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Evangelização dos judeus – Crentes judeus na Igreja (Parte 3)

Judeus messiânicos foram por vezes acusados de “voltar à lei” a partir de uma perspectiva cristã

Rev. Mitri Raheb

O conteúdo a seguir foi extraído do Documento Ocasional nº 60 de Lausanne. É uma produção do Grupo Temático “Alcançando o Povo Judeu com o Evangelho” do Fórum pela Evangelização Mundial de 2004 que aconteceu em Pattaya, Tailândia. Trata-se de uma iniciativa da Comissão de Lausanne para a Evangelização Mundial.

Se preferir, leia antes:

Evangelização dos judeus – Um chamado à Igreja (Parte 1);
Evangelização dos judeus – Retrato da comunidade judaica atual (Parte 2).

Este texto analisa o papel dos judeus crentes em Jesus na igreja.

  • Quais são as questões teológicas e preocupações práticas que eles trazem?
  • Como a presença deles no corpo de Cristo aponta para a futura convergência entre Israel e as nações? Como eles se identificam?
  • Que formas de adoração e eclesiologia eles adotam?
  • Como eles expressam sua fé em Yeshua (Jesus) à luz do pensamento religioso, cultura e tradição judaicos? Como eles veem as realidades políticas e o significado profético do conflito no Oriente Médio e o que estão fazendo na prática para buscar paz, justiça e reconciliação com seus irmãos cristãos árabes?

Essas questões de teologia contextual desafiam não apenas os judeus messiânicos, mas também todos os cristãos que desejam entender o significado das raízes judaicas da sua fé e a natureza do povo de Deus. A resolução dessas questões terá um efeito significativo na evangelização dos judeus.

(a) Pensamento judaico messiânico

Seguem aqui algumas reflexões sobre a teologia relacionada aos judeus crentes em Jesus e apresentadas por eles. O fato de ainda existirem judeus crentes em Jesus após 2 mil anos tem significado teológico. É uma questão sobre a qual todos os cristãos são chamados a refletir. Os judeus crentes em Jesus representam o remanescente de Israel salvo pela graça, os ramos de oliveira naturais reenxertados e o sinal da eleição contínua de Israel. Eles querem que suas vidas demonstrem essas verdades fundamentais e convidam judeus e cristãos a testemunharem o ressurgimento de uma expressão judaica da fé do Novo Testamento. Os judeus messiânicos contribuem para o caráter e a obra de todo o corpo de Cristo. Eles testemunham sua herança bíblica como filhos de Abraão e seu cumprimento no Messias. A presença deles inspira a igreja em sua missão. Eles desafiam a igreja a uma compreensão mais profunda dos propósitos de Deus e ecoam o desejo sincero de Paulo de que todo o Israel fosse salvo.

As Escrituras são o ponto de partida para essa reflexão teológica. Os judeus messiânicos leem as Escrituras através da dupla estrutura hermenêutica da tradição interpretativa judaica e cristã. A vida, o ensino e o ministério de Jesus e da igreja primitiva são o seu modelo e regem sua crença e prática.

Os judeus messiânicos consideram-se parte do povo judeu e do corpo de Cristo. Eles constroem suas identidades navegando dentro dos limites das duas comunidades. O judaísmo messiânico pode ser definido como uma forma cristã de judaísmo e uma forma judaica de cristianismo. Ele define a pauta para um debate sobre as questões problemáticas levantadas por uma fórmula tão contraditória.

Os judeus messiânicos foram por vezes acusados de “voltar à lei” a partir de uma perspectiva cristã e de produzir “uma forma falsa e enganosa de cristianismo disfarçada de judaísmo” pela comunidade judaica. Portanto, é necessário que eles reflitam teologicamente sobre suas crenças e expliquem sua posição. Assim como os primeiros crentes no livro de Atos foram intimados a depor no tribunal da opinião pública, liderança religiosa e autoridade política, hoje os judeus messiânicos também são chamados a prestar contas perante judeus, cristãos e o Estado.

