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Um alerta aos missionários transculturais

Embora as influências de vergonha, medo e culpa estejam presentes em todas as culturas, uma delas é geralmente predominante em cada ambiente cultural

Engajar-se, como igreja, na Missão de Deus, não significa (apenas) ser um “missionário de carreira” em outra cultura. Chris Wright discorre sobre isso em As cinco marcas da Missão.

Contudo, em 2019, Marcos Amado, no artigo A relevência do livro de Jonas para Missões, respondeu à pergunta “Com tanto por fazer em casa, por que pessoas deveriam ir a outros países para testemunhar do Senhor?”.

Aos cristãos que atuam fora de casa, Jairo de Oliveira chama a atenção para um aspecto relevante no texto a seguir.

 

Os paradigmas de culpa, vergonha e medo na comunicação transcultural do evangelho

De acordo com as Escrituras, Deus criou Adão e Eva e lhes concedeu a dádiva de viverem no Jardim do Éden. Homem e mulher, criados à imagem de Deus, não tinham falta de coisa alguma. Além de viverem uma relação de plena comunhão com o Criador, mantinham um relacionamento de perfeita intimidade. O texto bíblico nos assegura que: “O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha” (Gn 2.25, NVI).

Esse cenário mudou radicalmente quando o casal pecou (queda). Além do estado de separação de Deus, a entrada do pecado no mundo produziu na experiência humana os efeitos de vergonha, medo e culpa. Ao pecarem, Adão e Eva tentaram cobrir a vergonha da nudez, esconderam-se de medo, e passaram a culpa adiante, conforme a narrativa bíblica:

  • Tentativa de cobrir a vergonha da nudez: “Ouvindo o homem e sua mulher os passos do Senhor Deus que andava pelo jardim quando soprava a brisa do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim” (Gn 3.8);
  • Busca de se protegerem do medo: “‘Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo, porque estava nu; por isso me escondi’” (Gn 3.10);
  • Esforço para passarem a culpa adiante: “Disse o homem: ‘Foi a mulher que me deste por companheira que me deu do fruto da árvore, e eu comi’. O Senhor Deus perguntou então à mulher: ‘Que foi que você fez?’. Respondeu a mulher: ‘A serpente me enganou, e eu comi’” (Gn 3.12-13).

Vergonha, medo e culpa

As reações provenientes do pecado (vergonha, medo e culpa) não se limitaram a Adão e Eva. O que identificamos a partir da experiência do casal é que a queda e seus paradigmas influenciaram também as gerações do primeiro casal. Uma das provas disso, e o quanto ela é atroz, é o comovente evento do fratricídio envolvendo Caim e Abel (Gn 4.1-8).

Ao longo da história humana, expressões culturais ganharam contorno, e as influências da queda foram sendo claramente expressas entre os grupos étnicos que se formaram. O Pacto de Lausanne, firmado no Congresso Mundial de Evangelização em 1974, em Zurique, na Suíça, apresenta um sumário da visão bíblica a respeito das culturas, apontando para o fato de que elas estão maculadas pelo pecado: “Porque o homem é criatura de Deus, parte de sua cultura é rica em beleza e em bondade. Porque ele [o homem] experimentou a queda, toda a sua cultura está manchada pelo pecado, e parte dela é demoníaca” (parágrafo 10).

Do ponto de vista teológico e missiológico, a tríplice realidade composta por vergonha, medo e culpa precisa ser considerada. O linguista e escritor Eugene Nida chama a atenção para esta importante realidade: “Temos que considerar três tipos diferentes de reações às transgressões de códigos religiosamente sancionados: medo, vergonha e culpa”.[1]

A cruz de Cristo

As Escrituras sustentam que a cruz de Cristo representa uma resposta plenamente eficaz contra os efeitos da queda. Ela trata de forma particular cada uma das reações disseminadas pelo pecado na experiência humana. No que diz respeito à vergonha, o evangelho apresenta Jesus como o Salvador que nos transporta de um lugar de desonra para um lugar de honra (Cl 1.13). Quanto ao medo, ele é o Senhor que se manifestou com poder inigualável para destruir as obras do Diabo (1Jo 3.8). No tocante à culpa, ele é o Redentor que quita a nossa dívida, justificando-nos diante de Deus (Cl 2.14).

