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Refugiados: uma reflexão crítica desde o Líbano em relação às reações sobre a crise síria

Nadia Accad

O contexto libanês

O Líbano tem a distinção única de ser o país com a mais alta concentração per capita de refugiados do mundo. A cada quatro pessoas que você encontra na rua, uma é um deslocado da Síria. Pessoalmente, tenho vivenciado a crise a partir do que se poderia chamar de “micronível” por meio do meu trabalho num pequeno posto médico do centro comunitário de bairro. Centenas, se não milhares, de famílias sírias fugindo da guerra na Síria acabaram indo para esse bairro; uma favela que tradicionalmente também é o lar de milhares de famílias libanesas. Alguns se juntam aos parentes que já vivem na área, mas a maioria chega à procura de uma casa cujo aluguel eles consigam pagar. Alguns estão no Líbano há aproximadamente cinco anos, enquanto novas famílias chegam a cada dia. As famílias que chegaram mais recentemente relatam que vieram porque a simples sobrevivência em certas áreas da Síria tornou-se muito difícil. Além da insegurança, há escassez de alimento e oportunidades muito restritas de trabalho. Muitos sobreviveram a longos anos de sofrimento durante a guerra e fizeram a traiçoeira jornada ilegal através das fronteiras. Como consequência das leis aprovadas em janeiro de 2015, a entrada no Líbano a partir da Síria agora é mais limitada e requer um visto, o qual é concedido apenas para propósitos específicos. Para aumentar o sofrimento delas, essas famílias chegam a um contexto já saturado e enfrentam medidas administrativas mais rigorosas das Nações Unidas e do Estado. No entanto, obviamente não é aí que a história deles começa, mas esperançosamente não é onde ela termina.

Este artigo pretende examinar esse período de deslocamento inicial ou de reassentamento. No caso da crise na Síria, e da crise no Iraque antes dela, com frequência esse período é prolongado, instável e, no nosso contexto, entrelaçado com pressões econômicas e sociais extremas. Optei por concentrar-me neste período – o período diretamente depois que alguém “foge” – por ser provavelmente o período que estabelece a tendência para os anos seguintes. Não há dúvida de que esse período é difícil, mas não é estático. Ele contém grande potencial de restauração tanto para aqueles que são erradicados pela força quanto para aqueles que querem caminhar esse trecho da jornada com eles. É sobre a segunda parte dessa equação, o papel daqueles que são os primeiros a oferecer assistência, que pretendo concentrar-me. Especificamente, gostaria de examinar como nossas atitudes e abordagens “como aqueles que oferecem assistência” afetam a experiência vivida de outros durante esse tempo sensível.

Ao tentar apresentar experiências a partir do ‘micronível’, este artigo concentra-se em três áreas de reflexão: a abordagem reducionista à identidade, a patologização daqueles que passam pelo sofrimento e o papel da igreja como uma comunidade chamada para testemunhar na ruptura atual.

O amor de Deus pelos refugiados

O veterano em assistência humanitária, especialista em desenvolvimento social comunitário e missiólogo, Rupen Das, no seu artigo “Refugees: Exploring Theological and Missiological Foundations” (“Refugiados: Explorando os Fundamentos Teológicos e Missiológicos”) propõe um esboço teológico para compreender a compaixão de Deus pelos refugiados. Ele argumenta que a perda do lar e do local pelos refugiados, bem como a experiência desumana do deslocamento, é que são fundamentais para a preocupação de Deus por eles. Deus criou os seres humanos num local específico. Ele cita a noção de Craig Bartholomew da “localização”, ou como Deus “deseja que os seres humanos estejam em casa e que habitem nos locais deles”, e como “local e localização são dons e dão a possibilidade de imaginar Deus na sua criação”. Das também recorre ao estudioso do Antigo Testamento Walter Brueggemannn, citando o modo como ele explica o significado primordial que locais físicos têm na narrativa bíblica. Brueggemann escreve que “a terra jamais é simplesmente o solo físico, mas é sempre o solo físico carregado de significados sociais derivados da experiência histórica”. Portanto, o local está estreitamente associado à identidade, tanto individual quanto comunitária. Das argumenta que é a perda desse pertencimento físico e a devastação causada pelo deslocamento que roubam a identidade da pessoa. Por outro lado, é esse pertencimento físico, com suas dimensões social, psicológica e cultural que fornece a base do que significa pertencer a um reino eterno. Assim, essa experiência de perda está no cerne da preocupação de Deus pelo deslocado. Das enfatiza que quando refletimos a respeito das necessidades singulares dos refugiados precisamos ter em mente essa dimensão crucial da perda do lar e da identidade.

