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Evangelização dos judeus – Desafios enfrentados (Parte 4)

Os que se tornam crentes em Jesus são frequentemente excluídos de sua comunidade

Rev. Mitri Raheb

O conteúdo a seguir foi extraído do Documento Ocasional nº 60 de Lausanne. É uma produção do Grupo Temático “Alcançando o Povo Judeu com o Evangelho” do Fórum pela Evangelização Mundial de 2004 que aconteceu em Pattaya, Tailândia. Trata-se de uma iniciativa da Comissão de Lausanne para a Evangelização Mundial.

 

Se preferir, leia antes:

Evangelização dos judeus – Um chamado à Igreja (Parte 1);
Evangelização dos judeus – Retrato da comunidade judaica atual (Parte 2);
Evangelização dos judeus – Crentes judeus na Igreja (Parte 3).

 

Ao mesmo tempo em que a Igreja renova sua visão para a evangelização de judeus, ela precisa enfrentar vários desafios associados a essa difícil tarefa. Esta seção descreve esses desafios na esperança de se chegar a um maior entendimento e engajamento na evangelização de judeus.

a. Reivindicações irreconciliáveis da verdade

Alguns cristãos argumentam que a missão cristã ao povo judeu requer apenas o diálogo. No entanto, o diálogo que visa um mero entendimento mútuo falha em cumprir a obrigação cristã de fazer discípulos de todas as nações, inclusive os judeus. Tanto o judaísmo clássico quanto o cristianismo clássico fazem reivindicações da verdade. O estudioso judeu Jon D. Levenson aponta tais reinvindicações. Ele opina, por exemplo, que Dabru Emet[1] sofre de uma das grandes armadilhas do diálogo inter-religioso das últimas décadas, porque as pessoas tentaram “evitar qualquer discussão franca das crenças fundamentais, e adotar o modelo de resolução de conflitos ou negociação diplomática”. Ele afirma:

O relativismo descontraído impede grandemente qualquer entendimento sofisticado dos dois milênios de diálogo judaico-cristão e o debate sobre o significado das Escrituras. Uma declaração mais precisa observaria que são precisamente os pontos em comum que tornam inevitável o debate sobre as diferenças – pelo menos nas comunidades comprometidas com a ideia da verdade religiosa e não simplesmente com o equivalente teológico de “Estou bem, você está bem”.

Levenson acrescenta ainda: “Os participantes do diálogo judaico-cristão costumam falar como se judeus e cristãos concordassem sobre Deus, mas discordassem sobre Jesus. Eles esquecem que, em um sentido muito real, os cristãos ortodoxos acreditam que Jesus é Deus”.[2]

b. Negação: “Judeus não acreditam em Jesus”

Nos últimos anos, alguns cristãos entraram em diálogo inter-religioso com líderes judeus e se dispuseram a aceitar a condição de excluir os judeus crentes em Jesus do diálogo, embora estes tivessem o direito de participar. O estudioso cristão Wolfhart Pannenberg, professor emérito de Teologia Sistemática de Munique, critica esse ponto de vista em resposta ao Dabru Emet. Pannenberg afirma:

Um dos novos acontecimentos possibilitados pela restauração de um estado judeu na Palestina foi o surgimento de grupos de “judeus messiânicos” em Israel – judeus que confessam sua fé em Jesus, o Messias – sem deixar a comunidade judaica e o estilo de vida judaico. Desde o fim da congregação judaica de Jerusalém no primeiro século, este é o primeiro ressurgimento de uma igreja judaico-cristã, o que significa que um judeu não precisa mais recorrer a uma igreja de gentios quando se torna crente em Jesus Cristo. Os “judeus messiânicos” querem continuar sendo judeus ao mesmo tempo que professam que Jesus é o Messias. Mais cedo ou mais tarde, o diálogo judaico-cristão terá que reconhecer esse fato…[3]

O rabino Barry Cytron, diretor do Centro Jay Phillips de Estudos Judaico-Cristãos, comenta isso dizendo:

Em suas observações sobre “judeus messiânicos”, o Professor Pannenberg aborda uma área sensível e dolorosa nos relacionamentos inter-religiosos. Para muitos na comunidade judaica, as táticas empregadas pelos “judeus messiânicos” para espalhar suas crenças são muitas vezes inadequadas. Vários livros recentes documentam essas tentativas de conversão e o ressentimento que resulta de tais tentativas. As diretrizes da Igreja Luterana Evangélica na América sobre relacionamentos judaico-cristãos abordam diretamente essa questão: “Grupos como ‘Judeus para Jesus’ ou ‘Judeus Messiânicos’ são formados por pessoas de origem judaica que se converteram ao cristianismo e desejam reter sua tradição e identidade judaicas. Os luteranos devem estar cientes de que a maioria dos judeus considera essas pessoas como tendo abandonado o judaísmo e consideram enganosas as tentativas de afirmar o contrário”.[4]

