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Abrão, o pai dos muçulmanos?

Cristianismo e islamismo traçam suas origens a partir de Abraão. Os cristãos, por Isaque; os muçulmanos, por Ismael

Marcos Amado

Muitas são as ideias preconcebidas que os brasileiros, incluindo os cristãos, têm dos muçulmanos. Isso ocorre principalmente pela grande quantidade de informação que recebemos diariamente por intermédio dos meios de comunicação, mostrando-nos com toda riqueza de detalhes as guerras e as atrocidades que ocorrem nos países muçulmanos, sejam como consequência da invasão de exércitos estrangeiros ou da ação de muçulmanos radicais.

Por isso, possivelmente uma das melhores formas de se iniciar uma conversa com cristãos sobre o islamismo é afirmando que os muçulmanos, na sua grande maioria, são pessoas como nós: pacíficos, convictos de que há um Deus soberano que é criador dos céus e da terra, e preocupados em ter uma vida sossegada juntamente com seus familiares e amigos.

Outro aspecto importante que precisa ser mencionado desde o princípio é que há algo que une os seguidores do cristianismo e do islamismo: ambas as religiões traçam suas origens a partir de Abraão. Os cristãos o fazem por meio de Isaque e os muçulmanos por meio de Ismael.

Tudo começou há cerca de quatro mil anos quando Abrão, aceitando a sugestão de sua esposa Sarai, tomou a Agar, uma escrava egípcia, como mulher. Quando Sarai percebeu que sua escrava, por ter engravidado, a desprezava, ela a maltratou tanto que Agar teve de fugir. No entanto, a promessa de Deus para Agar era: “multiplicarei sobremodo a tua descendência, de maneira que, por numerosa, não será contada” (Gen. 16:10). Além de prometer que a descendência de Abraão através de Ismael se transformaria numa grande nação, o Senhor também disse que “Ele (Ismael) será entre os homens, como um jumento selvagem; a sua mão será contra todos, e a mão de todos, contra ele; e habitará fronteiro a todos os seus irmãos”. (Gen. 16.12)

Creio que existem poucas dúvidas de que estas promessas já se cumpriram. Hoje é conhecido de todos que os muçulmanos, principalmente os árabes, se consideram filhos de Abraão e descendentes de Ismael.

Anos mais tarde, quando Ismael já tinha nascido e crescido, Abraão (que por ter uma idade muita avançada e achar que já não teria filhos com Sarai), suplicou a Deus que permitisse que Ismael fosse seu herdeiro. Deus lhe confirma que a promessa de que todos os povos da terra seriam abençoados através da sua descendência se cumpriria por meio do filho que ele ainda teria com Sarai. Mas, uma vez mais, Deus afirma que a sua mão estaria sobre Ismael:

E quanto a Ismael, também te tenho ouvido; eis aqui o tenho abençoado, e fá-lo-ei frutificar, e fá-lo-ei multiplicar grandissimamente; doze príncipes gerará, e dele farei uma grande nação. (Gênesis 17.20).

Deus não somente afirma que já estava abençoando a Ismael, mas que também o faria frutificar e multiplicar, e que dele surgiriam doze príncipes que se transformariam em uma grande nação.

Em Gênesis 21.13, quando Sara exigiu que Agar e Ismael deixassem de viver com eles, o Senhor confirmou que faria de Ismael uma grande nação. Quando Agar e Ismael, pela segunda vez em suas vidas, se encontravam numa situação de desespero no deserto, o Senhor se revelou e os salvou da situação de vida e morte em que se encontravam:

E ouviu Deus a voz do menino, e bradou o anjo de Deus a Agar desde os céus, e disse-lhe: Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do menino desde o lugar onde está. Ergue-te, levanta o menino e pega-lhe pela mão, porque dele farei uma grande nação. E abriu-lhe Deus os olhos, e viu um poço de água; e foi encher o odre de água, e deu de beber ao menino. E era Deus com o menino, que cresceu; e habitou no deserto, e foi flecheiro. E habitou no deserto de Parã; e sua mãe tomou-lhe mulher da terra do Egito. (Gênesis 21.17-21)

A sequência dos eventos é, uma vez mais, bastante impressionante:

  • Deus ouviu a voz do menino (que na verdade já era um adolescente).
  • Diz para Agar não temer.
  • Reafirma a promessa que de Ismael fará uma grande nação.
  • Milagrosamente lhes provê água que lhes garante a vida.
  • Deus estava com o menino durante o seu processo de crescimento.

Apesar das dúvidas de alguns estudiosos sobre a origem dos árabes[1] , é importante enfatizar que existem fortes indícios de que eles, mesmo com a miscigenação (assim como também aconteceu com os israelitas) são descendentes de Ismael. Além disso, a percepção que os muçulmanos em geral, e os árabes em particular, têm de si mesmos é que com toda certeza eles são descendentes de Abraão por meio de Ismael, e isso deveria ter uma forte influência sobre como olhamos os muçulmanos.

Como cristãos temos a grande tendência de, quando lemos a Bíblia, prestarmos atenção somente na história de Isaque e as promessas associadas a ele. Porém (e talvez influenciados pela inclinação sionista que muitos de nós evangélicos temos) quase sempre passamos por alto as promessas que existem sobre Ismael e seus descendentes.

No entanto,

O Ismael feroz, selvagem e livre, indomável e implacável, deserdado por Abraão e Sara, foi adotado pelo próprio Deus. Ele cresceu na amplidão do deserto. Não era um homem comum. Reis do deserto saíram dele. Mais de mil anos depois, seu nome e os dos seus filhos eram preservados, anotados com cuidado nas genealogias do texto sagrado (1 Cr. 1.29-31). Os profetas se lembravam do poderoso Nebaiote e de Quedar…, os primeiros dois filhos de Ismael. Eles haveriam de ser reunidos com seus rebanhos no aprisco do Messias, no dia da colheita (Is. 42.11; 60.7). Dois milênios e meio depois, um árabe órfão haveria de se levantar para defender a causa do seu ancestral ilustre. Maomé, em independência firme de judeus e cristãos, derivou seu monoteísmo de Ismael e seu pai Abraão[2].

O próprio Deus mostrou seu cuidado escutando o clamor de Agar, a serva de Sarai, e o choro do menino Ismael; prometeu que príncipes descenderiam dele, que seriam uma grande nação e que fariam parte do rebanho do Messias.

Hoje há mais de 1.2 bilhões de pessoas em todo o mundo que responderam ao chamado de Maomé. Recentemente o Vaticano anunciou que o número de muçulmanos no mundo já é maior do que o número de católicos. Na verdade já não é preciso ir a seus países para poder evangelizá-los, pois em qualquer um dos cinco continentes podemos encontrar “filhos de Ismael”. Nós, cristãos, seguindo o exemplo do próprio Deus, devemos mostrar nosso amor e preocupação por eles.

O que faremos para conduzi-los ao aprisco do Messias?

 

[1] De acordo com McCurry “…alguns estudiosos, como Chapman, questionam que Maomé pudesse traçar sua genealogia até Ismael… Outros, como Hamada, esquematizam com mais detalhes o pano de fundo semita dos árabes, aceitando a possibilidade de Maomé descender de Abraão por meio de Ismael. Ele também indica que a mistura dos ismaelitas com outros grupos étnicos pelo casamento torna praticamente impossível traçar uma linhagem pura.” McCurry, Esperança Para Os Muçulmanos, 14.

[2] McCurry, Esperança para Os Muçulmanos, 12.

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