(b) A necessidade da teologia

Nos últimos trinta anos, muitos judeus passaram a crer em Jesus, destacando a necessidade e a oportunidade de reflexão teológica sobre o significado de uma crescente presença judaica no Corpo de Cristo. A atenção concentrou-se na evangelização, plantação de igrejas e no ministério pastoral, geralmente em circunstâncias nas quais mal-entendidos e oposição eram os principais desafios. Consequentemente, poucos teólogos despontaram de dentro do movimento. A expressão moderna dos judeus crentes em Jesus tem apenas uma geração, embora seus ilustres antepassados, como Joseph Rabinowitz (século 19), tenham delineado questões teológicas importantes sobre eclesiologia, contextualização e espiritualidade. Poucos líderes atuais tiveram treinamento teológico em seminários judaicos ou cristãos ou em departamentos acadêmicos de teologia. No entanto, sua sabedoria prática, derivada da experiência do dia-a-dia durante trinta anos de experiência com evangelização e ministério pastoral, trouxe recursos inestimáveis para a construção de uma teologia local ou “etnoteologia”.

Outro desafio à reflexão teológica é que a tradição judaica tem criticado a disciplina da teologia, considerando-a abstrata, racional e excessivamente sistematizada, enquanto o pensamento judaico reivindica uma orientação mais holística, eclética e pragmática. Embora a igreja tenha uma longa tradição de credos e declarações de fé, no judaísmo essa tem sido a exceção e não a regra. Alguns crentes judeus relutam em elaborar ou assinar declarações de crença. Essa relutância pode ser tratada com sensibilidade e ao mesmo tempo com firmeza, lembrando o mandato das Escrituras de nos atermos aos ensinamentos do Senhor e de seus discípulos. Isso levará a uma aclamação firme e confiante da fé.

Os judeus messiânicos são confrontados com muitas questões decorrentes da combinação de seu passado histórico judeu e da sua crença em Jesus. Eles também têm grandes oportunidades de integração da vida e fé judaica e cristã. A celebração de festivais judaicos e a observância de práticas judaicas, como a circuncisão e o bar-mitzvá (maioridade), permitem que os crentes judeus promovam a vida e a cultura judaicas enquanto demonstram o cumprimento messiânico que Jesus traz. Tanto em Israel como na diáspora, eles procuram integrar sua fé com sua filiação à comunidade judaica, adotando, adaptando ou até abandonando aspectos de sua essência judia (“judeidade”) quando necessário, dependendo de como isso afete seu testemunho cristão. Como lidar com essas questões é a tarefa do pensamento messiânico, e isso requer oração, apoio e empatia da comunidade cristã mais ampla.

(c) Identidade judaica messiânica

Assim como a comunidade judaica continua lidando com as perguntas “Quem é judeu?” e “O que define a identidade judaica?”, judeus messiânicos também lidam com questões de identidade. O nome dado a eles prioriza essas questões e gera importantes reflexões teológicas e pessoais. Uma variedade de termos é usada para descrever os judeus crentes em Jesus, e cada um pode ter vários significados.

“Judeus para Jesus” pode se referir amplamente a todos os judeus que acreditam em Jesus e é o nome de uma das agências missionárias mais conhecidas. “Judeu/judaísmo messiânico” agora é o termo mais usado (hebraico: Yehudi Meshichi). Ele pode se referir a todos os judeus crentes em Jesus, a maioria dos quais cultua nas igrejas denominacionais tradicionais, ou especificamente àqueles que pertencem a congregações messiânicas e sinagogas. O termo anterior “cristão/cristianismo hebreu” identifica aqueles que adoram nas igrejas denominacionais tradicionais, mas também pode ter uma aplicação mais ampla.

