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A outra pandemia de Covid e o custo da corrupção

Como as igrejas e seus líderes modelam e incutem valores de integridade pública e cidadania responsável?

Mats Tunehag

Neste artigo, Roberto Laver chama a Igreja global a ser uma referência de integridade e honestidade. Ele expõe o legado prejudicial da corrupção em diversas sociedades ao redor do mundo, e pontua que a Covid-19 está amplificando o potencial de corrupção à medida que grandes somas de dinheiro circulam na luta contra o vírus e seus desdobramentos. Na sequência, outro artigo em resposta a Laver produzido pela Comissão de Missões da World Evangelical Alliance (WEA) [Aliança Evangélica Mundial] traz algumas implicações missiológicas sobre a reflexão de Roberto, e desafia a comunidade missionária a ajudar as igrejas no combate à corrupção.

A pandemia de coronavírus cobrou um drástico preço da humanidade, infectando milhões e tirando a vida de centenas de milhares de pessoas em todo o mundo. Não se trata apenas de uma crise de saúde, é também uma crise econômica e social. Por todo o mundo, o vírus forçou governos a decretarem confinamentos (lockdowns) severos, ocasionando a mais brutal recessão vivida por esta geração. O impacto do vírus, contudo, não é sentido da mesma forma por todos.

A pandemia está expondo os efeitos devastadores e os riscos reais de outra pandemia: a de corrupção sistêmica. Frequentemente sendo tachada como “normal” ou simplesmente como uma questão muito “política” ou abrangente demais para ser enfrentada, a corrupção sistêmica vem sendo amplamente negligenciada pela Igreja. Contudo, não podemos mais ignorar essa injustiça. A corrupção sistêmica (como prática institucionalizada de abuso de poder e confiança pública) prejudicou de forma grave a capacidade da maioria dos países de lidar com as consequências econômicas e de saúde pública recorrentes da pandemia. A soma de recursos destinados à saúde perdidos por conta de corrupção e desvios impressiona por si só. Várias fontes estimam que mais de 10% dos investimentos em saúde vão para o pagamento de propinas e peculato, acumulando perdas de mais de 500 bilhões de dólares anualmente.[1] Essa estimativa não leva em conta outras formas de corrupção que prejudicam o acesso à saúde e a qualidade dos serviços prestados como clientelismo generalizado, troca de favores, nepotismo e favoritismo.

Para tornar a situação ainda pior, a pandemia tem sido o cenário ideal para o aumento da corrupção. Suborno induzido pela escassez, desvio de recursos de respostas a emergências e propinas em processos de aquisição de emergência são apenas algumas das formas predominantes de corrupção que se manifestam durante esta pandemia. Isso aumenta o custo social, humano e econômico da crise, particularmente para os mais vulneráveis na sociedade. Quando há pacientes que podem pagar subornos ou usar conexões pessoais para receber acesso imediato ao atendimento, os mais vulneráveis são deixados no final da lista de espera. Se o suborno e as conexões forem usados para contornar as medidas de quarentena, então, existe um risco potencial de infecção maior para a população em geral, intensificando ainda mais a crise humanitária.

Um artigo recente publicado pela Carnegie Endowment colocou da seguinte forma:

A corrupção é como jogar gasolina nas chamas de uma pandemia. Sistemas de saúde já debilitados por práticas ilícitas lutarão para conseguir atender as necessidades mais básicas durante a crise. Cidadãos que não têm como pagar por privilégios podem ficar sem acesso a testes ou tratamento, um problema que pode acelerar a propagação do vírus. Aqueles que podem “dar um jeitinho” para driblar a quarentena provavelmente o farão… E as tentativas do governo de passar mensagens de orientação sobre medidas preventivas provavelmente fracassarão em lugares onde a confiança em relação ao estado foi minada por décadas de corrupção.[2]

A pandemia gerou enormes gastos públicos em todo o mundo relacionados à saúde e aos custos econômicos associados. O montante de ajuda financeira internacional não tem precedentes: só o FMI já forneceu cerca de 90 bilhões de dólares para ajudar 80 países a lidar com a pandemia, e prometeu um total de 250 bilhões de dólares.[3] Mas as evidências mostram que a eficácia dessa ajuda financeira será gravemente enfraquecida em contextos de corrupção generalizada.[4] Uma porção de relatos sobre fraudes e corrupção relacionadas a gastos públicos voltados ao combate da crise da Covid-19 emergiram.[5]

