim da questão, mas não poderia ser o começo?

Sobre o autor
David Hesselgrave é professor emérito de Missões (aposentado) na Trinity Evangelical Divinity School [Faculdade de Teologia Evangélica Trinity] e confundador (com Donald McGavran) da Evangelical Missiological Society [Sociedade Missiológica Evangélica].

 

UMA RESPOSTA MISSIONAL A UMA QUESTÃO SEMPRE PROVOCANTE

S. Caleb Kim

Desde o surgimento do islã no século sétimo, os cristãos têm sido desafiados pela questão: muçulmanos e cristãos adoram ao mesmo Deus? Polemistas muçulmanos também usam essa mesma questão quando estão disputando com cristãos. De fato, como uma religião monoteísta que tomou como empréstimo muita coisa da tradição judaico-cristã, o islã tem muitas similaridades com o cristianismo e com seus discursos teológicos com respeito a Deus e Jesus.

O Alcorão declara, “Nosso Deus [no islã] e vosso Deus [no judaísmo e no cristianismo] é um” (Sura 29.46). Ontologicamente falando, tanto o cristianismo como o islã parecem se referir ao mesmo Deus, pois nenhum dos dois credos admite a ideia da existência de mais de um Deus. No sentido ontológico, a questão “de quem (ou qual) é o Deus verdadeiro” não é válida, porque pressupõe que exista mais de um deus, sendo necessário escolher um, mas ambas as religiões admitem que não é esse o caso.[1] Então, o problema real é epistemológico, não ontológico.

Quando examinamos com cuidado a apresentação de Deus e de Jesus no islã, descobrimos que a visão islâmica de Deus é significantemente diferente da compreensão cristã. A despeito de muitas semelhanças entre as duas tradições, a descrição geral de Deus e de Jesus no Alcorão entra em sérios conflitos com a apresentação bíblica (tanto no Antigo como no Novo Testamentos). No islã, Deus não pode ser pai de ninguém, e Jesus foi um simples ser humano (ainda que percebido como o profeta mais excelente de todos) e não morreu na cruz, seguindo-se daí que não houve ressurreição (isso também tem a ver com a negação islâmica da necessidade de redenção, que, por sua vez, tem base na visão islâmica da natureza humana).

Ao ler o Alcorão cuidadosamente a partir de uma perspectiva muçulmana, tem-se a impressão que o monoteísmo islâmico (conceito chamado tawhid) foi desenvolvido especificamente para refutar a Trindade cristã. Isso criou um sério obstáculo para o testemunho cristão do evangelho entre muçulmanos.

Esforços evangelísticos para corrigir a compreensão equivocada islâmica de Deus e de Jesus parece que não foram tão bem-sucedidos quanto o esperado. Inúmeros apologistas e polemistas ao longo da história tinham a tendência de focar principalmente as diferenças teológicas na tentativa de apresentar o evangelho aos muçulmanos, mas os desafios foram exacerbados. Ironicamente, a abordagem apologética ou polemista cristã provocou reações semelhantes por parte dos muçulmanos contra a doutrina cristã da Trindade.

Para piorar a situação, as relações políticas entre a cristandade e o mundo muçulmano na história fizeram com que a evangelização baseada na doutrina fosse encarada como parte da invasão imperialista cristã do mundo muçulmano. Sendo assim, missionários cristãos, especialmente nas últimas décadas, sentiram-se impulsionados a se apoiar mais nas semelhanças do que nas disparidades entre o cristianismo e o islã. Aqueles profundamente simpáticos para com os muçulmanos por conta de um propósito evangelístico ou por uma razão relacional começaram a enfatizar vários elementos comuns entre as compreensões islâmica e cristã de Deus.