Alguns preferem “judeidade messiânica” a “judaísmo messiânico” porque o termo “judeidade” parece salientar questões étnicas e culturais ao invés de questões religiosas ou “judaísmo”. Ambos sinalizam uma mudança de orientação. A principal lealdade de um “judeu messiânico” é acreditar em Jesus como Messias. Outros na comunidade judaica observam que todos os judeus são “messiânicos”, pois aguardam a vinda do Messias. O termo “judeu messiânico” também já foi usado para descrever aqueles que apoiam o sionismo por motivos religiosos. Embora isso tenha causado alguma confusão na comunidade judaica com relação aos judeus messiânicos, também teve valor estratégico ao levantar a questão da identidade do Messias de Israel e afirmar claramente que o povo judeu que acredita em Jesus ainda é judeu.

O termo “cristão/cristianismo judaico” enfatiza a identidade primária de um “cristão” de origem judaica étnica e cultural. Alguns usam o termo mais neutro “judeu crente em Jesus” ou “crente judeu”. Em Israel, um termo popular é “judeu crente em Yeshua” (Yehudi Ma’amin b’Yeshua).

Embora esse debate sobre terminologia ainda não tenha chegado a uma conclusão, os judeus messiânicos devem se concentrar nas questões reais subjacentes a esse debate, a saber, a legitimidade de Jesus como o Messias e a necessidade de segui-lo. Não é ilusão, contudo, que os termos em si possam influenciar a autopercepção do indivíduo ou a percepção de terceiros quando se trata, não de identidade pessoal, mas da verdade divinamente revelada sobre o Messias.

(d) Uma teologia da identidade cultural

A Bíblia tem autoridade divina para os judeus messiânicos e é o principal recurso para eles. No entanto, existem diferentes opiniões sobre como interpretar as Escrituras à luz da tradição judaica. Isso pode se tornar o fator hermenêutico controlador na interpretação bíblica, levando a uma ênfase excessiva à “judeidade” da identidade judaica messiânica às custas do evento de Cristo. Por outro lado, é possível ler as Escrituras com ênfase excessiva nos aspectos divinos da natureza de Cristo, menosprezando o fato de a encarnação ter ocorrido em uma cultura humana específica e em um contexto judaico. Uma forma de equilibrar isso é o ensino teológico sobre a criação que exalta a bondade da ordem criada. As diferenciações étnicas, culturais e de gênero fazem parte dos propósitos de Deus para a humanidade, mas não pode existir orgulho étnico, nacional ou racial que faz um grupo se sentir superior ao outro. Os judeus messiânicos, ao lado de seus irmãos e irmãs em Cristo, devem refletir sobre essas questões com cuidado e clareza a fim de formular uma teologia da cultura que promova uma avaliação madura da identidade judaica cumprida no Messias.

A inquietação da comunidade judaica com identidade e sobrevivência à luz das ameaças de assimilação, secularização e antissemitismo é refletida na vida dos judeus messiânicos preocupados com um testemunho duradouro perante seu povo. Os fatores adicionais da crença em Jesus e filiação ao corpo de Cristo apresentam grandes desafios à natureza da identidade judaica, e os judeus messiânicos estão bem cientes das dificuldades que enfrentam ao definir e construir uma “identidade judaica messiânica autêntica”.

(e) Identidade judaica messiânica autêntica

Os judeus religiosos definem a “judeidade” essencialmente como uma identidade religiosa resultante da religião judaísmo (praticada pelos ortodoxos e outras variedades denominacionais do judaísmo). No entanto, a maioria dos judeus não possui uma identidade definida pela religião, preferindo ver a “judeidade” como um complexo de fatores que se combinam para criar uma identidade étnica e cultural. Isso inclui idioma, história, cultura, território, religião, política, humor e fatores demográficos.