No nível prático, quando consideramos a crise síria e especificamente aqueles que fugiram para o Líbano, constatamos o quanto é dolorosamente profundo o problema da identidade fraturada, tanto no nível individual quanto no comunitário. Contudo, somos também lembrados da complexidade da identidade, como por meio dessa adversidade muitos aspectos da identidade são também fortalecidos ou renovados à medida que novos vínculos são formados. Novas experiências podem também facilitar com que novas facetas sejam incorporadas à identidade da pessoa. Portanto, visto que pretendemos traduzir essas estruturas para a prática, talvez a noção de completa “perda da identidade” seja forte demais e deva ser compreendida dentro da provisão de Deus para cura e restauração, como Das prossegue para ressaltar.

De um reducionismo para uma abordagem multifacetada à identidade.

É desnecessário dizer que a identidade é complexa, multifacetada, dinâmica e, talvez o mais crítico no caso dos refugiados, ela é construída conjuntamente. Embora praticamente poucos de nós possam impedir ou fazer cessar os horrores da guerra, temos o controle sobre como recebemos imigrantes no nosso meio. Durante esse período de prolongado deslocamento e dependência, não devemos subestimar a extensão em que nossas atitudes individuais e coletivas, rótulos e sistemas afetam outros. A guerra pode forçar alguém a fugir e causar uma profunda sensação de perda e dor associada a isso. No entanto, não é a guerra apenas que causa as feridas do deslocamento. Compreensivelmente, o modo como as comunidades e os sistemas recebem esses fugitivos desempenha um papel importante nisso.

Aqueles que foram forçados a fugir da violência na própria terra natal defrontam-se frequentemente com sistemas que são desumanizantes e reducionistas quanto à maneira de tratá-los. Reducionistas no sentido de que impõem uma identidade dimensional única. No caso dos refugiados, é o deslocamento forçado a fonte real do sofrimento deles, que os define e os fragiliza diante da assistência humanitária e do sistema estatal e, numa extensão menor, das comunidades que os recebem.

Abaixo há algumas impressões que foram compartilhadas comigo por mulheres, homens e jovens sírios no Líbano:

‘Refugiado, refugiado, estou muito cansado desta palavra “refugiado”.

‘Sinto que sou apenas um número’.

“Atravessei a cidade porque ouvi que estavam distribuindo caixas de tâmaras. Queria algumas para meus filhos porque o Ramadã está chegando. Quando cheguei, disseram-me que eu não poderia recebê-las porque meu número não estava na lista. Como se não bastassem a ofensa e o insulto ter de ir e esperar no meio daquela multidão por uma caixa de tâmaras, também isso me foi negado por causa de um número […]”

“Quero ajudar o meu povo, mas apenas outros (i.e, libaneses) são contratados […] Sinto que estão se aproveitando do nosso sofrimento.”

“Fui perguntar se havia trabalho e disseram-me que não havia restado nenhum auxílio. Não pedi auxílio; estava procurando trabalho.”

“Algo muito doloroso foi a maneira como a polícia gritou comigo quando levei minha filha ao pronto-socorro depois que ela foi atingida por um carro. Eles perguntaram-me: ‘Por que você levou sua filha pequena para trabalhar vendendo lenços de papel? Que vergonha!’. É claro que não quero levá-la para fazer esse trabalho e desejo uma vida mais digna.”

“Pacotes de auxílio jamais nos devolverão a dignidade que perdemos.”

“Eu era alguém.”

“Minha casa pode parecer bonita, mas somos realmente pobres. Se quer saber, pergunte ao comerciante quanto lhe devemos.”

“Eu não queria auxílio. Só queria que me ouvissem, que realmente me vissem e me ouvissem.”

Essas declarações evidenciam que muitas das nossas atitudes estão magoando. Nossas palavras e ações ferem profundamente. Precisamos nos afastar de uma abordagem única, reducionista e homogeneizadora e definir “refugiado” de um modo que reconheça a complexidade de identidades, narrativas e habilidades. Precisamos também insistir em critérios iguais a serem mantidos quanto a reagir à situação diante de todos nós e lutar contra o uso do mesmo modelo para todos nos programas de assistência humanitária. Talvez, mais fundamentalmente, devemos nos afastar dos papéis dicotômicos, rígidos e degradantes de vítima e salvador; de carente e auxiliador. As palavras de Lila Watson e do grupo de ativistas aborígenes, em Queensland na década de 1970, talvez exprimam isso da maneira mais adequada:

“Se você vem até mim para ajudar-me, está perdendo o seu tempo. Mas se você vem porque sua libertação está ligada à minha, então vamos caminhar juntos”.

