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Transmissão Global, Missão Global (Parte 5/6)

O impacto e as implicações da pandemia de Covid-19: “Realidades do campo missionário” e “Mídia cristã”

Jason Mandryk

O conteúdo a seguir é a quarta de seis parcelas do e-Book de mesmo título publicado pela Operation World. Foi originalmente escrito em inglês, e o Martureo recebeu autorização para traduzir para o português e republicar o material.

Se preferir, leia antes:

Parte 1/6 – “Prefácio” e “Adentrando o desconhecido”, texto que traz os itens 1 a 6;

Parte 2/6 – Visão amplificada – questões socioculturais” e “Mas e a economia?”, texto que traz os itens 7 a 21.

Parte 3/6 – “Testemunho cristão em tempos de pandemia” e “Vida da Igreja durante o lockdown”, itens 22 a 35.

Parte 4/6 – “Mobilização para Missões” e “Envio missionário”, itens 36 a 50.

 

Realidades do campo missionário

 

51. Ficou evidente (mais uma vez) que a superioridade ocidental é um mito. Isso já deveria ter ficado claro há algum tempo, especialmente se temos um envolvimento com missões. É óbvio que pessoas de culturas diversas no Norte global trazem dádivas redentoras para a mesa compartilhada do serviço cristão – sejam eles alemães, australianos, cingapurianos ou canadenses. Mas seus dons não são mais preciosos ou importantes do que os dos ganeses, brasileiros, filipinos ou indianos.

O manejo bem coordenado e eficaz do coronavírus por nações como Taiwan, Coreia do Sul e Hong Kong, e mesmo bloqueios decretados por nações como África do Sul (incluindo a proibição do álcool) e Arábia Saudita (durante o Ramadã!), fazem os esforços aleatórios de algumas nações no Ocidente serem enquadrados como má gestão da crise.

Muitos cristãos podem não estar cientes que muitos dos que vivem no Sul global equiparam o mundo ocidental ao cristianismo ou à mensagem de Jesus. Isso inclui consumismo americano, licenciosidade europeia e consumo exagerado de álcool. Para bilhões de muçulmanos, hindus, budistas e outros, o cristianismo é visto como total degradação. A única Bíblia que leem é a conduta daqueles que eles consideram cristãos [os ocidentais]. Agora, podemos acrescentar também estupidez a essa visão, isso porque alguns países “cristãos” foram negligentes, e desperdiçaram semanas preciosas no combate à Covid-19. Como desculpas pelas falhas na política adotada, usam argumentos tingidos de racismo.

Missionários que chegam do Ocidente em nome de Jesus talvez tenham de iniciar seu trabalho desconstruindo as muitas noções falsas associadas à sua fé.

52. Seja como for, a missão global já não é mais ocidental. Já há muito mais seguidores de Jesus no Sul global do que no Norte Global. Anos atrás, o número de missionários no Sul Global ultrapassou o de missionários oriundos do Norte global. O movimento missionário ocidental cresceu paralelamente ao império ocidental, seja por conquistadores espanhóis, administradores imperiais britânicos ou pela mídia americana. A hegemonia ocidental – seja ela tecnológica, financeira ou militar –

parece estar em declínio. O mesmo se aplica a missões ocidentais. As nações enviadoras de missionários dos séculos 19 e 20, na melhor das hipóteses, têm mantido a força missionária, mas a maior parte delas apresenta encolhimento do esforço. No entanto, esse declínio tem sido compensado pelo crescimento no envio missionário por países da Ásia, África, América Latina e Europa Oriental. Ainda que haja aumento da influência financeira da Igreja no Sul global, a generosidade dos crentes do Norte global em relação à missão global também está diminuindo. E, por mais que possamos nos ressentir, mesmo em missão, dinheiro conta [money talks]. Aqueles que preenchem seus cheques tendem a ser aqueles que estabelecem as agendas. Os danos causados pela Covid-19 e que afetam a economia (e a generosidade missionária ocidental em particular), combinados com o declínio do envio missionário por países ocidentais, terão um impacto direto e profundo no que é visto como supremacia missiológica do movimento missionário ocidental.

53. “O futuro da missão será autóctone” é uma frase que contém uma reviravolta; ela é de Jay Matenga, Diretor-Executivo da Comissão de Missões da Aliança Evangélica Mundial. Movimentos de envio missionário estão crescendo rapidamente ao redor do Sul global – alcançando não apenas as comunidades locais que precisam do evangelho transformador, mas cruzando barreiras geográficas, linguísticas e culturais para irradiar as boas novas de Jesus mundo afora. Isso também se aplica ao “como” em Missões – movimentos deflagrados localmente (na base) e de caráter orgânico em contraste com uma abordagem imperial e industrial de larga escala como a dos últimos dois séculos.