Como os judeus messiânicos colocam em prática sua identidade religiosa? Sua eclesiologia expressa sua dívida às denominações cristãs históricas e o trabalho das agências missionárias que vieram deles e seu próprio desejo de integrar e incorporar aspectos do culto das sinagogas e elementos tradicionais judaicos. O uso do sidur (livro de oração judaico), celebração das festas e do ciclo de vida judaicos, é mantido em tensão com o padrão de adoração cristã, seus credos e festas. Há uma variedade considerável de práticas encontradas entre as congregações messiânicas e entre as igrejas tradicionais.

(f) Identidade messiânica em Israel

Os judeus crentes em Jesus refletem a diversidade da comunidade judaica global. Em Israel, os judeus messiânicos sentem-se pressionados pela instituição rabínica ortodoxa, que é influente em questões de imigração, cidadania e liberdade religiosa. Enquanto a maioria dos israelenses é secular e não se opõe aos judeus messiânicos, os grupos ortodoxos questionaram seu direito de retornar à terra.

Em Israel, a mistura de imigrantes da antiga União Soviética, dos EUA e da Etiópia, juntamente com os nativos sabras, leva a uma diversidade de práticas, estilos de adoração, liderança congregacional e a algumas tensões. Também há contrastes entre as gerações mais velhas e as mais jovens de crentes judeus. O movimento jovem em Israel tem encontrado maneiras de se relacionar com a cultura pluralista e pós-moderna ao seu redor e, ao mesmo tempo, afirmar as verdades que receberam através das estruturas congregacionais relativamente conservadoras de seus pais. As congregações israelenses exibem a mesma amplitude de crença e prática encontrada na igreja mundial. Os elos denominacionais, o movimento carismático, a estratégia evangelística e o papel das mulheres no ministério são questões sobre as quais há muita diversidade de posições, além das questões específicas que dizem respeito aos judeus crentes em Jesus.

Os judeus messiânicos precisam se preocupar particularmente com questões de paz, justiça e reconciliação. A busca contínua por desenvolver uma identidade judaica distinta destaca a necessidade de relacionamentos saudáveis com irmãos e irmãs em Cristo árabes. Muitos têm interpretações de profecias que dão pouco espaço para negociação sobre território e pouca confiança no processo de paz. No entanto, no nível prático e pessoal, iniciativas têm sido tomadas para aproximar os crentes judeus e árabes e incentivá-los a experimentar o amor reconciliador do Messias, sobrepondo os limites da etnia. Reuniões regulares para pastores, jovens e mulheres em contextos formais e informais são uma demonstração vital da diferença que Jesus faz. Existem sinais encorajadores que desafiam o status quo da miopia cultural, a intransigência política e os ciclos de violência e ódio. Tais atividades ocorrem com grande custo pessoal para os envolvidos, e os cristãos devem apoiar essas iniciativas com oração, recusando-se a serem polarizados em lealdade simplista a um lado em detrimento do outro.

(g) Evangelização e os gentios na evangelização de judeus

Os judeus messiânicos estão divididos quanto ao papel dos gentios na evangelização de judeus. Enquanto alguns ressentem-se da interferência da chamada “igreja gentia” e das agências missionárias na evangelização de judeus, outros acham isso positivo. Eles se referem à sua própria conversão como fruto dos esforços das igrejas tradicionais e dos cristãos, e ao fato de que a maioria dos judeus que creem em Jesus o fazem devido ao testemunho de amigos cristãos. No entanto, alguns judeus messiânicos defendem um “judaísmo messiânico pós-missionário” (título do livro de um líder messiânico a ser lançado nos EUA) que se desassocia especificamente do empreendimento missionário.  Sua preocupação em “ter netos judeus” leva a uma antipatia pelo envolvimento na igreja em geral, incluindo o apoio a agências missionárias. Outros argumentam que todos os missionários devem deixar a terra de Israel e deixar a evangelização para os crentes locais. Tal visão é extrema, impraticável e fica aquém do modelo bíblico da missão mundial da igreja universal de Deus para o mundo – refletindo a missio Dei.