O missiólogo Jayson Georges defende[2] que essa abordagem abrangente da salvação é muito bem exposta na Epístola aos Efésios. Segundo ele, o apóstolo Paulo a faz na seguinte ordem:

  1. A salvação na perspectiva da culpa (Ef 2.1-10). Versículo-chave: “Deu-nos vida juntamente com Cristo, quando ainda estávamos mortos em transgressões — pela graça vocês são salvos” (Ef 2.5).
  2. A salvação na perspectiva da vergonha (Ef 2.11-22). Versículo-chave: “Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus” (Ef 2.19).
  3. A salvação na perspectiva do medo (Ef 6.10-17). Versículo-chave: “Finalmente, fortaleçam-se no Senhor e no seu forte poder” (Ef 6.10).

Reação predominante

Estudiosos têm observado que, embora as influências de vergonha, medo e culpa estejam presentes em todas as culturas, uma delas é geralmente predominante em cada ambiente cultural. O escritor Mark Baker é um dos que defendem tal entendimento: “Todas as três dinâmicas interagem e influenciam cada cultura em algum grau, mas geralmente uma delas é mais predominante em uma determinada cultura”.[3]

A experiência de campo tem apontado que, nas culturas do Oriente Médio, é marcante a característica da vergonha. Já nas culturas da África subsaariana, o medo é a influência predominante. Nas culturas da Europa e da América do Norte, por sua vez, o conceito de culpa é o mais comum.

Fazendo sentido

Apesar da relevância da abordagem aos temas de vergonha, medo e culpa, o missiólogo e escritor Roland Muller acredita que, por causa do impacto da lei romana na Igreja primitiva e em vários teólogos ao longo da história da Igreja, os cristãos historicamente desenvolveram a tendência de explicar o pecado exclusivamente a partir da perspectiva da culpa, isto é, enfatizam que o pecador é culpado e, portanto, necessita da obra de Cristo para receber o perdão e ser justificado do seu erro. Assim, as realidades de vergonha e medo têm sido desprezadas, ignoradas e esquecidas, conforme afirma Robin Stockitt no livro Restoring the Shamed: Towards a Theology of Shame.[4]

O que precisamos atentar é que uma abordagem que leve em conta apenas uma dessas realidades é limitada por não comunicar a amplitude da obra de Cristo. Somado a isso, focalizar apenas a culpa, por exemplo, pode não fazer sentido em contextos culturais em que o conceito de culpa pelo pecado não é algo familiar. Roland Muller comenta a esse respeito: “O perigo está quando aplicamos a nossa compreensão romana do Evangelho em contextos que não possuem uma cultura romana. Gastamos horas incontáveis e quantidades incalculáveis de energia explicando ao nosso contato que ele é culpado de pecado e precisa ser justificado diante de Deus. A pobre pessoa, por outro lado, luta para entender a culpa e não vê necessidade de justificação”.[5]

Portanto, missionários transculturais não devem reproduzir uma apresentação do evangelho que reflita particularidades do seu contexto de origem. É preciso levar em consideração a totalidade da obra da cruz e a cosmovisão das pessoas inseridas na pregação a fim de se comunicar o evangelho de forma que faça sentido no universo em que elas estão inseridas.

Mitos

Ao defender que a comunicação transcultural do evangelho deve ser ampla, levando em consideração, também, os paradigmas de vergonha e medo, com frequência identifico a manifestação de alguns mal-entendidos. Os mais comuns em minha experiência até aqui são:

  1. A abordagem que contempla a vergonha e o medo é um modismo. As Escrituras deixam claro que o evangelho considera essas realidades. Talvez a nossa compreensão sobre elas seja nova, mas estamos tratando de ensinamentos antigos.
  2. A abordagem que contempla a vergonha e o medo é reducionista. De acordo com o que vimos até aqui, essa abordagem é, na verdade, expansionista. Ela amplia a compreensão limitada de que a obra de Cristo lida apenas com o aspecto da culpa. Ela previne a apresentação do evangelho apenas a partir de uma dimensão particular.
  3. A abordagem que contempla a vergonha e o medo é exclusivista. O ponto de vista apresentado aqui não defende que culturas são exclusivamente baseadas em vergonha, medo ou culpa. O que se argumenta é que todas as culturas possuem os três aspectos, mas que um deles é normalmente proeminente e, portanto, não pode ser negligenciado no processo de evangelização e discipulado dos indivíduos em contato.