Atores da sociedade civil em países ao redor do mundo estão demandando medidas para  proteção e exigindo prestação de contas em relação às ações de assistência emergencial ligadas à Covid-19. Na América Latina, treze divisões da Transparência Internacional, a maior ONG anticorrupção no mundo, apresentaram propostas específicas para mitigar o risco de corrupção em gastos públicos como parte da resposta da região à pandemia.[6] Dentre essas divisões está a Asociación para una Sociedad Más Justa (ASJ) [Associação para uma Sociedade Mais Justa)], uma ONG cristã em Honduras membro da Faith and Public Integrity Network (FPIN) [Rede de Fé e Integridade Pública]. A ASJ, junto com muitos outros grupos da sociedade civil, está ativamente monitorando gastos públicos com saúde (e com outras áreas) que estão sendo feitos pelo governo de seu país. A AJS é um modelo inspirador de engajamento de um grupo de fiéis na luta contra a corrupção governamental em sua própria comunidade.

A corrupção, como uma expressão de profunda injustiça, deveria fazer os fiéis se importarem quanto ao nosso comportamento e testemunho, bem como quanto à ordem social em que que vivemos. A crise da pandemia é um chamado para a Igreja –

seus líderes e todos os seguires de Jesus – acordar para o fato de que a luta contra a corrução é central para nossa missão integral. A corrupção é algo com que Deus se importa imensamente.

A corrupção destrói uma nação (Pv 29.4). É um sorvedouro de fundos, recursos, oportunidades, esperanças e da habilidade de desenvolvermos nosso potencial e capacidades dados por Deus. É um câncer com efeitos corrosivos no desenvolvimento político, econômico e social das sociedades. É o pior dos obstáculos ao alívio da pobreza. É uma negação à justiça e uma obstrução ao shalom [de Deus], ao bem-estar comum da sociedade. Além do mais, como a pandemia mostra, é uma questão de vida ou morte.

Estamos esperançosos que uma vacina efetiva para a Covid-19 seja desenvolvida o mais breve possível e distribuída de forma equitativa. No entanto, nenhuma outra simples vacina pode ser desenvolvida para essa “outra pandemia”. Não há uma panaceia única contra a corrupção.

Ao longo das últimas três décadas, as principais organizações internacionais, governos nacionais e especialistas têm promovido e implementado medidas anticorrupção. Mudanças nas estruturas constitucionais, novas leis sobre transparência e prestação de contas e novas agências anticorrupção são algumas das ferramentas mais comuns. Essas reformas são primordialmente em prol de alterações legais e institucionais, e o esperado seria que tais mudanças modificassem, por consequência, comportamentos e padrões culturais. Mas, de forma geral, essas mudanças não estão produzindo uma transformação sustentável das sociedades na direção de uma integridade pública consistente e de menos corrupção. Inúmeras avaliações, corroboradas por experiências práticas, indicam que houve pouco avanço. A despeito de décadas de reformas e de bilhões de dólares investidos, muitos países se mantém tão ou mais corruptos do que antes das reformas.

Há uma crescente percepção entre a comunidade anticorrupção de que a luta não é simplesmente um esforço tecnocrático, mas algo que envolve mudanças culturais profundas e normas sociais sobre como os cidadão se relacionam com o estado e uns com os outros. Reformas legais e institucionais são mediadas e condicionadas pela política cultural prevalecente e por normais sociais. Em sociedades onde normas de privilégio, particularismo e favoritismo são a regra, não é de surpreender que a mera mudança burocrática nas leis e nas instituições não gere efeito algum. Pior, como muitos casos mostram, essas mudanças podem ser manipuladas e utilizadas de forma abusiva em detrimento daqueles que exigem serviços públicos honestos.

Vozes de especialistas enfatizam que sociedades devem construir uma cultura mais robusta e/ou restrições normativas contra um comportamento corrupto. Mudanças legais não são suficientes. Precisamos construir uma cultura de integridade, que inclua valores como justiça e honestidade, participação cidadã e engajamento político, além de social capital [uma tradução literal seria capital social, mas o conceito diz respeito a redes de relacionamentos entre as pessoas que vivem em determinada sociedade e que viabilizam um funcionamento efetivo/sustentável].

