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A missão de Deus e as crianças e adolescentes

Temos, hoje, mais de 2 bilhões de pessoas até 19 anos no mundo. No País, essa faixa etária representa quase 70 dos 208 milhões de brasileiros

Apenas o fato de os jovens e adolescentes representarem cerca de um terço da população mundial (este mesmo percentual vale para a realidade do Brasil) não deveria fazer com que os cursos, artigos, livros e congressos que tratam do engajamento da Igreja na Missão de Deus abordassem esse tópico de maneira mais ampla e profunda?

São mais de 2 bilhões de pessoas hoje no mundo com até 19 anos. No Brasil, dos 208 milhões de brasileiros, 70 milhões estão nessa faixa de idade.

Ao chamar a atenção para números, contudo, vale a ressalva: o engajamento da Igreja na Missão de Deus não deve (ou deveria) ser pautado pela lógica de mercado – qual público-alvo é o maior, ou qual promete melhor retorno do investimento (dinheiro, pessoas, tempo e até mesmo oração!). De outro lado, valendo-se da própria visão do Martureo – “Cristãos brasileiros bem preparados sendo testemunhas do Senhor Jesus e de todo seu ensinamento em todos os povos da terra e em todas as esferas da sociedade” – e, claro, da vida e dos ensinamentos de Jesus (Mt 19.14), é óbvio que a nova geração está incluída na Missão de Deus.

A respeito dessas crianças e adolescentes, o Compromisso da Cidade do Cabo, documento do Movimento de Lausanne que completa 10 anos em outubro de 2020, declara:

Todas as crianças estão em risco. […] metade delas está em risco em decorrência da pobreza. Milhões estão em risco em decorrência da prosperidade. Os filhos dos ricos e estáveis têm tudo para viver, mas nada pelo quê viver.

Como afirma Michael W. Goheen na obra A Missão da Igreja Hoje: “O impulso missionário flui do amor de Deus para reconciliar seu mundo alienado”. A Igreja brasileira tem conhecimento dos dados a seguir (ou pelo menos de parte deles), que dão uma ideia do quão alienadas estão as crianças e adolescentes de nosso País?

  • No Brasil, o suicídio entre adolescentes aumentou 24% entre 2006 e 2015[1].
  • Dos concluintes do 9º ano do Ensino Fundamental em escolas públicas e privadas de todo o País, a maioria entre 13 e 15 anos, o percentual dos que já experimentaram bebidas alcoólicas subiu de 50,3% (2012) para 55,5% (2015); a taxa dos que usaram drogas ilícitas aumentou de 7,3% para 9% no mesmo período.[2]
  • 20 milhões de crianças de 0 a 14 anos vivem em situação de pobreza, ou seja, com renda familiar per capita mensal inferior a meio salário mínimo.[3]
  • Segundo o Disque 100, mais de 70% dos casos de violência sexual de crianças e de abuso infantil são praticados por mães, pais, padrastos e outros parentes da vítima. Além disso, em mais de 70% dos registros, a violência aconteceu na casa do abusador.
  • Temos 68,4 bebês nascidos de mães adolescentes a cada mil meninas de 15 a 19 anos. Em países como os Estados Unidos, o mesmo índice é de 22,3.[4]
  • A ilegalidade da publicidade infantil vem sendo reconhecida por órgãos públicos de proteção e defesa. Ainda assim, o consumismo infantil continua crescendo de forma alarmante.
  • A Organização Mundial da Saúde (OMS)reconheceu em 2018 que o transtorno por videogames e jogos eletrônicos pode ser reconhecido como doença mental. Os mais afetados são os de 10 a 25 anos.
  • 29 crianças e adolescentes são assassinados por dia no Brasil e 18% do total de mortes por homicídios no País são de pessoas entre 0 e 19 anos.
  • 188 mil crianças estão em situação de desnutrição (abaixo do peso); 69 mil meninas e meninos estão muito abaixo do peso; e mais de 500 mil crianças estão acima do peso, isto é, obesas.
  • A mortalidade infantil caiu 73% nos últimos 25 anos. Apesar disso, há ainda desigualdades: cidades mais pobres registram índices até 16 vezes maiores que a média nacional.[5]

Claro, a mera apresentação de alguns dados não constitui uma análise consistente dos problemas relacionados a crianças e adolescentes no Brasil, ainda que a origem de todos eles – a queda do homem ou pecado original (Gn 3) –, bem como a solução última – a restauração de todas as coisas em Cristo Jesus –, sejam conhecidas.

Mas, neste tempo em que a Igreja (neste caso, estamos falando da brasileira) deve sinalizar o reino de Deus também para os de 0 a 19 anos:

  1. Que ações ela já tem realizado como resposta a alguns dos pontos elencados anteriormente?
  2. Elas têm sido efetivas?
  3. Poderiam ser aprimoradas e/ou ampliadas? De que forma?
  4. Quais são os fóruns para a Igreja evangélica brasileira debater esse tema, articular-se?

Este texto não responderá a todas as perguntas propostas, apenas mencionará, a seguir, algumas iniciativas para o início de uma reflexão.