Uma parcela minoritária, porém ativa, procura deslegitimar e neutralizar os efeitos da evangelização de judeus. No entanto, a maioria dos crentes judeus, ansiosa por ver suas famílias receberem as boas novas, aprecia o fato de que cristãos se preocupam o bastante para orar e testemunhar. Eles não se importam se amigos judeus ou não judeus apresentam o evangelho. Existe uma grande necessidade de os crentes judeus serem chamados para o ministério entre seu próprio povo, além dos muitos que já estão envolvidos.

O relacionamento entre missões e congregações messiânicas reflete as tensões eclesiásticas e paraeclesiásticas comumente encontradas em contextos missionários, com as atividades das denominações históricas em Israel representando os perigos da “construção de impérios”, mas permitindo a possibilidade de entregar responsabilidade e liderança a crentes verdadeiramente nativos. Existem inúmeros exemplos de ambas as práticas, e as agências estrangeiras mais inovadoras têm enfatizado o treinamento e a capacitação dos líderes locais sempre que possível.

(h) E a lei?

O termo Torá significa mais do que apenas lei. Inclui ensino, instrução e revelação. Ele se refere tanto ao Pentateuco quanto à Lei Mosaica, às escrituras hebraicas do Antigo Testamento e à tradição religiosa judaica (Mishná, Talmude e obras rabínicas posteriores), e funciona como um termo geral para revelação ou instrução. O sentido pretendido da Torá nem sempre é claro.

Grupos religiosos judeus interpretam a Torá de modos diferentes. Os judeus ortodoxos são rigorosos na observância das leis do Pentateuco, que são expandidas, interpretadas e aplicadas pela tradição rabínica. Os judeus conservadores modificam essa observância tradicional à luz da modernidade. Os judeus reformistas, liberais e reconstrucionistas adotam uma posição humanista pós-moderna, que procura na Torá princípios morais e normas culturais, mas estes podem ser renegociados e existem poucos absolutos. A maioria dos judeus observa alguns aspectos da Lei Mosaica por tradição ou costume, não pela convicção de que Deus os ordena.

Os judeus messiânicos acreditam que a lei foi cumprida por Jesus (Mateus 5.17), e que ele é o objetivo da lei (Romanos 10.4). Assim como existem diferentes entendimentos da relação entre lei e graça na igreja e diferentes avaliações cristãs da lei, também existem pontos de vista diferentes entre os judeus messiânicos. Alguns consideram a lei de Moisés obsoleta. Jesus inaugurou a nova aliança. As coisas velhas já passaram. As leis do sacrifício foram cumpridas em Cristo. As leis civis eram relevantes apenas para o Israel antigo. Somente a lei moral universal, exemplificada nos Dez Mandamentos, ainda é aplicável. Portanto, é equivocado observar aspectos da Lei Mosaica e voltar à escravidão do legalismo. Se os judeus messiânicos observam a lei mosaica, estão negando a graça de Deus e a justificação mediante a fé somente. Eles reconstroem o muro de inimizade, tentando a justificação pelas obras da lei.

Uma segunda posição apoia as práticas culturais e sociais da Lei Mosaica, mas isso não é por razões religiosas. Os costumes que compõem a identidade judaica foram incorporados à vida judaica pela tradição ao longo dos séculos, como o calendário, a circuncisão e as leis alimentares. Elas ainda são normativas para a identidade étnica, cultural e nacional, mas não têm mérito teológico, e não contribuem para a justiça. Consequentemente, elas não são prescritivas para os judeus crentes em Jesus, que são livres para observá-las se assim quiserem.