A Igreja, seus líderes e fieis de forma geral, estão em boa posição para serem agentes de transformação positiva. Precisamos, contudo, fazer as seguintes pergunta a nós mesmos:

  • Como as igrejas e seus líderes modelam e incutem valores de integridade pública e cidadania responsável?
  • Até que ponto as igrejas estão encorajando uma ação coletiva para influenciar as estruturas governamentais e as práticas de governança na sociedade?

Tragicamente, temos de admitir que o retrato não é muito encorajador. Integridade pública e corrupção são assuntos praticamente ausentes dos púlpitos e da reflexão teológica. Profissões de fé não são acompanhadas por atitudes e comportamentos que demonstram integridade pública. Testemunhamos muitos casos em que os líderes de igrejas e os crentes participam de práticas corruptas, ou são passivos e indiferentes a elas e a seus efeitos devastadores nas comunidades – particularmente entre os mais pobres e menos privilegiados na sociedade.

Oremos para que a crise da Covid-19 nos leve a ser uma Igreja transformada, ativamente engajada e comprometida em contribuir com a cura dessa “outra pandemia”.

Sobre o autor
Roberto Laver é advogado e atua na área de direito internacional. Iniciou sua carreira na Argentina, e acumula três décadas de experiência nos setores corporativo, acadêmico, multilateral e no terceiro setor. Suas principais especialidades incluem governança anticorrupção, estado de direito, organizações internacionais de desenvolvimento (incluindo entidades confessionais). Ele é reconhecido como um forte estrategista, construtor de pontes e um honesto e entusiástico líder. Atualmente, está à frente da FIDES (www.fides-intl.org), uma ONG que ajuda a engajar e equipar líderes de igrejas e comunidades na promoção da integridade pública e na luta contra a corrupção.

 

IMPLICAÇÕES DA CORRUPÇÃO PARA MISSÕES NA CRISE DA COVID-19

Uma resposta da Comissão de Missões da World Evangelical Alliance (WEA) [Aliança Evangélica Mundial] ao artigo de Laver

Roberto Laver escreveu: “Estamos esperançosos que uma vacina efetiva para a Covid-19 seja desenvolvida o mais breve possível e distribuída de forma equitativa. No entanto, nenhuma outra simples vacina pode ser desenvolvida para essa ‘outra pandemia’. Não há uma panaceia única contra a corrupção”. Ele segue dizendo que ele e outros especialistas acreditam que as soluções passam pela transformação do coração das sociedades, de maneira que se construam culturas de integridade que valorizam a justiça, a honestidade e a partição maciça de todos os seus membros. Isso deve ser parte de nosso engajamento missionário com o mundo. Regeneração espiritual e nossa transformação como crentes em uma comunidade amorosa devem resultar em influência positiva junto a sociedade que nos cerca como bênção para todos. Causar impacto social positivo é parte da razão de a Igreja existir. Para que isso aconteça, para sermos sal e luz, primeiro precisamos garantir que nossa casa esteja em ordem. Como Pedro declarou, o julgamento “deve começar pela casa de Deus” (1Pe 4.17).

Devemos todos estar bem cientes de como a corrupção pode estar generalizada – mesmo dentro de igrejas e de organizações missionárias. Neste artigo, focaremos prioritariamente a corrupção ligada às finanças, mas grupos de crentes não estão imunes a outras formas dela, como abuso de poder e privilégios. Todos somos suscetíveis à manipulação e ao engano. A tentação pode fazer tropeçar o melhor dentre todos nós.

Uma acusação

Todd Johnson, Gina Zurlo e outros expuseram várias formas de corrupção como parte de uma pesquisa que realizaram para a World Christian Encyclopedia. Em maio de 2015, para um artigo no jornal The Review of Faith & International Affairs, eles escreveram:

Cristãos, assim como membros de outras comunidades religiosas, são especialmente suscetíveis a fraudes por afinidade – aquelas que exploram a confiança que existe em comunidades religiosas. Com frequência nesses casos o pastor ou o líder anuncia um lucro notável em certo investimento. Embora seja “bom demais para ser verdade”, muitos ainda investem por confiarem no líder. No caso dos conhecidos esquemas em pirâmide, os primeiros investidores recebem os lucros prometidos, mas apenas às custas dos investidores seguintes. Esses esquemas colapsam quando não há mais novos investidores para serem recrutados para que os que já existem recebam o que foi prometido.[7]

O caso desse tipo bem conhecido pela Comissão de Missões [da WEA] e pela Global Member Care Network [Rede Global de Cuidado de Membros] remonta a meados da década de 90 e envolve a NCI (Nordic Capital Investment) [Investimento de Capital Nórdico], um fundo especial de investimento no qual membros das organizações missionárias YWAM (em português, Jovens Com Uma Missão – Jocum) e Le Rucher centralizaram seus investimentos econômicos.[8] O pedido para prestação de contas relacionado a esse caso continua até hoje.[9] O estrago causado pela corrupção em qualquer lugar, mas especialmente em igrejas, ministérios e no trabalho missionário é amplo e profundo. Como qualquer conselheiro de relacionamentos sabe, o abuso da confiança não é algo resolvido facilmente. Quando há perda de ativos, o impacto e o dano são duradouros.

