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Tunísia, campo missionário

Várias regiões do país não contam com a presença de um cristão sequer

Em maio, o Martureo falou sobre o evangelho no Norte da África, onde fica a Tunísia, país islâmico com cerca de 12 milhões de habitantes e apenas 23,3 mil cristãos (a maioria europeus que residem ou passam pelo país). “É uma nação com características peculiares quando comparada aos estados vizinhos”, explica BS (o nome dele e o da esposa foram omitidos por precaução pelo contexto sensível da região), cristão brasileiro que viveu na Tunísia de 2000 a 2019, ano em que retornou ao Brasil com sua esposa. “A poligamia não é permitida ali, e as mulheres têm, por lei, mais direitos. Podem, por exemplo, pedir o divórcio. Muitas pessoas possuem uma conexão com a Europa – com a França, especialmente – e uma forma de olhar a vida mais ocidentalizada, ainda que sejam muçulmanos praticantes”, conta.

Após se casarem na década de 1980, eles se mudaram para o Marrocos. “Nossa visão era pregar o evangelho e plantar igrejas onde mais havia necessidade. Estávamos ávidos por ganhar o mundo para Jesus. Começamos a perceber, durante os anos, que podíamos juntar a pregação entusiasta do evangelho com o anúncio das boas-novas de forma integral, para o homem todo, atuando com projetos sociais coerentes com os valores do Reino de Deus: valorização da pessoa, dignidade, inclusão. Passamos, então, dois anos na Jordânia – tempo em que começamos a aprender o árabe clássico e trabalhamos com refugiados iraquianos –, e depois fomos para a Tunísia em parceria com a organização missionária PMI, à qual estamos ligados até hoje”, relata BS. Atualmente, ele lidera a área de projetos e iniciativas estratégicas dessa instituição, cujo propósito é apoiar a Igreja ibero-americana na tarefa de compartilhar o amor de Cristo ao mundo muçulmano.

Apesar de o norte da Tunísia ser mais desenvolvido – a capital Túnis e as maiores cidades ficam na costa do Mar Mediterrâneo –, o casal optou por viver e ser testemunha da mensagem da cruz na parte sul e central do país, mais rural. Nesses locais, a presença cristã é quase inexistente. BI, que é assistente social, atuava como voluntária em organizações com foco em mulheres – apoio a mães que não têm ajuda da família, capacitação de mulheres em risco social e de agricultoras, por exemplo. BS, por sua vez, educador por formação, envolveu-se com ações voltadas à inclusão de pessoas com necessidades especiais: treinamento de professores locais, iniciativas para geração de renda etc. A região onde moraram por 19 anos não tinha nenhuma igreja, e pequenos grupos para ensino bíblico foram abertos nesse tempo. Segundo BS, para que já de início fosse estabelecida uma liderança local, o casal evitava ao máximo que essas reuniões acontecessem no seu lar, e, tão logo fosse possível, elas eram conduzidas por locais sob a orientação deles (isso é, inclusive, tema um artigo mais amplo).

Liberdade sob controle e democracia frágil

O país figura em 34º lugar na Lista Mundial da perseguição (LMP) 2020, elaborada pela organização cristã Portas Abertas. Praticamente todo tunisiano se declara como muçulmano sunita, e a constituição reconhece o islamismo como religião oficial, no entanto, a constituição também garante a liberdade religiosa. A perseguição ou pressão acontecem por meio da família e da sociedade.

Quanto à prática religiosa, observam-se contradições. O exercício do judaísmo é livre, e existe uma comunidade judaica histórica no país. Já o cristianismo é visto como uma religião a ser praticada por estrangeiros, mas sem que haja proselitismo. Ao mesmo tempo, é tolerado o funcionamento de cultos cristãos com irmãos e irmãs tunisianos em templos “emprestados” de denominações históricas: anglicanos e reformados. Esses cultos acontecem na capital e no litoral semanalmente, com presença e liderança de locais.

Protetorado francês de 1883 a 1956, quando conquistou sua independência, a nação foi influenciada pelo socialismo, e liderada por presidentes que governaram em regimes de exceção na maior parte do tempo. Em 2011, a Tunísia foi o berço da chamada Primavera Árabe. Iniciou-se um processo de abertura política, mas a democracia tunisiana ainda é frágil, além de apresentar outras dificuldades características de países do Sul global. Apesar disso, “o ensino é gratuito até o nível do doutorado, e há centros de saúde mesmo em regiões remotas. Infelizmente, o desemprego tem aumentado muito nas últimas décadas, a ponto de muitos cruzarem o Mediterrâneo de forma ilegal, arriscando a vida em embarcações precárias, para tentarem algo melhor em algum país da Europa”, conta BS. Outro desafio recente diz respeito ao aumento da influência de movimentos islâmicos extremistas como o Estado Islâmico.

Como já mencionado, a Igreja na Tunísia ainda é pequena, e se concentra na capital e nas cidades do litoral. No interior, existem irmãos e irmãs isolados, muitos deles sem comunhão regular. Por vários anos, parte do ministério do casal foi apoiar esses cristãos dispersos. Os meios digitais têm proporcionado muita abertura para o testemunho do evangelho em países como a Tunísia, especialmente em locais mais afastados dos grandes centros. Mas ainda há muito a ser feito. A PMI, que conta com 107 obreiros (30 deles brasileiros) atuando em países muçulmanos, tem como missão desafiar a Igreja brasileira a preparar e enviar mais cristãos que possam ser testemunhas do Senhor Jesus e do seu amor nesses contextos. “Envolver-se com as necessidades da população local e, junto com ela, buscar respostas é o caminho para expressar o amor de Deus adotado pela PMI”, explica BS. “E a Tunísia possui muitas necessidades e oportunidades!” Professores, pedagogos ou pessoas com experiência na área de necessidades especiais são bem-vindos. Há também oportunidades em outros países muçulmanos. “Profissionais de saúde brasileiros podem, por exemplo, atuar no Senegal ou na Mauritânia. Assistentes sociais podem apoiar imigrantes na Jordânia”, desafia o casal.

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