A patologização do sofrimento

Num recente Ted Talk [conferência sobre tecnologia, entretenimento e projeto], Cormac Russell, um pensador que faz parte do movimento Asset Based Community Development (ABCD) (Desenvolvimento Comunitário Baseado em Recursos)argumenta de modo eficaz que certos modos de ajuda, particularmente aqueles que se concentram apenas na fragilidade, têm potencial para ofender. Elas reduzem a impressão de atuação das comunidades, incentivam-nas a interiorizar rótulos que damos a elas e aumentam a sensação de que a mudança é possível apenas mediante a ajuda externa “profissional”. Ele compartilha da incisiva declaração de Rosebeth Moss-Kanter, professora da Harvard Business School: “Quando mudamos as pessoas, elas vivenciam a mudança como violência; quando as pessoas mudam por si mesmas, elas vivenciam a mudança como libertação”.

Ao atentar para essa citação, penso numa experiência que tive há pouco tempo com uma família recém-chegada da Síria, que está morando perto do posto médico.  Uma das filhas estuda num projeto educacional ligado ao nosso centro. Aluna criativa e curiosa, celebramos a presença dela no nosso centro educacional, quando antes disso ela vendia lenços de papel aos motoristas dos carros parados no sinal de trânsito para ajudar a família a pagar o aluguel. A mãe apoia muito a educação dela; ela mesma continua a sustentar a família vendendo lenços de papel.

Várias vezes vi que a menina ia à escola com uma mochila estragada, de modo que decidi comprar-lhe uma nova. Uma tarde levei meus filhos comigo para escolher uma nova mochila para ela. Procuramos com grande cuidado e ficamos felizes ao encontrar uma com um estojo de lápis combinando; então, enchemos a mochila com materiais escolares. Na verdade, esse gesto intencionava tanto dar a ela uma nova mochila quanto ensinar meus próprios filhos sobre compartilhar. No dia seguinte, orgulhosamente dei o meu presente.

Poucos dias depois, a menina passou pelo centro para nos cumprimentar a caminho da escola. Observei que ela estava portando uma mochila diferente daquela que eu havia dado a ela. Perguntei-lhe o que havia acontecido, e ela disse: “Minha mãe comprou esta para mim numa loja de artigos de segunda mão; não é bonita?” Era muito bonita e o mais importante é que havia sido um presente da mãe dela.

Fui bastante humilhada por essa experiência. A mãe havia planejado comprar uma mochila para ela? Fiz suposições e me precipitei? A mochila foi vendida para atender a prioridades mais urgentes da família? Ainda não sei, mas espero descobrir ao ter um relacionamento mais profundo com meus vizinhos, e desculpar-me, se necessário. É evidente que meu desejo de “salvar”, mesmo dessa maneira simples, foi equivocado e espero que não tenha sido prejudicial.

Russell prossegue para argumentar que precisamos nos mover da análise “do que está errado” para “o que é consistente”, e procedermos de modo a não substituir ou anular iniciativas individuais e da comunidade. O que isso significa na prática?

Reunindo alguns pensamentos e sugestões

Estar cientes de que a identidade é multifacetada e dinâmica. Como afirmado anteriormente, ela é também construída em conjunto. O modo como as pessoas nos veem e nos descrevem nos afeta. Turton, depois de analisar a linguagem usada no campo da migração forçada afirmou que o tipo de linguagem e os rótulos usados determinam o “modo como pensamos a respeito dos migrantes e, portanto, a maneira como agimos em relação a eles”. Na prática, também verificamos como as atitudes e os estilos de comunicação daqueles que chegam às nossas comunidades mudam com o tempo para alinharem-se aos rótulos que lhes conferimos.

No contexto da nossa própria vizinhança, no início da crise famílias vinham perguntar sobre trabalho e modos de compartilhar as muitas habilidades que elas tinham. Elas também sentiam-se ofendidas por não conseguirem matricular os filhos na escola, um direito fundamental na cosmovisão delas. Hoje, poucos anos mais tarde e depois de se acostumarem com o mecanismo dos sistemas das Nações Unidas e das ONGs, as famílias sempre tentam provar o quanto elas são “carentes”. Ver crianças fora da escola por anos tornou-se um fenômeno normal e quase aceito.