Nessa linha, muitos comunicadores do evangelho fizeram contínuos esforços para “contextualizar” o evangelho para os muçulmanos. Juntamente com esses esforços de contextualização, surgiram também questões controversas. A abordagem dos chamados “Insider Movements” [“Movimentos Internos (MIs)”], por exemplo, cuja contextualização é conhecida pela sigla C5 e surgiu recentemente, foi abraçada por um bom número de missionários que abandonaram os métodos tradicionais.[2] É sabido que essa questão se transformou em uma nova controvérsia candentemente debatida entre os missiólogos hoje em dia. Na abordagem C5, a questão vai além de diferenças doutrinárias. Um debate mais inflamado surgiu em torno de como a entidade “islã” deve ser abordada como um todo. O islã seria apenas uma religião com base no tawhid que nega tudo que o cristianismo sustenta ou é uma cultura capaz de ser liberta dos princípios nela inseridos? Parece-me que a controvérsia recente em torno da declaração feita por uma professora titular da faculdade Wheaton é semelhante à controvérsia em torno de algumas formas radicais da abordagem C5. Não pretendo discutir tal controvérsia candente aqui, mas sugiro que questões relacionadas à abordagem cristã quanto ao mundo muçulmano sejam examinadas a partir de uma perspectiva missional mais ampla.

Como poderíamos evitar qualquer polarização das respostas aparentemente antitéticas a essa questão difícil, mas, ao invés disso, reconciliá-las? Cristãos e muçulmanos adoram o mesmo Deus? Tal como indicado acima, epistemologicamente a resposta é um claro “não”. Então, a quem os muçulmanos adoram? Ouço alguns cristãos radicais dizerem que, como o Alá corânico é incompatível com o Deus da Bíblia, eles adoram Satanás (da mesma forma que os pagãos do Antigo Testamento adoravam ídolos como Baal). Mas, tal como já indiquei, um problema ontológico pode complicar ainda mais a questão.

O problema real é epistemológico, e está relacionado com o problema da ignorância humana que resultou do pecado (cf. Ef 4.18). Então, precisamos aprender com a atitude e estratégia de Paulo. Ele pregou o evangelho à audiência ateniense que, sem saber, adorava um Deus desconhecido sem que ninguém lhes tenha dito que adoravam um deus errado (At 17.22-23). Podemos nós, também, compartilhar o evangelho de maneira que ajudemos os muçulmanos a ter um melhor entendimento de quem é o verdadeiro Deus em Jesus sem necessariamente focar o entendimento equivocado que eles têm de Deus? Eu tenho certeza que há uma boa chance de tal correção eventualmente acontecer quando o momento certo surgir por meio do estabelecimento de relacionamentos de confiança.

Na verdade, enquanto intelectuais e líderes religiosos muçulmanos buscam educar seu povo (isto é, a jihad interna) em termos da lei islâmica (shariah), muçulmanos comuns nem sempre correspondem a tais exigências. Ao pesquisar fenômenos culturais muçulmanos no Leste da África por anos, encontrei-me com muitos muçulmanos cuja ideia de Deus assemelha-se ao conceito monoteísta de Deus em religiões tradicionais africanas, e não ao conceito estrito do tawhid. Isso pode sugerir ideias para práticas missiológicas (talvez particularmente nos contextos subsaarianos). Nossa preocupação primária deve ser no sentido de ajudar muçulmanos a abrir o coração para ouvir o evangelho por meio do nosso envolvimento pessoal com eles no contexto da vida. Isso exige que comecemos com paciência nosso envolvimento levando em conta o ponto em que eles se encontram, em vez do estipulado pelo islã.[3]

À luz de minha experiência pessoal, geralmente leva muito tempo para que até mesmo muçulmanos de mente aberta ouçam o que gostaríamos imensamente de comunicar. Em alguns contextos, tenho visto ser eficiente – quando compartilho minha fé cristã no Deus Trino, o que é certamente oposto ao que os muçulmanos acreditam – comunicar com candura e sinceridade minha própria convicção, mas educadamente, de uma maneira que respeita a religiosidade deles, sem desprezar seus valores culturais.