Uma terceira abordagem reconhece a validade contínua da tradição judaica como o contexto interpretativo para a compreensão da Torá bíblica do Antigo e do Novo Testamentos. Jesus, em seu ensino e exemplo, e a prática da igreja primitiva definiram uma nova halacha (regra de conduta) para a comunidade da nova aliança. Essa halacha é desenvolvida hoje seguindo o exemplo dos primeiros cristãos no livro de Atos. Eles observaram o estilo de vida e as práticas judaicas, adaptaram alguns, abandonaram outros, e aplicaram apenas alguns às nações. Os judeus messiânicos que observam a Torá dessa maneira, apesar de reconhecem seu valor, também desafiam sua interpretação pelos principais ramos do judaísmo. Eles propõem uma nova interpretação da Torá baseada no ensino e na prática de Jesus e dos primeiros discípulos.

Uma posição final e controversa argumenta que os judeus messiânicos devem em geral observar a Torá de acordo com a tradição ortodoxa ou conservadora com apenas algumas exceções. Isso permitirá que eles desenvolvam sua “identidade primária” dentro da comunidade judaica e não na “igreja tradicional”. Eles deveriam se ver como membros da comunidade de Israel e como parte da sinagoga, mesmo que outros não os aceitem. Isso desafia os judeus messiânicos a se identificarem plenamente com sua herança cultural e religiosa em vez de negá-la, ignorá-la ou abordá-la de maneira antagônica.

O grande perigo dessa última abordagem é comprometer a singularidade de Cristo e a liberdade que o evangelho traz. Embora essa opção possa ser atraente para aqueles que desejam receber uma validação de sua identidade pela comunidade judaica, ela pode levar a uma diminuição do testemunho eficaz. A autocompreensão que pode ser obtida com essa abordagem leva ao isolamento em relação a outros crentes. A observância da Torá às custas da unidade do corpo de Cristo só pode resultar em perda de comunhão e fé.

O resultado das posições acima mencionadas é visto na maneira como os judeus messiânicos adoram. Alguns seguem a liturgia da sinagoga, usando o sidur (livro de oração judaica) e a liturgia judaica. Outros produzem liturgias contextualizadas que combinam elementos dos cultos judaico e cristão. Isso pode resultar em uma liturgia criativa e holística, refletindo os estilos de adoração e as culturas de seus participantes de maneira relevante, e expressiva para os visitantes judeus, mas, na pior das hipóteses, leva a uma confusão indigna e irreverente. Alguns tentam eliminar a liturgia completamente. Muitos dos judeus messiânicos estão satisfatoriamente integrados nas igrejas tradicionais, onde seguem as liturgias das denominações às quais pertencem. Muitos apreciam celebrar festas judaicas como a Páscoa e o Ano Novo judaicos com outros crentes judeus, reconhecendo como essas festas apontam para Jesus e se completam nele.

Esses entendimentos da Torá impactam a vida e o estilo de vida dos judeus. Muitos crentes judeus observam feriados judaicos e eventos do ciclo de vida (circuncisão, bar-mitzvá etc.), usando-os como oportunidades para testemunhar a “judeidade” de Jesus e seu próprio ensinamento em tais eventos. Alguns vão além, observando vários graus do Cashrut (as leis alimentares kosher) e o sábado (dia de descanso). Alguns conscientemente procuram cumprir os requisitos da observância judaica ortodoxa e conservadora. Uma comunidade de congregações messiânicas está desenvolvendo sua própria formulação haláchica (lei religiosa judaica). Embora não haja uma autoridade amplamente reconhecida na comunidade judaica messiânica, há discussões em andamento sobre a necessidade de um Bet Din (tribunal) messiânico que terá autoridade para decidir sobre questões religiosas conflitantes.

(i) Judeus messiânicos e profecia

Muitos judeus messiânicos entendem o retorno de seu povo à terra de Israel como um cumprimento da profecia bíblica. Eles têm opiniões diferentes sobre como o estado de Israel deve responder ao conflito no Oriente Médio. Eles veem a sobrevivência de Israel como o propósito providencial de Deus em trazer seu povo de volta à terra e lhes dar renovada soberania. Quer morem em Israel ou na diáspora, eles têm forte apego a Israel, e anseiam por paz e segurança na região. Os judeus messiânicos servem no exército, colocam seus filhos no sistema escolar israelense, e contribuem como bons cidadãos para a vida do país. Eles compartilham a paixão e a dor de Sião e oram por uma solução.