Com atuação no combate à pobreza (e seus efeitos) que atinge nossas crianças e adolescentes (algumas extrapolando esse espoco), há grandes organizações cristãs evangélicas internacionais no Brasil, dentre elas a ChildFund, a Visão Mundial e a Tearfund. Em comum, além da visão holística de Missão, elas têm maior domínio do que se chama hoje Tecnologia Social (TS), a saber, “conjunto de técnicas e metodologias transformadoras, desenvolvidas e/ou aplicadas na interação com a população e apropriadas por ela, que representam soluções para inclusão social e melhoria das condições de vida”, definição essa do Instituto de Tecnologia Social (ITS). A ChildFund e a Visão Mundial, por exemplo, figuram na lista das “100 Melhores ONGs do Brasil”, reconhecimento que leva em conta transparência e gestão das instituições e que tem a Fundação Getúlio Vargas como parceira responsável pelo exame.

Outro exemplo é o trabalho da Pastoral da Criança, da Igreja Católica, que teve início em 1983 com a médica pediatra especializada em saúde pública Zilda Arns. Ele tem como objetivo principal o combate à mortalidade infantil e, nas localidades em que chega, consegue reduzir, já no primeiro ano, o índice em 20%. O trabalho atua, principalmente, com famílias de baixa renda. Há um acompanhamento das gestantes, do parto e do desenvolvimento das crianças de 0 a 6 anos de idade. Como explica Frei Betto, a Pastoral da Criança inspira-se na metodologia de Paulo Freire, que enxerga a pessoa em situação de vulnerabilidade como agente de transformação de sua realidade: “O beneficiário de hoje é o agente multiplicador de amanhã e se torna responsável por acompanhar de 10 a 15 famílias vizinhas prestes a ter bebê, orientando-as sobre cuidados básicos de saúde, vacinas, nutrição, educação e cidadania”.

Ainda no âmbito de ações voltadas a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, projetos que lançam mão de música, artes e esportes como ferramentas para inclusão social são inúmeros. “Gosto de chamá-los de ‘arroz com feijão”, diz Sinval Souza Jr., da organização Expresso Ação. “São de baixa complexidade e funcionam.” Aliás, tais ferramentas são utilizadas também para alcançar a nova geração que padece em meio a abundância. A missão Steiger Internacional, presente no Brasil, tem como alvo alcançar e discipular jovens para Jesus Cristo, e utiliza diferentes expressões de arte para comunicar o evangelho.

Falando em arte como atividade humana ligada às manifestações de ordem estética ou comunicativa realizada por meio de uma grande variedade de linguagens, e os gamesyoutubers, redes sociais? Como cooperar com a Missão de Deus em um contexto em que a nova geração é digital? Afirmações tais como “Isso é do Diabo” são simplistas e ingênuas. Há muito o que pensar e fazer (também) nessa área, e felizmente já vemos algumas iniciativas. Segundo Lemuel Massuia, administrador do grupo de discussão Fliper Time sobre jogos eletrônicos, cristãos têm enfrentado o desafio e realizado um bom trabalho como produtores de jogos educativos para nossas crianças. “É possível desenvolver jogos que abordem temas reais e difíceis e que mostrem personagens que sirvam de inspiração para atitudes alinhadas com os valores do reino de Deus”, propõe o designer e publicitário.

Como cooperar com a Missão de Deus em um contexto em que a nova geração é digital?

Celebrando a Recuperação Brasil – programa de recuperação para maus hábitos, traumas emocionais e compulsões com abordagem bíblica e centrada em Jesus Cristo – oferece grupos de apoio não só para adultos, mas também para adolescentes e até para crianças. Ele é desenvolvido em parceria com igrejas locais nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Espírito Santo.

Os ministérios entre estudantes também não podem ficar fora da discussão quando o assunto é a nova geração. O evento The Send Brasil, em fevereiro de 2020, cujo propósito foi envolver, especialmente, jovens e adolescentes cristãos na Missão de Deus, deu grande ênfase a estudantes cristãos como portadores do evangelho no ambiente estudantil, seja nas escolas, seja nas universidades. Organizações como a Aliança Bíblica Universitária do Brasil (Abub) e a Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo (CRU) seguem vivas e atuantes. O tema “Escolas cristãs podem contribuir com a Missão de Deus ao redor do mundo?” foi abordado em artigo recente do Martureo.

Tão grande é o número de crianças e jovens no Brasil e no mundo, tantos os desafios, tantas as possíveis respostas da Igreja! A escassa produção missiológica e teológica sobre o tópico, no entanto – A Criança, a Igreja e a Missão, de Dan Brewster (Editora Ultimato), é uma das poucas obras em português que temos –, mostra que há uma lacuna a ser preenchida.

Por Fernanda Schimenes

 

[1] Estudo realizado em grandes cidades brasileiras. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462019000500389&tlng=en

[2] Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) feita em 2015 e divulgada pelo IBGE.

[3] Dados de 2018 publicados em relatório do Unicef, órgão de proteção à criança das Nações Unidas.

[4] Divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e referente ao período de 2010 a 2015.

[5] Os dados deste tópico e dos dois anteriores foram extraídos do relatório publicado pela Childfund Brasil. Disponível em https://www.childfundbrasil.org.br/blog/materiais/

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