Haverá, inevitavelmente, uma repetição dos mesmos erros já cometidos por europeus, americanos, coreanos e pelos demais que já atuaram antes. Mas quem melhor para difundir a mensagem cristã em lugares e comunidades que a Covid-19 tornou inacessíveis (pelo menos no momento atual) do que aqueles que já estão nesses campos? Os adeptos e embaixadores do cristianismo em um mundo de missão policêntrica são representantes de uma “fé cristã global que tem pouco lugar para os vestígios da cristandade, especialmente poder e riqueza”. O que melhor que esses movimentos deflagrados localmente (na base) para demonstrar que a mensagem de Jesus é sobre um diferente tipo de poder e um diferente tipo de riqueza?

54. Modelos insustentáveis de envio e missiologias inadequadas serão descartadas, mais por necessidade que por vontade. A queda súbita nas doações provenientes do Ocidente não está apenas inviabilizando a atuação dos ocidentais em campos transculturais, está impedindo também o trabalho de milhares no Sul global que dependem do financiamento do Ocidente. Um efeito adicional (e que não se enxerga com frequência) é que os modelos ocidentais – que demandam altos investimentos financeiros para o envio de missionários – foi replicado em outros lugares. [O Brasil é um exemplo!] Isso, obviamente, ocorreu pela falta de outras alternativas, mas também pela pressão da liderança no Ocidente para que outras regiões seguissem seus passos. Se o modelo que demanda doadores com muito dinheiro para serem os mantenedores de missionários dedicados com salários custosos está sofrendo para persistir no Ocidente, imagine as dificuldades que tal modelo enfrenta na África, na América Latina e em grande parte da Ásia! Até mesmo a proposta de Negócios como Missão [Business as Mission – BAM] é problemática se a eficácia desse modelo está atrelada ao bom desempenho dos negócios (e, no momento, em muitos lugares do mundo, os negócios estão paralisados ou com restrições). Desenvolver modelos sustentáveis – que viabilizem não apenas a realização de missões transculturais, mas o envio de trabalhadores para as nações menos abastadas, garantindo a manutenção deles nesses lugares – é essencial para o futuro da missão global.

Argumentar que o engajamento com a missão tem se dado principalmente por meio de eventos evangelísticos de larga escala nos quais muitas almas são salvas seria um discurso preguiçoso, além de isso ser injusto para com a maior parte do trabalho transcultural do Reino. Mas o rótulo foi colocado, não totalmente por acidente, não totalmente por malícia.

A Missão de Deus nunca se restringiu meramente a contar mãos levantadas em grandes campanhas de evangelismo [ou contar cliques, como em alguns casos], mas almeja ver transformação em toda a ordem criada. Os dias dos eventos de massa acabaram, pelo menos por enquanto. Enquanto isso, os dias de crescimento efetivo da Igreja por meio de reuniões nas casas e em grupos familiares não desapareceram.

55. O proeminente crescimento da missão integral – uma abordagem holística que ministra as boas novas à pessoa como um todo e à comunidade – não é apenas oportuna em tempos de pandemia global e crise econômica, mas está, de forma correta, inserida no cerne da praxis da missão. Desde o evento de 74 de Lausanne (e na verdade até mesmo antes dele), os evangélicos que olham para o futuro da missão têm batido na tecla da missão integral. As necessidades humanas urgentes decorrentes da Covid-19, bem como seus efeitos diretos e indiretos, dão aos seguidores de Jesus a oportunidade de demostrar o quanto o evangelho é relevante em todos os aspectos da vida humana, e quanto Deus deseja trazer cura e transformar toda a sua criação. O cenário está preparado para a Igreja demonstrar: o coração de Deus em favor dos vulneráveis (pobres, viúvas e órfãos, estrangeiros e refugiados), o dom espiritual da hospitalidade e os valores fundamentais do cristianismo de generosidade e compaixão.

Há relatos que, em alguns países, a ajuda financeira e a distribuição de alimentos durante a crise da Covid-19 estão vinculadas à filiação religiosa. Cristãos e outras minorias religiosas podem não receber ajuda, a menos que se convertam à religião dos que prestam a assistência. Enquanto isso, ministérios cristãos nesses mesmos países estão distribuindo cestas básicas a qualquer pessoa necessitada, não importa a cor ou o credo. Que testemunho poderoso!

Eu ouvi de fiéis locais em contextos muçulmanos que estão envolvidos na distribuição de alimentos e itens de higiene em alguns dos lugares mais necessitados e menos evangelizados do mundo – anciãos da comunidade e até mesmo funcionários do governo têm solicitado a ajuda de ministérios cristãos que atuam nesses lugares em que as pessoas não conhecem o evangelho. Há maravilhosas oportunidades agora mesmo de compartilhar o amor de Cristo e demonstrá-lo. Vamos aceitar o desafio?  Como podemos ser parceiros desses nossos irmãos e irmãs e apoiá-los na linha de frente?