Entre alguns, há uma “febre milenar” que nem sempre promove empatia com aqueles que sofrem agora. Outros estão profundamente envolvidos no ministério de reconciliação. Muitos, apesar de simpatizantes da posição sionista, são cautelosos ao expressar opiniões políticas e proféticas. Para eles, uma ênfase saudável no evangelismo e unidade no corpo do Messias substitui as opiniões políticas e proféticas. Uma variedade de expectativas proféticas e opiniões políticas são encontradas, mas não há uma visão unificada dos princípios da interpretação bíblica, muito menos de como os dados bíblicos misturam-se aos eventos contemporâneos.

Entre os crentes judeus na diáspora, há um fluxo pequeno, mas constante, daqueles que se tornam cidadãos israelenses. A maioria dos judeus crentes em Jesus ainda vive fora da terra e não acredita ter o chamado para imigrar para Israel. Embora a maioria dos judeus crentes que vivem em Israel não concordem em conceder território aos palestinos, houve várias iniciativas em nível local para uma reconciliação com os cristãos árabes. Eles operam sob as difíceis circunstâncias da Intifada. Pastores árabes e judeus, jovens e mulheres reúnem-se regularmente para orar e compartilhar. As amizades feitas apesar da divisão política são uma expressão poderosa do amor reconciliador do Messias.

(j) A unidade de Deus e a singularidade de Cristo

Os judeus messiânicos formulam as doutrinas da trindade e encarnação em termos judaicos. A maioria crê nessas verdades. No entanto, a tradição judaica nega a divindade de Cristo e a unidade plural de Deus, e essas questões são frequentemente debatidas. Os judeus messiânicos têm uma contribuição vital a fazer nessa discussão. O desafio da apologética é expressar a verdade cristã sob as perspectivas judaicas com integridade bíblica, precisão teológica e sensibilidade intercultural. Os mesmos problemas ocorrem com o testemunho aos muçulmanos, e os dois ministérios têm muito a aprender um com o outro nessas áreas.

Uma abordagem relevante expressa os credos históricos em termos e formas de pensamento do discurso judaico. O desafio aqui é articular corretamente os entendimentos complexos da natureza de Cristo e da Trindade. As Escrituras são a base para os credos e o meio apropriado para explicá-los aos judeus questionadores. A discussão de passagens-chave concentra-se nas evidências da unidade plural da divindade, nas características divinas/humanas do “Anjo do SENHOR” e no papel do Messias.

Alguns judeus messiânicos também usam a tradição rabínica e o Midrash (comentário judaico sobre as Escrituras) para explicar essas verdades. Isso fornece material ilustrativo útil, mas é necessário cuidado para não interpretar demais esses textos extrabíblicos ou depender excessivamente deles. O Novo Testamento mostra uma compreensão mais desenvolvida do Messias à luz da morte, ressurreição e ascensão de Jesus. A tradição rabínica especula sobre essas questões, mas não fornece uma formulação definitiva do que é claramente revelado em Cristo e manifesto pelo Espírito Santo.

Alguns expressam sua compreensão da Trindade e da encarnação usando os termos e a estrutura conceitual da tradição mística judaica, a Cabala. Em sua complexa literatura, encontra-se a natureza plural de Deus, e o Messias como intermediário divino e emanação da divindade. Há algum valor apologético em mostrar como as ideias da natureza plural de Deus e da divindade do Messias não são completamente estranhas ao judaísmo. De fato, a expressão do desejo de verdadeira redenção tem sido motivo de especulação em alguns círculos judaicos por muitos séculos. Existem muitas analogias entre a ideia messiânica no pensamento cabalístico e a apresentação de Jesus no Novo Testamento, tais como sua preexistência, ação na criação, encarnação, sofrimento, expiação e ressurreição. No entanto, a tradição mística judaica compromete a natureza e o ser de Deus, usando um entendimento gnóstico e dualista da imanência do bom criador dentro de uma criação maligna que aguarda redenção. Tais paralelos na tradição judaica não devem ser considerados em demasia, pois levam a uma cosmologia e a uma cristologia defeituosas.