No entanto, esse não é o fim da história. A migração em massa para a Europa através do mar, com todos os riscos envolvidos, é uma clara demonstração de que o desejo por uma vida mais digna, especialmente para os filhos, bem como a tomada de ação para conseguir isso estão ainda bastante intactos. As pessoas estão se recusando a aceitar essa sensação prolongada de indefinição e dependência, mesmo a um custo enorme.

Cultivar uma atitude curiosa e reflexiva. Ao encontrar imigrantes, devemos querer aprender mais a respeito deles do que meramente a história do deslocamento e as carências. Quais são os interesses, as habilidades, os sonhos e a história deles? Como eles veem o caminho a seguir?

Questionar a retórica a respeito das populações afetadas pela guerra. No discurso de hoje sobre os efeitos do conflito nas comunidades, com frequência ouvimos a respeito da noção do “trauma do refugiado”, TEPT [Transtorno de Estresse Pós-traumático] e do “trauma generalizado” sendo repetidos. Pupavac, Papadopoulos e outros contestam a noção difundida de que populações afetadas pela guerra estão “traumatizadas em massa e precisam de intervenções terapêuticas”. Papadopoulos nos lembra do “fato óbvio de que tornar-se um refugiado não é um fenômeno fisiológico em si; em vez disso, ele é exclusivamente um fenômeno sociopolítico e legal, com implicações psicológicas”. Rehberg, citando Pupavac, escreve que “na conceituação do Ocidente, o trauma está substituindo a fome quando se considera o impacto das guerras e das calamidades”. Não há como negar que há pessoas que estão sofrendo de distúrbios mentais e estejam necessitadas de cuidado especializado. No entanto, precisamos estar cientes da politização da condição delas e do efeito que isso tem na maneira como interagimos com os outros e os descrevemos.

Papadopoulos, do Centre for Refugee Care (Centro Terapêutico para Refugiados) da Universidade de Essex, propõe uma hipótese relevante para combater a noção de “trauma generalizado” entre as comunidades de refugiados. Ele enfatiza que a experiência humana de acontecimentos adversos pode resultar tanto em consequências positivas quanto negativas e, com frequência, na realidade, numa combinação destas, tanto no nível individual quanto no comunitário. Ele escreve:

Há um número imenso de narrativas de pessoas e grupos que encontraram sentido no próprio sofrimento e foram capazes de transformar as experiências negativas de uma maneira positiva, conseguindo nova vitalidade e vivenciando a renovação transformadora. Essas narrativas não são apenas testemunhos comoventes da resistência do espírito humano, mas também refutam o discurso sociológico predominante do trauma (que sugere que o trauma é patológico e requer atenção do especialista) e a tendência de medicalizar e “patologizar” o sofrimento humano.

Papadopoulos formulou a teoria do Trauma/Adversity Grid [Padrão do Trauma/Adversidade], que distingue entre os efeitos negativos, neutros e positivos desses acontecimentos muito difíceis. Esse padrão nos permite diferenciar os efeitos desses acontecimentos adversos nas unidades individual, familiar e no grupo.

No lado negativo do espectro, isso pode variar do sofrimento humano comum e reação psicológica angustiante aos distúrbios psiquiátricos. Os dois primeiros fatores são o que poderiam ser considerados como “reações normais a acontecimentos anormais” e a reação consiste em a pessoa usar seus próprios mecanismos de enfrentamento e os sistemas de apoio e recursos da comunidade da qual ela faz parte. Aqueles que vivenciam distúrbios psiquiátricos, como TEPT, requerem tratamento profissional especializado.

No ponto neutro do espectro está a resiliência, ou “retorno à condição anterior”. E, finalmente, no lado positivo está o Adversity Activated Development [AAD] (Desenvolvimento Ativado pela Adversidade – DAA). O DAA refere-se aos desenvolvimentos que são o resultado direto de ter sido exposto ao sofrimento.

Na prática, exemplos de DAA podem ser o reconhecimento das potencialidades interiores das quais a pessoa não estava ciente ou a aquisição de novas habilidades, uma nova vocação ou chamado na vida, ou, para aqueles que cuja fé é central, um tempo de comunhão mais íntima com Deus e de confiança nele.