Conclusão

Os paradigmas de vergonha, medo e culpa estão presentes em todas as culturas. Missionários precisam estar atentos a eles e serem treinados para apresentarem o evangelho de forma relevante no seu ambiente de atuação. Eles devem focalizar o aspecto mais relevante em seu contexto, mas sem desprezarem os demais. Eles devem se esforçar para apresentar a obra da cruz de Cristo na sua amplitude a fim de que o evangelho seja eficazmente proclamado a todos os povos, e o Senhor seja glorificado em todas as nações.

 

Bibliografia

BAKER, Mark D./GEORGES, Jayson. Ministering in Honor-Shame Cultures: Biblical Foundations and Practical Essentials. Downers Grove: InterVarsity Press, 2016.

BROWN, Brené. I Thought It Was Just Me: Women Reclaiming Power and Courage in a Culture of Shame. New York: Gotham, 2007.

DESILVA, David Arthur. Honor, Patronage, Kinship & Purity: Unlocking New Testament Culture. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2010.

FORRESTER, John Arnold. Grace for Shame: The Forgotten Gospel. Toronto, Canadá: Pastor’s Attic Press, 2010.

GEORGES, Jayson. The 3D Gospel: Ministry in Guilt, Shame, and Fear Cultures. Edinburgh, Scotland: Time Press, 2016.

HAVILAND, William A. O evangelho e a cultura: a contextualização da Palavra de Deus. In: Série Lausanne. São Paulo: ABU Editora e Visão Mundial, 1983.

HIRSCHFELD, A. Robert. Without Shame or Fear: From Adam to Christ. New York, NY: Church Publishing, 2017.

LANIAK, Timothy S. Shame and Honor in the Book of Esther. Atlanta, GA: Scholars Press, 1998.

MULLER, Roland. Honor and Shame, Unlocking the Door. Los Gatos, CA: Smashwords Edition, 2013.

RICHARDS, E. Randolph, and Brandon J O’Brien. Misreading Scripture with Western Eyes: Removing Cultural Blinders to Better Understand the Bible. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2012.

SMEDES, Lewis B. Shame and Grace: Healing the Shame We Don’t Deserve. San Francisco, CA: HarperSanFrancisco, 1993.

STOCKITT, Robin. Restoring the Shamed: Towards a Theology of Shame. Eugene, OR: Cascade Books, 2012.

WU, Jackson. Saving God’s Face: A Chinese Contextualization of Salvation through Honor and Shame. Pasadena, CA: William Carey International University Press, 2012.

 

Sobre o autor

Jairo de Oliveira é membro da 2ª Igreja Batista da Taquara (Rio de Janeiro – RJ), pastor batista e atuou como missionário por 12 anos no continente africano com a Missão para o Interior da África (MIAF). É bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana (FTSA), mestre em estudos islâmicos e doutorando em estudos interculturais pela Columbia International University (CIU).
É um dos comentaristas da Bíblia Missionária de Estudo, publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), e autor de dez livros, dentre eles De todos os povos (Prêmio Areté), publicado pela Editora Descoberta.

 

[1] Eugene Nida, Customs and Cultures (New York: Harper, 1954), 150.

[2] Jayson Georges. The 3D Gospel: Ministry in Guilt, Shame, and Fear Cultures (Edinburgh, Scotland: Time Press, 2016), 12.

[3] Baker, Mark D. e Georges, Jayson. Ministering in Honor-Shame Cultures: Biblical Foundations and Practical Essentials (Downers Grove: InterVarsity Press, 2016), 19.

[4] Robin Stockitt. Restoring the Shamed: Towards a Theology of Shame (Eugene, OR: Cascade Books, 2012), 23.

[5] Roland Muller. Honor and Shame, Unlocking the Door (Los Gatos: Smashwords Edition, 2013), 33-34.

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