Exemplos dolorosos como os da decepção com a NCI proveem uma amostra real para confirmação das estatísticas despersonalizadas sobre corrupção que Johnson e Zurlo revelam em suas atualizações anuais da World Christian Encyclopedia. Todd Johnson estimou em fevereiro de 2020: 52,6 bilhões de dólares serão perdidos este ano para o crime eclesiástico – fundos “roubados de dinheiro que cristãos doam a igrejas, organizações paraeclesiásticas e organizações seculares ao redor do mundo”.[10] Em vista do aumento da quantidade de dinheiro passando agora pelas mãos de igrejas e ministérios para o alívio global da crise da Covid-19, 52,6 bilhões de dólares seriam uma estimativa bem conservadora. Mesmo tendo por base esse número, a quantidade de fundos roubados por igrejas, ministérios e missões ultrapassa a soma do total de fundos doados para missões transculturais pelo menos em 6 bilhões de dólares![11]

Doamos para ministérios e missões porque temos fé que nossa generosidade será usada com sabedoria para os propósitos para os quais a ofertamos. Hoje em dia, a maior parte dos doadores está ciente que uma parcela de suas contribuições é apropriadamente destinada ao suporte organizacional, infraestrutura e administração dos devidos projetos, mas há limites para o que consideramos deduções aceitáveis. Especialistas em desfalque, apropriação indevida, má gestão, má alocação ou excessivo redirecionamento de fundos podem rapidamente minar a confiança dos doadores e impedir doações futuras para qualquer causa. Portanto, devemos todos ter cautela e evitar tais potencialidades. Se a luta contra a corrupção deve ser incluída como um dos aspectos da missão integral, devemos primeiro nos certificar que nosso ministérios e missões não são propensos à corrupção [ou já se corromperam].

Cultura de transformação

Laver mencionou: “Precisamos construir uma cultura de integridade, que inclua valores como justiça e honestidade, participação cidadã e engajamento político, além de social capital”. Trata-se de algo mais fácil de ser dito do que posto em prática. Isso requer primeiro uma mudança no coração humano, e a influência de muitas dessas pessoas transformadas [por Jesus]. As nações menos corruptas do mundo boa parte o são porque suas sociedades foram, por muito tempo, influenciadas pelos valores (bíblicos) judaico-cristãos. Os benefícios prometidos pelo secularismo só são possíveis por conta da manutenção residual de valores bíblicos que permanecem nas sociedades. Quanto mais se afastam do conhecimento de Deus, menos influência terão desses valores.

Valores não influenciam sociedades da noite para o dia, e pessoas não mudam sua maneira de agir rapidamente. É preciso haver educação contínua a respeito do que a Bíblia chama de justiça e retidão, e moldar a sociedade segundo esses conceitos. Os valores que surgem da ética piedosa não precisam apenas ser vistos como benéficos e atraentes para a sociedade, o poder de viver de acordo com esses valores precisa ser oferecido. É claro que aqui falamos do Espírito Santo, que torna possível toda essa transformação. O humanismo secular nada conhece desse poder, então nunca alcançará tal transformação.

A comunidade global de Missões tem a oportunidade de liderar pelo exemplo profético, mostrando como vidas transformadas podem impactar de forma positiva as sociedades. Os missionários atuam nos campos “com a mão na massa” em uma vida dedicada ao ministério das boas novas de Jesus “24×7” em lugares em que o evangelho não é bem compreendido. Tanto a integridade das finanças como a maneira como lidam com a influência da posição que ocupam caminham em conjunto com justiça, misericórdia, reconciliação e outros atributos que integram a mensagem do evangelho como um todo. [Ao discipular] novos convertidos, não devemos mais limitar o foco de nosso ensino a conceitos abstratos da fé, devemos incutir neles que [o novo nascimento] implica mudanças comportamentais e de atitude [no dia-a-dia] da vida real neste mundo.[12] Um discípulo de Cristo, ao ser transformado pelo Espírito de Deus, abraçará a integridade como parte constituinte de sua nova vida, mas ele precisa ser ensinado sobre o que isso significa.