DAA e resiliência são diferentes no sentido de que o DAA ressalta áreas específicas de crescimento como resultado da adversidade, enquanto a resiliência implica a volta a uma condição estável. Muito questionada, “resiliência” tornou-se uma palavra-chave excessivamente usada nos círculos das ONGs. Eu diria que ela tornou-se um eufemismo para sobrevivência. Contudo, a sobrevivência básica é suficiente? Essa é uma vida significativa e digna? A luta de milhares de famílias a bordo de frágeis barcos infláveis, arriscando a própria vida e contraindo dívidas para chegarem à Europa sugere que talvez a mera sobrevivência não seja suficiente. O fato de que alguns escolhem retornar também ressalta que a busca é por algo mais profundo e significativo.

A igreja como comunidade

No Líbano, a comunidade eclesiástica tem sido ativa em receber famílias recém-chegadas e esforça-se para atender às demandas complexas que isso envolve. Essa atitude tem sido transformadora e vitalizante para a igreja local. Sem dúvida, essa atitude possibilita igualmente que muitos vivenciem o amor de Cristo por meio da igreja. Um número incontável de pessoas teve sua fé renovada ou conheceu Cristo pela primeira vez por meio dessa atitude receptiva e cordial.

Quando penso no papel da igreja na era da crise síria, não consigo deixar de pensar na parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1-16). Talvez seja porque todos os dias, no meu trajeto para o trabalho, vejo homens de pé numa rotatória, esperando, muitas vezes o dia inteiro e qualquer que sejam as condições climáticas, para serem selecionados para contratação como diaristas. Alguns são jovens, outros mais velhos; e são predominantemente sírios. Poucos minutos depois, chego para trabalhar e sempre encontro as famílias deles, que expressam o quanto estão esperançosas de que esse dia será diferente; hoje o marido ou o filho conseguirão trabalho, e talvez será um trabalho estável e com pagamento pontual que os ajudarão a se livrar do ciclo vicioso do endividamento. Possivelmente, será um trabalho que há de restaurar algo nos homens; algo que os ajudará a sentirem-se novamente melhor a respeito de si mesmos. Provavelmente encontrarão um chefe gentil e que os apoiará. Às vezes, encontram trabalho; às vezes, não. Mas voltam novamente no dia seguinte para esperarem na rotatória.

Nessa parábola, consigo perceber os princípios profundos da justiça de Deus para famílias como essas. Princípios de justiça que não entendemos prontamente, mas um tipo de justiça que considera as famílias integralmente e afirma a dignidade e a responsabilidade delas. Também me pergunto se há atitudes correspondentes a essa que a igreja possa tomar quando nos propomos a viver a comunidade do reino; uma comunidade em que todos possamos ser contribuintes iguais e igualmente afirmados, embora alguns tenham chegado recentemente, enquanto outros estão aqui há mais tempo. Aqueles que chegaram cedo trabalharam arduamente e realizaram muito. Mas aqueles que acabaram de chegar também trabalharam arduamente, mesmo enquanto esperavam, ainda que num contexto diferente e eles também têm muito a oferecer. A igreja pode tornar-se uma comunidade dinâmica do reino, onde tanto aqueles que trabalharam o dia inteiro quanto aqueles que acabaram de chegar têm espaço para serem restaurados ao reencontrarem a humanidade mais compassiva e íntegra? Esse poderia ser o lugar onde cada pessoa pode perceber seu pleno potencial e usar seus dons?

Temo que a igreja, ao tentar reagir à magnitude da crise, esteja tentando imitar os sistemas e as atitudes das ONGs, imaginando que esse é o caminho correto, já que as ONGs são as “profissionais”. Em minha opinião, isso apresenta o risco de solidificar o dano da dinâmica “auxiliador e auxiliado” e cria um sistema de duas camadas. Nisso, ela pode perder uma oportunidade muito mais vital de tornar-se uma comunidade dinâmica, restauradora e semelhante a Cristo.

