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Abordagem cronológica para apresentação do evangelho

Sendo a proclamação um dos aspectos da Missão de Deus, como fazê-la?

Gabriel de Oliveira Louback

Tive contato com a abordagem cronológica da Bíblia (chronological approach) pela primeira vez em 2014 ou 2015 durante um curso de missões na Noruega. Apesar de a  instituição ser norueguesa, havia na turma alunos daquele país e também do Brasil, Índia e Bangladesh, e os professores eram um casal de brasileiros missionários: Gerson e Maitê Celeti. Tendo morado no Senegal por muitos anos, eles compartilhavam de forma rica suas experiências e vivências, moldando o curso de maneira tal que teoria e prática encontravam-se em harmonia e realmente promoviam uma mudança de mentalidade e cosmovisão.

Quando chegamos ao tema da abordagem cronológica, percebi que seria um divisor de águas. Cresci em um contexto de “evangelismo explosivo” e tive contato com a prática de ir de porta em porta pela vizinhança da igreja “pregando o evangelho” ou distribuindo panfletos que tratavam sobre o pecado e sobre o “plano de salvação do homem”. Também realizávamos encontros de louvor na praça para que as pessoas se interessassem e viessem até o grupo para, assim, “compartilharmos o evangelho”.

A abordagem cronológica da Bíblia – ensino, leitura e discipulado – encontra exemplos na própria Bíblia: vemos diversas vezes Deus sendo “cronológico” com seu povo, retomando a história desde o início, falando dos pais da fé e assim por diante; os evangelhos segundo Mateus e Lucas trazem genealogias; no evangelho de João, há menção ao Gênesis (João); e o próprio Jesus, quando encontra aqueles dois homens no caminho de Emaús, explica sobre os profetas e tudo o mais desde o começo.

O material-base que estudamos foi o elaborado pela Ethnos360 (antiga New Tribes Mission ou Missão Novas Tribos), do autor Trevor McIlwain – Firm Foundations: Creation to Christ [Alicerces Firmes: da Criação a Cristo] disponível em português aqui. Nele, o autor propõe que a apresentação de Jesus não comece com “Você sabia que é pecador e precisa de Jesus?”, já que o conceito de pecado, e até de Jesus, provavelmente não faz sentido algum para o ouvinte, e, se faz, pode estar deturpado. Para exemplificar o processo e os resultados da abordagem cronológica, assita ao vídeo “e e taow – A emocionante evangelização do povo Mouk”, que mostra uma aldeia em Papua Nova Guiné sendo apresentada ao evangelho a partir da abordagem cronológica. É possível perceber como o entendimento deles sobre a história de Deus com o homem, da humanidade (Gênesis 1-11), de Israel (a partir de Gênesis 12) e da chegada do Messias torna-se algo natural para a audiência que, por alguns meses, ouve essa narrativa.

Isso mesmo! Alguns meses é o tempo que pode levar a abordagem cronológica, no melhor dos casos, tendo como base a periodicidade de um encontro por semana. Tive a oportunidade de aplicá-la com paquistaneses cristãos que haviam sido perseguidos e encontraram refúgio na Itália. A única possibilidade era fazermos uma aula por semana, e o tempo de irmos do Gênesis a Jesus levou um ano e meio. É natural você questionar a metodologia se está tendo conhecimento dela agora. Dezoito meses para apresentar as boas novas parece tempo demais. Com meu jeito imediatista e impulsivo, um dos questionamentos que fiz ao Gerson durante o curso foi: “E se alguém morre no meio do processo sem ter ouvido a respeito do Messias esperado?”. Ele, então, contou-me a seguinte história.

 

Eu estava fazendo a abordagem cronológica em uma aldeia no interior do Senegal há algum tempo. Depois de investir os primeiros anos aprendendo a língua local, os costumes e a cultura, havia chegado o momento de compartilhar as boas novas com aquele povo. No meio do curso da narrativa, porém, uma senhora adoeceu gravemente. Um dos líderes religiosos locais, que era muçulmano, foi à minha casa e disse que aquela senhora queria me ver. Fui até ela, que pediu para eu orar com ela após dizer: “Sabe, Mūsa [“Moisés” era o nome de honra pelo qual as pessoas da tribo chamavam Gerson], eu provavelmente morrerei esta noite. Mas sabe de uma coisa? Morro esperando pela vinda do Messias, o libertador prometido. Posso morrer em paz, pois sei que é só o sacrifício dele pode me salvar, não posso fazer nada, mas morro na esperança e na expectativa da vinda dele, que vai me libertar de uma vez por todas do pecado e da morte”.

 

Terminada a história, Gerson apenas olhou para mim e sorriu, com os olhos marejados, como que dizendo: “Está respondida a sua dúvida, querido Gabriel?”. Aquele dia, como eu imaginava, foi um divisor de águas na minha vida. Automaticamente tornei-me fã da abordagem cronológica, mesmo sem ter conhecido o evangelho por meio dela ou sem tê-la aplicado para compartilhar o evangelho com alguém. Só fui ter essa oportunidade quase três anos depois, em parceria, inclusive, com um dos filhos do Gerson, o Ruben, teoricamente “aplicando-a” junto a amigos paquistaneses, como costumamos dizer. Mas nossa disposição sempre foi caminhar com eles na jornada, não com algo a ensinar, mas com algo a aprender juntos. E foi isso que aconteceu.

Estudar a história de Deus, da humanidade, de Israel e de Jesus de forma cronológica abriu-me os olhos de uma maneira totalmente reveladora e transformadora. Eu já sabia que a abordagem cronológica foi desenvolvida para ser aplicada em contextos animistas ou de aldeias, e que é muito útil em contextos muçulmanos, além se ser muito utilizada em culturas de forte ateísmo, mas percebi, na prática, que é uma ferramenta necessária para qualquer ser humano, nascido de novo ou não, cristão há pouco ou muito tempo, novo convertido ou discípulo com PhD em Divindade; é uma ferramenta para ser visitada e revisitada; usada e reutilizada diversas vezes durante o curso da nossa vida.

A abordagem cronológica moldou e deu forma à cosmovisão que hoje possuo:

  • de um Deus que é presente conosco, desde o início;
  • de uma criação inundada por sua presença, que é rica antes mesmo da presença do homem, bem como de uma responsabilidade de mordomos que temos para com ela;
  • de um plano que nunca saiu do controle do Eterno, nunca foi frustrado;
  • de pessoas que caminharam com o Eterno e morreram sem ter visto o Messias, o libertador prometido, e que não foi isso que os impediu de, pela graça, serem justificados pela fé.

Acredito que essa seja uma das ferramentas mais poderosas e eficazes que possuímos para comunicar as boas novas em qualquer contexto que nos encontremos – inclusive no atual, valendo-se de ferramentas digitais –, pós-moderno ou tribal, hindu ou ateu, escola dominical ou uma série de pregações, trazendo base para o início de uma vida cristã ou fundamentos para um cristianismo que, muitas vezes, está longe de ser vivido em sua plenitude, como era o meu caso.

 

Sobre o autor
Gabriel de Oliveira Louback é jornalista com especialização em Missiologia no Gå Ut Senteret (Noruega), tendo atuado em Missões com sua profissão na Índia, Brasil e Itália. Fez parte da MAIS (Missão em Apoio à Igreja Sofredora) por 5 anos e, atualmente, é missionário com a AIM/Miaf (Missão pelo Interior da África). Está em preparo para integrar o time de storytellers da organização em Nairóbi (Quênia), com sua esposa, Carolina Rehder, e sua filha, Manuela.

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