56. Os lugares com maior carência estão entre os que menos obterão ajuda durante a pandemia de Covid-19. Isso se aplica aos lugares onde não há acesso às boas novas de Jesus, e também aos lugares em que há falta de comida, moradia, assistência médica, educação etc. Povos não alcançados são justamente não alcançados pelo fato de serem os mais difíceis de se alcançar – em termos geográficos, culturais, linguísticos e espirituais. Com a interrupção dos encontros presenciais de pessoas na maior parte do mundo e de quase todas as viagens, é praticamente certo que houve declínio no evangelismo. Mesmo antes do coronavírus, estávamos perdendo terreno – o Center for the Study of Global Christianity [Centro para o Estudo do Cristianismo Global] estima que a população não evangelizada no mundo tenha um acréscimo de 70 mil pessoas todos os dias. Isso significa que o número de pessoas não evangelizadas no mundo cresce mais rapidamente do que a capacidade dos cristãos em alcançá-las: na ordem de 26 milhões por ano! Com as quarentenas impostas por conta da Covid-19, é praticamente certo que estamos perdendo terreno com mais velocidade no momento.

Há também uma estreita correlação entre as populações menos evangelizadas do mundo e a pobreza extrema. Em geral, nossa opção é desviar o olhar, mas o fato é que o sofrimento humano dos mais pobres não vai melhorar durante este tempo – muito pelo contrário. A situação desesperadora de pessoas que vivem em favelas densamente povoadas nos centros urbanos, dos que estão em situação de rua e dos milhões que estão presos nos campos de refugiados e imigrantes está ficando ainda mais complicada. Mesmo quando não se trata de refugiados e sim de trabalhadores que recebem algum pagamento, eles são expostos a muito mais riscos que a população local. Isso acontece nos campos da Grécia, França e Turquia e também nas acomodações de trabalhadores na região do Golfo, Cingapura e Índia. Há cristãos (alguns são missionários, mas outros, nacionais) fazendo todo o tipo de esforço possível para aliviar a situação dos que estão presos em campos de refugiados e imigrantes. Eu espero e oro para que vejamos surgir em cristãos com espírito de missão uma onda de doações (e de disposição para ir, o mais rápido possível) a essas populações mais carentes.

Às vezes, parece haver um conflito entre priorizar o envolvimento com os menos alcançados com a mensagem de Jesus e dar ênfase ao combate às injustiças em todo o mundo (econômica, social, racial, sexual etc.) como mandato do Reino. No entanto, a pesquisa mostra que os lugares menos evangelizados tendem a ser os lugares onde o sofrimento humano é mais intenso, e onde as diferentes formas de injustiça são sentidas com mais intensidade. Não há conflito aqui, mas um grande potencial sinérgico.

57. Diferentes respostas dadas por não-cristãos. Como mencionado anteriormente, não haverá apenas um tipo de reação à Covid-19 – ou a ministérios cristãos – neste momento. A vasta maioria das pessoas desesperadas, seja por comida, abrigo, emprego ou mesmo esperança, não torcerão o nariz para ofertas de assistência, a não ser que elas venham com contrapartidas inaceitáveis. A bondade e a generosidade cristãs serão recebidas com abertura espiritual em muitos casos. Contudo, não devemos esperar que o desespero se transforme automaticamente em fome espiritual. Um colega meu, um evangelista e missionário muito eficaz que serviu em diversos grupos não alcançados, comunicou-me sua tristeza pelo grau de fatalismo demonstrado por muitos nãos cristãos que ele tem tentado alcançar. Isso pode ser verdade entre muçulmanos, hindus e budistas. Para aqueles que creem que a vontade de Deus/dos deuses é inexorável e inevitável, tomar precauções para prevenir e superar a Covid-19 é geralmente inútil. Embora possa haver medo, há também resignação. Naturalmente, os teólogos explicarão os conceitos de qadar e karma com mais nuances e sofisticação, mas a maioria das pessoas famintas ou infectadas não são teólogos.

58. O aumento da hostilidade para com os cristãos está sendo observado em muitos lugares do mundo. Isso acontece tanto no Ocidente pós-cristão como no resto do mundo, onde o ateísmo, o islamismo, o hinduísmo e até o budismo patrocinados pelo Estado intensificaram a perseguição às minorias cristãs. O fundamentalismo religioso –incluindo o fundamentalismo cristão – tem aumentado nos últimos anos, em parte como uma reação à diluição da identidade tradicional fruto da disseminação do globalismo. O nacionalismo emergente anda de mãos dadas com o extremismo religioso para agir com violenta impunidade. As tensões entre potências mundiais e também as posturas diplomáticas agressivas (e até hostis) darão o tom, tácita ou explicitamente, de como as minorias religiosas deverão ser tratadas. E cristãos, ainda que apenas por conta da presença global e do número expressivo, tendem a ser alvo de perseguição mais que qualquer outro grupo.