Um padrão precisa ser dado como modelo e estabelecido – pela igreja e líderes cristãos em primeiro lugar. Acúmulo egoísta, ganância, abuso de poder ou de posição e vícios relacionados devem ser expostos e considerados inaceitáveis no shalom do Reino de Deus. Isso se tornou mortalmente aparente na incipiente igreja de Jerusalém (veja Atos 5.1-10).

Crie meios para a prestação de contas

A fim de evitar a possibilidade de corrupção, igrejas, ministérios e missões precisam fortalecer sua governança e estrutura de prestação de contas da mesma forma que Laver pontua que governos e corporações adotam tais práticas como medidas anticorrupção. Isso significa estar disposto a ser muito mais transparente a respeito de como as coisas são feitas e de como os recursos são utilizados, submeter as contas regularmente a conselhos fiscais e auditores independentes.

A Comissão de Missões da WEA mantém seus líderes e todos os seus associados dentro de um alto padrão de integridade. A expressão mais recente disso é o The Grenada Conevant [Pacto de Granada] firmado em 2006 e vigente até hoje.[13] Além disso, a Comissão de Missões não apenas se reporta ao Diretor do Departamento de Missões e Evangelismo da World Evangelical Alliance que, por sua vez, reporta-se ao Secretário Geral e (em última instância) ao Conselho Internacional da WEA, como também é governada internamente por um Conselho de Liderança Global ativo com um Comitê Executivo proativo. As contas da Comissão de Missões são auditadas junto com as finanças da WEA, e são transparentes para o Conselho de Liderança Global e para outros que estão envolvidos com o gerenciamento dos recursos, com as verificações e balanços necessários em dia.

Todd Johnson observa que

organização sem fins lucrativos – especialmente aquelas que começam pequenas, com pouco ou nenhum recurso e tocadas por voluntários – deparam-se com desafios ainda mais duros para combater fraudes financeiras. Pelo fato de focarem sua missão e deixarem práticas administrativas rigorosas em segundo plano, o resultado pode ser a negligência em relação a questões financeiras. Essa negligência pode ser exacerbada quando tais instituições são livres de impostos (algo comum nos Estados Unidos, por exemplo). Organizações sem fins lucrativos também têm a tendência de depositarem mais confiança em seus colaboradores, assumindo que eles compartilham dos mesmos objetivos altruístas [e valores] da companhia. Instituições filantrópicas que sofrem com casos de desvio de verbas – e são muitas – tentam lidar com eles de forma rápida e sem alardes para evitar arruinar sua reputação, o que minaria seu trabalho e acarretaria, então, redução das doações. Consequentemente, a maior parte das fraudes não são registradas.[14]

Em nações como Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos e em países da Europa ocidental, doações para fins filantrópicos são submetidas a governança rigorosa, prestação de contas e processos contábeis e de auditoria para mitigar a corrupção. Ainda assim, a corrupção existe e é regularmente exposta. Fraudes podem ser praticadas por anos a fio até serem descobertas. Nenhum sistema é totalmente antifraude. Organizações cristãs em alguns desses países aceitam se submeterem a padrões mais elevados de prestação de contas a fim de evitar a possibilidade de corrupção. O Evangelical Council for Financial Accountability (ECFA) [Conselho Evangélico para Prestação de Contas Financeiras] nos Estados Unidos, o Council of Christian Charities in Canada (CCCC) [Conselho de Instituições Filantrópicas Cristãs no Canadá] e o CMA Standards Council [Conselho de Padrões CMA] na Austrália são exemplos [de auditores cristãos independentes]. O credenciamento junto a essas organizações – que determinam padrões de prestação de contas e checam os números – fornece às igrejas, ministérios e missões uma camada extra de responsabilidade e o benefício de fortalecer a confiança de seus membros e doadores.