Sobre o autor
S. Caleb Kim é professor associado de Estudos Inter-religiosos na Africa International University.

 

CRISTÃOS E MUÇULMANOS ADORAM O MESMO DEUS? IMPLICAÇÕES MISSIOLÓGICAS

Paul Martindale

Tem havido muita discussão sobre se o Alá do Alcorão e o Deus da Bíblia são a mesma pessoa. Há duas questões distintas que devem ser tratadas. Uma é a questão ontológica, ou seja, se isso faz referência a duas entidades distintas; a outra diz respeito ao grau de sobreposição ou coincidência entre as doutrinas muçulmana e cristã de Deus. De um lado estão os que procuram uma base doutrinal comum que possa servir de ponto de partido para um diálogo genuíno e um testemunho efetivo. Alguns até mesmo tentam harmonizar as duas doutrinas em um processo de síntese dialética. Do outro, estão aqueles que emitem alertas de cautela, afirmando que isso pode levar a um comprometimento teológico, e que, no processo, um testemunho ortodoxo pode ser esvaziado. Neste breve artigo, gostaria de identificar algumas implicações missiológicas que devem ser lembradas enquanto a questão é discutida e debatida.

Tentativas sérias têm sido feitas para encontrar áreas de coincidência teológica entre a doutrina de Deus encontrada na Bíblia e a doutrina de Alá descrita nas páginas do Alcorão.[4] Todavia, está claro que as áreas de similaridade e coincidência são menores em extensão e menos profundas que as diferenças.[5] Alguns aspectos das duas doutrinas deveriam ser entendidos como sendo mutuamente contraditórios. Teologicamente, é possível concluir que a descrição de Alá no Alcorão e a de Deus na Bíblia não correspondem com consistência suficiente para que se afirme com certeza que estão descrevendo o mesmo ser. Isso leva a mais de uma possível conclusão:

  1. As descrições são inconsistentes, mas ainda se referem à mesma entidade. Muçulmanos e cristãos adoram o mesmo Deus.
  2. As descrições são inconsistentes, e se referem a duas entidades diferentes. Muçulmanos e cristãos não adoram o mesmo Deus.
  3. As descrições são inconsistentes, os textos descrevem duas doutrinas parcialmente semelhantes, mas diferentes no todo; contudo, os seguidores do islã acreditam que estão seguindo o mesmo Deus cristão.
  4. As descrições são inconsistentes. Uma das descrições é a correta, a outra é falsa, mas os seguidores do islã acreditam que estão seguindo a descrição correta (Alcorão) e o Deus correto (Alá).

Devemos iniciar com uma interpretação teológica cuidadosamente sutil se queremos ter um bom entendimento missiológico e extrair implicações úteis. Se o nosso ponto de partida não estiver claro, haverá a tendência de confundir a questão, levando a abordagens falhas, sem mencionar o potencial para comprometimento teológico. Em meus mais de 30 anos de interação com muçulmanos, ainda não me encontrei com um muçulmano que creia que Alá seja um Deus diferente do Javé da Bíblia. O islã popular ensina que o Deus da Bíblia e o Alá do Alcorão são o mesmo Deus único, verdadeiro, criador. Muitos ex-muçulmanos diriam que eles estavam tentando adorar o mesmo Deus, mas mais tarde compreenderam que tanto o ensino como o sistema de adoração a Deus no islã são de alguma maneira incorretos, falsos ou enganosos. Estudos sobre conversão têm demonstrado que, quanto maior for o grau de congruência entre o islã e o cristianismo percebido pelo inquiridor muçulmano, maior é a probabilidade de ele considerar o cristianismo como uma alternativa viável ao islã.[6] Quando as diferenças entre o islã e o cristianismo são enfatizadas, elas se tornam uma barreira à conversão. Por conseguinte, uma das primeiras implicações de negar que Deus e Alá são o mesmo é que isso cria uma barreira muito maior para a comunicação do evangelho. É menos provável que o muçulmano considere o cristianismo quando negamos que Alá seja o Deus da Bíblia. Em minha experiência, observando dezenas de muçulmanos deixando o islã e se tornando cristãos, nunca tive de tomar posição quanto ao fato de Alá e o Deus da Bíblia não serem o mesmo (também nunca precisei expressar explicitamente que não creio que o Alá descrito no Alcorão seja o único e verdadeiro Deus). Quando eles leem as Escrituras por eles mesmos durante um tempo, são capazes de concluir, por sua própria conta, que a descrição de Alá no Alcorão não é a correta, que Maomé não era um profeta inspirado e enviado por Deus, e que o islã não é a verdadeira religião.