Incapaz de refutar a identidade única dos judeus crentes em Jesus, Cytron ataca apenas seus métodos de evangelização.

c. Antissemitismo

Apesar da presença de judeus crentes em Jesus na igreja ao longo dos séculos, as autoridades eclesiásticas e civis frequentemente perseguiram os judeus. Como os ataques contra o povo judeu durante as cruzadas, inquisições e pogroms (massacres) foram cometidos contra o povo judeu em nome de Cristo, não é de se admirar que os judeus tenham associado as boas novas de Jesus a más notícias para os judeus.

Nem todos os cristãos ou igrejas foram responsáveis por tais atos antissemitas. No entanto, a percepção entre os judeus no início do século 21 é que tanto os cristãos quanto a mensagem do cristianismo são responsáveis pelos erros do passado. Embora essa impressão errônea seja um obstáculo à evangelização dos judeus, ela não justifica o cerceamento desta atividade. Aqueles que realizaram atos tão odiosos em nome de Jesus serão responsabilizados por Deus. A vingança pertence somente a Ele. O evangelho não é menos verdadeiro.

O ensinamento de que o Novo Testamento é antissemita deve ser rejeitado. De fato, o Novo Testamento foi usado indevidamente para fins antissemitas ao longo da história da igreja. Contudo, o fato de que o Novo Testamento foi tirado do seu contexto bíblico e histórico para corroborar o ódio antissemita não torna a palavra de Deus antijudaica.

As palavras duras encontradas nos evangelhos contra o povo judeu refletem o debate interno dos judeus da época com relação ao judeu Jesus. Elas se assemelham às descrições negativas proferidas por Moisés e pelos profetas com relação ao povo judeu desobediente no Antigo Testamento. Embora expressas de forma veemente, as admoestações dos evangelhos devem ser analisadas no contexto da fidelidade pactual de Deus para com seu povo e do seu desejo que este se arrependa, assim como do amor de Jesus por ele.

É preciso negar categoricamente que o povo judeu foi o único culpado pela morte de Jesus. Eles não foram mais responsáveis por sua crucificação do que o resto da humanidade. Então, quem é o culpado e quem está livre de culpa? Uma vez que todos pecaram e carecem da glória de Deus, todos têm culpa pela morte de Jesus. Contudo, Deus em sua graça amorosa tornou possível a morte de seu Filho, em sua sabedoria e amor, para salvar os perdidos, tanto judeus quanto gentios.

d. Marcionismo moderno

Márcion, um teólogo do século 2, negava que o pai celestial de Jesus era o mesmo que o Deus de Israel, como retratado nas Escrituras hebraicas. Ele acreditava que o Deus do Antigo Testamento era um Deus perverso de ira, enquanto o pai de Jesus era um Deus bondoso de amor.

A igreja primitiva declarou Márcion um herege. No entanto, existe um marcionismo moderno na igreja atual. Hoje, é correto combater a falsa noção de que o Deus do Antigo Testamento é um Deus irascível, e o Deus do Novo Testamento é um Deus de amor.

O ponto de partida para a teologia bíblica é a unidade das Escrituras. O único Deus verdadeiro é revelado em toda a Bíblia. Esse Deus é um Deus de justiça, que às vezes demonstra ira. Ele também é o Deus de graça, estendendo amor leal, derramando sua misericórdia e bondade sem medida. O Deus de Israel no Antigo Testamento é o mesmo pai celestial de Jesus no Novo Testamento. Os cristãos são chamados aqui a rejeitar e corrigir as noções populares que refletem o marcionismo moderno. Tais ideias falsas podem impedir o povo judeu de entender a verdadeira natureza de Deus, conforme descrita corretamente em toda a Bíblia.

e. Escatologia

Os evangélicos têm diferentes interpretações dos textos proféticos do Antigo e do Novo Testamento a respeito do povo judeu e da terra de Israel. Alguns hesitam em falar sobre o cumprimento de profecias específicas a respeito do estabelecimento do atual estado de Israel. Outros não hesitam. Alguns aguardam o cumprimento adicional da profecia na restauração espiritual dos judeus étnicos e na vinda do reino messiânico. Outros não aplicam esses textos proféticos exclusivamente aos judeus étnicos ou à Igreja. Essa visão não diminui a realidade das promessas, mas está aberta à maneira como elas serão cumpridas, seja para a Igreja ou para o povo judeu em sua pátria.