Outros buscam uma formulação pós-moderna da Trindade. Isso reflete-se no trabalho de alguns pensadores judeus que reconhecem a possibilidade da encarnação de Deus no povo de Israel, mas têm dificuldade em relacionar esse entendimento da encarnação a Jesus.

Uma pequena minoria reconheceu Jesus como Messias humano, mas negou sua natureza eterna divina. Eles veem isso como incompatível com o monoteísmo estrito da tradição judaica, que afirma a singularidade e indivisibilidade de Deus. Existem alguns judeus messiânicos que negam a divindade de Cristo, escolhendo cristologias arianas que adotam uma visão unitária da natureza de Deus. O desejo deles é colocar o messianismo de Jesus dentro das categorias judaicas tradicionais, que consideram como idolatria a adoração a qualquer ser que não seja o Deus invisível. Esta é uma posição minoritária aceita por menos de 5%, mas indica a gravidade do problema.[1]

(k) O Futuro dos judeus messiânicos

Na história da igreja, os pais da igreja primitiva fizeram distinção entre os hereges “ebionitas” e os ortodoxos “nazarenos”. Essa generalização refletia a perspectiva de cristãos não-judeus sobre seus irmãos judeus e, ainda que não seja inteiramente precisa ou caridosa, apresenta algumas semelhanças com os nossos dias.

Vários resultados são possíveis para o movimento. Há muitos milhares de judeus messiânicos na Igreja mundial e sinais de crescimento e desenvolvimento saudáveis: discipulado pessoal, treinamento de liderança, maturidade congregacional, movimentos juvenis e reflexão teológica.

Os grupos messiânicos não podem abrir mãos de alguns princípios importantes. Os esforços de contextualização devem ser fiéis às Escrituras e não podem incluir elementos anticristãos que possam ser entendimentos judaicos comuns. Isso inclui orações por perdão sem expiação substitutiva, ou o que é comumente entendido como orações pelos mortos. As práticas de culto judaico messiânico e a retenção dos costumes judaicos devem ser expressões autênticas de indivíduos e membros do grupo. Deve-se tomar cuidado ao se afirmar a unidade do Corpo de Cristo tanto na diáspora com todos os cristãos como particularmente com os árabes cristãos em Israel.

Espera-se que o envolvimento com essas questões produza uma próxima geração informada e teologicamente madura. Se o movimento messiânico puder reter a supremacia do Messias e a autoridade das Escrituras em sua fé e prática, evitará um orgulho e um bairrismo que podem ameaçar seu bem-estar. Se esse movimento puder aprofundar sua compreensão e amor pelo Messias e seguir seu caminho de humildade e servidão, continuará a crescer, prestando testemunho eficaz ao povo judeu sobre seu Messias e levando luz às nações como o remanescente fiel de Israel.

Os cristãos preocupados com a salvação e o bem-estar do povo judeu podem se alegrar com o crescente número de judeus que estão aceitando seu Messias. Eles existem como uma expressão renovada da fidelidade de Deus ao seu povo da antiguidade. Oramos para que eles cumpram a visão de seu destino, comprometam suas vidas a servir amorosamente, e respondam ao chamado do Senhor de ser uma luz para as nações ao testemunharem do Messias de Israel. Que eles possam se beneficiar dos recursos teológicos, apoio pastoral e encorajamento amoroso de sua família cristã mais ampla.

 

[1] Veja Mishkan 39 (2003). Esta edição de Mishkan é dedicada ao tema “A Divindade do Messias”.

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