Procurando encontrar maneiras de atender à demanda global das organizações cristãs por melhor capacitação na prestação de contas, Gary Hoag (que atuou como representante internacional da ECFA) estabeleceu o Global Trust Partners [Parceiros de Confiança Global] em 2019. Trata-se de uma organização que provê treinamento replicável e recursos para fortalecer as instituições em termos de governança e prestação de contas. Em suas palavras:

Global Trust Partners empodera igrejas nacionais e pessoas que trabalham no ministério para estabelecerem confiança e aumentarem as contribuições generosas ao trabalho de Deus. Em lugares onde a confiança foi quebrada em função de corrupção sistêmica ou onde há falta de pessoas experientes e capacitadas em administração eclesiástica ou ministerial, é difícil engajar as pessoas a participarem da obra de Deus… Nossos esforços em prol da mordomia e da prestação de contas de nossos pares estão contribuindo para construir confiança e aumentar a generosidade local nas doações para o trabalho de Deus em muitos países.[15]

O Global Trust Partners está construindo um time multinacional de consultores qualificados e de treinadores para uma rede global de mordomia que possa ajudar a desenvolver uma prestação de contas robusta em todos os lugares, guiando-se por padrões bíblicos de integridade e sendo sensível às nuances culturais de cada contexto. Observe seu objetivo: “construir confiança e aumentar a generosidade local nas doações…”. Se missões pós-pandemia se tornarem mais autóctones (ou orientadas de forma mais próxima à cultura local) como muitos preveem, levantar fundos localmente será um fator-chave. Estabelecer confiança será essencial. Treinamento e recursos como os que o Global Trust Partners provê deveriam ser priorizados.

Campeões anticorrupção

Membros de igrejas, ministérios e organizações missionárias devem ser os campeões anticorrupção, não importa o lugar para o qual Deus os leve para ministrar. Isso significa expor profeticamente e se posicionar contra práticas institucionalizadas de abuso de poder e de confiança pública aonde quer que elas sejam identificadas. A sabedoria deve, contudo, prevalecer. Em muitos contextos de Missões, a crítica pública a respeito de práticas corruptas pode resultar em retrocessos dolorosos, processos, deportação ou coisa pior. Além disso, missionários expatriados devem ser sábios e seguir a orientação de crentes locais maduros sobre a melhor forma de enfrentar a corrupção em seus próprios contextos. Os expatriados devem estar cientes dos fatores contextuais que estão em jogo, e não se apressarem em julgar algo como corrupto de acordo com seus valores e cultura de origem. Princípios universais são aplicáveis[16], mas valores culturais também devem ser levados em conta, mantendo em mente a ética bíblica. Tendo tudo isso em conta, treinamento qualificado anticorrupção pode ajudar os missionários transculturais a ajudar os crentes locais a combater a corrupção de acordo com seus termos em prol da melhoria de suas sociedades.

Nós corroboramos as boas práticas a seguir aconselhadas por Todd Johnson, que podem ajudar a evitar a possibilidade de corrupção (fraudes e peculato) dentro de organizações cristãs:

  • Tome medias proativas.Organizações que têm meios de reportar suspeitas de desvios de recursos (como meios de comunicação específicos para tal [hotlines]) tendem a pegar casos de fraude antes que eles ganhem uma proporção ainda maior. Outras medidas proativas incluem revisões gerais mais frequentes, auditorias financeiras internas (não apenas externas) e monitoramento mais próximo de ações dos colaboradores (especialmente daqueles que têm acesso a lidar com recursos financeiros).
  • Conheça quem acessa o dinheiro. Ainda que haja apenas um único computador ou rede, o acesso a transações e informações financeiras deve ser acessível apenas àqueles que absolutamente necessitam. Usuários devem ter números de identificação exclusivos, e deve-se requerer que as senhas de acesso sejam trocadas periodicamente. Apenas líderes apropriados devem estar aptos a deletar ou modificar transações.
  • Proveja treinamento financeiro. Organizações pequenas não contam com a mesma estrutura e recursos das grandes, mas mesmo um breve treinamento oferecido aos gerentes e membros da equipe os capacitará para identificar crimes eclesiásticos.
  • Monitore colaboradores (e voluntários).A maioria dos fraudadores são criminosos sem antecedentes, então a checagem do histórico provavelmente não pegará criminosos potenciais. Portanto, o monitoramento contínuo de todas as pessoas, não importa o nível de confiança que desfrutem, é necessário. Isso inclui como as pessoas estão investindo seu tempo e dinheiro (férias extravagantes, casas novas, carros etc.; mudanças não usuais podem ser um sinal de potencial atividade fraudulenta.
  • Eduque sobre as consequências de fraudes para o indivíduo, a organização, sua missão e seus beneficiários.
  • Se você suspeita de uma atividade criminosa, discuta isso com um contador, um amigo de confiança ou colega de trabalho [maduro]. Mais importante ainda, encontre um advogado especializado nessa área antes de tomar medidas por conta própria.
  • Contrate uma cobertura de seguro (quando possível). Isso é crucial para qualquer negócio ou organização com colaboradores. A cobertura de um seguro é uma fonte – e, em geral, a única – para recuperação de ativos perdidos.[17]