Os cristãos devem observar que a terra prometida a Abraão é hoje o lar do povo judeu e do árabe. Qualquer visão de resultados futuros que não respeite os habitantes atuais ou deixe de vê-los como preciosos aos olhos de Deus corre o risco de não ser cristã. O amor de Cristo está disponível para todos e para sempre. O entusiasmo pelo cumprimento em potencial das profecias associadas ao estado de Israel não deve ofuscar ou perder a centralidade do Cristo crucificado e ressurreto. O atual retorno do povo judeu à terra e o renascimento de Israel como nação reunida são evidências da fidelidade de Deus. Se o amor leal de Deus a Israel perdura, certamente o Seu amor por todos em Cristo também é garantido.

De fato, a expectativa do retorno iminente de Cristo deve ser uma forte inspiração para a tarefa de evangelização dos judeus. Ele retornará em glória e poder para cumprir seus propósitos de julgamento e salvação. Antes desse dia, o evangelho deve ser levado primeiro a todas as nações e a todo o Israel. Essa gloriosa esperança futura deve orientar todos os cristãos a estabelecer o evangelismo como prioridade agora, e até que o Senhor retorne em glória.

f. Reconciliação

Atualmente, a terra prometida da Bíblia é lar de judeus e árabes. A tensão contínua entre o povo israelense e palestino é trágica. Cristãos de todo o mundo não podem se dar o luxo de uma consideração imparcial pelo sofrimento de todos os povos naquela terra.

Onde quer que estejam, os cristãos devem guardar seus corações contra as pressões do nacionalismo e o desejo de tomar partido nas disputas políticas que ocorrem no Estado de Israel e nos territórios ocupados. Os cristãos devem orar e apoiar seus irmãos e irmãs em Cristo quer sejam palestinos quer judeus, pois estão envolvidos na busca de uma paz justa.

Deve-se lembrar que a graça amorosa de Deus vale para todos os descendentes de Abraão. Portanto, os cristãos devem orar pela obra de salvação e reconciliação de Deus através do seu Espírito entre os povos da terra de Israel e seus vizinhos.

O Senhor está expandindo sua igreja entre israelenses e palestinos, alguns dos quais adoram juntos em congregações locais. Somente o Senhor Jesus pode trazer uma paz verdadeira e duradoura aos corações das pessoas em sua terra.

g. Evangelismo de judeus e muçulmanos

Existem muitos paralelos e semelhanças entre a evangelização de judeus e muçulmanos. A Igreja tem muito a ganhar compartilhando os desafios comuns e aprendendo com ambos os grupos. O comprometimento com a evangelização de ambos evita a polarização dentro do corpo de Cristo.

As pessoas envolvidas no diálogo cristão-muçulmano geralmente enfrentam oposição semelhante àquela vivida pelos que estão envolvidos no diálogo judaico-cristão. A fé islâmica no Deus único e a identidade muçulmana como descendentes de Abraão são frequentemente apresentadas de maneira a excluir qualquer necessidade de sua salvação em Jesus Cristo. Mais uma vez, a principal questão teológica é a singularidade de Cristo para a salvação como expressão máxima do Deus amoroso.

Os judeus crentes em Jesus e batizados, juntamente com os muçulmanos que se convertem à fé cristã e são batizados, são frequentemente excluídos de suas respectivas comunidades. Pior ainda, muitos que se identificam publicamente correm risco de martírio por causa de sua fé cristã. Hoje, a igreja pode apoiar judeus e muçulmanos que vêm a Cristo defendendo sua liberdade religiosa como irmãos e irmãs em suas comunidades. Além disso, a Igreja cristã pode fazer mais para incentivar expressões contextualizadas da identidade cristã judaica ou árabe entre seus respectivos grupos étnicos. Esses novos crentes devem ser incentivados a desenvolver identidades e práticas culturais apropriadas como seguidores de Jesus dentro do corpo de Cristo.

 

 

[1] Nota do tradutor: Dabru Emet é um manifesto sobre a relação de cristão e judeus que conta com a assinatura de mais de 200 rabinos e intelectuais oriundos de diferentes vertentes do judaísmo.

[2] Jon D. Levenson, (cf. nota 5), 33, 35, 37.

[3] Wolfhart Pannenberg em Jews and Christians: People of God, (cf. nota 3), 185.

[4] Barry Cytron em Jews and Christians: People of God, (cf. nota 3), 193.

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