Tanto a perda da autoridade moral no Ocidente como a perda de uma plataforma robusta para falar ou agir em defesa de minorias cristãs em apuros no exterior encorajaram as forças políticas e religiosas em sua perseguição geralmente esporádica, mas às vezes sistemática, à Igreja. Durante estes tempos de coronavírus, quando o olhar se concentra nos contextos locais, o medo, as notícias falsas (fake news), a xenofobia e o oportunismo prosperam ao atingir grupos minoritários vulneráveis, sejam eles religiosos ou de outra natureza. Isso ficará dolorosamente evidente em lugares onde o estado de direito é fraco, ou onde as restrições desencadeiam crises econômicas de maiores proporções.

Que Deus nos poupe de todas as formas de violência religiosa, não importa em que Deus ou deuses acreditemos!

59. A súbita interrupção na missão global e o forte declínio no envio serão um retrocesso – pelo menos inicialmente. Vamos lamentar muito a perda de trabalhadores comprometidos para atuar nos campos. A redução nas doações generosas que sustentam não apenas o trabalho de missionários, mas boa parte da Igreja nativa, acarretará prejuízo. Já escrevi nas parcelas anteriores deste e-Book a respeito de como essa generosidade sustenta a missão e o trabalho da Igreja, além de ser um testemunho poderoso ao mundo incrédulo.

De outro lado, isso também tem o potencial de criar uma dependência não saudável, especialmente se tal generosidade não for endereçada com a devida sabedoria. Trata-se de um assunto sobre o qual já se discorreu com exaustão em círculos missiológicos, e as igrejas plantadas por meio de atividades missionárias o estão abordando cada vez mais. Integridade, responsabilidade, transparência e confiança são princípios-chave que devem nortear as doações cristãs. Esses princípios devem operar em ambas as direções. Isso se torna ainda mais imprescindível quando as relações ultrapassam as fronteiras geográficas e culturais. De forma geral, as doações a instituições estão reduzidas, então parcerias orgânicas e relacionais entre grupos cristãos precisarão ser construídas. Alguns estão em posição de doar, outros, em posição de realizar boas ações em lugares de grande necessidade. Por que não trabalham juntos de maneira mais direta?

Mas, como já vimos no passado, a perda de recursos provenientes de doadores estrangeiros, embora lamentável, pode atuar como catalizadora em um processo de transição para um modelo mais saudável e autônomo, uma verdadeira reinvenção. O repentino desaparecimento de missionários expatriados é quase sempre uma experiência traumática para igrejas recém-plantadas, mas às vezes os filhotes precisam ser forçados a sair do ninho para de fato aprenderem a voar por conta própria. Ministérios entre nativos e movimentos missionários são capazes de encontrar caminhos para realizar o trabalho do Reino de maneira efetiva, apropriada e sustentável. E mais, eles são capazes de fazer de forma melhor que nós, os de fora, ainda que todos desejemos fazer isso juntos! Esse “ponto ideal” na transição de campos missionários altamente dependentes para movimentos de igrejas nativas autossustentáveis, auto replicantes e auto teologizados geralmente ocorre antes do que a maioria das missões estrangeiras costuma achar confortável. Um tempo como este, quando trabalhadores enfrentam dificuldades para ir ao campo, e quando as finanças são escassas, abrem espaço para os movimentos missionários locais, de base, se intensificarem. A dependência radical de Deus se torna a ordem do dia. Nas palavras atemporais de C. T. Studd: “Os recursos estão baixos novamente, aleluia! Isso significa que Deus confia em nós, e está disposto a deixar Sua reputação em nossas mãos”.

60. Comunidade cristã como testemunha cristã. Durante tempos de crise, membros de uma mesma comunidade tendem a se tornar mais próximos uns dos outros – para cuidar daqueles que dela fazem parte (algo positivo) e, às vezes, estigmatizar e excluir aqueles que não pertencem a ela (obviamente, algo ruim). A comunidade cristã, por sua vez, deve ser marcada por graça, hospitalidade, generosidade e imparcialidade. Há exemplos poderosos na história sobre como comunidades cristãs podem ser instrumentos poderosos para evangelização, começando, é claro, com o livro de Atos. A Igreja celta (com origem nas ilhas britânicas) e os beneditinos (com origem na Itália) foram contemporâneos, e ambos tiveram um grande impacto missional na Europa a partir do século 6. Tais redes de comunidades missionárias espalharam o evangelho de forma efetiva no que conhecemos como Idade das Trevas e, quase que por acidente, tiveram uma contribuição inestimável na preservação da cultura e dos saberes. Embora antigos, esses movimentos monásticos ainda hoje impactam poderosamente o mundo com pessoas cujas expressões de fé são significativas e a vida comunitária, autêntica. Essas comunidade requeriam um comprometimento sério com os valores do grupo, com a prática rigorosa das disciplinas espirituais e com um estilo de vida sacrificial. Mas a eficácia é evidente, tanto que estamos cada vez mais tentando resgatar esse modelo hoje.