Anos atrás, um missionário veterano aconselhou-me dizendo que, se eu for dogmático demais em minhas discussões com um muçulmano, poderei “ganhar a discussão, mas perder o muçulmano”. Dizer a um muçulmano que ele adora um Deus falso, ou que ele está seguindo um falso profeta, é ofensivo, e ele nos evitará se falarmos com ele assim, e possivelmente nos verá como inimigos do islã. No processo, perdemos a possibilidade de uma comunicação posterior com ele e, mesmo sem querer, acabamos contribuindo para uma mentalidade “nós-eles”. Outro fator que tenho observado é que é muito desestabilizador para uma pessoa muçulmana quando ela começa a perceber que o Alcorão e o profeta Maomé não são tão confiáveis e que podem tê-la enganado.[7] Quando os paradigmas fundacionais que sustentam uma cosmovisão são desafiados, as pessoas geralmente escolhem o equilíbrio, não a verdade.[8] As implicações aqui são aquelas de comunicação, nutrição e discipulado. Nosso compromisso em não comprometer a verdade não deve nos levar a solapar o processo de conduzir alguém a Cristo. Jesus disse aos seus discípulos: “Tenho ainda muito que lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora” (Jo 16.12, NVI). De igual maneira, não creio que sejamos obrigados a dizer à pessoa não salva tudo o que sabemos ou pensamos naquele momento. Com um bebê, começamos com leite, mais tarde, pedaços de frutas e legumes, e, quando ele já tem dentes e habilidade digestiva, pouco a pouco acrescentamos alimentos integrais, inclusive carne.

Nossa preocupação primária deve ser nos comunicarmos com os muçulmanos nos diferentes estágios da jornada em que eles se encontram. A posição inicial que tomamos deve levar em conta como esse muçulmano irá perceber e entender isso. As implicações para uma comunicação plena e para o discipulado é que estão em jogo. Se um muçulmano pensa que está adorando o mesmo Deus dos cristãos, é mais importante conduzi-lo a partir desse ponto até um pleno entendimento do evangelho. Podemos apontar-lhe as falhas e contradições na doutrina islâmica de Alá mais tarde.[9]

A discussão sobre a questão é geralmente motivada por um desejo de comunicar o evangelho de forma efetiva a um muçulmano sem comprometimento teológico. Entretanto, com muita frequência o resultado acaba sendo um comprometimento do relacionamento, da comunicação e do discipulado. Um ponto de partida teológico ortodoxo e claro é importante, bem como uma compreensão das teorias de comunicação e conversão. Todos os três fatores são necessários para formar uma boa prática e compreensão missionárias. Uma falha em qualquer um deles levará a uma abordagem fraca junto aos muçulmanos, e pode também contribuir para a polarização da discussão entre os cristãos. As diferenças teológicas entre os dois lados podem, talvez, não ser tão grandes quanto poderíamos supor quando compreendidas de forma correta.