 

Ore

  • Ao Senhor, que tudo vê, para que nos mostre qualquer lapso de integridade em nossa vida ou organização.
  • Por disposição para sermos responsáveis, moldáveis e transparentes no uso de nossos recursos e em nossos relacionamentos.
  • Para sermos sensíveis a áreas suscetíveis à corrupção para, assim, podermos implementar medidas de proteção sem nos tornarmos paranoicos ou desconfiados demais em relação a nossos colegas e parceiros. Há um provérbio russo que diz: “Confie, mas verifique”.
  • Por proteção sobre nossos esforços e corações, a fim de não sermos facilmente influenciados por pessoas enganosas ou levados a um falso senso de confiança em planos e estratégias que prometem retornos excepcionais. Vamos nos proteger contra a ganância e a inveja.

Ambos os textos, o de Roberto Laver e a resposta da Comissão de Missões da World Evangelical Alliance (WEA), foram escritos originalmente em inglês e publicados em setembro de 2020 no site dessa organização em https://weamc.global/covid-corruption/. O Martureo obteve permissão para traduzir o conteúdo para o português e republicá-lo.

 

 

[1] https://carnegieendowment.org/2020/04/13/how-global-corruption-threatens-u.s.-pandemic-response-pub- 81545

[2] Ibid.

[3] https://www.imf.org/en/Topics/imf-and-covid19/COVID-Lending-Tracker

[4] Exemplos: Ebola (https://carnegieendowment.org/2020/04/13/how-global-corruption-threatens-u.s.-%20%20%20pandemic-response-pub-81545) e esforços norte-americanos para alívio dos efeitos dos furações Katrina e Rita (https://thefactcoalition.org/wp-content/uploads/2020/04/TI-Factsheet-Emergency-Spending- Recommendations-42218.pdf)

[5] Acesse: https://www.occrp.org/en/coronavirus/

[6] https://www.transparency.org/en/press/coronavirus-sparks-high-risk-of-corruption-across-latin-america

[7] Johnson, T. M. Zurlo, G. A. Hickman A.W. Embezzlement In The Global Christian Community, The Review of Faith & International Affairs. Vol. 13 No. 2, 74-84. Disponível para download em https://www.researchgate.net/publication/277977397_EMBEZZLEMENT_IN_THE_GLOBAL_CHRISTIAN_COMMUNITY

[8] Há vários relatos dessa história decepcionante disponíveis on-line, talvez o mais bem documentado seja o do blog PETRA People Network de Kelly e Michèle O’Donnell: https://petranetwork.blogspot.com. Uma edição antiga da Christianity Today traz uma breve reportagem que pode ser lida para outros exemplos de fraudes que envolvem ministérios: https://www.christianitytoday.com/ct/2011/june/fleecingfaithful.html.

[9] A petição para informações relacionadas ao caso da NCI permanece aberta: https://www.ipetitions.com/petition/shine-the-light-together/.

[10] https://www.gordonconwell.edu/blog/ecclesiastical-crime/

[11] Veja ponto 66, “Income of Global Foreign Missions” em Status of Global Christianity, 2020, in the Context of 1900–2050, disponível para download em: https://www.gordonconwell.edu/center-for-global-christianity/wp-content/uploads/sites/13/2020/01/Status-of-Global-Christianity-2020.pdf.

[12] O original dessa frase em inglês é: “We should no longer limit our focus on teaching new believers about abstract concepts of the faith, we must root them in real-world implications that require attitudinal and behavioural change”. (N. do T.)

[13] https://www.gordonconwell.edu/blog/ecclesiastical-crime/

[14] https://weamc.global/who-we-are/integrity/

[15] https://www.gtp.org/about/

[16] Um exemplo de princípios universais foi desenvolvido pela Organização das Nações Unidas (ONU) e está disponível em: https://www.unglobalcompact.org/what-is-gc/mission/principles/principle-10.

[17] https://www.gordonconwell.edu/blog/ecclesiastical-crime/

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