Estamos em um período – podemos até dizer uma era – que evidencia como o individualismo é inadequado para refletir nossa fé em um Deus Trino. Mas em que época o egoísmo institucionalizado [baptized selfishness] foi um reflexo de Cristo? Oportunidades missionárias excepcionais acontecem em equipes de ministério unidas, que têm um estilo de vida comunitária radical. Construir vida e relacionamentos juntos, e fazer isso debaixo do senhorio de Cristo, já é um testemunho poderoso. Foi provado por gerações e gerações que fazer isso com o objetivo de tornar Jesus conhecido entre as nações é uma maneira eficaz de viver a Missão de Deus. Em um mundo em que ondas de contágio por coronavírus paralisaram a globalização e as viagens, e o individualismo arraigado está em xeque de agora em diante, talvez a estratégia de missão mais eficaz seja a centrada na vida comunitária [uns aos outros].

61. O tipo mais efetivo de comunidade cristã? Equipes missionárias multiculturais e diversas. Anteriormente, mencionei o aumento do racismo, da xenofobia e do nacionalismo tóxico, bem como a profunda cisão pela qual muitas sociedades estão passando por conta de conflitos geracionais, afiliações políticas e posições socioeconômicas. Não há lugar para isso – nenhum lugar! – no Reino dos céus. O oposto, contudo, traduz o real desejo de Deus para a humanidade: unidade na diversidade. As cenas descritas em Apocalipse 5 e 7 devem nos inspirar, elas mostram todas as nações, tribos, povos e idiomas juntos diante do trono e do Cordeiro (Ap 7.9).

A Operation World há muito tempo afirma o impacto do Reino por meio de equipes multiculturais. Além de diferentes culturas, personalidades, gêneros e gerações terem diferentes dons e forças redentoras, todos eles também têm fraquezas e pontos cegos. Quando servimos juntos, podemos ajudar uns aos outros a identificar os pontos cegos e a bagagem cultural [filtros] que não percebíamos ter. É como ser colocado no fogo, e entender que quem lixa nossas arestas são nossos irmãos e irmãos em Cristo. A esse processo também se dá o nome de santificação!

Além do mais, equipes multiculturais e diversas comunicam o profundo poder da reconciliação que, em última análise, só pode ser experimentado por meio de Jesus Cristo. Famílias, comunidades e nações em geral sabem quando estão quebradas e divididas, ainda que lutem para admitir isso. Quando pessoas que, de forma geral, são inimigas [ou têm diferenças sérias] – árabes e judeus, coreanos e japoneses, negros e brancos, homens e mulheres, até mesmo torcedores do Corinthians e do Palmeiras [nosso contexto] – são vistas servindo, honrando e amando umas às outras, trabalhando juntas pela colheita… nossa, o poder [do Espírito Santo de Deus].

62. As restrições (lockdowns e quarentenas) no campo paralisaram muito do trabalho missionário efetivo. Muitos missionários que optaram por permanecer no campo, assumindo os riscos envolvidos, agora se encontram obrigados a permanecer isolados enquanto estão perto daqueles a quem foram chamados para alcançar, e isso é uma tentação. Imagine a frustração que é escolher permanecer no campo, estar ciente do sofrimento que há em seu entorno próximo, ser compelido a amar os perdidos ao lado de seus irmãos e irmãs de sua nacionalidade e de outros países, e não ter permissão para sair e ministrar.

Então, além de a Covid-19 ter feito com que muitos deixassem o campo, os que puderam permanecer estão se deparando com uma atuação forçadamente reduzida. Não contar com o elemento expatriado [missionário estrangeiro] pode, potencialmente, proporcionar maior eficácia ao trabalho missionário – em algumas situações isso não acontece, e em outras pode não ser de imediato. Contudo, isso sempre traz prejuízo à beleza e ao poder da diversidade do corpo. Essa perda é sentida tanto pelos nacionais quanto pelos missionários estrangeiros forçados a sair – tenho ouvido relatos de missionários nativos compartilhando o quanto eles sentem falta de seus colegas de trabalho expatriados, e o quanto se sentem incompletos sem eles.

No entanto, como acontece com todos, esse isolamento oferece tempo para cultivarmos a comunidade cristã – tanto no mundo físico quanto no digital. Permite que as equipes missionárias ouçam a Deus e repensem suas estratégias. E, talvez o que seja mais significativo, abre tempo e espaço para a oração. Vamos nos aprofundar nisso em breve.