Cristãos e muçulmanos adoram o mesmo Deus? Há apenas um verdadeiro Deus criador. A Bíblia é clara no sentido de que não há outro Deus.[10] Os muçulmanos estão tentando adorar esse mesmo Deus, mas com uma compreensão equivocada, uma descrição falha e um falso sistema de adoração. Eles não estão tentando adorar um Deus diferente. A palavra Alá é de origem árabe, e significa literalmente “O Deus”. A doutrina corânica de Alá é uma reflexão completa e acurada do único e verdadeiro Deus? Não, não é. Não obstante, nem todos os elementos da doutrina islâmica de Alá são falsos. Teologicamente, os dois conceitos não são completamente idênticos. O mais importante é que levemos muçulmanos à verdade plena e perfeita refletida na pessoa de Cristo sem comprometer o relacionamento, a comunicação ou o evangelho.

Bibliografia

GREENLEE, David H. From the Straight Path to the Narrow Way: Journeys of Faith. Intervarsity Press, 2006.

KRAFT, Charles H. Anthropology for Christian Witness. Orbis Books, 1996.

SCHIRMACHER, Christine. The Islamic View of Major Christian Teachings. RVP International, 2001.

VOLF, Miroslav. Allah: A Christian Response. San Francisco: HarperOne, 2011.

Sobre o autor
Paul Martindale é professor adjunto de Estudos Islâmicos e Ministério Transcultural no Gordon-Conwell Theological Seminary, consultor de ministérios islâmicos junto a Pioneers [Pioneiros] e diretor do Summer Institute on Islam [Instituto de Verão sobre o Islã].

 

CRISTÃOS E MUÇULMANOS ADORAM O MESMO DEUS, “ALÁ”?

Hanna G. Massad

Uma das maiores questões hoje é esta: muçulmanos e cristãos adoram o mesmo Deus? Cristãos árabes no Oriente Médio e ao redor do mundo usam a mesma palavra em árabe, “Alá”, quando se referem a Deus. Será que isso significa que adoramos o mesmo Deus? E como é isso de ambas religiões usarem a mesma palavra para se referir a Deus?

Os cristãos já usavam a palavra “Alá” no período pré-islâmico (antes da vida de Maomé, 570-632 d.C.). Nessa época, tanto os judeus como os cristãos que viviam na Arábia usavam a palavra coloquial em árabe muito antes do surgimento do Islã. A palavra “Alá” é derivada de outras línguas semíticas, incluindo “Elah” em aramaico (o árabe tem muitas palavras emprestadas do aramaico), “El” em cananeu e “Elohim” em hebraico. Além disso, Jesus usou a forma aramaica da palavra “Alá” quando disse em Mateus 27.46: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni?”, que significa: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”. Também em Atos 2.9-11, quando havia representantes de quatorze diferente grupos étnicos ouvindo os apóstolos, um desses grupos era árabe. Uma evidência posterior é que o nome do pai de Maomé era “Servo de Alá” (Abed Allah).

Então, surge a pergunta: se cristãos e muçulmanos usam a mesma palavra para Deus, “Alá”, isso significa que adoramos o mesmo Deus? Minha resposta é: “Não; não significa”. Minha razão para dizer isso é porque, a despeito do fato de usarmos a mesma palavra para Deus, teologicamente o Deus cristão é muito diferente em seu caráter do Deus dos muçulmanos. Por exemplo, os cristãos creem no Deus Trino da Bíblia (o Pai, que nos ama, Jesus o Filho, que morreu por nós, e o Espírito Santo, que habita em nós), bem como o adoram. A encarnação, quando Deus desceu até nós no homem Jesus Cristo, é baseada na Trindade. Ao mesmo tempo, vemos Deus como nosso Pai no céu e como o Espírito Santo que é nosso auxiliador sempre presente. Essa visão de Deus é completamente antitética ao tawhid no islã.

Além disso, se você consultar os 99 nomes de Deus no islã, muitos deles contradizem o modo como entendemos o Deus Trino no cristianismo. Há muito mais a dizer com respeito a como vemos “Alá” enquanto árabes cristãos, sobre como Deus revelou-se a nós por meio de Cristo e a respeito do nosso entendimento da Bíblia. E, claro, há muitas coisas a respeito de “Alá” no Alcorão que como cristãos não aceitamos.