Na prática, especialmente em contextos como o Líbano, onde a sobrevivência não está assegurada para muitos, esse é um desafio considerável. Eu não diria que a igreja não tem um papel a exercer ao reagir à situação terrível de muitos tanto dentro da igreja quanto fora dela. Contudo, isso deve ser feito de tal maneira que não elimine a atuação e que os membros da comunidade “auxiliada” sejam parceiros iguais ou, melhor ainda, que estejam em posição de corresponder, e que os vínculos e as habilidades que existem na comunidade sejam apoiados. Se não, temo que a longo prazo causemos mais mal do que bem. Recentemente conversei com um casal sírio que era líder na igreja nativa deles. Disseram-me que gostariam de ajudar seu próprio povo no Líbano, mas não estavam seguros se seriam apoiados nisso. Enquanto isso, uma multidão de libaneses que frequentam a igreja é ativa nesse tipo de trabalho, e outros árabes (como eu) estão voando pelo mundo todo para falarem como “especialistas” sobre a crise de refugiados. Talvez a única coisa sobre a qual estejamos preparados para falar seja a nossa própria reação.

Por outro lado, poucos meses atrás falei com o líder de uma igreja na Europa, que descrevia como a sua igreja estava incerta quanto a servir as famílias sírias que chegavam porque o Estado estava satisfazendo todas as necessidades materiais delas (i.e., roupa, habitação, educação, assistência à saúde, etc.). Isso fazia com que a comunidade da igreja sentisse que não tinha nada para oferecer. Essa é a maneira como a igreja entende o seu papel em relação aos refugiados? Um lugar onde as necessidades materiais podem ser satisfeitas? Ou ela oferece algo bem mais profundo? Ao mesmo tempo, ouvi de muitos parentes de pessoas que viajaram para a Europa em busca de refúgio que aqueles que chegaram lá sentem-se desesperadamente sozinhos e isolados. A igreja não é um clube social, mas pode ser capaz de interagir para oferecer comunidade e relacionamento àqueles que estão longe do seu ambiente familiar. Para citar Russell, “os programas das ONG raramente são uma cura para a solidão e isolamento; isso só pode vir de relacionamentos profundos”. Sem dúvida, esse é um desafio, dada a barreira da língua, mas há muitas iniciativas criativas e simples das quais aprender. Ouvi a respeito de uma igreja na Holanda que começou a implantar atividades esportivas semanalmente. Esportes não requerem língua e o futebol é jogado em condições de igualdade.

O que pode resultar da igreja funcionando como uma saudável comunidade restauradora é sem dúvida um relacionamento profundo tanto de uns com os outros quanto com o nosso criador. E talvez isso possa levar até mesmo ao surgimento de um coral de vozes potentes, polifonicamente exigindo um fim à raiz da causa de todo este sofrimento: a guerra na Síria. Ao restaurar sua população híbrida holisticamente, essa comunidade da igreja estará obtendo o que eu sinto que se tornou o desejo mais profundo e urgente das pessoas deslocadas: a oportunidade de recomeçar a vida com dignidade.

 

Bibliografia

Das, Rupen. “Refugees: Exploring Theological and Missiological Foundations”. Journal of European Baptist Studies 16:2 (jan/2016), 33-47.

Greenfield, Craig. Subversive Jesus: An Adventure in Justice, Mercy, and Faithfulness in a Broken World. Grand Rapids: Zondervan, 2016.

Papadopoulos, Renos. “Refugees, Trauma and Adversity Activated Development”. European Journal of Psychoterapy and Counselling 9:3 (2007), 301-312.

Rehberg, Katherine. “Revisiting Therapeutic Governance: The Politics of Mental Health and Psychosocial Programmes in Humanitarian Settings”. Working Paper Series, Nº 98, Refugees Study Centre, University of Oxford, Março de 2014.

Russell, Cormac. “Sustainable Community Development: From What’s Wrong to What’s Strong”. TEDxExeter, 18:07. Postado em 16 de maio de 2016. https://youtu.be/a5xR4QB1ADw.

 

Nadia Accad é gestora de programas de saúde para Tahaddi Lebanon, uma pequena ONG focada em servir famílias economicamente e socialmente marginalizadas em Beirute. Por quase cinco anos, ela tem trabalhado em estreita colaboração com a equipe Tahaddi para desenvolver programas de saúde em duas áreas atingidas pela pobreza em Beirute.

Previamente, ela trabalhou em várias ONG’s internacionais, incluindo ORBIS, Boston Medical Center e ACDI / VOCA. Ela é apaixonada por questões de acesso aos cuidados de saúde.  

Nadia possui uma licenciatura em estudos de desenvolvimento internacional e um mestrado em saúde pública (MPH) da Universidade de Boston onde focou os seus estudos na área de saúde internacional com ênfase no alívio de emergência.

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