63. O serviço ousado e sacrificial é o que abrirá portas quando o caminho mais seguro tiver suas portas fechadas. Fui informado sobre uma grande equipe missionária em um país não alcançado – que, em tempos normais, já é perigoso o suficiente – que recebeu a oferta da liderança de ser repatriada antes que o país em questão implementasse medidas restritivas. Contrair Covid-19 em um lugar assim envolve maior risco de morte. Todos da equipe optaram por ficar. Visto que muitos outros expatriados estavam deixando o lugar, os habitantes locais não deixaram de notar que esses missionários continuavam, por opção e próprio risco, amando aquela terra e povo em nome de Jesus. Lembro-me das palavras do irmão Andrew: “Não há portas fechadas para o evangelho, desde que, uma vez que você atravesse a porta, não se importe se você volta ou não”.

Outro líder de agência relatou-me que um de seus campos – um país onde o grupo religioso majoritário persegue regularmente os cristãos – estava solicitando o dobro da quantia mensal regular destinada a obreiros locais (nacionais). Quando indagado sobre o motivo, surgiu uma história incrível: esses cristãos abriram seus lares para os que haviam perdido suas próprias casas ou foram despejados devido à crise econômica, ainda que essas pessoas fossem do grupo religioso que os perseguia. Naquela cultura, oferecer abrigo significa oferecer também comida, daí a necessidade de mais fundos. Ao alimentar e abrigar aqueles que perseguiam os crentes, os cristãos se tornaram conhecidos como os que deviam ser procurados quando alguma ajuda fosse necessária.

Esse é o tipo de testemunho, o tipo de comprometimento, que é percebido e notado.

Os primeiros cristãos tornaram-se conhecidos por prática semelhante. Enquanto as classes mais favorecidas e a multidão pagãs fugiam das cidades do Império Romano assoladas por uma praga, os cristãos tomavam a direção contrária: iam para tais cidades para cuidar dos doentes e enterrar os mortos. O custo foi muito alto, mas essas ações transformaram a visão das pessoas em relação ao evangelho: quem antes era hostil tornou-se mais compreensivo, e assim o que eram um pequeno e estranho ramo da religião judaica transformou-se em uma fé que conquistou um império. Quando os que atuam no campo missionário aceitam o risco, não têm medo da morte, amam aqueles que todos os outros abandonam e vão aonde nem o governo vai, o custo pode ser alto, mas a Igreja cresce.

Mídia cristã

64. O ministério digital tornou-se comum. Enquanto algumas igrejas mais vanguardistas tecnologicamente têm ciber-pastores há anos, a maioria dos cristãos que participaram de um culto transmitido ao vivo pela Internet o fizeram pela primeira vez em março ou abril de 2020. Quantas dezenas de milhões de crentes aprenderam sobre Chromecast, grupos de WhatsApp, conferência via ferramenta Zoom e como silenciar o microfone nas últimas semanas? A tecnologia ajudou imensamente a Igreja a fornecer uma alternativa durante o tempo em que as celebrações presenciais não podem acontecer. Certamente, a igreja que funciona virtualmente oferece vantagens – posso participar de pijama, deitado no sofá, tomar meu café durante o culto!

Essa rápida evolução na forma como a maioria das congregações está servindo aos fiéis durante o confinamento também fornece uma alternativa para as pessoas que estão doentes (trancadas em casa ou no hospital) e para aqueles (como eu) que desejam ter comunhão com igrejas nos lares em países longínquos. Esse modelo permite compartilhar pedidos de oração (e respostas) instantaneamente. Podemos compartilhar passagens das Escrituras, canções de adoração e até mesmo brincadeiras sobre cristãos (os administradores do grupo, em paralelo, imploram para você se conter nas interações) em nossos celulares. Grupos pequenos (células) podem se reunir sem interrupções, e as reuniões de oração no meio da semana podem até ver um aumento na participação, pois os cristãos percebem que a oração não é uma atividade tão angustiante, afinal!

No Reino Unido, onde a frequência semanal nos cultos é inferior a 10%, constatou-se que 25% dos adultos ouviram ou viram algum tipo de celebração ou mensagem desde o início das restrições por conta da Covid-19, vale salientar que um terço dessas pessoas tem 18 a 34 anos. Os participantes do Alpha Course Online, um programa de estudo bíblico pela Internet, dobraram, e seu fundador disse: “Nunca na minha vidaconheci um tempo em que as pessoas sejam mais abertas [ao evangelho] do que agora”.

Ainda assim, devemos reconhecer que as medidas restritivas – e as oportunidades que delas resultam – são temporárias. Espero que a maioria dos cristãos, embora gratos por terem conseguido manter a comunhão durante o tempo de restrição, fiquem emocionados quando os ajuntamentos presenciais puderem retornar, e que o envolvimento com a igreja aumente quando as comunidades estiverem realmente à vontade para grandes reuniões presenciais. Podemos e devemos celebrar estas manifestações de abertura espiritual, bem como o aumento do envolvimento com a igreja no formato digital, no entanto, devemos nos lembrar que há fatores transitórios que contribuem para isso: a urgência espiritual que sempre acompanha tempos de crise, o fato de esses novos formatos de culto serem uma novidade, e a falta de outras opções de ‘entretenimento’. E tudo isso vai passar. Que o corpo de Cristo aproveite ao máximo esta janela de oportunidade.