Por isso, espero que você possa entender por que digo que o Deus cristão e o Deus muçulmano não são o mesmo Deus. Às vezes, a visão cristã e a muçulmana de Deus são totalmente contraditórias!

No entanto, tendo dito tudo isso, é importante que os cristãos tentem descobrir bases comuns com os muçulmanos para que possam encontrar um ponto de partida para um diálogo sério e verdadeiro. Podemos fazer isso sem comprometer nossas crenças. Como sempre, a Escritura é o nossa guia. Em Atos 17.22-31, encontramos Paulo fazendo exatamente isto – encontrando uma base comum com as pessoas religiosas do seu tempo e usando, então, essa base como plataforma de lançamento para compartilhar a verdade a respeito de Jesus. Não apenas podemos fazer isso. Nós DEVEMOS fazer isso para encontrar modos de compartilhar o evangelho de Cristo com nossos amigos muçulmanos. Deus os ama, e quer que eles saibam quem ele é verdadeiramente! Então, encontrar uma base comum, um lugar a partir do qual podemos começar o diálogo juntos, é vital se somos sérios a respeito de compartilhar a boa-nova com os muçulmanos.

Por isso, em vez de entrar em debates sobre se adoramos o mesmo Deus ou não, o que pode ser uma confrontação, minha abordagem é encontrar pontos comuns com os muçulmanos. Tais pontos podem ser usados como uma base para alcançarmos nossos amigos muçulmanos com o amor de Deus, que é encontrado em Jesus Cristo.

Sobre o autor
Hanna G. Massad faz parte do corpo docente da Bethlehem Bible College (BBC) – extensão de Gaza da Faculty of Jordan Evangelical Theological Seminary (JETS), e pastoreia uma igreja de refugiados iraquianos em Amã, Jordânia.

 

 

[1] Essa lógica pode ser aplicada tanto com as três maiores tradições monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) como com outras culturas ou religiões. Pode explicar isso em termos da “revelação geral” ou da “graça comum” (cf. Rm 1.19-20).

[2] O movimento C5 de contextualização busca formar comunidades cristocêntricas de “muçulmanos messiânicos” que aceitaram Jesus como Senhor e Salvador. Eles permaneceriam vivendo na comunidade muçulmana maior, continuariam adotando as práticas islâmicas não incoerentes com o ensino bíblico, e rejeitariam elementos do islã claramente rejeitadas pela Bíblia. O Martureo publicou um artigo de Marcos Amado que trata dessa questão. (N. do T.)

[3] O que o autor quis comunicar é que devemos conhecer quais são as convicções doutrinárias de nossos interlocutores muçulmanos uma vez que elas podem ter sido influenciadas pelo islã popular. Não devemos partir do pressuposto que tais convicções são as do “islã ortodoxo”. (N. do T.)

[4] Miroslav Volf. Allah. A Christian Response, consultar capítulos 4 e 5.

[5] Christine Schimarcher, The Islamic View of Major Christian Teachings, consultar capítulo 4.

[6] David Greenlee, From the Straight Path to the Narrow Way, p. 44-45.

[7] Charles Kraft, Anthropology for Christian Witness, ver capítulo 22 sobre estabilidade e mudança de cosmovisão.

[8] Ibid.

[9] Digo aos meus alunos que isso cai na categoria de “informações úteis” ao abordar muçulmanos. Podemos ser capazes de identificar erros, falsas doutrinas ou inverdades no islã, mas tais informações não nos ajudam a conduzir aquela pessoa muçulmana para mais perto de Cristo, na verdade, podem até mesmo afastá-la ainda mais.

[10] “Eu sou o Senhor, e não há outro. Além de mim não há Deus” (Is 45.5). Logo, ontologicamente, acho difícil argumentar que há dois deuses diferentes sendo adorados.

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