65. Oportunidades desiguais. Observamos um aumento na prática da fé por meios digitais também no Sul global. Um estudo feito no Quênia, dentre outros exemplos, mostra isso. Contudo, assim como acontece em outras áreas, o campo para este jogo não está nivelado quando consideramos todos os países. No Norte global, a maioria das famílias possui vários dispositivos por pessoa, rede wifi, banda larga 4G ou 5G que permite conexão 24 horas por dia 7 dias por semana. Isso não é verdade em todo o mundo. Contextos rurais, em geral, não estão tão bem preparados para se adaptarem à esfera digital – isso é verdade em quase todos os lugares, mas especialmente no Sul global. Um amigo pastor em Madagascar relata os imensos desafios que eles enfrentam – na verdade, a impossibilidade – ao tentar migrar as atividades da igreja para a esfera digital em comunidades onde a maioria das pessoas não tem dispositivos, nem acesso à Internet. Outro irmão da República do Congo compartilha que, embora tecnicamente possível, o custo dos pacotes de dados obriga as pessoas pobres a escolher entre conectar-se ou comprar alimentos.

A curva de adaptação à vida digital também é variável. [Diferente do que muitos imaginamos], a maioria das culturas tem uma vida comunitária intensa, que valoriza muito o relacionamento presencial, e com forte tradição oral – nem sempre se trata de não saber ler, mas de não ler mesmo. Contar histórias, entoar canções e conversas face a face são as formas naturais que essas culturas têm para transmitir significados. Felizmente, rádios cristãs e recursos em áudio e em vídeo podem ser ferramentas poderosas para evangelismo e discipulado – isso, é claro, quando conseguem ser disponibilizados e quando são culturalmente relevantes. Não podemos simplesmente traduzir os recursos que nos são familiares e assumir que eles serão eficazes em outro idioma e em outro meio cultural.

Embora seja maravilhoso que conteúdos excelentes e apropriados sejam difundidos para os cristãos em muitos formatos, idiomas e contextos culturais, minha convicção é que o ministério midiático é uma ferramenta mais eficaz para discipular e incentivar aqueles que já são cristãos do que para a missão intercultural. Para alcançar os povos não alcançados, evangelizar os não evangelizados, e ver a mensagem de Jesus tornar-se real em seus mundos, o relacionamento pessoal é o meio mais efetivo. Os recursos digitais estão à serviço da missão e são uma excelente ferramenta de aceleração, mas não devem ser, em si, substitutos.

66. Há dois lados na moeda digital. Devemos celebrar os benefícios que a tecnologia proporcionou, e devemos também lidar com os desafios a ela associados.

Em primeiro lugar, precisamos gerenciar a enxurrada de conteúdo que vem sendo publicado. Precisamos nos perguntar: “Isso é necessário?”. (Confie em mim, eu fiz essa pergunta a mim mesmo centenas de vezes apenas em relação a este e-Book, e um sim quase não veio.) Simplesmente porque descobrimos uma nova plataforma, não significa que precisamos inundá-la com nossas próprias vozes. As pessoas têm um limite para a retenção de conteúdo, e isso inclui a participação em reuniões via Zoom por horas a fio. Vamos almejar qualidade acima de quantidade.

Nas palavras de um líder de missão (anônimo): “Parece que a interweb [forma de se referir à Internet de maneira pejorativa] e os servidores na nuvem de repente inundam-se de novo conteúdo cristão porque todo especialista munido de sua webcam começa a colocar suas ideias de “como as coisas devem ser feitas” de forma etérea [divinal]. Se há algo que os ocidentais, em particular, gostam de fazer, é dizer aos outros a melhor forma de fazê-lo”.

Em segundo lugar, enquanto igrejas e ministérios estão aprendendo a criar e distribuir conteúdos e promover comunhão nos meios digitais, o mundo do entretenimento está muito à frente nesse jogo. Para cada conteúdo envolvente e edificante que os cristãos fornecem, existem cem programas da Netflix, mil canais ou podcasts no YouTube e um milhão de formatos de materiais muito mais degradantes por aí, geralmente com orçamentos muito maiores e muito mais experiência em captar a atenção das pessoas.

Terceiro, o mundo digital fornece uma plataforma para que o falso ensino se prolifere tanto quanto [o ensino bíblico]. Os falsos profetas estão recebendo milhões de acessos no YouTube. As teorias da conspiração com uma fina camada de cristianismo circulam com velocidade vertiginosa. A necessidade de discernimento e de bom ensino bíblico é maior do que nunca. Foi Spurgeon (e não Mark Twain) quem escreveu: “Uma mentira rondará o mundo enquanto a verdade calça suas botas”.

Quarto, existir na esfera digital implica, pelo menos até certo ponto, submeter-se aos poderes digitais vigentes. A menos que você seja um gênio no quesito otimização de buscas, ou já tenha uma ampla rede de distribuição com seguidores fiéis, aqueles que codificam os algoritmos dos mecanismos de pesquisa têm controle sobre quem vê seu material. Esses gigantes de mídia social podem derrubar ou “rebaixar digitalmente” sites e conteúdos que eles julgam não estar alinhados com sua própria visão e valores. Isso pode incluir conteúdo cristão que promova proselitismo e almeje conversões, ou valores cristãos que são contrários à moral corrente ou às políticas de governo. Em certas regiões e contextos, e quanto se trata de assuntos altamente sensíveis, a probabilidade de isso acontecer é ainda maior. Obviamente, sempre existem maneiras de hospedar conteúdo cristão on-line e fazer com que pessoas o acessem – apenas não espere que o mundo inteiro o ajude a promovê-lo e distribuí-lo.

Por fim, migrar a igreja para o mundo virtual estimula uma relação consumista. Um líder de missões latino-americano expressou essa preocupação ao conversar comigo. Tradicionalmente, vida da Igreja em sua região tem sido intensamente comunitária, relacional e íntima. Agora, por necessidade compreensível, os crentes na América Latina entram em um verdadeiro supermercado de opções de adoração on-line. A participação passiva e desconectada se torna a norma e, para a grande maioria dos “compradores”, o ensino de missões globais não está na vitrine virtual e, por consequência, no “carrinho” de compras!

67. Amplificando as vozes corretas. O ministério de mídia e a igreja virtual prosperarão nestes tempos, isso já é evidente. Mas, falando de forma clara, existe uma competição pela capacidade dos cristãos de encontrarem o conteúdo digital e serem impactados por ele (e ela tem um limite) – mesmo antes desta onda de novos conteúdos e formatos, o que havia disponível estava além de nossa capacidade de assimilação.

Além do mais, nem todos começamos esta nova corrida a partir da mesma linha de largada. Pastores-celebridade, professores renomados, bandas de adoração ligadas a igrejas com melhor estrutura, profetas de podcast com o maior número de inscritos, todos observam grande avanço. Temo que tudo isso acabe como uma competição de marketing de conteúdo. E aí está um problema: aqueles com mais experiência em mecanismos de otimização de buscas, quem produz vídeos com melhor qualidade, técnicos de som, designers gráficos e equipes de marketing não são, necessariamente, as vozes que mais precisam ser ouvidas. Eles apenas contam com o maior número de recursos disponíveis para alavancar sua já formidável audiência.

Faço esta indagação com apreensão e com total respeito: será que o que mais precisamos ouvir são os anciões de cabelos brancos, de megaigrejas bem-sucedidas, de países ricos de língua inglesa, ensinando sobre teodiceia, fazendo exposições teológicas sobre o sofrimento e sobre como persistir em meio a pragas e perseguições, contando-nos sobre a missão no mundo não evangelizado, sobre servir aos pobres, sobre alcançar muçulmanos ou hindus com o evangelho? Não estou defendendo “desativá-los”. Seus ministérios abençoam milhões por um bom motivo.

Mas esta crise global é o momento ideal para ouvir vozes do Sul global – onde estão a maioria dos cristãos, de onde vem a maioria dos missionários, onde vive a maioria dos não alcançados, onde definha a maioria da humanidade –, vozes que muito acrescentariam a nós, cristãos do Norte global.

Vozes da África, Ásia, Oriente Médio e América Latina. Vozes femininas. Vozes das favelas e aldeias. Vozes traduzidas para o inglês (porque o inglês de muitos deles não é fluente, é a terceira, quarta ou quinta língua). Vozes que não podem necessariamente citar Bosch, Hiebert e Newbigin, mas podem nos contar, a partir de sua própria estrutura cultural e de sua própria experiência, como é o ambiente missionário em que atuam. Quem quer que sejam essas pessoas, eu gostaria de poder ouvi-las, e aprender com elas. Felizmente, eu não sou o único. Graham Hill e The Global Church Project estão ajudando essas vozes a ter uma plataforma! A esfera digital me permite ouvi-los quando, de outro modo, não teria tal oportunidade.

 

 

Sobre o autor
Jason Mandryk é canadense – fez seu mestrado em Estudos Cristãos Globais no Providence Theological Seminary –, mas vive na Inglaterra. Ele trabalha com a publicação Operation World, literatura cristã que compila pesquisas e dados de países em todo o globo e também um guia de oração. Inicialmente foi coautor e agora é o autor.

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